Steampunk: Do ferro ao sangue
15 C1 – Bem-vinda à Dama D’água
Ah, o mar. Nada mais lindo, nada mais vasto. Naquela manhã a imensidão azul se encontrava especialmente calma, para alguém acostumado com as reviravoltas daquele ambiente, Adell poderia dizer que em breve uma tempestade chegaria.
Os cabelos espessos e soltos balançavam de acordo com o vento e as mãos firmes seguravam timão do navio. O seu pai havia lhe ensinado bem como ser uma ótima líder para que pudesse assumir o Dama D’água quando morreu.
E assim se tornou capitã.
— Capitã... — Uma voz preocupada lhe chamou. — Ela acordou... Exige explicações...
— Deixe comigo, Irene.
— Sim, Capitã.
Deixou o timão por conta de sua subordinada e desceu até as cabines da embarcação. Ali em um daqueles quartos repousava uma estranha que havia chegado há três anos.
Três longos anos.
Dormindo.
Quando abriu a porta do cômodo observou uma cena inusitada. A estranha antes adormecida apontava um punhal para sua “Curandeira de plantão”, Alice.
— Oh... Olá, capitã. — Alice exibia sua usual expressão calma. — Parece que nossa paciente se recuperou bem! Apenas as memórias foram danificadas... Ou quase.
— Claro, bom trabalho, Alice! — Adell sorriu e voltou o seu olhar para a estranha — Se importaria de parar de apontar esta arma para minha única curandeira á bordo?
— Onde estou? Me diga ou corto a garganta dela.
— Se cortar a garganta dela te dou de presente para os tubarões. Pare de bancar a esperta e deixe Alice ir. Vamos conversar em particular.
A estranha guardou o punhal e soltou Alice que rapidamente recolheu seus pertences médicos e saiu do quarto.
— Comece a falar... Capitã...
— Primeiro, sejamos educadas, meu nome é Adell Dousseau. Consegue se lembrar do seu?
— Claro que me lembro. — a mulher pensou um pouco. — Val... Valentina, a encantadora.
• • •
Estava no escuro. Não o escuro do seu quarto, mas uma imensidão fria e sem luz. Ao seu lado havia uma arma conhecida, marcada com um “V” maiúsculo na base de metal.
“Valentina...”
Levantou-se, por alguma razão sabia que aquilo era um sonho. Pegou a arma e começou a andar sem destino, não sabia o que lhe aguardava naquela escuridão, seguia os instintos e nada mais.
Um barulho alto de metal se chocando ecoou pelo espaço. Emília se virou encarando o nada, começou a correr em direção ao som esperando encontrar sua origem.
Correu até ficar sem fôlego e alcançou um enorme relógio de pêndulo. O tique-taque do objeto fazia ondas de som se moverem na escuridão. O vazio se mexia.
“Val... Acorda... Val...”
A ruiva abriu os olhos. O som remoto do motor do dirigível se ouvia pelas paredes de seu quarto. Levantou-se devagar e começou a vestir suas roupas de trabalho.
A ascensão do Conselho de Luna ao governo de Viskar havia mudado muitas coisas.
Fazia algum tempo que a organização não reluzia como antigamente. Antes, a Steampunk, era sustentada pelo governo. Sem o apoio do mesmo estavam sobrevivendo com menos que o básico, não havia comida todo dia, todos tinham que ajudar a sustentar a vida no dirigível... E com tudo isso a guerra ainda continuava, dessa vez a Steampunk era o lado mais fraco.
Uma forte opressão a todos da organização havia começado. Muitos nomes de quem participava dela foram revelados e mortes e mais mortes aconteceram.
Emília viu amigos serem torturados, desaparecimentos acontecerem como mágica, pessoas em quem confiava se transformarem em espiões frios e calculistas.
Mas era difícil culpa-los. Eles só queriam sobreviver.
Acabou de se vestir e prendeu seus cabelos em um coque. Com o passar destes três anos, os cachos ruivos tinham perdido um pouco de seu brilho. A garota havia crescido.
Saiu de seu quarto e se encaminhou até o salão principal, onde o gigante mapa de Viskar ainda exibia as mesmas inscrições.
Memento Mori.
Lembrar-se da morte havia sido fácil durante estes anos.
— Emília!
A voz animada de Jaafar sempre soava como música a seus ouvidos. Se virou e esboçou seu melhor sorriso para o moreno.
— Bom dia, Jaafar. Algo aconteceu? Parece de bom humor hoje.
— Encontraram Sunny!
— Que o Grande Sábio seja bem dito. Me leve até ele! Rápido!
Toda vez que alguém da organização reaparecia era uma vitória contra o Conselho. Sunny, o garoto loiro e franzino que cuidava dos cartões de entrada e saída do dirigível, havia sumido fazia dois anos. Já haviam perdido as esperanças de encontra-lo.
Emília e Jaafar entraram rapidamente pela enfermaria onde encontraram a comandante Martha. Sua expressão séria e fria adquirida logo após do descobrimento da morte de Jade estava mais dura naquele momento.
“Algo está errado.”
— Jaafar, vá. Preciso apenas da Emília para o interrogatório.
O moreno olhou para a comandante, hesitou em sair, mas Emília fez um sinal com a cabeça. Assim que ele saiu do recinto Martha olhou séria para a ruiva.
— A situação é grave. Cuidado.
Emília engoliu em seco. Desde que tudo aquilo começara ela havia ficado encarregada de interrogar quem, por ventura, voltasse de fora do dirigível.
A ruiva entrou junto com Martha na ala dos quartos da enfermaria. Pararam em frente a uma das muitas camas que haviam ali e, com cuidado, a comandante afastou as cortinas.
Emília não sabia bem como tratar da situação. Sunny já não era o mesmo. O garoto alegre e loirinho tinha se perdido em algum lugar no meio das muitas torturas que parecia ter sofrido.
— Sunny... É a Emília... Lembra de mim ?
O loiro exibia um olhar perdido, sem brilho. Não ergueu a cabeça para encarar Emília. Fitava o nada, como um fantasma. Seu rosto pálido e magro não tinha expressão. Braços, tórax e pernas repletas de curativos feitos á pouco tempo.
— Sunny... — Emília se aproximou da cama. — Preciso que responda claramente a algumas perguntas. — Não obtendo uma resposta, a ruiva continuou. — Você se lembra pra onde te levaram? Qualquer coisa que tenha visto é muito útil para nós...
Um silêncio completo se instaurou no local. A maioria dos que voltavam era capaz de dar pelo menos uma informação sobre o que havia lhe acontecido, mas o garoto nem sequer parecia notar a presença de outras pessoas no recinto.
— Acho que é inútil, Martha... Ele não parece pronto para falar...
— Merda...
A comandante saiu do quarto com uma expressão frustrada. Emília a entendia, estava numa situação difícil e informações eram importantes de mais para serem perdidas.
— Não foi dessa vez, certo, Sunny? Fique bem, ok? Fico feliz que tenha voltado.
A ruiva afagou os cabelos loiros sem vida do garoto. Quando fez menção de afastar a mão sentiu-se tonta.
Foi então que viu.
Lá estava Valentina. Observava o mar movimentado e o sol brilhava intensamente. Os cabelos curtos agora exibiam uma longa franja que tampava a cicatriz no lado esquerdo do rosto que antes era escondida pelo tapa-olho. Parecia calma. Entre os dedos algo brilhava, a insígnia alada da organização.
Logo após a visão, tudo escureceu.
“Apenas um presentinho.“
Uma risada fria ecoou pela sua mente. A visão havia acabado e sua mão ainda estava pousada em cima dos cabelos de Sunny.
— Era... Val... — A ruiva olhou para o garoto que continuava atônito. — ONDE ELA ESTÁ!? ME DIGA! AGORA SUNNY!
Os gritos chamaram a atenção de Martha que entrou correndo no local. Emília sacudia o recém chegado pelos ombros, em lágrimas.
— Emília! Se controle! Enfermeiras!!
Duas mulheres vestidas com uniformes brancos se encaminharam para lá. Martha segurou a ruiva pela cintura e a afastou de Sunny. As duas enfermeiras aplicaram uma injeção no braço da enfurecida Emília e logo ela caiu em um sono profundo.
A garota foi retirada da enfermaria e levada para o quarto. Martha olhou para o garoto atônito, ele fitava o nada, como antes.
A Capitã saiu do local.
O loiro deixou as lágrimas caírem.
“Recado entregue.”
• • •
Joe acompanhava tudo com olhos atentos. O rapaz na arena estava se concentrando. Aos poucos os grãos de areia se mexiam, fundiam-se em formas desconexas. Em não mais que cinco minutos um monstro enorme de coloração amarelada se formou no vasto campo.
Aquilo tudo pareceria surreal á três anos atrás.
O imenso golem de areia começava a se animar. O garoto que o controlava não parecia ter mais que doze ou treze anos. Um verdadeiro prodígio, segundo os Mestres profetas.
“Ao contrário de mim...”
Se havia alguém que o odiasse mais que os Mestres profetas se surpreenderia. Joe havia sido repreendido desde a primeira vez que pisara naquele lugar. Bom, não é como se não estivesse acostumado.
Acaiah estava ao seu lado. Não parecia muito interessado no espetáculo a sua frente. Se entretinha muito mais em fazer pequenas labaredas de fogo escaparem de seus dedos.
Joe devia admitir. Se não fosse ele, não teria sobrevivido.
Logo que chegaram ali, á três anos atrás, os grandes Mestres Profetas o testaram, apenas para descobrir com qual elemento terreno o seu corpo era compatível.
Aí começaram os problemas.
Os quatro elementos principais foram rapidamente descartados. Acaiah ficou decepcionado, podia jurar que Joe era uma espécime de Ar.
Passaram para a segunda categoria. Testes e mais testes. Nada acontecia, não conseguia mexer uma pedra de nada, não havia nada que conseguisse controlar.
Assim que acabaram descartaram também o mais baixo dos níveis.
Os Grandes Mestres refletiram e chegaram a uma conclusão.
“Nas trevas. Deixe-o nas trevas.”
E nas trevas ficou.
Acaiah se animou com aquilo. Joe não via o porquê... Todos o evitavam desde então, quando chegava eles saiam. Até as classes mais baixas do lado escuro o rejeitavam.
“Eles tem medo, rapaz bonito. Eles têm medo do poder que desconhecem.“
O filho das cinzas disse quando Joe lhe perguntou o motivo de tudo aquilo. Mesmo assim, ainda não compreendia.
O show na arena havia acabado. Os dois golems jaziam imóveis enquanto o garoto suspirava, cansado.
Joe percebeu a aproximação de duas garotas. Elas se dirigiam a Acaiah com uma expressão animada. Ignoravam totalmente a sua presença ali. Não prestou atenção na conversa, deixou sua atenção recair sobre o garoto dominador de areia. Ele era realmente jovem, tão jovem quanto Joe quando sua casa queimou juntamente com sua família.
—... Jovem.
— Hey, rapaz bonito! — Acaiah usava um tom alegremente sarcástico, se é que este termo existe. — Vamos a uma festa hoje!
— As meninas te convidaram...
— As meninas nos convidaram. Não seria interessante sem você.
Joe não mudou sua usual expressão. Uma festa não melhoraria nada. Continuaria nas trevas, como em toda sua vida havia estado.
• • •
O som do salto alto que usava ecoava pelo local enquanto andava. Amanda mordia o lábio enquanto checava o funcionamento de todas aquelas máquinas que, segundo sua filha de fachada, eram necessárias. Queria terminar tudo rapidamente e ir se encontrar com seu marido. Já era noite e não gostava de ficar andando por lugares como aquele, eram estranhamente frios e desprovidos de sentimentos.
— Hora de checar a principal.
A mulher elegante e sedutora se dirigiu para uma imensa porta de metal. Inseriu nela uma chave de formato estranho e ela se abriu com um ranger característico.
Olhou para o centro do vasto salão onde Nixxa repousava. Olhos fechados, imóvel, não parecia nem sequer respirar. Estava ligada a vários outros pequenos engenhos. Uma imensa engrenagem na parede do salão se movimentava mantendo tudo em ordem.
— Tudo certo.
Amanda saiu do local e a porta se fechou automaticamente.
• • •
Acaiah o arrastava para dentro da única e vasta floresta que circundava todo o deserto onde se localizava o lar dos Profetas Perdidos. A noite era quente, a lua cheia brilhava intensamente e iluminaria toda a trajetória até a clareira onde a festa se realizaria. Não havia necessidade de tochas.
Os risinhos incessantes do garoto que puxava sua mão estavam começando a irritar Joe. A medida que entravam na densa mata podiam ouvir sons de tambores e de violinos sendo tocados, mas não em uma melodia clássica. Havia algo de selvagem ali.
Quando Joe e Acaiah chegaram ao local uma imensa fogueira estava ardendo no centro da clareira. Vários homens e mulheres dançavam ao redor do fogo, alguns apenas se sentavam no chão ou nas pedras para conversarem.
O filho das cinzas sorriu e olhou para Joe. As chamas crepitavam em seus orbes.
— Dança? — Disse ele.
Sem obter uma resposta afirmativa nem negativa, Acaiah o puxou para perto da fogueira. A música se tornava mais alta e o ritmo selvagem não deixava de ser contagiante. Em poucos instantes já não resistia mais àquele instinto, dançava livremente com Acaiah.
O filho das cinzas sorria maliciosamente. Joe não sabia se era apenas o reflexo da imensa fogueira ou se aquilo provinha dos poderes do garoto, mas se perdia em seus olhos que agora se pareciam muito com duas chamas.
Perdia-se no fogo sem medo de ser queimado até a morte.
Mas algo tirou sua atenção.
Presenças, perigo.
Quando se virou encarou uma dupla de garotos que se aproximavam.
— O que ELE está fazendo aqui? — Disse o mais alto e forte da dupla. Um homem loiro e de expressão fria. — Os Mestres foram claros! Trevas!
Joe não os conhecia, mas em pouco tempo o grupo começou a aumentar. A fogueira crepitava ao centro do local e a música não cessou.
— Vocês não tem nada melhor a fazer do que obedecer piamente a um bando de velhos gagás? — O filho das cinzas passou a frente de Joe, as chamas da fogueira pareceram aumentar.
— Blasfêmia!
O grupo se agitou. Eram todos Filhos de primeira classe. Controlavam os quatro elementos principais.
— Peguem os dois! Uma lição será ensinada a ambos. Trevas! Trevas!
O som dos tambores e do violino pareceu aumentar, o ambiente era hostil. Joe e Acaiah estavam em óbvia desvantagem. A multidão gritava, ensandecida. Uns repetiam o que os dois homens haviam falado outros apenas uivavam desordenadamente.
— Acaiah... — Joe disse. — Vamos embora. Não vale a pena.
Ele deu meia volta e começou a andar para a floresta. Acaiah olhou incrédulo para aquilo, mas não hesitou em segui-lo para fora do local.
— Não vão sair tão fácil daqui. — Disse o loiro.
Em um movimento rápido ele alcançou Joe e o virou em um só movimento com as mãos. O homem lhe jogou no chão e começou a chutar o seu corpo. Acaiah se moveu para ajudar, mas o resto do grupo se encarregou de segura-lo. Dois garotos fortes o agarram pelos braços.
O filho das cinzas se viu cercado por água.
— Você fica aí. — Um garota de cabelos longos e platinados se aproximou dele e dos dois outros com graça, ela sorria enquanto observava Joe apanhando.
Quando achou que podia parar o homem loiro se levantou e olhou com desprezo para Joe estirado no chão. Se virou e se encaminhou para onde Acaiah se encontrava cercado por um tubo de água.
— Agora é sua vez, vai aprender a blasfemar novamente contra os Mestres.
— Fodam-se os Mestres e sua corja de putinhas. — Acaiah riu alto. — Nunca vou dar o prazer a eles de me verem punido.
A parede de água se desfez. O loiro colocou as mãos no pescoço do filho das cinzas, sua expressão era de pura cólera.
— Como você ousa...
— Ouso ainda mais. — Acaiah cuspiu no rosto do loiro.
O homem não se controlou mais após aquilo. Apertou as mãos ao redor da garganta do garoto, ele arfou.
— Vou tirar esse maldito sorrisinho do seu rosto.
— Jeff! Olha! — um dos garotos que estava segurando o filho das cinzas tirou a atenção do loiro.
Todos os olhares se voltaram para um ponto perto da fogueira. Joe estava de pé, olhando para a cena, mas seus olhos estavam completamente negros. Não havia íris, pupila... Nada. Apenas escuridão.
O loiro soltou Acaiah que começou a tossir recuperando o ar. Jeff olhou para as mãos assustado. Começou a gritar e em questão de segundos explodiu em chamas. O grupo que estava com ele começou a gritar. A garota de cabelos platinados fez surgir água, mas nada parecia útil.
Jeff corria em círculos, gritando enquanto o fogo lhe consumia, até que caiu ao chão, morto. Minutos se passaram e o fogo se extinguiu e então a terra começou a se abrir lentamente, envolvendo todo o corpo do loiro até que não pudesse ser mais visto.
A música cessou, todos saíram correndo e gritando do local. Apenas Acaiah permaneceu ali em silêncio observando Joe, agora já no seu normal. Ele sorria. Sabia o que havia feito e não se arrependia.
— Era disso que eu falava, rapaz bonito. Poder.
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