Steampunk: Do ferro ao sangue
2 C1 — As faces da nova lei
Notas iniciais
Miriam olhou para todas as pessoas presentes na reunião do conselho. Poucas tinham sangue nobre o bastante para poderem estar ali, apenas os mais renomados da nobreza de Viskar tinha permissão para comparecer ao Conselho e ela era uma deles.
Havia no total sete pessoas no salão escuro além dela, sentados de modo que a mesa redonda, ricamente decorada com entalhes de meia lua, fosse totalmente ocupada. Conhecia quase todas elas, o homem de longos cabelos loiros platinados chamado de Matteo D’aquila, conhecido pela famosa beleza... E, claro, riqueza.
Ao lado dele um garoto com metade de seu tamanho, muito pálido e magro, seus olhos brilhavam na escuridão da sala, eram de uma cor verde sobrenatural, Gian Bianchi.
Um pouco mais afastada havia uma mulher com seios fartos e cabelos curtos de um tom avermelhado, Amanda Armstrong. Logo atrás dela um homem muito grande e forte, seu marido, Petric Armstrong.
Em outro lado da mesa redonda uma garota parecia não ter interesse nenhum na reunião, olhava fixamente para um ponto qualquer da mesa com seus olhos extremamente violetas, Marie “Mad Hatter” Le Vie.
Ao seu lado vinha a pessoa que mais conhecia no recinto, como se fosse um espelho de si mesma, os mesmos cabelos loiros ondulados e os olhos azuis como o céu, sua irmã gêmea, Liliam Adaggio.
Sentado a certa distância dela estava havia um homem de meia idade que não conhecia. Com cabelos negros penteados cuidadosamente para trás. Tinha o maxilar proeminente e uma expressão séria no rosto, quando começou a falar a sua voz ressoou pelo cômodo de tal maneira que fez Miriam se arrepiar.
— Estamos começando agora a décima reunião do conselho de Luna.
Todos se inquietaram. Quando o conselho era chamado, algo grande estava para acontecer.
— O Conde Stonem já foi marcado por eles, todos vocês sabem que os próximos seremos nós. A mudança está por vir... Não percebem? Temos que tomar nosso lugar de direito! — Havia urgência na voz do homem. Apesar disso ainda soava gutural e forte aos ouvidos de Miriam.
— Não há por que se preocupar! Não vejo o porquê de a Steampunk tentar terminar com o Conselho. — A mulher ruiva falou e sua voz era doce como mel. O homem pareceu se irritar. Olhou com raiva para Amanda, mas logo viu o grande braço de seu marido lhe envolvendo os ombros, possessivo.
— Querida Senhora...
— Senhorita. — A ruiva disse e riu baixinho em seguida, vendo o homem do outro lado da mesa se irritar.
— Senhorita Armstrong, a Steampunk quer uma só coisa hoje em dia. O poder! Poder de mandar e desmandar em todos no Reino de Viskar! — Voltou a olhar para os outros do conselho. — O conselho de Luna tem que agir! Temos que avançar, e a Steampunk está ali para nos impedir!
— Concordo. — Agora era a garota dos olhos violetas que falava. — Temos que agir antes que eles destruam um por um de nós... Mas o que eu quero realmente saber é: Como vamos reagir?
Os outros do conselho olharam fixamente para o homem de cabelos pretos. Este esboçou um sorriso de lado que era tão bonito quanto perigoso e disse na sua voz gutural, alto o bastante para todas as pessoas no salão poderem ouvir.
— Trocando almas, meus caros.
•••
Ela acordou com o barulho estridente do despertador. Olhou para o teto marrom de seu quarto que cheirava a ferrugem, adorava esse cheiro. Levantou da cama e sentiu o metal frio nos pés, sorriu. Nada melhor como uma boa noite de sono depois de uma missão estressante.
A primeira coisa que Valentina fez foi abrir as janelas amplas do seu quarto. Viu o céu azul e o vento forte lhe bagunçou o cabelo. Realmente adorava estar ali, tão perto das nuvens. Ali onde se localizava o seu quarto era um dos lugares privilegiados no vasto dirigível da Steampunk. Ficavam andando, ou melhor, voando de um lado para o outro do mundo, diziam que assim nunca iriam encontrar a localização exata da sede. Mas não se importava com essas informações, estava feliz ali.
Não podia ficar por muito tempo, havia trabalho a fazer. Uma reunião de emergência com a Comandante Martha às sete horas e olhe só... Estava atrasada. Sem muita demora despiu a camisola branca que usava e vestiu as saias e uma camiseta branca de linho, amarrou o corpete com certa dificuldade. Colocou sua arma na cintura e pegou o seu colar com o pingente da engrenagem alada que era o símbolo da Steampunk e colocou-o no pescoço.
Pegou a maleta de madeira e abriu a porta de ferro. Havia muitas pessoas passando pelos corredores dos dormitórios femininos. Viu uma ou duas conhecidas e acenou para elas, a maioria sabia do seu cargo na associação por isso nem sequer lhe desejavam bom dia. Esperou ver certos cabelos ruivos pela multidão, mas provavelmente Emília deveria ter acordado mais cedo.
Os dormitórios femininos ficavam em um vasto corredor com várias portas feitas de ferro maciço. O cheiro de ferrugem estava em todos os cantos. Andou em linha reta até encontrar uma porta, a única feita de madeira no local. Abriu-a e um forte vento lhe assoprou os cabelos longos e negros. Val olhou a ponte de ferro que ligava uma parte da Steampunk a outra, lá em baixo estava tudo tão pequeno que era como se não passasse de um grande e vasto formigueiro.
Atravessou a ponte e entrou em uma pequena salinha, havia ali um elevador que se abriu assim que pôs os pés na sala. Acenou para o ascensorista de bigodes, mas não recebeu resposta. Hugo quase não falava com ninguém, não era assim tão anormal.
— Para o salão principal, Hugo.
Quando acabou de falar a porta logo se fechou e o pequeno compartimento deu um grande solavanco e se pôs em movimento para a esquerda. Logo pararam e a porta se abriu revelando um vasto salão. Aquele era o local por onde as pessoas mais transitavam no dirigível. Havia um grande globo de ouro pendurado no centro da sala com palavras gravadas em letras de todas as terras de Viskar, mas havia uma frase ao centro escrita no idioma mais conhecido, o latim.
“ Memento Mori...Lembre-se de sua mortalidade”
Abaixo do globo, pintado no chão de pedra lisa, havia um vasto mapa de Viskar com as terras e os mares, ilhas e montanhas. Olhou para as pessoas lá em baixo e em como elas não viam o que estava abaixo de seus pés. A capacidade de observar o que os outros ignoram é uma de suas grandes qualidades.
Desceu as escadas e se encaminhou para um painel de madeira erguido perto de uma grande janela. Lá um garoto franzino de cabelos bagunçados e que usava grandes óculos estava organizando uma pilha de papéis.
— Oi Sunny...
O garoto deixou a pilha de papéis caírem com o susto. Val começou a rir. Sunny era um garoto de quinze anos sem aptidão nenhuma para qualquer tipo de arma, era baixo, muito magro e muito pálido e sempre estava com uma expressão de pavor no rosto, muitos o chamavam de Sunny, o assustado. Ele cuidava da maioria dos papéis que entravam e saíam da Steampunk, e também dos “cartões de embarque”, quando alguém entrava em horário de trabalho era Sunny que cuidava da máquina de presença.
— Olá, Senhorita Valentina. – O garoto gaguejava quando falava com ela. — Está atrasada uma hora... A comandante ainda não chegou, mas ficará chateada com seu atraso.
— Se ela descobrir... — Val lhe lançou um olhar cumplice e o garoto começou a ficar vermelho como um tomate — Vamos Sunny, você já fez esse favorzinho pra mim outras vezes! E sabe que vou te recompensar...
— Senhorita, por favor, terei problemas...
— Ah, mas os meus serão maiores que os seus, bem maiores.
Sunny olhou para os lados e depois de volta para Val. Estendeu a mão e Val lhe entregou o cartão. Viu o garoto se encaminhando para uma grande máquina marrom com vários cartões em fileiras.
— Sunny, pode olhar se a Emília já está na sala?
— Ela está sim, foi uma das primeiras a entrar.
O que mais lhe iria agradar ver naquela reunião seria os cabelos ruivos e o sorriso alegre de Emília. Ouviu um sonoro clank vindo da máquina e o garoto voltou sem o seu cartão.
— Está feito, senhorita.
— Então chegue mais perto para poder ganhar sua recompensa...
Sunny voltou a ficar vermelho até as orelhas, se inclinou para perto de Val e esta lhe deu um beijo estalado na testa deixando a marca do batom acobreado que usava.
— Continue assim e se tornará um bom homem!
O garoto cambaleou para trás e quase caiu no emaranhado de papéis. Val deu um risinho divertido.
— Não deveria importunar garotos inocentes. — Val reconheceu a voz e olhou para trás já com um sorriso no rosto.
— Olá para você também Desmond.
O sobrinho do Conde Stonem havia entrado na Steampunk há um ano e apesar de ser apenas dois anos mais velho que Sunny era muito mais alto e forte. Seus cabelos eram de um loiro platinado e os olhos de um azul celeste. Havia um porte de príncipe nele que pessoa alguma conseguia explicar. Era chamado Desmond, o conhecido, pois quebrara a fiel tradição de que os membros da organização jamais poderiam ser vistos. Ele fez um aceno a Val e entregou seu cartão ao pequeno Sunny.
— Não posso lhe prometer beijos, mas se não fizer o mesmo que fez a ela posso prometer que nossa comandante saberá que anda fazendo favores...
O garoto ficou mais pálido do que já era e correu até a máquina dos cartões o mais depressa que podia, voltou logo e disse que deveriam se apressar e entrar logo na sala de reuniões. Val e Desmond riram e se encaminharam pelo vasto salão.
— Sabe por que ela nos reuniu hoje e a essa hora ?
— Não faço a mínima ideia, mas provavelmente tem algo a ver com isso aqui. — Val apontou para a maleta que trazia junto consigo. — Ainda não compreendo porque não foi você a fazer esta missão, eu realmente não gosto de me disfarçar de prostituta.
— Seria muito óbvio se eu aparecesse lá reclamando algo ao meu tio que eu nunca tive interesse em saber nem sequer o nome. — Disse Desmond sorrindo.
E ele tinha razão, mas por essa missão provavelmente teria que cortar os cabelos para não ser reconhecida. Alcançaram uma imensa porta de cobre adornada com várias engrenagens onde havia três fechaduras diferentes que naquele dia estavam destrancadas. Quando Val empurrou, a porta abriu com um rangido, lá havia um extenso círculo redondo dourado com várias inscrições gravadas.
— VAL!
O som da voz de Emília foi como música aos seus ouvidos, logo viu a garota correr ao seu encontro e a abraçar com força. Emília Castelcloock e seus lindos cabelos ruivos e olhos verdes. Havia sido criada na Steampunk, trabalhava com Mecânica e Armas e o cheiro de metal a acompanhava sempre junto com um doce perfume de menta.
— Você usou a arma nova?
— Não vou usar uma arma nova com um porco velho. — A garota riu e acenou para Desmond de maneira animada.
— Bom dia Desmond, como vai?
— Vou bem e você? O que está inventando para nós?
— Confidencial. — Emília sorriu e olhou para Val de maneira cumplice.
Foi quando as portas de cobre se abriram novamente e de lá surgiu uma mulher de cabelos curtos, lisos e de um azul que lembrava o tom da noite. Trajava calça e camisa de um tecido escuro e sobre os ombros uma capa de um branco imaculado com bordados em ouro. Quando a viram todos na sala se apressaram em ir aos seus lugares e se sentaram. Logo os portões de cobre se fecharam e ela se dirigiu ao seu lugar no vasto círculo. Apenas algumas pessoas da liga haviam sido chamadas. Desmond, o conhecido. Valentina, a encantadora. Emília, a hábil. Pietro, o ceifeiro. Jaafar, o digno. Anne, a sombra e por fim Joe, o errante. A Comandante da Steampunk era Martha Abney, foi nomeada há dez anos pelo próprio criador da organização que se ocupa de manter a paz entre humanos e máquinas em toda terra de Viskar.
— Olá a todos que estão presentes. Por favor, façam o juramento.
Todos se levantaram de suas cadeiras e puseram as mãos no pingente com a engrenagem alada que carregavam.
"Juro, pelo Grande Sábio e pela Grande Sacerdotisa Luna, que nada que ouvir ou falar aqui, nesta sala, será levado para fora da Porta de Cobre e ,se tal o fizer, deixarei de ser uma das engrenagens da Steampunk e aceitarei de bom grado a morte que me espera."
— Podem se sentar. Muitos de vocês nem se quer fazem ideia do por que os reuni hoje. Ontem à noite pedi para que a Senhorita Val fosse até ao Conde Stonem buscar um certo artigo que seria de grande importância hoje.
Valentina se levantou e colocou uma pequena maleta de madeira velha na mesa. Abriu-a com cuidado revelando o seu conteúdo. Uma chave, um pouco maior que as chaves normais, com rubis por sua extensão.
— Uma chave? — Anne se pronunciou, olhando com desdém para o item na maleta — Sinceramente Comandante, há robôs descontrolados invadindo cidades, saqueando e matando pessoas... Por que deveríamos nos importar com uma chave?
— Esta chave, querida Anne, é uma das quatro chaves da Sacerdotisa Luna. E pretendo manda-los buscar as outras três até os confins de Viskar se for preciso. O equilíbrio entre humanos e máquinas está para se abalado mais do que já está. Parece que o Conselho foi reunido ontem à noite logo após a visita de Val.
Todos ficaram apreensivos. Havia algo de muito errado na afirmação da Comandante Martha. O Conselho nunca era reunido à toa, só os nobres com interesses de ordem política de Viskar eram convidados.
— Os nobres se reuniram e parece que estão discutindo sobre algo relacionado a criar uma androide, uma antiga inimiga... Uma imortal.
Olhos perplexos estavam fitando a Comandante. Fazer um corpo não era difícil, mas uma alma... Ainda mais sendo ela imortal. As inscrições no globo central do salão da Steampunk eram exatamente sobre essa tentativa infrutífera do homem.
Memento Mori.
“Lembre-se de sua mortalidade”
— Mas as chaves de Luna não poderiam ajudar — Agora quem falava era o afrodescendente Jaafar — Só funcionam com a alma da própria Luna...
— Ou com uma descendente direta dela.
A voz de Val ecoou pelo espaço. Todos estavam em choque.
— Mas a Sacerdotisa Luna morreu faz séculos! E ressuscitar uma pessoa é simplesmente inaceitável! Fora que ela não teve nenhuma filha ou filho! O que eles vão usar como troca? E do que vão ser feitos os corpos?
— É isso que temo, Emília. Há sim uma descendente direta de Luna.
— Como? — A voz da ruiva soou alterada.
— Precisamos encontrar as chaves antes deles, se uma já estava em posse do Conde as outras não devem estar em lugares assim tão afastados. Todos vão se espalhar e procurar as chaves, pistas ou qualquer informação sobre e...
— Se me permite Comandante — A voz de Pietro era fria e dura como o aço de que era feita a sua espada — Não entendo por que teve de chamar o errante para esta missão. Ele faz parte da família deles não faz? O que garante que ele não vá correr para eles e contar tudo? E há pessoas muito mais qualifi...
—Já chega! Joe fez um juramento, tenho total confiança nele. Eles nem sequer sabem de sua existência.
Joe, o errante, estava em um dos bancos da mesa encarando Pietro como se, naquele dia, nada mais lhe daria prazer que arrancar-lhe a cabeça dos ombros. Tinha dezenove anos e a sua família havia sido atacada por uma invasão robótica. Estava ali à pelo menos nove anos. Todos achavam que ele tinha morrido no incêndio causado pela invasão dos robôs.
Pietro se aquietou em seu banco, mas ainda vestia uma expressão de desgosto no rosto. A Comandante voltou a falar, dando as direções para qual se dirigiriam e o nome das duplas. Valentina partiria com Desmond para o Norte, Jaafar e Joe para o Oeste, Pietro e Anne para o Sul.
— E Emília ficará aqui para me ajudar, preciso falar com você sobre algo depois da reunião.
— Sim, Comandante.
Valentina não gostou. Não que Desmond não fosse um bom garoto, preferia ele do que o precipitado Pietro, mas preferiria ainda mais se Emília pudesse ir.
— Reunião encerrada, podem começar os preparativos para a viajem, partiremos amanhã de manhã.
Quando saiu da sala naquela manhã o sentimento de aventura lhe tomava o estômago. Era isso que mais gostava na Steampunk, a sensação de que tudo poderia acontecer. Afinal para quem morava nas nuvens, nada era impossível.
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