Steal Your Heart AU
36 Tensão Pré-Desastre
Notas iniciais
Alya
Depois do acontecimento em Calanque as férias passaram muito rápido. Os dias passaram muito rápido. Já estávamos chegando em outubro e nada da polícia resolver o caso do atentado que havíamos sofrido. Eu prometi para mim mesma que iria até o fundo disso, mesmo quando Félix me pressionou para não o fazer. Agora, praticamente três meses depois, eu estava muito perto de chegar ao final desse mistério. Mas... Como chegar numa resposta concreta sempre sendo rodeada de outros assuntos mais urgentes?
Meu professor de jornalismo havia pedido duas semanas atrás um documentário sobre algum caso verídico que ainda não havia sido solucionado para enviar como forma de protesto a emissora de TV local. Era minha oportunidade perfeita para desmascarar quem quer que fosse o responsável pela tentativa de assassinato de Adrien e da minha melhor amiga. Fiz diversas pesquisas, buscas, investigações pela internet e não encontrei absolutamente nada. Nada. Pareca que tudo o que eu ia procurar simplesmente desaparecia antes mesmo de eu jogar nas buscas e como se isso não fosse o suficiente precisava lidar com outros dois problemas que me cercavam: os ataques virtuais de um usuário fake chamado “Bombz” que ninguém conseguia descobrir de quem se tratava ou de onde ele vinha – algo que nem mesmo Max, o cara mais inteligente de robótica e programação do meu prédio da faculdade, conseguiu decifrar – e a proximidade com o baile de outono.
Se a situação não fosse tão crítica, eu adoraria ver como nos sairíamos nesse baile.
Esfrego os olhos cansados da tela do computador a minha frentepor trás da lente dos meus óculos. Atrás de mim ouço a cama balançar e me viro para encarar um Nino completamente adormecido. Dou um suspiro, finalmente me rendendo a tentação de ir dormir consigo e desligo meu notebook.
Já fazia um mês desde que começamos a namorar de verdade, com alianças e tudo, e eu nunca imaginei que poderia ser tão feliz. Feliz, na medida do possível, claro. Muita coisa havia mudado desde que nós quase morremos naquela ilha, não só pra nós dois, mas para todos, no geral. Kattie e Louis namorando; Marinette e Adrien também – apesar de continuarem insistindo que não têm nada sério um com o outro -; Diego continuando de bico com a gente, principalmente com a Mari depois de Calanque; Trixx simplesmente desaparecendo da Universidade sem dar nenhuma notícia do seu paradeiro; Bridgette viajando para Londres de repente; Jacques sempre no encalço da melhor amiga brasileira.
Jacques.
Suspiro, entrando debaixo da pilha de cobertas e abraçando o corpo do moreno.
Depois da conversa que tivemos na delegacia aquele dia ele nunca mais me procurou. Não me mandou nem mesmo uma única mensagem. Até agora não sei se realmente fiz certo em lhe dizer que estava namorando o Nino. Antes de qualquer coisa Jac também era meu amigo, um dos primeiros que fiz dentro da Françoise Dupont. Nunca tive a intenção de machucá-lo, mas acho que foi a única saída para que ele me superasse e seguisse o próprio caminho. Não deixo de pensar em Laura, a única brasileira que eu conheci na vida. É claro que ela é apaixonada por aquele tonto do Olivier e não gosta de mim. Acho que deve pensar que eu sou a culpada dele não enxergar os seus sentimentos, mas isso não passa de uma grande e cada vez menos resolvida falta de comunicação entre eles. Se a Laura fosse direta e dissesse que gosto do loiro, não seria tudo mais fácil?
No fim eles até combinam. Torço para que fiquem juntos um dia – quando o Olivier finalmente enxergar a garota de ouro ao seu lado. Só espero que não seja tarde demais para ele, nem que eu seja a vilã dessa história.
Fecho os olhos, procurando por um momento esquecer a loucura que nos ronda, tentando nos engolir.
Se ao menos eu tivesse uma pista, uma dica sobre qualquer coisa que está por trás disso tudo... O resto é fácil de se resolver.
Acabo adormecendo, tentando ignorar o temor do que logo se aproxima. Em dois dias estaremos todos reunidos na Universidade numa festa de máscaras. Por mais atraente que fosse essa ideia perdeu totalmente a graça quando lembramos que o perigo ainda nos sonda e que quando menos esperarmos pode nos atacar.
Como não ser a presa se não sabemos de onde vem o predador?
***
Chloé
Ele me traiu. Ele simplesmente havia me traído.
Quão burra eu fui em acreditar naquele cretino. Aquele tempo todo, ele só queria se aproveitar de mim, da minha condição, do meu dinheiro, disso eu tenho certeza. Como pûde ser tão cega em não enxergar aquilo que estava diante dos meus olhos?
Como se já não tivesse sido o suficiente a nossa briga depois do atentado, agora isto. Alex deveria me proteger, ser meu guarda-costas mais fiel, meu companheiro onde quer que eu fosse, não importasse a situação. O que ele fez ao invés disso no dia do atentado? Sumiu. Simplesmente havia desaparecido pouco tempo antes de embarcarmos no iate da família Agreste. Aquele imprestável! Ele nem mesmo estava entre os bombeiros da Guarda Costeira que nos socorreram enquanto chegávamos na praia naquele bote ridículo, tendo a coragem de aparecer apenas quando arrumávamos nossas coisas para irmos embora da cabana. Não aguentei, eu explodi e com razão. Além de pago, me devia lealdade. Onde ele estava quando eu precisei? Quando eu realmente precisei da sua segurança? Quando eu quase morri?
Me lembro de ter gritado com ele, de ter ficado semanas sem se sequer olhar em sua cara. Sinto que se o visse agora com certeza o mataria com minhas próprias mãos.
Só de pensar na traição dos dois lados que vi me sinto enojada, com vontade de vomitar. E ao mesmo tempo sinto meu sangue ferver de ódio.
Hoje estava escuro em Paris: grandes nuvens negras cobriam o céu e prometiam uma nevasca até o final da tarde, obrigando a cidade se acender antes do tempo normal. Aos poucos a Universidade estava esvaziando, restando pouquíssimos alunos circulando pelo campus e dando a impressão que não havia nada de errado no ar. Como eu estava enganada.
Assim que cheguei no meu armário para guardar o meu material com Sabrina no meu encalço notei uma coisa estranha. Alex deveria estar me esperando bem ali, como sempre fazíamos. Ele nunca se atrasava, pelo contrário: sempre saia mais cedo que eu das suas aulas de Engenharia Civil. Quando Sabrina termina de guardar as minhas coisas a primeira ação que tomo é ir até o prédio onde seu curso estava. Os andares por ali também estavam vazios em sua grande parte. Então eu me perguntei: “porque raios ele continua por aqui?” e caminhei até sua sala, girando a maçaneta e empurrando a porta com força com um empurrão.
Eu mal consegui piscar. Eu... Acho que entrei em choque ali mesmo. Alex estava literalmente prensando Jacqueline na parede onde a lousa ficava, quase arrancando o vestido azul marinho que ela estava usando. Seu rosto estava completamente borrado do batom vinho que a espanhola deveria estar usando. Eles estavam quase transando dentro de uma sala de aula, era isso que estavam fazendo. Qualquer um poderia ver aquilo.
— Chloé, espera... – ele gagueja, empurrando aquela vadia pra longe e tentando limpar o rosto com uma das mãos. – Eu posso explicar.
— Explicar. – repito, ainda sentindo meu cérebro dormente. Encaro ambos por alguns segundos e subitamente uma fúria incontrolável toma conta de mim. – Você vai explicar o que Alex? Vai explicar que não estava fazendo nada demais? Que a Jacqueline é apenas uma distração porque eu não te dou atenção ultimamente? Ou que você não estava rasgando a roupa dela pra ter um pouquinho de prazer aqui, onde ninguém suspeitaria de vocês dois? – questiono, gesticulando para a sala em formato de auditório, totalmente deserta.
— Não é o que você está pensando Chloé, por favor, você está entendendo tudo errado... – Alex continua, tentando se aproximar de mim. O tapa em sua mão vem automaticamente enquanto ando para trás.
— Não encoste em mim, seu canalha, vigarista, seu... seu... – grito, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas de puro ódio. – Eu confiei em você. – digo, apertando a mandíbula e encarando a Gagnon, irradiando diversão e deboche com nossa cena. – Em vocês dois. Como puderam me apunhalar assim pelas costas?
— Caralho, será que você pode me ouvir um minuto Bourgeios? – o Zuberg grita de volta, tentando segurar os meus punhos.
— Não, eu não tenho nada para ouvir! NADA! Você me usou, esse tempo todo seu canalha, seu nojento, seu aproveitador barato! – começo a berrar, partindo para cima e o estapeando com toda a força que consigo. — Eu não acredito que você fez isso comigo, seu desgraçado! Você vai pagar muito caro por isso, você está me entendendo? Muito caro, seu miserável! Seu filho da...
— Você não entende. – ele grita, tentando me fazer parar com a sessão de agressão, mas eu o empurro para longe de mim, chutando suas partes baixas e o jogando no chão de joelhos.
— Não, quem não está entendendo aqui é você! — digo, ofegante, com a garganta ardendo e com a voz embargada dos gritos e do choro. – Você tinha toda a minha confiança, a minha vida inteira nas suas mãos e você me traiu com ela. — aponto na direção da espanhola que até agora não mudara sua expressão com o flagrante. – Você pensou o que? Que ninguém iria descobrir? Que ninguém da universidade iria descobrir o seu caso com a Jacqueline? Qual o seu problema?
O pior não foi flagrar ambos no ato, ah não, não. O pior mesmo foi ter que aguentar ver aquela cara de dor, de sofrimento na cara do Zuberg. Era quase como se tudo aquilo o ferisse muito mais do que eu – algo totalmente fora de cogitação.
Saí de lá o mais rápido que eu consegui, andando o mais rápido que consegui na direção da minha limousine estacionada na porta da Universidade onde Jean, meu mordomo, o único que eu sabia que sempre cuidaria de mim, não importasse a situação, me esperava. Apenas do modo como eu lhe encarei ao entrar senti que ele já entendera o recado.
Voltamos em um silêncio mortal.
Me apoio na bancada de mármore branco do meu banheiro enquanto olho para o resto do meu quarto, totalmente destruído. Rasguei, quebrei e estilhacei absolutamente tudo o que algum dos dois já havia me dado de presente alguma vez na vida. Cacos de vidro de perfumes caros, flores amassadas por todos os lados, roupas rasgadas e cortadas em pedacinhos, isso e muito mais estava espalhado pelo chão. Estou tremendo de raiva, mas quando olho meu reflexo no espelho não vejo nenhum conforto diante de tanta fúria. Pelo contrário. Não consigo conter as lágrimas quando aquele vazio contínuo traz de volta a tona uma tristeza ainda mais profunda enquanto vejo o estado deplorável em que estou. Meu cabelo está totalmente desgrenhado e minha maquiagem totalmente borrada, fazendo meu rímel deixar um rastro em meu rosto.
A voz de minha mãe vem à minha cabeça e eu aperto os olhos com força, tentando me livrar de sua presença.
Está vendo? Eu sempre lhe disse que o amor não existe. Se Alex realmente te amasse, ele teria feito isso com você? Você realmente achou que ele largaria os maus hábitos por você, querida?
Sua risada me faz estremecer e por um momento acho que está ali, do meu lado zombando de mim. Tentando respirar fundo, pego o celular para ligar para Adrien. Talvez ele possa esclarecer o que o maldito Zuberg tinha na cabeça ao me enganar.
Quando disco seu número e após vários toques a chamada cai na caixa postal me sinto sozinha como nunca antes. Ligo mais duas vezes. Caixa postal. Um lampejo de raiva me sobrevem novamente e bato o aparelho com força no balcão da pia luxuosa do meu quarto. Aquele idiota do Agreste deveria estar com o peso morto daquelazinha, a Dupain-Cheng. Como homens podem ser tão estúpidos? Adrien não vê que aquela Marinette quer apenas o dinheiro dele? Não vê ou finge que não vê? Não é possível que seja tão ingênuo para cair num golpe desses. Minha vontade é esganar os dois e quase desejo que a mestiça tivesse morrido no acidente de Calanque. Quase. Se não fosse por ela e seu plano estúpido e medíocre, todos teríamos o mesmo fim.
Isso não justifica o fato dela roubar o seu melhor amigo, justifica?
Fecho os olhos, deixando as últimas torrentes de lágrimas deslizarem pela minha face. Ouço Jean bater levemente na porta do quarto e mesmo sem responder escuto seus passos leves se aproximarem de onde estou. Ele não ousa fazer nenhuma pergunta e eu simplesmente não consigo deixar de sentir gratidão por esse fato. Ele me dá todo o tempo que eu preciso, respeitando o meu espaço. Por me conhecer o suficiente para saber quando intervir algo e quando não precisava. Isso era algo que eu precisava passar sozinha, por mais difícil que seja.
Respiro fundo, me inclinando sobre a pia e começando a tirar aquela maquiagem. Esfrego meu rosto como se pudesse tirar todos aqueles sentimentos de dentro de mim, sem sucesso. Quando volto a encarar meu reflexo me vejo completamente diferente. Endureço minha expressão, impenetrável e indiferente como um diamante bruto.
— Conserte essa bagunça. – mando, sem desviar os olhos no espelho a minha frente. Pelo canto do olho posso ver meu mordomo assentir levemente, sem me questionar.
— Como desejar senhorita. — ele responde, dando um leve aceno e se retirando do meu banheiro para chamar as empregadas do hotel Le Grand Paris.
Apenas quando tenho certeza de que Jean saiu tenho coragem de me virar. Como sempre faz quando estou mal, ele deixa meu ursinho de pelúcia amarelo sobre a bancada. Tal demonstração de afeto me obriga a segurar o choro que ameaçava escapar de mim novamente, pegar aquela pelúcia e subir para a cobertura para ficar sozinha.
Se o amor de fato não existia, então dali pra frente não faria diferença nenhuma insistir em ser uma pessoa diferente. Por mais que odiasse minha mãe, ela estava certa em uma coisa.
Não sacrifique seu bem mais precioso pelo bem dos saqueadores ao seu redor.
***
Laura
— Eu ainda não consigo acreditar que você disse aquilo pro cara do cinema. – digo quase sem fôlego de tanto dar risada enquanto a italiana enfiava uma colher cheia de sorvete na boca, tentando não se engasgar. – “Você devia prender melhor seu cinto nessa sua calça frouxa antes de querer tentar impressionar a minha melhor amiga.”. O coitado ficou vermelho igual a um tomate.
— Não, ele ficou roxo de raiva. – Lila me corrige, sorridente. – Bem feito, quem mandou querer dar encima de você?
Balanço a cabeça, ainda sem acreditar na atitude da mesma. Eu e a Rossi havíamos fortalecido muito nossa amzade improvável nos últimos meses – quer dizer, desde o encontro forjado por mim que fora um sucesso. Eu não me lembro de ter ficado tão contente em ter alguém pra conversar como estava atualmente. Ter alguém em quem confiar. Acho que Lila se sentia do mesmo jeito, de certa forma: era difícil me desgrudar dela depois de fazê-la enxergar que era a maior paixonite do mundinho do Diego. Nós havíamos acabado de sair do shopping do centro da cidade e comprado um potão de sorvete de nozes na sorveteria mais próxima para batermos um papo.
— E então, como vai o curso de Direito? – ela me pergunta, com a boca cheia mais uma vez. Dou um sorriso desanimado.
— Insuportável. – respondo, indicando com uma mão para uma pilha de livros e mais livros grossos num canto do quarto. Já estavam lá parados e fechados há tanto tempo que deviam ter um quilo de pó acumulado. – São um ótimo apoio para o meu violão, não?
— Você ao menos chegou a abrir? – indaga, arqueando uma sobrancelha. Balanço a cabeça em negativa.
— Eu já disse: estou nessa por conta da imposição do meu pai. – digo, mexendo no meu sorvete atrás dos pedaços viciantes de nozes. Lila não me questiona nada, me dá todo o tempo que preciso. Incrível como somos amigas de apenas três meses que parecem se conhecer de muito mais tempo. – Você quer mesmo saber o motivo real que me mandou pra cá?
— Só se você estiver realmente confortável para me contar. – afirma, me encarando profundamente.
Suspiro. Quem sabe realmente tenha chegado a hora de desabafar com alguém. Quem sabe?
— Eu sempre fui alguém fora dos padrões. Uma garota esquisita, não importasse onde eu fosse. As pessoas olhavam pra mim no Brasil como se eu tivesse algum problema ou algo contagioso. – começo, abrindo minhas feridas. Não consigo tirar os olhos do meu sorvete que já estava derretendo. – Não que ser diferente fosse ruim, mas eu tinha raiva dessa fama que me perseguia. Tudo isso era obra do meu pai. Sempre foi ele. Por estar dentro de uma das empresas brasileiras mais conhecidas no país sempre achava que podia abraçar o mundo, se adaptar as regras da sociedade. – respiro fundo, mantendo minhas lágrimas dentro dos meus olhos. Não chore. — Ele conseguia. Eu não.
Enfio uma colher cheia na boca e deixo a minha sensibilidade ao gelado distrair minha cabeça daquela tristeza.
— Sabe Lila, eu discutia muito com o meu pai. Muito mesmo. — continuo, de boca cheia. Faço uma careta quando meu dente gela até a alma. – Muitas vezes era porque ele não me compreendia, sempre querendo que eu seguisse tudo o que achava que a classe alta com que ele andava julgava certo. Eu não sou rebelde, sou revoltada. Nunca vou fazer algo imposto pelos outros, não desse jeito.
— E o que você fez de tão ruim pra vir parar aqui em Paris? – a italiana me questiona, parecendo curiosa. Dou um sorriso de canto.
— Eu xinguei o presidente em rede nacional. – solto começando a rir de novo. A morena arregala os olhos, sem acreditar. – Dentro de uma reunião na empresa do meu pai.
— Você é louca, garota? – Lila exclama, escondendo o rosto entre as mãos e começando a rir junto comigo. – Meu Deus Laura, como assim?
Balanço os braços e sorrio. Ela apenas balança a cabeça e coloca a taça de sorvete de lado. Tínhamos comido mais da metade do pote.
— E você, Rossi, qual seu passado “sombrio”? – lhe questiono fazendo aspas com os dedos num ar descontraído. Ela suspira, jogando o cabelo para trás.
— Você quer mesmo saber? – ela me indaga, parecendo cansada de repente. Assinto com a cabeça e ela suspira. — Digamos que meu passado sombrio não passa de uma fofoca. – a mesma conta, enquanto eu deito nas almofadas do parapeito da minha janela favorita, de frente pra ela. – Há não muito tempo eu era uma garota mesquinha, mentirosa e muito egoísta, fazendo de tudo para ter aquilo que eu queria, não importasse o que fosse. É claro que hoje eu me envergonho, mas naquela época, no auge da separação dos meus pais... Bem, parecia ser a melhor opção pra mim.
— E em que parte vem a fofoca? – brinco, tentando suavizar aquele papo. Ela balança a cabeça, dando um mínimo sorriso.
— Nesse tempo eu era nova na universidade, não conhecia ninguém. – Lila continua, encarando um ponto qualquer do meu quarto, sem olhar na minha direção. – Eu vi o Adrien, sozinho, bonito, popular. Eu queria me encaixar de algum jeito, nem que precisasse chegar lá mentindo. No fim, nem precisou. Quando ele não quis ficar comigo inventaram a fofoca de que eu estava espalhando por aí que havia ficado com ele, sendo que eu nem mesmo tive tempo de inventar isso.
— Mas você queria ter ficado com ele? – pergunto, abraçando uma das almofadas. A observo assentir com a cabeça.
— Por favor Laura, se você visse um cara lindo, gostoso e na pista você ia deixar ele passar sem tentar? – retruca, me arqueando uma sobrancelha questionadora. Sinto minhas bochechas corarem antes que possa negar. – Foi o que eu pensei. – continua, dando um sorriso. – No fim, eu me mudei pra casa da minha tia Francisca, ela acabou me mudando no meu jeito de pensar e eu finalmente criei juízo, parando de mentir.Claro que por um lado foi meio inútil já que a má fama me perseguia na Françoise Dupont, mas por outro eu me sentia bem comigo mesma e... Sozinha. – explica, dando ombros e fazendo uma careta engraçada. — Pelo menos até você aparecer na minha vida como uma explosão de luz junto com o Jacques e o Diego que, por sinal, foi uma relação bem abrupta de amizade.
Não contenho minhas risadas e a mesma me acompanha quando lhe jogo uma almofada na face.
— Ah, para, não foi tão forçada assim. – tento argumentar quando ela me joga outra almofada. – Aquela nossa saída pra Comunidade Brasileira não foi tão ruim assim.
— Imagine, você só literalmente me jogou encima do seu amigo e todo mundo lá dentro colaborou pro seu plano dar certo. – a Rossi rebate e eu lhe mostro a língua, divertida.
— Pelo menos funcionou. – a lembro, me sentando no parapeito da janela.- Vocês estão super bem agora, depois de o que, quase três meses?
— É, eu não posso reclamar. – minha melhor amiga comenta, balançando a cabeça, um pouco corada. – Eu sempre soube que o Diego tinha uma paixão platônica por mim, mas nunca pensei que ficaríamos juntos. É quase surreal. – conta, dando risada de repente. – Tipo, ao mesmo tempo que nós estamos super bem, do nada, ele começa a falar sozinho, gritar com ele mesmo. Eu não sei se fico preocupada ou se eu rio
— Amiga, o querido Dieguito precisa de um pouco de... Paciência. – digo, sorrindo. – Ele pode ser um pouco instável, mas é um cara de ouro. Além do mais, vocês formam um casal incrível. – gesticulo com as mãos e fecho os olhos. – Dielila. O que você acha?
— Hum... – Lila solta, fingindo estar pensativa. Estala a língua com uma cara maliciosa. – Eu prefiro Lauraques.
— Não sei o que você está insinuando. – rebato, sentindo meu rosto queimar de vergonha. Ótimo Laura, você mesma está se entregando. A risada da italiana me faz querer abrir um buraco no chão e desaparecer.
— Não se faça de desentendida garota. É ridículo o quão esforçada você foi há um tempo pra chamar a atenção do idiota do Olivier e ele nem sequer reparou em você. – devolve, entediada com minha péssima interpretação. – Fala sério Lau, tá na cara que você tá apaixonada por aquele idiota.
Abraço uma almofada, subitamente sentindo aquela tristeza guardada no fundo do coração subindo à tona de novo. Falar sobre desilusões amorosas sempre foi doloroso para as personagens dos meus livros, não seria diferente comigo. Diante do meu silêncio vejo Lila sentar ao meu lado pelo canto do olho. Ela aperta meu ombro levemente, parecendo arrependida por tocar no assunto.
— Ei, desculpa se fui inconveniente. – ela diz, mas eu balanço a cabeça.
— Não, não tem nada a ver com você Lila. – eu começo, dando um sorriso forçado. – É que... O Jacques estava tão obcecado pela Alya, que quando ela realmente deu um fora nele e começou a namorar a sério com o Nino, ele ficou sem saber o que fazer. Nós mal conversamos e olha que moramos na mesma casa. Ele ficou todo estranho. – revelo, desabafando. Encaro minhas mãos. – Eu duvido que ele tenha superado ela e cara, eu já desisti de tentar mostrar pra ele que... Que...
— Que você é apaixonada por aquele imbecil. – a italiana completa, me fazendo assentir, sem palavras. Nunca pensei que seria tão difícil colocar esses sentimentos pra fora. – Eu acho que está na hora de vocês se resolverem. Porque não aproveita o baile de outono daqui a alguns dias e não tenta de novo?
— Eu estou cansada de insistir em algo que não me trás nenhum resultado. – sussurro, engolindo o choro. Lila estrala os dedos, revirando os olhos.
— Então que essa seja a última vez. A última tentativa. – ela incentiva, me obrigando a encará-la. – Tente. Talvez seja a sua hora.
Seu celular toca e posso reconhecer o nome do mexicano em sua tela. Dou um sorriso de lado e aceno para a mesma atender. Estou tão concentrada em meus devaneios que só volto a encarar minha amiga quando a mesma murmura um “Preciso ir.”, acenando da porta. Assinto, formando um “Juízo moça” com a boca, mas sem emitir nenhum som para não atrapalhar sua conversa com o possível-quase-namorado. Meu olhar vaga até os livros de Direito que eu deveria estar lendo para o meu curso e dou um longo suspiro. Eu queria que minha vida fosse um “cadinho”— como dizia dona Maíra Novaes, minha mãe – mais fácil. Pensar nela faz meu coração doer de saudade. Saudade dela. Saudade da minha casa. Saudade do Brasil.
Me levanto e ao invés de pegar o livro grosso como uma Enciclopédia o que minha mão agarra é o velho violão de madeira decascada pelo tempo. Sorrio, lembrando quanto tempo ele fora meu parceiro. Uma música que há algum tempo escrevera em meu Caderno – ou diário, como meu tio Achille o chamou quando me viu escrevendo na sala de estar – me vem a mente. Abro na página marcada com desenhos e a cifra da música, tentando achar um ritmo para a mesma.
Eu odeio o seu sorriso, e seu jeito de falar
Eu odeio quando você me olha, e eu dou risada sem pensar
Eu odeio quando você me chama para conversar
Eu odeio quando você vem, e odeio mais ainda te esperar
Eu não sei o que fazer
Não tem ninguém aqui pra me impedir de te escrever
Outra canção pra me fazer entender
Que eu te odeio tanto porque gosto de você
“Se fosse fácil simplesmente dizer tudo isso pra ele”, penso quando finalmente consigo achar um ritmo e seguir com a minha letra.
Eu odeio dar conselhos que você nem vai usar
Eu odeio quando você fala dela e eu finjo não ligar
Eu odeio ver você com alguém que não tem nada a ver
Eu odeio ela ser tão sem graça
E você nem perceber
Eu não sei o que fazer
Não tem ninguém aqui pra me impedir de te escrever
Outra canção pra me fazer entender
Que eu te odeio tanto por que gosto de você
Eu nunca acreditei que era mesmo pra valer
Eu nunca admiti que me importava com você
Agora tanto faz não quero mais me esconder
Estou falando na sua frente que eu te odeio
Por gostar tanto assim de você
Suspiro, dedilhando as cordas com mais força. Meus pensamentos me levam até o dia que o ônibus com os nossos amigos chegou de Calanque, com Jac correndo atrás da Cesàire que nem um cachorrinho atrás do dono. A raiva dele ser tão cego e tonto ainda é bem real em mim, jamais sendo esquecida.
Você vai acordar um dia e perceber
Que mesmo eu sendo, um pouco estranha do meu jeito
Eu tentei te convencer
Respiro fundo, tentando segurar meu choro. Até ausente Jac mexe comigo. Porque? Eu não faço ideia, mas ele consegue me assombrar, ainda que eu me esforce para esquecê-lo. O último refrão é a parte mais difícil de se cantar e encontrar um ritmo.
Que hoje eu acredito que é mesmo pra valer
Confesso, eu admito que me importo com você
Agora tanto faz não quero mais me esconder
Estou falando na sua frente que eu te odeio
Por gostar tanto assim de você.
Eu fazia minhas últimas anotações no meu Caderno quando batidas na minha porta me chamam a atenção. Rapidamente passo a mão no rosto, tentando apagar qualquer resquício que denuncie meu choro e coloco minha máscara “natural” de volta no lugar. Murmuro para que quem quer que seja entrar, terminando de escrever um arranjo. Quando olho pra cima não vejo ninguém menos que o loiro que persegue meus pensamentos. Ele está todo despenteado, parecendo acabado depois de um treino pesado de circuitos. Fecho meu quase-diário rápido demais, levantando pra guardar no meu armário.
— Pode falar Jacques. – digo, para quebrar o gelo entre nós. Enfio-o dentro de minhas roupas e fecho a porta rapidamente. Me viro com um sorriso amarelo no rosto. – Aconteceu alguma coisa?
— Na verdade, aconteceu. – ele diz, quase me fazendo perder o fôlego. – Eu queria achar uma maneira mais simples de te dizer isso, mas... Eu acho que não tem.
— Porque não diz logo então? – solto, sentindo o coração disparar. – Desembucha, odeio ficar curiosa.
Ele parece hesitar, respirando fundo umas duas vezes antes de soltar mais aquela bomba na minha vida.
— O seu pai foi preso. – revela, tirando todo o ar que meus pulmões poderiam ter.
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