Notas iniciais
Oi pessoal! Feliz 2020 atrasado! - como sempre. Espero que tenham aproveitado as festas do fim de ano e que essa nova década seja a melhor das nossas vidas. Agradeço pelos leitores - até mesmo os fantasmas - que acompanharam a história até aqui. Vocês são demais ♥ Sem mais delongas, tá aí mais um capítulo. Capítulo postado dia 07/01/2020, às 17:37

Um dia depois do incêndio na François Dupont...

Chloé

— O que você veio fazer aqui? – pergunto a figura parada em frente a porta do meu quarto no Le Grand Paris. Tento manter minha expressão impassível quando vejo seus olhos marrons tão conhecidos me fitarem em silêncio. Encho o peito de ar e ameaço fechar a porta. – Se está tentando me convencer que você e Jacqueline não têm nada pode ir pra...

— Por favor, só me escute Chloé. – Alex me pede, segurando a porta com força antes de eu conseguir trancá-la. Como não lhe respondo, ele implora com os olhos. – Por favor.

Relutante, abro a porta e lhe dou passagem para entrar. Ele rapidamente o faz e suspiro ao fechar a trava atrás do mesmo, me virando para o observar se sentar na beirada da minha cama, com o maxilar trancado. Cruzo os braços e me encosto na parede do banheiro, aguardando o que ele tanto parecia lutar para dizer. Tamborilo levemente os dedos no meu braço, impaciente com sua presença ali. Raios, você precisava vir até aqui bonito desse jeito? Odeio profundamente você Alex Zuberg, acredite quando digo isso.

— Eu não tenho o dia todo. – solto, soando ácida até mesmo para mim, mas não me deixo abater por isso.

— Eu tenho muito o que te dizer e – ele começa, estalando os dedos nervosamente. – não faço ideia por onde começar.

— Que tal pela alta traição que você me fez beijando aquela vaca da Jacqueline? – lhe sugiro, dando um sorriso ácido e dando um passo na sua direção. – Ou então em como as pessoas estão olhando para mim e para você ultimamente? – continuo, gesticulando com as mãos e deixando a raiva tomar conta de mim de novo. Cerro os dentes com aquela lembrança recente. – Já sei, que tal se lembrar daquela nossa conversinha de...

Subitamente sinto um puxão pelo meu braço e meu corpo se choca com o do loiro que fora apaixonada há tanto tempo, mas antes que eu pudesse me desvencilhar de alguma forma sinto seus lábios se fechando sobre os meus, numa tentativa de me roubar um beijo como nos velhos tempos. Mesmo sabendo que aquilo era uma afronta ao meu orgulho não consigo impedir meu cérebro de reagir aquilo. Fecho os olhos e por um instante me esqueço do que Alex havia feito comigo, correspondendo aquela demonstração de afeto que estava tão acostumada. Por um momento desejo que aquela cena não passasse de um pesadelo e que nós estivéssemos bem. O seu toque familiar na minha pele, seu cheiro invadindo os meus sentidos, suas batidas cardíacas no mesmo ritmo que as minhas. Tudo era tão contagiante que nem mesmo estranhei quando nós dois caímos na minha cama, prontos para fazer mais uma das nossas besteiras.

Porém, quando sinto suas mãos rodearem minha cintura uma parte de mim acorda. Com meu coração aos pulos junto toda a minha força e lhe dou um tapa no rosto, o empurrando para o lado e correndo para o outro lado do quarto.

— Não! – grito, ofegante. – Você não vai chegar aqui, me beijar e me fazer fingir que nada do que eu vi aconteceu! Não me faça chamar os seguranças pra você Zuberg!

— Não faça isso. – o escuto dizer, mas a adrenalina que me domina é mais rápida e eu avanço para o meu interfone, quase gritando que alguém – qualquer um – viesse tirar ele da minha frente. Como sempre, ele é mais rápido e mais alto que eu, colocando o telefone numa altura que eu não alcanço.

— Me dê isso já ou eu vou começar a gritar! – exclamo irritada, pulando para tentar agarrar o velho interfone de suas mãos.

— Você vai ter que me ouvir de qualquer jeito Bourgeios. – ele pondera, jogando o interfone em seu lugar e me jogando em seu ombro, me agarrando pela cintura enquanto batia em suas costas. – Pare com isso! – Alex grita, me jogando na minha cama com um olhar tão irritado quanto o meu.

— Não! Eu não vou parar! – rebato, sentindo lágrimas de raiva nos meus olhos. – Nada do que você me disser vai mudar o que aconteceu Alex, nada vai...

— A Jacqueline tá envolvida em tudo o que aconteceu com o Adrien! – o loiro de olhos castanhos grita de volta, me fazendo calar a boca no mesmo instante e me surpreendendo o suficiente para fazer as palavras morrerem na minha boca. Ele suspira, esfregando as mãos no rosto com força e colocando o cabelo para trás. – Você diz que me conhece, mas não faz a menos ideia do que eu passei para chegar aqui hoje. – ele solta, ofegante e tremendo como eu nunca havia visto antes. – Alguns anos atrás meus pais sofreram um acidente de carro que deixou cicatrizes profundas neles. Até hoje meu pai precisa de remédios para tratar as sequelas do acidente e minha mãe perdeu muito da visão dela. Eles quase morreram e eu precisava ajudar eles de algum jeito. – revela, baixando os olhos e nublando sua visão. – Eu estava disposto a fazer qualquer coisa para ajudá-los. Foi quando eu encontrei com a mulher que me meteu em tudo isso, toda essa bola de neve que estamos metidos hoje em troca de cuidar dos meus pais. Eu viraria uma ponte entre os objetivos dela enquanto era chantageado pelas suas ameaças. Assim, eu me meti com uma das maiores comandantes do tráfico de Paris e com a máfia mais procurada da Europa, com uma única condição: proteger a filha dela como um falso guarda-costas enquanto ela arquitetava uma vingança contra dois antigos agentes dela. – termina, olhando fixamente na minha direção. – Já descobriu quem mandou sequestrar o seu melhor amigo?

— Não... – murmuro para mim mesma, estreitando os olhos. – Isso só pode ser loucura...

— Acha que eu estou mentindo? – o Zuberg questiona, me obrigando a encará-lo novamente com seu tom de voz. Então, inesperadamente, ele simplesmente pega o pequeno pingente dourado pendurado no meu pescoço e o joga no chão, pisando em cima do mesmo com força.

— O que você acha que está fazendo? – grito, o encarando como se finalmente ele tivesse louco. – Sabia que isso foi um presente da minha mãe, lá de Nova Iorque?

— E você sabia que esse tempo todo tinha uma escuta e uma microcâmera nesse seu presente? – Alex rebate, pegando o que parecia ser o resto de um micro-microfone no meio dos pedaços de cristal do chão. – Esse tempo todo a sua mamãezinha querida estava te vigiando, sondando os seus passos para não te meter em perigo junto comigo. Tudo o que você dizia era gravado em alguma das centrais da Surveillance e por isso tudo sempre acontecia ao seu favor. – ele indica o próprio pescoço e não vejo o pingente dourado ali também. – Eu sei do que eu estou dizendo.

— Você está me dizendo que a minha mãe faz parte de uma quadrilha procurada pela polícia e que ela está por trás do sumiço do Adrien e do incêndio na François Dupont? – lhe indago, me levantando da cama e indo na direção do dono dos olhos chocolate que me conquistaram há algum tempo. – Que você, Alex Zuberg, está envolvido com o atentado de Calanque contra as nossas vidas a mando da minha mãe? Que além de tudo isso, Jacqueline, a Jacqueline Gagnon, também tem algo a ver com toda essa história? – questiono, o encarando profundamente, tentando identificar sua mentira por trás da máscara.

— É exatamente isso. – ele confirma, sem piscar e hesitar em nenhum momento. Dou uma risada sarcástica.

— Essa foi a mentira mais bem elaborada que eu já ouvi na minha vida. – respondo, indo na direção da porta e lhe escancarando. – Vá embora daqui e não volte nunca mais Zuberg.

— Chloé, eu não estou brincando, essa é a... – o loiro começa mais uma vez, porém não lhe dou ouvidos.

— Se pensa que toda essa sua asneira vai justificar o que você fez, você está muito enganado. – pondero, seriamente. – Você já feriu os meus sentimentos, não precisa envolver mais ninguém da minha família e nenhum dos meus amigos só para me machucar mais. – balanço a cabeça, dando um sorriso irônico. – E mesmo que tudo isso fosse verdade, não tem que dizer isso para mim e sim para a polícia.

— Não posso fazer isso. Se der com a língua nos dentes aqui, eu viro uma carta fora da jogada. – ele diz, se aproximando de mim. – Vim aqui lhe dizer que que vou viajar para fora de Paris e denunciá-los. – Zuberg conta, analizando meu rosto. Pela primeira vez desde que ele chegou é que presto atenção nas olheiras escuras debaixo de seus olhos e a aparência exausta estampada no seu rosto. – Nós poderíamos fugir juntos. Assim você também ficaria segura da sua mãe e de qualquer um que tentasse fazer alguma coisa com você. Eu não deixaria ninguém tocar em um fio de cabelo seu.

— Você acha mesmo que vou abandonar tudo, deixar a minha vida aqui para ir para algum lugar com você depois de tudo o que aconteceu? – lhe questiono, não acreditando no que o mesmo estava dizendo. – Você está ficando louco, agora eu tenho certeza.

— Chloé, tente me compreender. – ele suplica dessa vez, parecendo tão frágil como eu nunca vira na minha vida. — Vim aqui pedir desculpas pelo que você viu. Vim aqui dizer que Jacqueline é perigosa e que ameaçou fazer algo com você se eu a recusasse mais uma vez. Não podia deixar isso acontecer, não por causa de sua mãe, mas por mim. – quando para na minha frente sinto meu coração falhar uma batida e ele simplesmente quebra quando passa os dedos levemente no meu rosto. – Porque eu amo você Chloé. Eu não quero que nada aconteça com você.

— Essas palavras soam mais vazias ainda agora depois de tudo o que você fez. – retruco, tentando enxergar através das lágrimas que ameaçavam invadir os meus e olhos dele também. Viro o rosto, indicando a porta aberta mais uma vez. – Por favor.

Ele respira fundo e faz menção em sair, mas volta a ficar parado no mesmo lugar.

— Jacqueline não é o que parece ser Chloé. – repete, com a voz embargada, porém ainda firme. — Se não acredita em mim, procure a ficha criminal da família dela. Vai se surpreender com o que vai encontrar por lá.

Quando eu me sinto sozinha de novo, não resisto as minhas lágrimas quando fecho a porta. Respiro fundo algumas vezes, mas é inútil: ao encostar na porta atrás de mim desabo. Não consigo tirar meus olhos dos cacos do cristal dourado próximos da minha cama e minha cabeça começa dar um nó enquanto tento repassar mentalmente tudo o que Alex dissera. Seria isso verdade mesmo? Quem podia garantir que o que ele dissera era verdade?

Respiro fundo, passando as mãos no rosto e me levanto, indo na direção da parede que haviam várias fotografias. Meu olhar para em uma foto minha com Adrien e aquele idiota do Broussard. Éramos bem mais jovens. Sem conspirações, sem máfias, sem aquela loucura digna de algum filme de suspense policial. Meu coração aperta quando lembro de como éramos felizes naquela época e em um certo dia nós simplesmente havíamos nos separado sem explicações.

Já chega disso tudo.

Troco de roupa, decidida a fazer uma coisa que deveria ter feito há muito tempo.

***

Diego

Nós estávamos todos reunidos na minha casa, como sempre. Laura havia insistido que era o melhor lugar para conversarmos já que meus pais haviam viajado para uma conferência enquanto Tuggi dissera que precisava encontrar Tikki e saíra há algumas horas, ou seja, tínhamos a casa só pra nós. A brasileira parecia tão submersa em seus próprios pensamentos que desde que Lila chegara há vinte minutos nenhum de nós disse mais nada, esperando a mesma explicar o motivo daquela reunião às três horas da tarde, assim, tão de repente. Pigarreio, terminando de servir o suco de laranja que Tuggi fizera mais cedo para a italiana sentada ao lado de Lau no sofá.

— Então – começo meio incerto, ajeitando os óculos e colocando a jarra de suco na mesinha de centro da nossa sala de estar. – O que aconteceu dessa vez?

— Eu... – a brasileira balbucia, encarando o copo cheio em suas mãos. Parece escolher as palavras e em seguida respira fundo. – Eu recebi uma ligação ontem a noite, depois que cheguei em casa do Baile de Outono.

— Uma ligação? – Lila repete, estreitando os olhos confusa. – Uma ligação de quem?

— Eu não sei. – continua, sem desgrudar os olhos do copo que lhe entregara há alguns minutos. – Era um número privado. – com um suspiro ela encara Jacques ao seu lado e o vejo apertando sua mão, encorajando-a a continuar. – A pessoa que me ligou disse coisas absurdas sobre... Bom, o meu pai. Disse que ele foi preso por tráfico intrenacional de drogas lá no Brasil e essa pessoa sabia tudo sobre isso, disse informações que só eu e minha mãe conhecíamos. – a observo me encarar e a melhor amiga em seguida. – Ele foi preso por estar “supostamente” associado a Surveillance.

— Surveillance? – o loiro repete, assustado. – A mesma que meu pai disse estar envolvida no incêndio na universidade?

— Espera um pouco, como assim? – questiono, encarando meu amigo sem entender muito bem. – Seu pai já sabia que esses caras iam incendiar a facul?

— Quando ele chegou ontem à noite e nos levou pra casa disse que o Banco Central havia sido assaltado. – Jacques revela, chamando a atenção de todos nós. – Digamos que meu pai procura esses caras da Surveillance já a bastante tempo. Foi uma surpresa e tanto ele ter encontrado um dos líderes no flagrante e ele desaparecer numa nuvem de fumaça, no mesmo instante que o corpo de bombeiros foi acionado com a nossa ocorrência.

— Isso quer dizer que o assalto foi proposital, uma distração pra polícia. – Lila murmura, esfregando o queixo pensativa. – Acreditem, eu já vi muitos filmes que são desse jeito.

— É, eu pensei isso também. – a brasileira prossegue, colocando seu suco encima da mesa a sua frente. Ela ainda parecia inquieta com alguma coisa. – Mas eu ainda não terminei.

— O que mais esse cara te disse Lau? – Jacques pergunta baixo, e a mesma aperta sua mão, encarando o nada mais uma vez.

— Ele me fez uma proposta para libertar o meu pai. – Laura responde, mordendo o lábio. – Se eu me aliasse à Surveillance, eles inocentariam ele e minha mãe ficaria fora de qualquer perigo. – antes que eu ou Lila pudéssemos dizer alguma coisa ela estende uma das mãos e nos silencia com um olhar tão reprovador que me sinto gelar. – Caso eu recusasse, ameaçaram vocês e o resto da família do Jacques. Ameaças tão terríveis que não consigo nem mesmo repetir para vocês. – vejo sua mão começar a tremer e a mesma esconde o rosto entre as mãos mais rápido do que havia nos mandado calar a boca. – Eu não sei o que fazer. Eles vão fazer coisas horríveis com vocês se eu disser não, com vocês, com a minha mãe, e...

Ela não consegue terminar a fala, simplesmente começa a chorar. Não vou mentir, ela estava tremendo de medo. Literalmente. Eu e Jacques trocamos um olhar, sendo o suficiente para que ele a abraçasse e eu me levantasse da poltrona que estava. De fato, a Novaes estava no meio de uma enrascada daquelas e agora ficava claro o motivo daquela reunião de emergência. Quando busco os olhos verdes por qual me apaixonara, não os encontro. Ela parece ainda mais pensativa que eu. Sem conter meu nervosismo, começo a andar pela sala de um lado para o outro, tentando pensar em uma solução que não colocasse a cabeça de ninguém em jogo.

— Nós precisamos fazer alguma coisa. – a mesma diz, começando a bater o pé no chão, nervosa também. – Não vou deixar minha melhor amiga sozinha na mão de traficantes.

— Vão ter que arrancar você de nós. – Jacques diz, passando a mão no cabelo da brasileira e ficando sério como nós. Até que enfim eles haviam se acertado.

— Precisamos dizer tudo isso pra polícia. – digo, parando de frente com a janela de frente para a cidade. – Essa é a coisa mais sensata que podemos fazer, ainda que seja perigosa.

— Não! – ouço Laura exclamar, se afastando do Olivier com um pulo. – Se eles sabiam de tudo da minha família quer dizer que também podem estar me vigiando. Se eu tentar denunciá-los ao pai do Jacques eles vão descobrir e vão vir atrás de todos nós.

Todos nós ficamos em silêncio. De repente sinto meu celular vibrar no meu bolso e quando vejo de quem era a mensagem não deixo de arregalar os olhos, voltando a guardar o aparelho. Pronto. Era só o que me faltava agora.

— Eu tenho uma ideia do que nós podemos fazer. – o loiro de olhos safira anuncia, nos fazendo olhar em sua direção, desesperados por uma solução. Ele encara a brasileira por alguns segundos em silêncio. – Eles te deram quanto tempo pra decidir isso?

— Até sábado. – a mesma responde, passando a mão no rosto vermelho. – Três dias.

— O que eu pensei é perigoso, mas pode dar certo se conseguirmos nos organizar. – ele prossegue, me fazendo fazer uma careta. – Vamos fingir que a Laura vai se aliar à Surveillance em um ponto estratégico e infiltrá-la entre eles. Uma vez lá dentro nós os seguimos junto com a polícia e os prendemos de surpresa.

Passo meus olhos para o rosto da Novaes e dela passo para Lila, exasperado. Ambas tão surpresas e assustadas com aquela ideia quanto eu.

— Isso é suicídio Jacques! – exclamo, balançando a cabeça negativamente. – Você vai estar arriscando a vida da Laura na mão daqueles bandidos que você muito bem sabe que não brincam em serviço.

— Diego, com a Lau lá dentro nós podemos localizá-la onde estiver. Descobrir quem mandou atear fogo na universidade, quem sequestrou o Adrien e a irmã da Marinette. Quem está por trás de tudo. – ele explica, me encarando seriamente do sofá. – Podemos descobrir a verdade.

— E se isso não der certo? – lhe questiono, começando a ficar irritado. – E se eles descobrirem isso antes desse seu plano maluco dar certo? Eles podem matar a Laura, cara!

— Nós não temos outra escolha Diego. – ele insiste, se irritando também. – Essa é a única saída que eu vejo.

— Você está ouvindo o que você está dizendo? – rebato, vendo meus óculos embaçarem de nervoso diante dos meus olhos e suspiro. Quando os tiro para limpar meu celular começa a vibrar de novo. Reviro os olhos. – Lila, Laura, vocês não podem estar concordando com essa loucura, não é? Por favor, digam pro Jacques que nós temos outra solução.

As duas se entreolham, sem dizer uma palavra. Suspiro, esperando uma resposta que mostre que meu amigo não está em seu juízo perfeito; entretanto a resposta que escuto faz meu coração parar de indignação.

— Ele está certo por um lado Diego. – Lila diz, me encarando calmamente. – Podemos bolar uma maneira de não suspeitarem da Laura estar passando informações para nós enquanto está lá dentro. Talvez possamos até mesmo pedir ajuda para a Marinette, já que esses caras levaram pessoas importantes dela. Com um pouco de sorte nós até...

— Você também ficou maluca Lila? – lhe indago elevando minha voz. – Meu Deus, você vai mesmo arriscar a vida da sua única amiga em troca de talvez, sem certeza alguma, salvar a vida daquele estúpido do Agreste?

— Não se trata apenas do “estúpido do Agreste” – ela rebate, fazendo propositalmente as aspas com dedos – se trata de ajudarmos nossos amigos Diego. Todos estão sofrendo, todos estão sendo ameaçados. Precisamos fazer alguma coisa.

— Ninguém merece ser usado como moeda de troca desse jeito. – argumento, arriscando um olhar para a brasileira, mas a mesma estava bem longe dali. – Usem o cérebro de vocês. Acham certo o que o Jacques está dizendo?

Diante da demora dos meus amigos em responder minha pergunta, resmungo de novo. Eles não podem estar falando sério! Isso aqui não é ficção, onde adolescentes derrubam uma quadrilha por conta própria! Isso é vida real! Até um retardado perceberia que esse plano é todo furado, mas é óbvio que eu vou ter que explicar o óbvio!

— Nós não vamos embarcar nesse plano! – Eu me ponho de pé, quase vociferando isso.

— Diego, é a única chance que temos! – Jacques insiste na ideia sem pé nem cabeça dele.

— Ok, vamos partir da premissa de que sigamos seu plano – Começo, usando a introdução que mais gosto de usar em discussões. – Por onde a Laura vai se comunicar com a gente? Pelo celular dela? Se eles estão mandando mensagens sem ter o contato dela, é óbvio que ela está grampeada! Se eles interceptarem uma mensagem dela para nós, nem vão querer ler o conteúdo. O simples destinatário será o suficiente para fazerem uma gravata italiana nela.

— O que é uma...? – Lila tenta me fazer uma pergunta, mas a interrompo rispidamente.

— Agora não, Lila! – Continuo meu raciocínio. – Segundo, pegar o celular de um dos mafiosos para mandar a mensagem também está fora de questão, por motivos que qualquer pateta consegue entender!

— Diego, por favor, vamos conversar como gente madura, sem sair distribuindo ofensas a torto e a direito. – Ouço Jacques me censurar. – Mas e se a Laura tentasse mandar uma mensagem do celular deles, mas apagasse o histórico depois? Ou, e se ela mandasse do celular dela as mensagens, mas o fizesse em código?

— Puxa vida, que ideia genial! Como é que eu não pensei nisso? – Respondo com todo o sarcasmo necessário para sufocar tanto minha vontade de voar no pescoço do Jacques quando meu pânico por saber que eles realmente estão levando a sério esse suicídio coletivo – Será que tem algo a ver com o fato de que deletar um arquivo apenas exclui seu acesso a ele, ao invés de destruir o arquivo? Será que tem a ver com o fato de que um simples aplicativo de recuperação seria capaz de anular isso? Será também que tem a ver com fato de que, se eles foram capazes de hackear o celular da Laura, eles podem facilmente decodificar qualquer código que um grupinho de adolescentes é capaz de criar? Sério, se vocês querem tanto assim matar a Laura, porque não chamam ela para brincar de roleta russa com cinco balas?

— Diego, calma – Laura começou a falar de novo, mas não lhe dou ouvidos.

— Calma uma ova! Vocês estão mesmo pensando em levar isso adiante? E por quê? Para ajudar um traficante de drogas? Pior: um traficante de drogas que chifrou a mãe da Laura? Cacete, se vocês não querem chamar a polícia, tudo bem, mas simplesmente digam que não estão interessados nessa proposta! Esse sujeito não vale a filha que tem!

Silêncio sepulcral. A Laura está cabisbaixa e todo o resto do pessoal fica olhando para mim como se eu tivesse atirado uma pedra na cruz. Imediatamente me arrependo do que acabei de dizer e tento — inutilmente – falar em um tom normal.

— Que foi? Eu pensei que a Laura tivesse contado para... – Sou subitamente interrompido pela Lila.

— Eu não acredito que você disse isso, Diego! – Ela realmente parece aborrecida comigo. – Eu esperava que um golpe baixo desse fosse desferido pela Chloé, não por você!

— Você não tem respeito pelos sentimentos dos outros, Diego? – Jacques aproveita a deixa para meter mais lenha na fogueira.

— Desculpe por “ferir os sentimentos” de vocês! Eu estou tentando impedir que vocês metam uma bala em suas cabeças da pior forma possível! – Eu vocifero impaciente, fazendo aspas sarcásticas com os dedos. – E eu não precisaria fazer isso se vocês tivessem algo em suas cabeças!

— Agora chega, Diego! Você já está passando dos limites! – Lila grita comigo de novo. – Se você não consegue conversar sem apelar para a baixaria, então sugiro que vá embora daqui!

— Eu ir embora daqui? – Minha pálpebra começa a ter um tique, denunciando quão desequilibrado eu estou. – Isso aqui é a minha casa, não podem me expulsar! Se alguém tem que sair daqui são vocês! Não vou ficar assistindo vocês assinarem o próprio atestado de óbito na minha presença sem fazer nada!

— Ótimo! – Lila responde, de uma forma surpreendentemente decidida e me deixando boquiaberto. – Vamos indo, gente.

Todo mundo começa a sair da minha casa, olhando para mim como se eu fosse o vilão. Isso tem algum cabimento? Eu estou tentando evitar que eles se matem e ainda fico como vilão da história!

Impressionante.

Antes de sair a brasileira arrisca olhar uma última vez para mim e seus olhos cor-de-mel fixos em mim fazer um misto de emoções se apossarem de mim. Raiva por não ouvir a razão. Vergonha de ter revelado o segredo que ela havia me confidenciado numa discussão. Arrependimento por ter perdido a cabeça com ela. Decepção por ter discutido daquele jeito com os meus amigos mais fiéis. Espero que me bata, que grite, que me xingue – afinal ela mais que ninguém tinha motivos de sobra pra isso. Porém, ela faz exatamente o contrário e isso me afeta mais do que poderia imaginar.

— As pessoas boas devem amar seus inimigos. – ela cita, calmamente e sem desviar o nosso contato visual. – Não importa o que aconteceça, uma pessoa boa deve se compadecer do sofrimento dos seus inimigos. – ela continua e imediatamente reconheço aquela referência, dando um passo pra trás como se ela tivesse me dado um soco. – Mesmo quando não há chances de vencer devemos lutar Diego. Eu faria o mesmo de olhos fechados por você. Pense nisso.

Dito isso ela fecha a porta de entrada de casa e me deixa sozinho, esfregando o cabelo furiosamente. As sandices que eu tive que ouvir ainda pouco realmente me deixaram perturbado. Eu realmente não estou bem: já estava tudo difícil o bastante quando a Tuggi deixou um monte de gente fotografar meu santuário particular. Some isso ao fato de que eu acabei de sair de um período de provas e a toda essa questão envolvendo a máfia francesa e você tem a receita para o desastre. Lembrando de um conselho sábio dos meus pais, eu decidi esfriar a cabeça indo para a academia.

Durante minha sessão, eu termino quatro sessões de boas remadas, então resolvo tirar 30 segundos para descansar, quando do nada começo a ouvir a música-tema de Dr. Stone.

Ohayou Sekai!

Good Morning World!

Quando vejo quem está me ligando não evito arquear as sobrancelhas. Número Desconhecido.

“Alô, Diego?”

Chloé? Porque ela está me ligando? Onde ela conseguiu meu número? Não me diga que ela não apagou depois de tudo o que aconteceu!

“Você está ocupado?”

— Na verdade estou. – Respondo sem a menor vontade de prosseguir com a conversa – Do que você precisa?

“Eu quero conversar com você mais tarde.”

— Certo, eu te retorno depois pelo Whatsapp. – digo, desinteressado.

Não!”— Sinto ela perder levemente a compostura do outro lado antes de voltar a falar normalmente – “Precisa ser pessoalmente. Face a face.”

Quem ela pensa que é? Depois de tudo o que rolou entre nós e o Agreste, ela acha que pode simplesmente exigir que eu apareça na frente dela, como se mandasse em mim?

— Não tenho como ir até onde você mora, e muito menos aos locais que você frequenta. Caso não saiba, nem todo mundo é rico como você – Essa última frase acabou saindo involuntariamente, sério.

“Não, eu vou procurar você. Só me diga onde eu posso te achar... Por favor.”

Ok, ela disse “por favor”? Aí tem coisa!

— Eu vou estar hoje no Shopping Beaugrenelle, no final da tarde. Chego lá perto das 18:00hs, mas tenho um compromisso com uns amigos às 19:00hs, então não se atrase.

“Está bem... Obrigada.”

Desligo o celular. Chloé Bourgeois disse “por favor” e “obrigado”. Isso é muito suspeito. Ela não age com gentileza a menos que queira alguma coisa. Mas o que ela iria querer comigo?

Não deixo de pensar nisso enquanto volto com Tuggi de carona. Eu estava muito pensativo sobre aquela ligação que a Chloé me fez, então eu não prestei atenção na minha prima até ela cutucar minha perna no banco do passageiro.

— Ei! – reclama, em voz alta.

— O que foi? – questiono, piscando algumas vezes ao encará-la impaciente.

— Você tá surdo? – Ela indaga – Eu perguntei como foi a conversa lá entre vocês?

— Ah, isso... – Eu tento soar o mais natural possível. – Sim, correu tudo bem.

— Tem certeza? Eu achei estranho quando cheguei em casa e não tinha ninguém. Confesso que fiquei preocupada. Ainda bem que você ligou logo em seguida. Aconteceu alguma coisa?

— Não, não aconteceu nada. – Respondo secamente.

— É que você está meio estranho. – ela comenta, arqueando uma sobrancelha e voltando a encarar o trânsito a nossa frente.

Respiro profundamente.

— É que, no meio do meio treino, recebi uma ligação. Coisa da faculdade para resolver, só isso. Isso e também o fato de que o telefonema me fez lembrar da sinuca de bico em que você me meteu por ter deixado aquele povo entrar no meu quarto.

Minha resposta soou convincente o bastante para Tuggi, pelo que percebi. Bom, ao menos ela parou de tentar tirar respostas de mim. Já é alguma coisa.

— Diego... Me desculpa por ter invadido seu quarto. – a ruiva diz, em tom realmente arrependido e mais uma vez aquele mix de emoções me atinge.

— Tá, tudo bem... – Respondo, desconversando. – Já sobrevivi a coisas piores.

Honestamente, não perdoei a Tuggi com convicção, mas eu realmente não quero ficar espetando ela com isso. Ainda me sinto um pouco culpado pelo que aconteceu com meus amigos. Depois vou me desculpar com eles.

É sério, não sou um cara muito bom em fazer amigos. Não tenho muitos deles por aí. Dois que eu tive, muito próximos de mim, eu perdi de um jeito muito triste. Eu não quero mais perder ninguém.

***

Chloé

Cheguei no shopping Beaugrenelle no horário que o Diego havia marcado e assim que pisei na praça de alimentação me dei com um problema ridículo como o garoto que estava procurando: ele não tinha me dito onde estava. Reviro os olhos quando o encontro depois de ter perdido uns vinte minutos o caçando em meio as pessoas como uma garota desesperada de dezesseis anos. Bufo, enquanto me aproximo do mexicano sentado numa ala que vendia baralhos temáticos usando um boné do Ash Ketchum e mexendo com suas cartas de Pokémon, arrumando-as em três pilhas. Pelo menos meu palpite estava certo.

Ele era um nerd idiota que estaria numa ala de nerds, vestindo alguma coisa nerd e fazendo alguma coisa nerd.

— Diego, eu preciso conversar com você. – digo, me sentando na sua frente sem rodeios.

Ele continua em silêncio, com o rosto meio coberto pelo boné e continuando a mexer com suas cartas. Suspiro, cogitando se aquela tinha sido uma boa ideia mesmo.

— Se você não ficou enfurnado naquela caverna que você chama de quarto nos últimos dias deve ter ficado sabendo dos boatos que Jacqueline está espalhando por aí ao meu respeito. – começo, cruzando os braços e encostando na cadeira. – Aquela garota está dizendo que Alex Zuberg me deixou pra lá porque ele preferia morenas e disse que “eu não dava conta do recado”. É claro que aquela cretina está mentindo, mas esse não é o ponto da conversa.

Olho ao redor e aproximo minha cadeira do mesmo, que, na minha visão, estava mais interessado naquele joguinho ridículo do que eu estava dizendo.

— Diego, eu te procurei porque, apesar de tudo o que aconteceu, eu sei que posso acreditar em você. Sei que você é confiável no final das contas. – revelo, fazendo uma careta e respirando fundo. – Alex me procurou mais cedo e disse coisas absurdas sobre a Gagnon e... Sobre a minha mãe. Eu não acreditei nele no começo, afinal eu tenho motivos para fazer isso. Entretanto, assim que ele saiu eu fui atrás de investigar o que ele tinha dito e...

Ele está cagando e andando pra você Chloé.

Agarro seu pulso, irritada demais para entender o que ele estava murmurando e o puxo com toda a minha força para encará-lo nos olhos.

— Ei, seu idiota, você está me ouvindo? – grito, o sacudindo com força. – Eu estou aqui na maior boa vontade do mundo e você sequer presta atenção em outra coisa se não nessas cartas. — Esmurro a mesa, bagunçando suas pilhas de cartas. – Você está prestando atenção no que eu estou dizendo Broussard?

— Sim, eu estou. – Diego respondeu secamente. – Eu só queria saber quando você ia parar com essa postura falsa de menina humilde e me dizer de uma vez que você precisa da minha ajuda para se vingar do Zuberg.

— O que? – digo, balançando a cabeça. – Não é isso que eu estou dizendo.

— Ah, não? – ele rebate, levantando a cabeça para me encarar com um sorriso sarcástico. – Está me dizendo que não veio até aqui me dizer que quer ferrar com a garota que te colocou um par de chifres na cabeça?

Respiro fundo, apertando a beirada da mesa. Não podia perder o controle, muito menos cair nas suas provocações. Não vai conseguir tão rápido assim Dieguito.

— Eu estou fazendo um dossiê sobre a minha mãe e sobre a Jacqueline. – lhe confidencio, em tom baixo. – Se eu estiver certa e se o que Alex disse não for mentira essas informações podem ajudar sua amiguinha Marinette a resgatar a irmãzinha miserável dela e a encontrar o Adrien. Desmascarar quem está por trás do atentado de Calanque. O incêndio na universidade. Resolver esse inferno que estamos e por um ponto final nisso.

Analiso o rosto do moreno a fim de encontrar alguma pista do que ele estava pensando e se eu estava certa em palpitar se ele estava me chamando de louca naquele exato momento. Apesar de nunca ter entendido muito bem o motivo dele e de Adrien terem se separado do jeito que aconteceu e dos dois terem se afastado, eu sabia que, lá no fundo, Diego jamais deixaria alguém em perigo se pudesse ajudar. Era esse fio quase partido de consideração que buscava encontrar para conquistar sua ajuda.

— E como eu posso ajudar você a ferrar com a vida da filha da empresária de perfumes e com o seu ex-peão? – Diego voltou a falar enquanto bebericava uma garrafa de achocolatado. Agora é minha vez de dar um sorriso irônico enquanto apoiava minhas costas na cadeira novamente.

— Eu quero que você seja meu namorado de fachada. – respondo.

O assisto cuspir o gole de achocolatado que havia bebido no chão e começar a tossir como um louco, engasgado. A reação tinha sido melhor do que eu havia imaginado.

— Como é que é? – ele me questiona, confuso e espantado, penso.

— Você ouviu bem. – retruco, analisando minhas unhas e olhando disfarçadamente para os lados em busca de qualquer coisa suspeita. – O meu plano é simples: vamos dançar conforme a música. Quero manter a suposição de que eu tenha terminado com o Zuberg porque eu quis, não porque ele me traiu. Se eu começar a sair com o filho da cirurgiã premiada de Paris, vai ficar bem claro que toda essa história de traição é balela. Afinal, como ele me trairia se eu já estava de rolo com alguém bem acima do nível dele? – ele emudece e eu balanço os ombros. – Se pensarem que eu estou num caso com você, não haverá suspeita nenhuma do que estou fazendo debaixo dos panos.

Me espreguiço, lhe arqueando uma sobrancelha quando vejo um leve rubor passando por seu rosto.

— E por que a filha do prefeito de Paris sairia com um sujeito esquisitão que tem a cara dele estampada em diversas fotos virais e memes? – Diego me indaga, ainda descrente de que aquilo poderia dar certo.

— Porque, esquisitão ou não, ele ainda está no topo da hierarquia do campus. – continuo calmamente, voltando a encará-lo nos olhos. – Isso e também porque, se ele topar, ele vai deixar de ser o esquisitão dos memes e vai ser o felizardo que namora uma das meninas mais cobiçadas do campus. – me estico para me aproximar do mesmo e acrescento mais baixo, só para que ele ouça: — Além disso, se você colaborar, ainda posso fazer meu pai reconhecer você como alguém importante em Paris por ter conseguido encontrar informações que levaram a captura de uma das máfias mais procuradas da Europa. Benefício pra você, pra mim e pros seus amiguinhos.

Me afasto de novo para analisar suas expressões e balanço a cabeça.

— E então? – lhe pergunto, esperando a resposta que queria.

***

Diego

Rio discretamente comigo. Chloé realmente estava levando o plano a sério.

Mais uma que está ausente do cérebro.

Ela realmente havia sido injuriada em seu orgulho e agora estava realmente disposta a ir até o final com essa vingança. Tamanha determinação me faz lembrar do comportamento de Chloé: a garota mimada que sempre consegue o que quer. Em muitos pontos, ela lembrava o Agreste, e tudo o que eu mais odiava nele. A presunção e arrogância da loira me dá vontade de voar no pescoço dela, e a única coisa que me impede isso era o fato dela ser uma garota.

“Escuta aqui, sua vadia...”, era o que eu estava a ponto de dizer até uma coisa chamar a minha atenção:

Não pode vencer esta luta, Solo, mas existem muitas outras alternativas...”

Perto do lugar onde estávamos sentados, havia uma televisão ligada, exibindo “Uma Nova Esperança”, como parte de uma maratona de Star Wars. Aquela frase, assim como a que Laura havia dito em casa mais cedo, me fez repensar o que ia fazer mais uma vez.

Você ainda acha que pode ter tudo, né Chloé? Igual ao Agreste! Foi traída, levou um choque de realidade e percebeu que não pode ter tudo o que sempre quer. Alguém te atingiu, te feriu, verteu o seu sangue, e você, que sempre julgou estar acima dos meros mortais, não tolera isso! Então, precisa de um palhaço, um fantoche para lhe ajudar na sua vingancinha pessoal. Se pelo menos você realmente quisesse desabafar comigo, talvez eu até considerasse ser um pouco mais complacente com você, mas você provou agora mesmo que não merece empatia.

Ainda acha que é a rainha da escola, Chloé? Você é como Belsazar: seus dias de glória acabaram, e seu reino será tirado de você. Vou lhe mostrar isso da forma mais clara possível, e vou fazer com que você pague por tudo o que fez comigo e com um monte de gente, e também pelo que você pretendia fazer com a Marinette e com meus amigos. Mas por hora, sigamos com seu plano. Quero que você ainda pense que está no controle, assim vai ser mais divertido quando tudo desabar e você se perguntar como isso aconteceu.

Acha que é rainha? Pois eu sou Robespierre!

— Ei! – a escuto dizer, estralando os dedos na frente do meu rosto.

— O que foi? – digo, piscando os olhos.

— E então? – ela me questiona, repetindo o que havia dito e arqueando uma sobrancelha. — Você topa fazer essa aliança?

Por mais ridículo que aquilo fosse, era uma oportunidade de resolver o problema da Laura. Se o que a Bourgeios fosse real, poderíamos acabar de uma vez por todas com a Surveillance, nos livrarmos das ameaças sem fundo que foram feitas e ainda inocentar o canalha do pai dela. Era o destino me dando uma segunda chance para me redimir com meus amigos. Estava a ponto de responder quando meus colegas do shopping chegaram para jogar baralho Pokémon comigo: Max e Nathaniel.

— Ei Diego, o que é que você e a Chloé Bourgeois estão conversando? – o garoto de suéter verde nos indaga, arrumando os óculos de grau com uma careta.

Eu e a loira nos entreolhamos enquanto ela se levantava da cadeira a minha frente e se colocava ao meu lado.

— Ué, vocês não sabiam? – respondo com um sorriso – Ela é a minha namorada.

— Ah sim, claro, e eu sou um usuário de Stand – Nathaniel retruca, com uma gargalhada irônica.

— Vamos Chloé, conte a eles. – incentivo, os indicando com a cabeça sem tirar o sorriso do rosto.

— É verdade. – Chloé diz, enrolando os braços ao redor dos meus e me dando um beijo na bochecha. Quando volta a olhar para os dois ambos estão boquiabertos demais para dizer alguma coisa, e eu não seguro uma risada. – Eu e o Diego estamos namorando. Eu apenas vim trazer ele para cá, já estou de saída. – anuncia, abaixando ao meu ouvido e dizendo para os dois ouvirem: — Vou esperar sua ligação mais tarde.

Quase não consigo controlar as risadas escandalosas que insistiam em sair de mim enquanto estou na mesa e a loira sai de cena, me lançando um beijo falso cheio de afeto. Sorrio, me virando para começarmos nossa partida de Pokemón. Um sorriso digno de Lex Luthor achando uma jazida de kryptonita.

— Agora parça, me fala um pouco do seu Stand – solto, dando as cartas e devolvendo a piada do ruivo desenhista.