Stay with me
3 Encenação
Notas iniciais
Viktor era todo sorrisos na festa, talvez, fosse o efeito da bebida, pensou Yūri, que ficou sentado à mesa, banqueteando-se e usufruindo da visão panorâmica de todo o salão.
Observou Viktor dançar com Sala Crispino sob os olhos de águia do irmão dela, Michele Crispino, do outro lado da pista, enquanto o japonês era alvo da piscadela e sorrisos convidativos de Viktor, sendo correspondidos com ainda mais graça. Ao final da música, o russo agradeceu a patinadora italiana pela dança e voltou determinado para onde Yūri se encontrava.
Yūri tinha em mente que eram apenas brincadeiras, mesmo assim, era difícil se manter indiferente quando se tratava de Viktor, que parecia saber exatamente como deixá-lo sem reação muitas das vezes; as carícias, o tom de voz, o perfume que usava ou como se comportava, tudo se tornava gatilho para deixar Yūri aturdido.
Mas Viktor não brincaria com isso se fosse de verdade, certo?
Viktor obstruiu sua visão, de repente. O champanhe fazia parte de seu hálito.
— Venha dançar comigo — pediu enquanto removia o blazer dos ombros, pendurando-o na cadeira.
Yūri riu, descontraído.
— Não acha que eles viram Viktuuri demais por hoje? — Brincou, enchendo-se de alegria com a risada espontânea do outro.
Viktor se aproximou mais. Gotículas de suor salpicavam seu rosto, não demoraria para que os fios platinados grudassem na pele, e Yūri teve que se conter para não tocá-los e ajeitar a franja bagunçada que caía sobre o olho esquerdo de seu ídolo, treinador e... Se perguntava quando teve dificuldade de respirar.
— Talvez eu não esteja suficientemente satisfeito — Viktor enfatizou, num tom sedutoramente baixo enquanto pegava na mão de Yūri – outra vez naquela noite – para conduzi-lo ao salão. Yūri, porém, permaneceu na cadeira, parecia indeciso a princípio. — Eu vou tentar não pisar nos seus pés se é isto que te preocupa. Ou... me deixar levar pelos seus encantos, ainda que já tenha me seduzido antes com Eros, ou ainda...
— Céus, Viktor! — Yūri o interrompeu, sabia que as próprias orelhas estavam vermelhas de vergonha só pela ardência. — Não fale mais nada, só vamos dançar.
Desta vez, Yūri puxou o russo para o salão, não muito longe daqueles que já ocupavam a pista e dançavam, mas manteve-se discreto o quanto fosse possível. Sabia que Viktor se divertia às custas de seu constrangimento. Ele se tornava um verdadeiro libertino quando bebia, era bem verdade. Mas, visto em retrospecto, Viktor o provocava até nos treinos privados. Pretendia expor uma outra faceta que Yūri escondia? Não havia feito isso ao compor a coreografia Eros? O que diabos Viktor queria com essas provocações? Era algum lembrete de que tudo aquilo era só uma farsa? Ou era a sua vingança por Yūri recusar a sua oferta?
Uma música lenta começou a tocar, Viktor não tardou de se aproximar devidamente e tomar o japonês como seu parceiro.
Yūri não teve tempo de pensar ao sentir a leve pressão que a mão de Viktor fazia em suas costas e ter sua mão segurada com ternura com a outra, o que mostrava que ele seria conduzido. Afinal, estava envergonhado e sóbrio demais para tomar a dianteira numa dança.
Viktor iniciou os passos e Yūri o acompanhou com leveza. Seus rostos estavam tão próximos que Yūri pôde notar outros detalhes que chamavam sua atenção e, para evitar encará-lo, se escondeu sobre o ombro de seu condutor. E um pensamento se fez presente.
— Achei que eu já estivesse acostumado com isso... — dizia muito mais para si mesmo. Via o salão girar lentamente ao seu redor enquanto encontrava conforto junto a Viktor naquela dança suave. Mas tinha que admitir que estar ali era diferente, era até prazeroso como da vez que dividiram a pista de gelo na apresentação de gala.
— Fala sobre dançar comigo? — Viktor o fez retomar o assunto, trazendo seu parceiro no leve embalo da melodia.
— Sobre como começamos a encenação — relembrou. — Para ganhar o clamor do público. E agora... estamos fazendo isso de novo. — Os passos da dança, antes tão precisos, foram sendo lentamente desmotivados. O meio abraço involuntário foi sendo aberto por desistência. Yūri não notou a princípio, e acrescentou: — Eu não sei, pensei que seria mais fácil...
— Encenação. — A voz de Viktor denunciou um amargor inesperado ao parafraseá-lo.
Era o que eles sempre faziam, apesar de não anular a preocupação e zelo genuínos que ambos tinham um pelo outro; o que estavam fazendo, acreditava Yūri, era um tremendo teatro. Tornar-se o centro das atenções, mesmo entre os colegas, até o fim do torneio esportivo fazia parte do jogo iniciado por eles, ano passado. E nunca fora estabelecido um fim para aquilo. Embora não tenha levado em consideração que Viktor pudesse estar mais alegre pela quantidade de champanhe ingerida e simplesmente esquecido de seu papel, por ser um cabeça-oca, aquela dança era só mais um exemplo disso.
Mas Yūri não deixou de notar o tom, ainda que não esperasse ouvi-lo. Interpretou como uma pergunta.
— Sim, digo sobre o que estamos fazendo agora — esclareceu.
— Entendo — Viktor respondeu sendo pego pela tosse algumas vezes, interrompendo de vez a dança ao cobrir a boca com as costas da mão. Se recompôs antes de prosseguir: — Minha garganta está seca. Você não se importa de pararmos por aqui, certo? Afinal, é só uma encenação. — Não esperou por uma resposta. Cinicamente, fez uma mesura diante do japonês antes de se afastar com o semblante mais vazio que exprimia tudo, menos a alegria de minutos atrás.
— Vi-Viktor...
Yūri olhou ao redor ao constatar que foram alvos de olhares curiosos. A reação de Viktor pegou Yūri de surpresa. O que estava acontecendo? Viktor não deveria estar tão afetado com isso, a menos que não estivesse mais fingindo como Yūri pensou que estivesse. Tal conjectura fez Yūri tremer na base. Teria sido culpa sua por ter correspondido sem saber das intenções de Viktor? Seria culpa do Viktor por, talvez, fantasiar algo que não acontecia de verdade? Acreditava mesmo nisso? Quando deixou de ser encenação? Tantas perguntas passaram pela sua cabeça que Yūri percebeu que ficou tempo demais parado com o olhar vazio enquanto via Viktor se esquivar das pessoas dançando na pista.
Seguiu pelo mesmo trajeto, vendo Viktor parar em uma mesa com Yakov e Lilia Baranovskaya e outros técnicos e atletas, juntando-se à conversa. Yūri sentou-se numa mesa perpendicular, onde Phichit, Chris, Otabek e Yuri Plisetsky se acomodaram para aproveitar o banquete. Pouco conseguiu extrair da conversa entre os presentes; até mesmo as cutucadas de Phichit ou as provocações de Yuratchka — ou Yurio – não surtiram tanto efeito.
— Ei! Presta atenção quando falam com você, seu porco! — Yuri parecia mesmo ofendido ao ser ignorado.
Porém, Yūri não respondeu. Deslizou os olhos para Viktor quando ele voltou a se levantar da cadeira com a mão na boca, contendo a tosse. Yūri ergueu-se de supetão, claramente preocupado e seguiu até o banheiro para onde Viktor entrara. Da porta, pôde ouvir a tosse ganhando força, vinda do peito; seca e sufocante.
Abriu a porta e deu de cara com ele na pia, que já conseguia controlar as expirações bruscas.
— Viktor... — Se aproximou para tocar as costas dele, que tinha o rosto vermelho e os olhos lacrimejados refletidos no espelho. — Podemos sair mais cedo da festa, ir...
— Estou bem, obrigado — respondeu com frieza atípica.
— Viktor, por favor, não seja teimoso.
O som da torneira aberta ficou por um tempo ocupando o ambiente. Mal se ouvia o som abafado da festa. Viktor molhava o rosto sem pressa usando as mãos. Yūri observava calado a imagem refletida no espelho, pensava se devia cobrar a promessa, quando o outro respondeu:
— Não estamos em público, não tem que fingir se preocupar.
Yūri sentiu-se ofendido. Ou mais do que isso. Sentiu-se injustiçado e pensar nisso, fez seu peito doer.
— Está sendo injusto comigo. Por que eu estaria fingindo me preocupar com você? Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu não podia adivinhar que...
— Que levo a sério? — Amenizou o tom de voz, virando-se para encarar Yūri. A água em seu rosto respingava na camisa preta, mas Viktor não se importou. — Não tenho dado ouvidos a razão ultimamente, Yūri. Eu só agi impulsivamente, acho, quando me dei conta que não era só desejo... — Fez uma breve pausa. — Tenho em mente que isso esteja me deixando doente.
Yūri ainda estava ferido com a sentença que lhe foi associada, mas não pretendia repetir o mal-entendido. Queria entender exatamente o que Viktor lhe confessava, enquanto seu coração pesava em seu peito com a sinceridade que pairava nos olhos do russo. A porta do banheiro foi aberta, interrompendo os pensamentos e chamando a atenção dos dois. Yūri sabia que, naquele momento, a coragem que tinha para perguntá-lo o que era tudo aquilo, não daria o ar da graça em outra oportunidade.
JJ levantou os olhos e dirigiu-lhes o seu típico sorriso zombeteiro enquanto passava pelo banheiro.
— Sempre teremos alguém exagerando na dose do champanhe — dizia não tão surpreso ao avaliar o estado de Viktor.
Por sua vez, Viktor ficou em silêncio. Deu-se ao único trabalho de secar o rosto com o papel, ajeitar minimamente os cabelos na frente do espelho e se dirigir à saída. Yūri observou tudo, sem conseguir mover um músculo. Mal ouvia o que JJ ainda declamava próximo ao mictório, olhou para o próprio reflexo no espelho e não gostou do viu; os olhos marejados, tentavam conter sua frustração.
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