Stay With Me

10 Dia Bom, Dia Ruim


Cheguei a frente do cinema e o procuro analisando o local, não está muito cheio, apenas algumas pessoas na fila para comprar os ingressos. Olhei para o relógio e já estava no horário marcado, posso dizer que sou a pessoa mais impaciente para ficar esperando alguém! Sentei na escada e fiquei mexendo no meu celular por um tempo, até que alguém senta do meu lado de repente, ao olhar para o lado me deparo com ele sorrindo para mim.

– E ai? — Digo sorrindo e guardando o celular na calça.

– Me desculpa pelo atraso, ainda não me acostumei com esse shopping.

– Sem problema!... — Levantamos em seguida e vamos para a fila dos ingressos — Que filme vamos assistir?

– Não faço ideia... Qual você quer assistir?

– Porque eu tenho que escolher? — Pergunto meio sem jeito.

– É melhor nisso do que eu!

– Eu não sei... Vamos descobrir... Escolhe você!

– Vamos acabar assistindo Tartarugas Ninjas — Zac simplesmente comenta.

– Eu topo!

– O que? — Ele se surpreende.

– Sério! Eu já vi com a Narayani e a Ana, é bem legal.

– Você vai ver um filme que já viu? Isso não é justo.

– Eu não ligo, eu faço isso direto, assistir "Scream 4" umas quatro vezes no cinema — Dou uma leve risada no final — Eu sei, é muito louco!

– Não! — Ele diz sorrindo de canto e me encarando de um jeito tão simples e tão encantador.

Abaixo a cabeça e levo meu olhar para a cabine que nos gritava na fila, seguimos até ela e compramos dois ingressos para assistir a próxima sessão de Tartarugas Ninjas 3D. Faltava um pouco mais de uma hora para a próxima sessão, portanto resolvemos caminhar pelo shopping.

Conversamos sobre muitas coisas, ele falou o quanto surfa bem e que tem vontade de entrar em campeonatos, eu claramente dei total apoio.

– Você pode ir me ver surfar quando quiser!

– Claro... Vai ser legal.

– Eu posso te ensinar.

– Ooohhh não... Creio que isso não vai ser possível.

– Por quê?

– Eu não levo jeito pra ficar em cima de uma prancha de surf — Sinto meu rosto pegando fogo, minhas bochechas devem estar mais vermelhas que uma maçã.

– Eu te ajudo!

Tudo isso que está acontecendo parece um sonho pra mim, eu não sei ao certo como agir em algumas situações, me acho bobo em muitas e me culpo por poucas, mas toda vez que fico perto dele eu me sinto outra pessoa, como se mais nada importasse e eu pudesse seguir em frente. Porque eu te juro, de todas as coisas do mundo, eu só queria ficar olhando pra você.

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Sentamos juntos para assistir ao filme, o pote de pipoca fica entre a gente no braço da cadeira. Em algumas cenas eu podia ver que ele estava curtindo o filme, isso é legal. Por alguns instantes ele me olhava e eu o olhava e então voltava a olhar para a tela.

Minha mão está no braço da cadeira apenas para me apoiar em algum canto, de repente sinto sua mão tocar levemente a minha, em um reflexo indesejável eu puxo minha mão e respiro fundo encarando o filme, posso sentir que ele ainda me olha e depois de segundos voltou sua atenção para o filme.

Se eu me odiei por isso? Sim! Mas ao mesmo tempo se eu continuasse ali eu poderia me odiar ainda mais.

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Voltando pra casa, já está de noite e as estrelas no céu pareciam brilhar mais do que nunca. Passamos de carro em frente a praia que eu costumo ir para ficar somente olhando o mar, a rua está completamente deserta.

– Isso é demais — Comenta Zac.

– Eu sei... Veio pra cá quando estou prestes a explodir!

– Já trouxe muita gente aqui? — Pergunta Zac.

– É só uma praia... Não é a mais popular, mas tem algumas pessoas que conhece...! Só trouxe poucos amigos.

Zac estaciona o carro e retira o cinto, olho pra ele sem entender absolutamente nada.

– O-o que ta fazendo?

– Vamos pra praia — Ele diz.

– Oi?

– Vamos... — Ele sai do carro e bate a porta.

Com um sorriso no rosto, eu retiro meu cinto e saio do carro. Como uma pessoa pode ser tão louca assim? Eu não acredito que ele está fazendo mesmo isso... Corro pra perto dele e vamos caminhando até uma escada que dá para a areia.

– Já é tarde — Digo, sei que daqui apouco minha mãe vai estar me ligando para saber onde estou.

– São oito horas da noite, não se preocupa.

Descemos a escada e retiramos nossos sapatos, mesmo descalço Zac continua com seu estilo impecável, seu short jeans claro que ia um pouco até o joelho e tinha a ponta dobrada pra fora e pra cima, com uma blusa branca gola V.

A praia está vazia, não está ventando e apenas ouvimos o barulho das ondas quebrando na beira do mar. Sentamos-nos no chão e ficamos de frente para o mar, Zac olha para mim.

– Você ainda não disse quando é seu aniversário.

– Não?

– Não!

– 27 de Abril — Sorrio — E o seu?

– 07 de Novembro!

Sorrio de canto e volto minha atenção para o mar.

– Tem alguma coisa te chateando? — Zac me pergunta tocando delicadamente em meu ombro.

– Não! — Respondo seco, olhando para frente sem nem conseguir piscar. Não sei, mas sinto que minhas feições congelaram, é como algo que me sempre me faz lembrar do que eu sou, e sempre na hora que eu tento não pensar nisso.

Ele sente mais ao meu lado e ficamos sentados por algumas horas apenas observando o mar. Foi o silêncio mais perfeito que eu já vivi, não por eu precisar disso, mas por estar com Zac ao meu lado, e dividir isso com ele. É engraçado que ele não faz ideia de quanto me faz bem.

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No dia seguinte conversei com Zac praticamente o tempo inteiro, ele me fazia sorrir com suas bobagens ditas no whatsapp. Minha mãe me grita para almoçar, eu finalmente estou tendo fome de novo, estou voltando a ser quem eu era! Desci rápido para cozinha e peguei meu prato de lasanha, aquela que só minha mãe sabe fazer e é a melhor do mundo.

Como de costume todos se reúnem na sala e assistem programas de domingo à tarde. Eu viro para a escada e paro no primeiro degrau, olho para trás e os vejo conversando e comendo, respiro fundo e me reúno a eles.

– O queeee? Vai comer aqui com a gente? — Brinca Aline.

– Não acredito, que milagre — Diz Bruna.

Só dou uma risada e sento na mesa. Pela primeira vez consegui terminar meu almoço sem que ninguém falasse algo a respeito de namorada ou algo do tipo... Conversamos como uma família comum e feliz, eles riram das minhas piadas, falavam sobre o aniversário de Bruna que estava chegando e deram palpite sobre eu ajudar com o som... Por um instante eu me senti bem de novo, me senti parte da família... Era como se todos os meus problemas tivessem sumido.

– Eu encontrei com o Xavier hoje... — Comenta meu Pai. Xavier é seu amigo de infância — Ele veio falar do filho dele que saiu pra viajar com a namorada...

É, estava bom demais para continuar assim... Foco minha atenção na televisão, Aline saiu da sala para lavar a louça com minha mãe.

– Ele perguntou sobre o Felipe... — Meu Pai tentava de todas as formas chama a minha atenção.

Eu ainda não sei por que eu me dou o trabalho de achar que tudo pode ficar bem.

– Perguntou se ele já estava namorando, eu disse que ele estava quase... Então ele respondeu "Aiii Helio, cuidado hein, daqui apouco seu filho muda de lado", eu disse "Está louco? Vai pra porra, meu filho é homem"... ai ele "Daqui apouco vai estar igual ao Chico, achando que o filho dele é bicha"...!

Ainda estou tentando entender se não é a intenção do meu Pai me deixar mal ou acabar completamente comigo, então qual é? Qual o sentido dele falar isso tudo se não quer de verdade que eu surta ou sei lá?

– Ele vem no aniversário da Bruna, se vier falar contigo, é só xingar ele, ele vai ver como você é — Diz meu Pai.

Levanto e vou para o meu quarto, bato a porta e deito na cama, ponho minha cabeça no travesseiro e fico encarando o teto, observo o ventilador girar... Deixo que o silêncio põe as coisas nos seus devidos lugares.

Como algumas pessoas conseguem encarar isso tão bem? Não sei como cada um reage, mas acho que eu não estou reagindo da melhor forma, eu não quero isso... Se um dia eu contar para eles, tenho medo do que meu Pai seria capaz de fazer... Não suporto pensar que uma hora esse dia vai chegar, pode não ser agora, mas ele está ali... No horizonte, apenas esperando que eu chegue e cai...!