Stay Alive

1 Prólogo: Eu preciso de você


Midoriya Izuku estava com um mau pressentimento. Nada havia acontecido de anormal para que ele se sentisse assim. Havia acordado, tomado banho, comido com sua mãe, pegado o metrô e estava tendo as aulas de sempre. Sua rotina estava completamente normal. Mas mesmo assim, o garoto sentia um mal estar pesando em seu peito e não sabia o motivo. Nem mesmo os xingamentos de Bakugou o perturbaram essa manhã. Ele estava completamente alheio ao que ocorria a sua volta, apenas anotava coisas em seu caderno de pesquisa de heróis que tanto gostava enquanto fingia prestar atenção na aula.

-Hey, Deku! O que está fazendo aí? Aposto que tá escrevendo merda sobre heróis, não é, seu Nerd de merda? — Bakugou sussurrou para que o professor não ouvisse, fazendo seu grupinho rir com desdém.

Midoriya ignorou e prosseguiu com suas anotações. Já estava acostumado em ser xingado, em apanhar e em ouvir as criativas sugestões de Bakugou de como Midoriya poderia se matar para alegrar um pouco a classe.

-HEY, SEU BOSTINHA, TEM SE FAZENDO DE SURDO, É? — Esbravejou Bakugou, fazendo toda a classe voltar sua atenção para a discussão.

Antes que o professor pudesse intervir, a diretora entrou na sala, sem nem mesmo bater na porta. Ela parecia muito preocupada.

-Senhores Bakugou e Midoriya, por favor, me acompanhem.

Os dois caminharam enquanto os olhares curiosos da classe os seguiam. Será que ela estava passando por acaso quando ouviu a situação? E, mesmo que fosse o caso, não era comum a escola tomar esse tipo de atitude.

Os três entraram na sala da diretora e se sentaram nas cadeiras que a mesma indicou, enquanto ela dava a volta em sua mesa e sentava em sua própria cadeira. O silêncio se instalou no local, então a diretora respirou fundo e disse em uma voz profissional e solidária:

-Senhores, nessa manhã um vilão que há muito tempo era procurado, foi localizado no bairro de vocês.

-E daí? — Bakugou questionou.

-O SnowKill? — Midoriya perguntou, curioso.

-Que nome lixo... — Murmurou baixinho Bakugou.

-Sim, SnowKill. Os heróis estavam perseguindo ele, mas não obtiveram sucesso na captura, então Endeavor apareceu para lidar com isso.

-E daí? — Bakugou perguntou mais uma vez, impaciente.

-Endeavor teve êxito na captura, mas não antes de lutarem...

-E daí? Vá logo direto ao ponto! — A impaciência de Bakugou transparecia em seu rosto.

A diretora o encarou e respirou fundo novamente, mas não parecia irritada com a atitude do menino. Depois de mais alguns segundos, ela tornou a falar, com um tom cauteloso:

-Na luta o herói acabou incendiando algumas casas e prédios do bairro e um deles desabou. Os feridos foram levados ao hospital mais próximo.

Bakugou não disse nada dessa vez. A quietude da sala era enorme, dando a impressão que os três estavam segurando a respiração, processando o que foi dito.

-Nossas famílias... — Midoriya começou, com uma voz trêmula, mas não foi capaz de terminar a frase, sentindo um medo enorme crescer dentro de si.

-Não tenho informações sobre o estado de seus familiares, mas acho crucial os senhores se dirigirem ao hospital imediatamente. Um professor irá acompanhar vocês.

Izuku agiu no automático nos minutos seguintes. Estava em choque. Apenas caminhou junto com Bakugou e o professor designado, ignorando os questionamentos irritados e apavorados de Bakugou, ignorando o trânsito que apenas deixava o clima no carro mais denso e ignorou também a algazarra que se encontrava o hospital. Só voltou a raciocinar direito quando um médico chegou e os encaminhou para a UTI.

Ela estava abarrotada de enfermos e, por Izuku ter ficado desligado no caminho, Bakugou foi o primeiro a informar seu sobrenome, então eles foram com o doutor até uma mulher, que estava sentada, com os cabelos louros desgrenhados e roupas sujas, recebendo alguns curativos. Não parecia muito machucada.

-Katsuki? O que está fazendo aqui? — A mulher questionou, confusa, como se tivesse encontrado os garotos em uma cafeteria ou shopping.

-O que você acha? A diretora contou o que aconteceu e...

-Não precisa se preocupar comigo! Eu estou bem! Você acha que fui feita de açúcar? Poucas pessoas ficaram gravemente feridas. Agora, dois garotos de 10 anos fora da escola, isso sim é preocupante... — Ela repreendeu levemente os meninos, com um sorriso tranquilo, numa tentativa de acalmar o nervosismo deles.

Ouvir aquilo acalmou Midoriya. Poucos haviam se ferido seriamente. Provavelmente sua mãe tinha quebrado o braço, na pior das hipóteses.

Ignorando a conversa dos loiros, Izuku disse seu sobrenome para o médico, que por sua vez conferiu na prancheta e respondeu que não havia ninguém que correspondia a informação. Talvez o homem tenha percebido o olhar de desespero do menino, pois acrescentou com uma voz tranquilizadora que muitos chegaram desacordados, então não conseguiram se registrar e que Midoriya poderia andar pelo local para procurar sua mãe.

O garoto assentiu e passou infernais 15 minutos circulando pelos leitos, quando seu olhar pousou no corredor. Suas pernas pararam na hora e ele travou.

Ele a viu por apenas um instante, mas foi suficiente. Sua mãe estava ali, desacordada, ensanguentada e machucada, sendo levada em uma maca por uma equipe médica, que corria com pressa.

Midoriya não pensou duas vezes. Disparou atrás daquelas pessoas, gritando para chamar a atenção delas. Um enfermeiro que estava mais para trás, parou de correr e esperou Midoriya alcançá-lo.

-MINHA MÃE! É A MINHA MÃE! O QUE ACONTECEU COM ELA? — A criança gritou, respirando com dificuldade por ter corrido, sentindo seu corpo trêmulo.

-Acalme-se. Venha, vamos sentar. — A voz do enfermeiro era calma e confiável.

Eles se sentaram em cadeiras na sala de espera e antes que Midoriya pudesse bombardear o homem de perguntas, o enfermeiro questionou:

-Não tem nenhum maior de idade com vocês? É só você e ela?

-Só eu e ela. — Disse rapidamente o jovem Izuku, controlando sua vontade de correr dali e ir em direção de onde os médicos levaram sua mãe.

O enfermeiro pareceu ponderar um pouco a situação, refletindo se alguém tão jovem poderia ouvir algo assim, mas então suspirou e disse, com sinceridade e cautela:

-Sua mãe estava no prédio que pegou fogo e desabou. Ela desmaiou com a fumaça e se machucou gravemente com o incêndio e o desmoronamento. Ela quebrou 4 costelas, as pernas, comprometeu alguns órgão internos, teve hemorragia interna e traumatismo craniano. Assim que chegou, a levamos para a ala cirúrgica e a induzimos a um coma, para que ela não sofresse mais e na esperança de que o quadro dela pudesse se estabilizar. Ela está sendo encaminhada para outro setor, para mais uma bateria de exames e procedimentos cirúrgicos.

Midoriya nem imaginava que um ser humano era capaz de machucar tanto o seu corpo ao mesmo tempo. Ele apenas assentiu com a cabeça e encarou seus pés. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ele tremia.

-Ela está viva e vai ficar bem. Pode confiar. Sua mãe está em boas mãos.

As palavras do enfermeiro não o tranquilizaram muito. Izuku agora chorava compulsivamente. Por que? Por que ela? Por que um herói faria algo tão inconsequente? Por que uma pessoa que tem o propósito de salvar vidas, feriu sua mãe nesse ponto? E a troco de que?

O menino sentiu algo se quebrando em seu peito. Ele chorava muito e só queria ver sua mãe. O enfermeiro o guiou até o banheiro e quando Izuku entrou na cabine, se ajoelhou no chão e ficou encarando a água límpida do vaso sanitário. Não conseguia vomitar, por mais que sentisse muitas coisas presas em sua garganta. Ele apenas chorava e tremia compulsivamente, soluçando, sem conseguir gritar ou falar. Um único pensamento se repetia em sua cabeça: "Por que? Por que? Por que? Por que? Por que? Por que? Por que? Por que?".

O garoto não sabia quanto tempo havia ficado desse jeito, mas quando se levantou, abaixou a tampa do vaso e sentou-se na privada, sentiu as pernas formigando e os joelhos latejando de dor. Com as mãos trêmulas, tirou o celular do bolso e, tentando ignorar o wallpaper que continha os sorrisos felizes e despreocupados dele e de sua mãe após um dia no parque, ele ligou para um contato que nunca havia cogitado ligar. Nem sequer conseguiria ligar para ele caso sua mãe não tivesse registrado o contato no celular.

Após alguns segundos, uma voz masculina atendeu:

-Alô?

-Pai... É a m-mamãe... Ela se machucou, pai... E-eu... E-eu preciso... Preciso de você...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.