Stay Alive

41 Segundo Dia - Manhã


Notas iniciais
Espero que gostem!

Carreiristas

Depois de todos os tributos terem fugido do Banho de Sangue, os Carreiristas foram os únicos que permaneceram na Cornucópia, com todas as dezenas de armas, mochilas, remédios e comidas que não tinham sido pegas pelos outros.

Durante todo o resto do primeiro dia dos Jogos, eles percorreram a floresta em turnos, atrás de algum tributo perdido que pudessem matar. E não encontraram ninguém. Então, ao cair da noite, eles decidiram encerrar as buscas por aquele dia. Fizeram um banquete com parte da comida que tinham, fizeram um inventário dos itens que tinham disponíveis e começaram o revezamento para dormir por volta das 22h.

Com todos os sacos de dormir e cobertores, os cinco tiveram uma noite confortável e sem incômodos. Procuraram descansar o máximo possível, para estarem firmes e fortes para continuar a matança no dia seguinte, e se dividiram em turnos únicos de uma hora e meia.

O primeiro turno foi de Louise Clewater, e, logo, que ela foi substituída por Rebekah VonRison, a garota pôde dormir tranquilamente o resto da noite – o que teria sido ótimo, não fosse pela enxaqueca com que acordou pela manhã.

Foi um sacrifício abrir os olhos com sua cabeça latejando, mas Louise o fez, dando de cara com um céu cor-de-rosa. Amanhecia – devia ser pouco mais de 6h, o que significava que ela viraria para o lado e continuaria dormindo se estivesse na casa dela. Mas não podia se dar a esse luxo na arena.

Sentou-se no saco de dormir, massageando a testa, e reparou que tinha sido a última a acordar. Os sacos em que seus aliados tinham dormido estavam vazios, e Louise se assustou ao pensar em onde eles poderiam estar, até se dar conta que Carter Trent estava sentado não muito longe dali, olhando para o horizonte, imerso em pensamentos. Mas não havia sinal dos outros.

Louise se espreguiçou e tentou domar os cabelos bagunçados penteando-os com os dedos e depois os amarrando em uma trança, para causar a impressão de que não estava preocupada, antes de enfim indagar:

— Onde está todo mundo?

Carter indicou o mar com o queixo, como se já estivesse esperando que ela perguntasse.

O rosto da garota assumiu uma expressão de incredulidade quando olhou para lá e viu Ryan, Elizzy e Rebekah vestidos somente com a roupa de baixo, nadando e mergulhando na água. Pareciam estar se divertindo, rindo, dando gritinhos e salpicando água um nos outros.

Louise não se surpreendia por Rebekah, que era do distrito da pesca e provavelmente tinha crescido no mar, estar tão à vontade lá, mas e quanto a Ryan e Elizzy? Como podiam se sentir seguros em um lugar que mal conheciam?

Bufando, ela saiu de seu saco de dormir e se arrastou até os remédios, procurando algo para sua enxaqueca.

Enquanto isso, Rebekah estava tendo um bom momento no mar. Estar lá era como estar em casa, nadando com seu melhor amigo Zac. Não fazia vinte minutos que estava na água, mas já sentia que tinha lavado o corpo e a alma – os pensamentos fluíam com clareza, seu cansaço tinha sumido. Ela se sentia pronta para enfrentar o dia.

Era uma pena que Ryan e Elizzy também tivessem entrado no mar, e fizessem barulho demais para Rebekah poder considerar aquele momento perfeito. Para evitá-los, ela resolveu passar a maior parte do tempo submersa, e ainda saiu da água antes do que pretendia, pegando a toalha e as roupas que tinha deixado na margem, se arrumando e então voltando para a Cornucópia.

Por Carter ser de seu distrito, Rebekah já sabia bem o jeito sério e quieto do garoto, de forma que não se importou com o modo que ele estava. Mas não era tão normal que Louise parecesse tão mal-humorada – ela parecia sempre querer parecer que não ligava para nada e para ninguém. Justamente por isso, Rebekah não resistiu a fazer uma pequena provocação, e torceu os cabelos molhados perto dela, fazendo com que a água espirrasse em Louise.

Ela fez uma careta e abriu a boca para xingar, mas Rebekah falou antes:

— Opa. Desculpa. Mas pelo menos agora você já tomou o seu banho.

Louise revirou os olhos e voltou a comer seu bolo, enquanto a outra, insatisfeita por não ter conseguido uma briga, sentou-se ao seu lado e pegou um cantil de suco de maçã. Sabendo dos perigos de comer antes de nadar, tinha deixado o café da manhã para quando saísse, e estava faminta.

Elizzy e Ryan chegaram pouco depois, conversando sobre o Banho de Sangue e a luta contra os tributos do Distrito 11, ambos agora mortos. Os dois tinham desenvolvido uma espécie de amizade tortuosa desde o dia anterior, o que, considerando que apenas uma pessoa sobrevivia aos Jogos Vorazes e os dois fariam de tudo para que essa pessoa fosse eles próprios, não fazia diferença alguma.

— Então, vocês acham que todos os tributos já estão acordados? – Perguntou Ryan, enquanto os dois se sentavam junto às meninas e começavam a escolher o que iam comer.

— Quase sete da manhã, calor, sol, arena... Sim, provavelmente – respondeu Rebekah.

— E qual é o plano para hoje? – Elizzy começou a desembrulhar uma barra de cereal.

— Sair da Cornucópia – Carter disse antes de todo mundo. Todos pararam para olhá-lo. – Não vamos chegar a lugar algum fazendo incursões por áreas próximas. Temos de ir efetivamente atrás dos outros.

— E quanto a todos os nossos suprimentos? – Louise questionou, sem parecer gostar da ideia de abandonar o local.

— Vamos juntar tudo que pudermos carregar e ir. Qual é o problema de vocês? – Carter aumentou brevemente o tom, perdendo a paciência, e os outros não gostaram disso.

— Não temos problema algum, ao menos que você fale assim com a gente de novo – revidou Elizzy. – Tudo bem, vamos arrumar nossas coisas e sair daqui assim que terminarmos de comer – ela forçou um tom exageradamente doce e irônico.

E eles o fizeram. Durante algumas horas, abarrotaram mochilas e amarraram suprimentos com cordas, da melhor maneira possível para eles carregarem. Consultando o inventário, ficou mais fácil saber o que precisavam levar.

Tirando pelas discussões ocasionais, eles foram rápido, e já tinham tudo pronto pela metade da manhã, quando foram para a floresta, com suprimentos nas costas e as melhores armas da Cornucópia em mãos.

Embora às vezes tivessem vontade de simplesmente acabar com aquilo e matar uns aos outros, sabiam que estavam fazendo a coisa certa em se unir para acabar com os outros tributos primeiro.

*********

Sanderson Cutner – Distrito 10

Ele não tinha achado água. Não tinha achado frutas conhecidas. E o único animal que conseguira comer tinha sido o esquilo bestante do dia anterior.

Por isso, apesar de ser arriscado, ele fazia o caminho de volta para a Cornucópia naquela manhã.

Cenas do Banho de Sangue estavam presas em sua mente, tentando incentivá-lo a fazer o caminho de volta e continuar sua busca por água e comida, mas ele sabia que poderia facilmente morrer tentando. Estando já naquele estado de privação, era melhor seguir para onde certamente teria suprimentos – mesmo que os Carreiristas pudessem continuar naquela área, o massacre do dia anterior já tinha acabado.

Sanderson se lembrava mais ou menos do caminho até lá – não podia ser muito difícil, já que ele tinha seguido reto na maior parte do tempo. E ele seguia o mais discretamente que o seu corpo grande e levemente desajeitado lhe permitia, tentando não pisar em falso em galhos secos e barulhentos e nem encostar nas plantas coloridas e venenosas.

A secura em sua boca e sua garganta era tanta que doía, e uma hora ele começou a ficar impaciente, principalmente porque a proximidade do meio-dia deixava o clima muito mais quente e estava começando a fazê-lo suar. Ele estava perdendo ainda mais a água de seu corpo. Mas ele não podia se desesperar – se saísse do controle, não ia conseguir fazer nada direito.

A caminhada durou horas, e Sanderson já estava achando que devia ter tomado o caminho errado quando ouviu vozes atrás de algumas árvores. Imediatamente, ele se abaixou, embora acreditasse que, se não podia ver os donos das vozes, eles também não poderiam vê-lo. Segurou sua respiração, apreensivo com a possibilidade de eles passarem por ali, e ouviu o que eles diziam.

— Isso está muito pesado – uma garota reclamava.

— Estou morrendo de pena – outra respondeu, ironicamente.

— Olha, como vamos matar alguém assim? – Insistiu a primeira. – Levar a Cornucópia com a gente foi o plano mais estúpido.

E os barulhos de passo cessaram, indicando que eles tinham parado. Sanderson já tinha entendido que o grupo se tratava de ninguém menos do que os Carreiristas.

— Vai embora então, Louise – uma voz masculina e fria disse. – Não precisamos de uma menina fresca e idiota no grupo. Aí nós caçamos você como todos os outros tributos dessa arena. Que tal?

— E com que direito você se colocou como o líder do grupo, Carter? – Ela retrucou.

— Eu voto na Louise sair – opinou a garota de antes.

Houve uma breve discussão depois disso, em que várias ameaças foram feitas, mas nenhuma expulsão decretada. E os Carreiristas seguiram caminho.

Sanderson esperou, sem mover um músculo. Não teria grandes chances se eles estivessem vindo naquela direção – eles eram em maior número, e tinham armas. Tudo que podia fazer era aguardar o seu destino.

Minutos se passaram, mas ele não ouviu mais som algum. Ninguém se aproximou. Talvez, pensou Sanderson, ele estivesse com sorte. Sem perder tempo, se levantou e continuou seu próprio percurso.

Ficou pensando no que Louise dissera. Se eles tinham “levado a Cornucópia com eles”, alguma coisa teria restado? Era improvável que eles tivessem conseguido segurar todas aquelas centenas de itens que havia no dia anterior, mas mesmo assim...

Andou por mais quinze minutos, e enfim as árvores começaram a rarear. Mais alguns instantes, e seus esforços foram recompensados com a visão da grandiosa e cintilante Cornucópia – e de alguns itens que continuavam jogados pela areia, provavelmente porque os Carreiristas não tinham conseguido segurá-los.

Foi como um presente de aniversário atrasado. Sanderson se aproximou, querendo, acima de tudo, achar água, e localizou alguns cantis em meio a outros artigos.

Sua empolgação durou até ele pegar um deles e descobrir que ele estava vazio. Tão seco quanto sua garganta. Pensamentos sobre por que os Idealizadores teriam colocado cantis vazios na arena e do quanto aquilo era inútil vieram com tanta intensidade que ele, enfim, surtou.

Atirou o cantil longe, e ele bateu com força contra uma das paredes da Cornucópia. Não contente, rasgou e quebrou vários itens a sua volta sem nem ao menos ver o que era antes, e só interrompeu o seu ataque quando viu uma figura passar correndo em frente a ele e se esconder atrás da Cornucópia – e era, claramente, uma pessoa.

Sanderson parou no ato, ainda com algo em mãos, e deixou o objeto cair no chão. Encarou o ponto em que o tributo tinha sumido, mas ele não voltou a aparecer. Quem era? Será que estava armado?

Olhou a sua volta no chão e viu uma faca não muito grande perto dele. Ele a agarrou sem pensar duas vezes, com o intuito de poder se defender se a pessoa o atacasse.

— Quem está aí? – Perguntou, com o tom de voz controlado. Mas, quando não obteve uma resposta após os primeiros segundos, foi obrigado a gritar, com raiva: – Quem está aí?

Nenhum som. Sanderson se perguntou se deveria ir conferir por si mesmo, porém, antes que tomasse uma decisão, viu alguém sair correndo pelo outro lado da Cornucópia, em direção a mata.

A primeira coisa que notou foi que era uma garota, e que, apesar de ela estar com uma mochila carregada, ela não estava armada. Pela maneira como corria, tinha medo dele, embora tivesse sido veloz demais para ele sequer pensar em matá-la.

Apenas um segundo depois dela ter entrado na floresta, foi que ele percebeu que se tratava de Bonnie Field, do Distrito 7 – e que, seguindo por esse caminho, ela poderia ter um desagradável encontro com os Carreiristas. Ele sabia que não poderia ajudar mesmo se quisesse, então deixou estar.

Bonnie tinha, pelo menos, distraído-o de sua raiva.

Mais calmo, ele voltou a olhar pelo chão, até encontrar outro cantil, mais longe. Andou até ele e o pegou, constatando que esse estava bem mais pesado que o outro.

Finalmente, um pouco de sorte.

Notas finais
Até o próximo capítulo!