Stay Alive
19 Partida - Distrito 5
Notas iniciais
Tobias Lapworth
Tobias tinha ficado muito animado ao ser sorteado na colheita – era, talvez, o único garoto do Distrito 5 que gostava dos Jogos Vorazes –, mas quando ela acabou e ele se encontrou sozinho em uma sala esperando que sua tia Rupalia – a única pessoa que ele tinha – viesse, o garoto começou a pensar em seu fraco por crianças. Haveria crianças nos Jogos. Sempre que ele assistia às reprises de edições passadas dos Jogos, ele pulava as partes onde matavam as crianças. Aquilo seria um problema. Ele não tinha pensado nesse detalhe até aquela hora.
– Você é mesmo um garoto problemático, não é, Tobias? – A voz de sua tia Rupalia lhe tirou de seus pensamentos. Ela entrava na sala como um furacão, parecendo mais nervosa do que preocupada. – Bom, eu já devia imaginar...
– Você não acha que eu vou me dar bem nos Jogos? – Ele cortou.
– Tobias, como eu posso saber...?!
– Você vai me gravar jogando, não vai?
– Mas é claro que vou! – Ela gritou ao dizer isso, tão alto que Tobias teve receio de que Vexy, sua colega, pudesse ouvi-la da sala onde estava. Eles ficaram em silêncio durante alguns segundos depois disso.
– Tia – Tobias disse, enfim –, eu sei que ir para os Jogos pode não ser uma coisa muito... razoável de se fazer, mas... acho que é mesmo o que quero. E você não pode me culpar, porque não é como se eu tivesse me voluntariado.
– Não. Você só pediu quarenta e seis tésseras, para que fosse sorteado com certeza.
– Jogada de mestre, não?
– Não tem graça! Menino, vou dizer, você é mesmo louco...
– Não sou louco! – Dessa vez foi ele quem ergueu a voz, pela primeira vez naquela conversa. Houve mais alguns segundos de silêncio, dessa vez quebrados pelo pacificador avisando que o tempo deles havia acabado.
– Você, Tobias, é a única família que eu ainda tenho. – Tia Rupalia escolheu cuidadosamente as palavras daquela vez. – Não me tire isso.
E saiu da sala.
*********
Vexy Kruz
Vexy, com o rosto enterrado nas mãos, chorava e soluçava. Aos seus quinze anos de idade, ela tinha de cuidar do pai doente dela apenas com a ajuda do irmão mais novo, e boa parte do sustento de sua família vinha do trabalho na padaria dela. Ela só queria que a Capital tivesse se esquecido dela, e deixasse-a continuar sua vida. Queria viver.
A porta da sala se abriu, e Vexy levantou a cabeça esperando encontrar seu irmão Dominique sozinho, mas viu que seu pai também estava com ele. Ela ficou espantada já que, por ser doente, ele devia voltar para casa imediatamente depois da colheita. Vexy não teria se ofendido.
– Eu tentei fugir. – Ela disse, começando a chorar ainda mais. – Depois que me chamaram, eu tentei fugir, vocês viram, mas eles me pegaram! Eles vão me levar, vão me levar!
– Ah, Vexy. – Disse o pai dela. Ele e o filho se aproximaram da menina, e eles se sentaram cada um de um lado dela, e a abraçaram. – Eles teriam pego você de qualquer jeito, meu amor.
– Eu odeio eles. – Dominique, também com lágrimas nos olhos, falou. — Odeio tudo isso.
– Não odeie, filhinho. – Disse o pai – Se odiar, é pior.
Vexy achou que seu pai tinha se expressado o mal. Na verdade, é claro que eles odiavam, e sempre odiariam tudo aquilo. O que seria pior era dizer isso em voz alta.
– M-Mas... – Dominique ia protestar, mas pareceu pensar melhor. Ele sempre seguia a palavra de sua irmã e de seu pai. – Certo, tudo bem. Não odeio.
– Não quero ir. – Vexy murmurava. – Não quero ir.
– Pronto, Vexy, está tudo bem. Estamos aqui. Está tudo bem. – Disse o pai, abraçando-a com ainda mais força.
Eles não disseram nada por alguns momentos, apenas aproveitando a companhia um do outro, até que um pacificador bateu na porta para anunciar o final do tempo.
– Não! – Ela exclamou. Mas eles tiveram de ir de qualquer forma.
*********
Já passava de uma hora da manhã. Toda a equipe do Distrito 5 já tinha ido dormir há horas, e Vexy, deitada em sua cama, achava que era a única que não conseguia pegar no sono. Mas então, ela ouviu barulhos de gritos vindos do lado de fora do quarto.
Em geral, ela preferiria não ir investigar algo desse tipo, mas se já não estava conseguindo dormir, seria ainda mais difícil depois daquilo. Então, ela se levantou e caminhou para fora do quarto, até o vagão de televisão, de onde o barulho vinha. E encontrou Tobias lá, acordado, sentado no chão bem perto da televisão, onde a primeira edição dos Jogos Vorazes estava passando.
– Tobias? – Perguntou ela, timidamente. Ele olhou para ela, sem estranhar nem um pouco que tivesse mais gente acordada naquele horário.
– Oi, Vexy. Sabia que aqui tem os DVDs de todas as edições dos Jogos Vorazes que já passaram? As cinquenta e sete!
Ele parecia animado com aquilo, mas Vexy não achou nada legal.
– Bem, não daria para alguém assistir todas nem que usasse todo o tempo no trem para isso. – Ela comentou.
– Eu já assisti muitas dessas gravações na minha casa, na verdade. Quero ver, agora, algumas das que não tenho.
– Por que você grava isso? – Vexy estava horrorizada.
– Porque eu gosto. Não se lembra que eu gritei “legal” quando fui sorteado? – Tobias pegou o controle remoto e pausou o DVD, como se esperasse por uma conversa longa, mas Vexy não respondeu. – Sabe, Vexy, você é uma boa menina. Mas não devia ter tentado fugir ao ser sorteada.
– É que boas meninas não querem ir para os Jogos. – Mais uma vez, falou com timidez. Aquilo era um fora, e ela dificilmente dava um.
– Eu gosto dos Jogos. – Ele repetiu. Como se quisesse comprovar isso, voltou a pegar o controle remoto e a dar play. – Para mim, uma boa menina mesmo seria como uma menina Carreirista. – Mesmo com o programa passando novamente, Tobias ainda olhava para a colega. – Mas você é diferente. O sentido de “boa” era de “boazinha”.
– O que você está dizendo não faz muito sentido. – Ela ainda não estava satisfeita com a maneira como estava falando.
– É. – Ele deu um sorriso sem-graça. – Costumam dizer que eu sou louco.
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