Stay Alive
35 Entrevistas - I
Notas iniciais
No dia que se seguiu às sessões individuais, todos os tributos ensaiaram incansavelmente para as entrevistas que fariam com Caesar Flickerman no dia seguinte.
Todos sabiam que ele, embora fizesse os tributos se sentirem confortáveis no palco e lidasse bem com o público, tinha um grande talento para arrancar segredos e fazer as pessoas falarem um pouco mais do que deviam. Por isso, dependendo do caso, a entrevista podia ser uma grande ajuda ou um grande obstáculo para se conseguir patrocinadores, e, para tal coisa, ninguém pouparia esforços.
Então, além de todo o ensaio, no dia da entrevistas todos os tributos ainda foram maquiados, vestidos e penteados da melhor maneira possível para estarem em suas melhores aparências para aquela noite. Na última semana, eles tinham tido muitas oportunidades de se mostrar para a Capital – mas, como aquela era a última chance de brilharem, era crucial.
E Caesar Flickerman também brilhava naquela noite, assim como todo o palco e a plateia, quando abriu o evento com um sorriso e um feliz:
– Boas vindas a todos! – A plateia começou a aplaudir vigorosamente – Chegamos enfim a um dos momentos mais aguardados dos pré-Jogos. Hoje poderemos conhecer mais de nossos queridos tributos. – Ele gesticulou na direção dos tributos, que estavam sentados em um arco atrás dele e, em sua maioria, sorrindo. Mais uma vez, houve palmas. – Bem, bem, todos estamos muito ansiosos, então, vamos dar início. – Caesar juntou as mãos e as esfregou. – Reyna Mackenzie? Venha cá, querida.
A garota se levantou do arco e andou confiantemente até a cadeira do entrevistado sobre seu salto alto. Usava um vestido curto e azul cintilante, que deixou boa parte de sua coxa à mostra quando ela sentou e cruzou as pernas. Caesar arregalou os olhos.
– Uau. Eu seria um perfeito idiota se não dissesse que você está maravilhosa esta noite.
Reyna riu educadamente.
– Obrigada. Nada que o melhor estilista e a melhor equipe não façam.
– Oras, não seja tão modesta. Sua beleza e seu talento certamente vão além disso... Ou vai me dizer que seu estilista e sua equipe também conseguiram aquela nota nove por você?
– Eu apenas procuro sempre dar o meu melhor. – Ela curvou um pouco o corpo, de forma que seu decote também ficasse visível. – Mas não procuramos todos?
Durante o resto da entrevista de Reyna, ela tentou – e conseguiu – seduzir a plateia. Como o próprio Caesar comentou antes que ela desse lugar a Ryan Ferdinand, ela era uma menina de muitos encantos.
O próprio Ryan olhava para ela de uma maneira engraçada ao se sentar na cadeira em frente a Caesar. E ele reparou isso, pois perguntou:
– Que expressão é essa, Ryan? Aconteceu alguma coisa?
Ele soltou o ar dramaticamente, olhando finalmente para Caesar de canto de olho.
– Estava apenas pensando se eu não acabaria sendo ofuscado por esse... – Ele fez um gesto circular com as mãos, como se procurando a palavra certa – ... brilho todo.
A plateia riu, e Caesar também. Ryan de fato tinha assumido um visual fosco para a entrevista, mas não menos bonito – na verdade, as roupas singelas e sem brilho dele destacavam a beleza do garoto.
– Eu não me preocuparia com isso se fosse você. A Capital tem muito brilho, mas você é quem está atraindo toda a atenção. – Ele se voltou para a plateia – Não é, pessoal? – Gritou para eles, e recebeu como resposta um sonoro “sim!”.
– Vocês são ótimos – Ryan disse para a plateia também. – Especialmente, ótimos mentirosos, mas vou aceitar.
Novamente, houve risadas. E elas continuaram por todos os minutos seguintes, parando apenas quando Louise Clewater, do Distrito 2, chegou com um vestido liso e rosa-shocking e uma expressão séria e determinada.
– Louise. Como vai? – Caesar não parava de sorrir.
Ela ponderou por um instante.
– Bem, eu acho. – Terminou por responder.
– Acha? – Ele repetiu, fingindo estar assustado. – A Capital não tem lhe agradado?
– Eu irei me sentir mais agradada quando puder arrancar as tripas de algumas pessoas, na realidade.
O público pareceu não saber como reagir àquele comentário – risadas, ruídos de aprovação, silêncio? – mas Caesar, como sempre, tinha a resposta na ponta da língua:
– Então parece que temos uma verdadeira guerreira aqui. Agora, conte para nós: Você teria alguma... sabe, motivação para estar tão determinada?
– Claro. – Louise não demorou a responder – Pessoas. Os Jogos são uma grande motivação, é claro, mas conviver com pessoas é o que mais me deixa determinada a matar.
Não foi claro se a intenção dela com a entrevista foi conquistar o público ou intimidar os outros tributos, mas, provavelmente, acabou conseguindo parcialmente as duas coisas.
Quando Louise estava voltando para seu lugar no arco, cruzou com Daryl Dixon que, em seu belo terno branco, era o próximo tributo. Se as câmeras não estivessem preparadas para pegar um close do rosto deles, certamente ninguém teria percebido o olhar de desprezo que eles trocaram e que, no caso de Daryl, foi logo substituído por um sorriso.
Ao longo da entrevista, ele foi simpático e logo fez todos se esquecerem daquela quase imperceptível hostilidade entre ele e Louise no caminho. Não tinha dificuldades em falar. Em certo ponto, foi perguntado:
– A Capital ficou deveras muito espantada por não apenas um, mas os dois tributos do Distrito 2 terem sido sorteados esse ano. Geralmente esse é o distrito em que as pessoas mais contam com voluntários. Adolescentes em busca de fama, dinheiro, reconhecimento... Você não se importa com nenhuma dessas coisas?
– Acho que fama, dinheiro e reconhecimento é, no fundo, o desejo de todas as pessoas. E eu não vou ser mentiroso e dizer que não ligo, porque é claro que isso parece interessante para mim. Mas... não, eu não teria ido para os Jogos voluntariamente. – Ele respondeu.
– É mesmo? E por que não?
– Porque eu tinha coisas mais materiais do que a fama para me preocupar no meu distrito.
– Como o que?
Daryl sorriu.
– Minha família e meus amigos, basicamente.
Ele se retirou sob palmas, e Elizzy Viscovt foi se sentar na cadeira do entrevistado sob as mesmas. Seu vestido era longo e intercalado em tons de preto e cinza, como suas luvas compridas.
– Você conseguiu uma boa nota no treinamento – Caesar comentou com ela – Assim como seu primo Gil conseguiu há alguns anos. Vocês dois são próximos? Como é ser parente de um vitorioso?
– Sim, sempre fomos unidos. – Respondeu Elizzy – Amigos, eu diria. E, bem, ser parente de um vitorioso é o mesmo de se ser parente de uma celebridade, então a sensação é basicamente essa.
– E foi ele quem a inspirou a se voluntariar?
– Não... Na realidade, ele nem ao menos conhecia minhas intenções. Eu fiz isso por Lucia. Minha irmã.
– Ela pediu para você? – O ar compreensivo dele se assemelhava ao de um psicólogo.
– Não – O olhar distante de Elizzy indicava que sua mente não estava mais na entrevista, e sim longe dali, no Distrito 3. – Mas eu precisava tentar por ela mesmo assim.
Ela não deu mais detalhes, e tampouco ouviu mais perguntas sobre o assunto. Quando Caesar voltou a falar sobre família, quem estava sentado a frente dele não era mais Elizzy, mas Hunter Wayne.
– Meu pai morreu nos Jogos Vorazes antes do meu nascimento – Hunter contava – Mas minha mãe se casou alguns anos depois, como meu padrasto. E ele é como um pai para mim, além de ser o pai do meu irmão mais novo.
– Toda sua família deve estar muito orgulhosa de você agora. – Pelo barulho, a plateia pareceu aprovar o que Caesar disse.
– E eu espero recompensá-los. Voltando para eles e lhes dando uma boa vida.
– Isso é muito nobre. Aliás, por que você não manda uma mensagem para eles agora?
Hunter ganhou tempo para pensar ajeitando seu paletó de veludo verde-musgo. As pessoas gritavam sugestões para ele, como “Diga que você os ama!”, “Mande abraços!”, e ele os ouviu antes de finalmente se virar para uma câmera.
– Fiquem bem. Cuidem uns dos outros – Disse, e em seguida deu um breve sorriso melancólico. – Eu vou tentar ficar bem também... Eu prometo.
Ele ainda respondeu a outras perguntas de Caesar depois disso, demonstrando uma inegável inteligência, mas a mensagem para a família permaneceu como o ponto mais alto de sua entrevista.
Todos os tributos estavam, de sua própria maneira, chamando a atenção, e não parecia que seria diferente com Rebekah VonRison, do Distrito 4. Seu traje era verde-água, o que lembrava muito o seu distrito e destacava seus olhos, e a maneira como ele ressaltava suas curvas já fez todos imaginarem como seria sua estratégia – foi uma surpresa quando ela se mostrou simplesmente doce.
– O que você está achando da Capital até agora? – Foi uma das perguntas de Caesar para ela.
– Se eu tivesse tido a chance de conhecê-la melhor, eu responderia a essa pergunta. Mas eu não conseguiria dar uma opinião sincera agora, porque na maior parte do tempo só estive no Centro de Treinamento. Posso responder a isso depois que eu tiver vencido? – Ela brincou, e Caesar riu.
– Sem problemas. Mas enquanto isso, aceito sua opinião sobre o que você viu no Centro de Treinamento.
– Boa comida, bons aposentos... – Ela contou nos dedos. – Não posso reclamar de nada.
Mas seu colega de distrito, Carter Trent, podia reclamar. Quando chegou a vez dele, ele se sentou com cara de poucos amigos, e não parecia disposto a ser simpático ou a agradar ninguém. Simplesmente, aparentava estar seguro de si, o que também era uma boa imagem a se passar.
– Então, como vai você, Carter? – Caesar resolveu começar por uma pergunta fácil e casual.
– O que isso interessa? – Carter rebateu, em tom arrogante.
– Oras, foi só uma pergunta – Caesar não se abalou; estava mais que acostumado com todos os tipos de tributos. – Todos queremos conhecê-lo melhor. Você poderia, então, nos contar um pouco da sua vida, ou apenas responder como você está. Vamos, essa é uma questão inocente.
Ele revirou os olhos.
– Como se isso não fosse guiar a uma conversa sobre minha vida de qualquer forma... – Falou mais para si mesmo do que para o público – Nesse caso, deixe-me contextualizar tudo de uma vez. Moro com meus pais, minha irmã mais velha morreu, não tenho amigos, o Distrito 4 é legal.
– Não tem amigos? Nisso eu não consigo acreditar. Você parece ser um gar...
– Não, não tenho – Carter cortou. – E não pareço seja lá o que você for falar.
Mesmo com a dificuldade que era conversar com ele, Caesar não se abalou e o fez continuar falando até o sinal que declarava o seu tempo tocar. E depois, quando o rapaz ia se retirando, ele se recostou calmamente em sua cadeira. Ainda havia dezesseis tributos para serem entrevistados, e ele estava determinado a – como sempre – prosseguir com a mesma dedicação com que havia começado.
Fale com o autor