Stay Alive

10 Colheita - Distrito 9


Notas iniciais
Gente, desculpa pela demora, mas foi a primeira vez em que isso aconteceu, e cá estou, afinal de contas. Desculpe também por não ter respondido aos comentários do último capítulo, mas quando eu deixo acumular, eu simplesmente não consigo mais responder. Eu formei um grupo de estudos, porque no final do ano vou prestar o Vestibulinho para entrar em um colégio federal, e este é meu sonho há muito tempo, então agora estou tentando estudar pelo menos duas horas por dia normal e seis num dia de final de semana, o que torna as coisas meio difíceis. É só isso ;) Espero que gostem deste capítulo!

Cornelio Harvester & Soyalia Harvester

— Pare, tia Stakilla, está doendo! – Reclamou Soyalia Harvester, enquanto uma das duas tias lhe penteava os cabelos loiros e os prendia em um alto rabo de cavalo com gel.

A mulher imediatamente começou a pentear com mais delicadeza.

— Desculpe-me, Soy, querida.

Soyalia bufou. Odiava o apelido. Mas não precisou falar isso, porque seu irmão gêmeo Cornelio Harvester, deitado sobre a cama dele no outro lado do quarto e já vestido com sua camisa social azul, sua calça cáqui e sapatos pretos – quase a mesma roupa que Soyalia, salvo por ela estar usando uma saia rodada e uma meia até o meio da canela – assumiu suas dores, como era hábito dos gêmeos fazerem um pelo outro:

— Não chame-a assim.

Tia Stakilla não discutiu. Como todo mundo, ela não discutia com eles – não valia a pena. Eles sempre venciam.

Rootilla, outra tia deles – eles moravam com os tios Mustard, Rootilla e Stakilla, irmãos da mãe deles, desde que esta falecera e o pai deles fugira, já que não queria criar os filhos sozinhos. E os gêmeos quase gostavam de não terem pais. Assim, não tinham alguém mandando neles –, então, surgiu à porta do quarto, com seu olhar cansado de sempre, o que não era para menos, já que cuidava da casa praticamente sozinha.

— O almoço está na mesa. Venham comer.

— Não estamos com fome. – Soyalia disse.

— Mas guarde a nossa comida. – Instruiu Cornelio – Aí comeremos mais tarde.

— Vocês sabem que se não comerem agora, não irão comer até depois da colheita, não é? – Tia Rootilla ergueu uma sobrancelha.

— Sabemos. – Respondeu Cornelio.

— Não somos burros. – Soyalia acrescentou.

— É claro que não. – Ela suspirou. – Como quiserem, então. Venha, Stakilla.

Tia Stakilla rapidamente terminou de arrumar os cabelos de Soyalia, e então seguiu a irmã para fora do quarto.

Eles esperaram pacientemente que elas chegassem à cozinha e a barra estivesse limpa, e então Soyalia foi se sentar na cama ao lado de Cornelio e este tirou uma barra de chocolate do bolso – uma iguaria muita valiosa no Distrito 9, por tão poucas pessoas terem dinheiro para comprar, que eles tinham conseguido naquela manhã com um dos jovens ricos do distrito, que perdera uma aposta para eles – e a dividiu ao meio, dando uma das metades para a irmã e ficando com a outra para si. Geralmente, Tia Rootilla fazia para o almoço pratos que incluíam feijão, milho ou soja, alimentos que eles tinham enjoado há tempos. Chocolate era infinitamente melhor.

— Eu ainda não acredito que tia Rootilla não deixou a gente pedir uma téssera este ano. – Disse Soyalia, entre uma dentada e outra. Aquela fora uma das raríssimas ocasiões em que eles não puderam fazer o que queriam, que era pedir uma téssera só por diversão, porque a tia tinha dito que aquilo não era papel de quem tinha comida dentro de casa.

— Ela é uma boboca. – Concordou Cornelio. Ficar emburrados por causa disso parecia uma atitude imatura para adolescentes de quinze anos, mas embora fossem tão manipuladores e dissimulados, a maturidade não era o forte dos dois. – Porque até parece que nós seríamos sorteados.

— Com certeza. Parece até que ela não pensa.

Eles terminaram de comer praticamente no mesmo segundo. Então, Soyalia pegou a embalagem do chocolate, amassou-a bem e a guardou no bolso de sua camisa, para que pudesse mantê-la escondida dos tios até poder jogá-la fora mais tarde, já que não havia uma lata de lixo no quarto deles. Eles não tinham, realmente, medo do que os tios dele achariam disso. Só não estavam com vontade de responder a perguntas.

— Eu me sujei? – Perguntou ela, indicando a boca com o dedo. Eles não podiam aparecer sujos de chocolate, se queriam manter o segredo.

— Não. – Respondeu Cornelio – E eu?

— Não.

Ele se levantou.

— Vamos para a cozinha vê-los ter de comer aquela comida horrível.

Soyalia também se levantou.

— Só se for agora.

*********

A população do Distrito 9 já estava começando a achar que Dinn, o representante, estivera caçoando deles. Afinal, qual era a outra explicação plausível para o homem ter estado segurando o riso durante toda a parte do prefeito e agora, enquanto ia para o centro do palco, realmente ter soltado uma breve risada, antes de se recompor?

— Desculpem. – Dinn enxugou uma lágrima no canto do olho, e ao fazer isso, todos acharam que ele borraria a maquiagem, mas esta permaneceu intacta. Respirou fundo antes de continuar: — Este é um grande dia para todos nós por que... – Mais um ataque de riso. Todos esperaram. – Ah, certo. Vamos logo para o sorteio.

Um murmúrio começou quando Dinn foi para a bola das meninas, e morreu tão de repente quanto se iniciou quando ele começou a escolher o papel, remexendo várias vezes até pegar um deles.

— Este é um grande dia. – Ele repetiu, sem rir desta vez. – Não é... – Abriu e leu o papelzinho – Soyalia Harvester?

Ninguém acreditou. Só podia ser uma piada – afinal, Dinn estava extremamente bem-humorado naquele dia. Não podia ser a menina dos famosos gêmeos Harvester. Mas a incredulidade não significava que a maioria das pessoas não tivesse ficado satisfeita.

Assim que Soyalia deu o primeiro passo em direção ao palco, Cornelio – que por obrigação estava do outro lado da plateia, na área dos garotos – também começou a andar. Os pacificadores se moveram em sua direção, o que o fez revirar os olhos.

— Eu me voluntario.

Apesar da pose imponente dos gêmeos ter sido ligeiramente abalada quando Soyalia foi sorteada, quando Cornelio se encontrou com ela em frente ao palco e os dois subiram juntos, eles estavam mais uma vez seguros sobre si mesmos e sobre um ao outro. Dinn observou-os atentamente.

— Vocês são irmãos?

— Somos. – Respondeu Cornelio, sem sequer olhar para o representante enquanto ia para o seu lugar.

— O nome dele é Cornelio Harvester. – Soyalia disse, do mesmo modo.

— Ótimo. – O sorriso voltou aos lábios de Dinn, e ele parecia prestes a começar a rir outra vez quando anunciou: — E com vocês, os gêmeos Harvester, tributos do Distrito 9!

Notas finais
Até o próximo! Dessa vez, responderei aos comentários ;)