Notas iniciais
Me desculpem pela demora em postar esse capítulo - muitas lições e provas para corrigir, muita correria, algumas decepções (essa é a vida de uma professora!)... Bem, esse capítulo é mais curto e, de certa forma, importante para alguns personagens desta história. Outra coisa que queria me desculpar é em relação aos comentários: percebi que o AO3 não está me notificando que há comentários novos e eu fiquei extremamente sem chão quando os vi; me perdoem, por favor! Não está betado, os erros são meus - por favor, sintam-se a vontade para apontá-los! :) Sem mais, aqui está o novo capítulo. Vou tentar postar o próximo logo, antes do começo das aulas! ♥

“Alexei,

Kak tvot dela? Espero que esteja tudo bem com você.


Há algum tempo não nos vemos e bem, nossas últimas memórias juntos são um tanto amargas — há tanto que quero lhe dizer, mas não sei nem por onde devo começar, já que existem coisas que eu gostaria de conversar pessoalmente com você, mas eu mesmo pedi que Athena lhe enviasse nessa missão e sei que por algum tempo não conseguiremos nos ver. (Aliás, ainda é estranho que Athena nos peça para chamá-la pelo nome civil dela. Acho que para vocês que estavam mais próximos dela durante todos esses anos — ou que tenham a tenham conhecido como “Saori” — seja mais fácil. Para nós, cavaleiros de ouro, não deveria existir essa distinção já que dedicamos nossas vidas para servi-la, mas acho que consigo entendê-la, de uma certa maneira. Algumas pessoas me conheceram como Michel e ainda me chamam por este nome, sei que o mesmo acontece com você.)

Retornando de meus devaneios, quero que saiba que eu não guardo rancor algum pelos acontecimentos de meses atrás. Ainda é algo que eu tento digerir; todo o plano de servir a Hades fora arquitetado por todos nós como uma maneira de manipular o deus do submundo e chegar até Athena antes dos poderosos Juízes que serviam àquele deus… mas foi difícil centrar nossas mentes ao ponto de deixarmos nosso passado e sentimentos de lado e seguirmos em frente — acredite, a parte mais fácil foi a sabermos que seríamos traidores, mesmo quando pensávamos em nos adiantar e tentar salvar Athena. Não me orgulho de nada disso e me pergunto constantemente como tivemos essa terceira chance de voltarmos — o peso de nossas ações ainda estão em nossos ombros e mentes; não há um dia sequer desde que acordei que eu não pense nisso e tente achar uma maneira de deixar esse fardo menos pesado, mas acho que isso é algo que nunca sairá de minha mente, junto com outros pecados que eu carrego.

É engraçado pensar em pecado — parece que me rendi à ideia da transgressão do divino -, mas sempre me peguei pensando sobre isso, especialmente quando fui enviado à Rússia. Vocês, russos, são extremamente devotos e tentam seguir os mandamentos da Igreja à risca; como Cavaleiro eu deveria fazer a mesma coisa, mas tínhamos uma liberdade diferente — pessoas que conheciam a nossa existência nos viam como “Santos” e esse sempre foi um fardo muito pesado para mim; sou humano e cheio de falhas, desejos… tampouco sou puro ou sagrado.

A contradição que mora nesta observação é a de que, talvez por muitas vezes, eu deixei que esse lado meu ficasse escondido por trás de uma grossa camada de gelo e dado a impressão de ser inatingível, frio, desprovido de sentimentos — e o pior deles, venerável. Eu via como você e Isaak me colocavam em um pedestal, como eu era o modelo a ser seguido e ao mesmo tempo que isso me enfatuava, também me corroía.
Mas orgulho e vaidade são pecados — além de serem defeitos que não caem bem nas pessoas, em uma opinião mais pessoal.

Cada vez que vocês me olhavam cheios de admiração e expectativa, vários sentimentos apareciam dentro de mim. Quando fui designado mestre, eu tinha 17 anos e não sabia cuidar de ninguém além de mim mesmo — eu era autossuficiente e precisava de pouco para sobreviver (bem, era o que eu achava no início). Estava acostumado à solidão por escolha, mas aos poucos percebi que eu sentia falta de algumas pessoas ao meu redor, que a incessável idolatria dos moradores de Kohoutek me deixava desconfortável — embora eu entendesse que eles sentiam-se protegidos com a minha presença e sabiam que eu era um cavaleiro a serviço de Athena, aquela cautela em lidar comigo e o sentimento de inferioridade que eles sentiam… eu queria que as coisas fossem como eram no Santuário, onde a maioria de nós se tratava normalmente, onde eu não era um Santo.

E quando os primeiros aprendizes vieram, havia o medo, a idolatria, a devoção…

Isaak tinha aqueles expressivos olhos azuis escuros, cheios de vontade, garra e admiração — não havia medo — e você tinha os olhos tão tristes, no azul pálido como o horizonte que nos rodeava. Não havia medo, mas havia tanta tristeza e insegurança. Você e Isaak pareciam ser tão opostos, mas vocês se complementavam. Os outros aprendizes, garotos e garotas, desistiram e eu fico feliz por eles — a vida de um guerreiro é ingrata e eles tinham tanta esperança nos olhos que eu me sentia mal por simplesmente acabar com aquele sentimento.

No começo, eu não conseguia olhar direto em seus olhos, me lembrava da história que o velho Ilya me contara assim que eu voltei do Santuário (e a primeira coisa que ele me disse, quando te levou à casa onde morávamos, foi que você era o garoto resgatado do naufrágio, que sua mãe era a Spyashschaya Ledi do Lena). Na época em que o naufrágio aconteceu, eu imaginava a tragédia mas tudo o que eu conseguia pensar não fazia jus aos relatos das pessoas que resgataram os sobreviventes. Aos poucos, vi a determinação surgir em seus olhos e no fundo, antes de você me dizer com todas as palavras que queria tornar-se um cavaleiro para resgatar sua mãe, eu sabia que deveria ter impedido essa determinação de chegar onde chegou.

A verdade é que, no fundo, havia uma ponta de inveja dentro de mim, Hyoga. Nunca houvera — até aquele momento — alguém que dependesse de mim daquela maneira e eu não tinha a mesma ligação que você teve com sua mãe. É uma história complicada, mas meus pais estão vivos — nem todos são órfãos, a verdade é que a maioria dos Cavaleiros de Ouro possuem famílias — e a única pessoa com quem eu possuía algum tipo de vínculo mais forte era a minha avó paterna, que fora ligada ao Santuário durante a juventude dela e ela sempre soube que alguém da família dela juntaria-se aos guerreiros de Athena; o Mestre Shion havia lido nas estrelas e a avisado, anos antes de meu nascimento.

Bem, dentre a minha lista de arrependimentos encontra-se essa passagem onde eu deveria ter agido de maneiras diferentes quando o assunto era essa forte ligação entre sua mãe e você.

Quando você e Isaak me tratavam como um mestre, eu sentia aquela vaidade em mim: vocês me viam como alguém importante na vida de vocês e, aos poucos, fui me afeiçoando à vocês. Eu me sentia responsável de uma maneira que nunca me sentira antes, eu zelava por vocês — à minha maneira, com poucas pessoas sabendo o afeto e o carinho que havia ali. Ilya percebia isso, assim como Milo — ele uma vez chegou a sugerir que eu parecia um pai rígido mas que se derretia a cada superação vinda de vocês.

Óbvio que eu rechacei a ideia — eu já estava passando dos limites que deveria impor à vocês e, em especial, a mim mesmo. Cada vez que Milo tocava neste assunto, era um lembrete para que eu assumisse a postura que eu deveria ter adotado desde o início. E foi nessa dualidade de sentimentos, postura e atitude que eu me perdi; especialmente no que se tratava de você.

Quando o acidente com você e Isaak aconteceu, me vi preocupado ao extremo, triste, em luto e, ao mesmo tempo, com raiva de você e de mim. As minhas atitudes me levaram às decisões tomadas um ano depois e eu vejo que cometi o mesmo erro que eu apontava em você: agir pelas emoções.

Não deveria ser eu a pessoa a romper o laço entre você e sua mãe, de maneira cruel e inescrupulosa, com a desculpa de que isso lhe faria um melhor guerreiro ou uma pessoa com melhor controle de suas emoções. Não deveria ser eu a ditar o curso das coisas com a desculpa de ser seu mestre, de saber o que era melhor para você; eu não tinha esse direito e simplesmente agi no calor do momento. Fui cruel, como várias outras vezes fui com pessoas com quem me importava muito. Gostaria de lhe pedir desculpas por isso pessoalmente, mas acho que lhe devia algumas satisfações — você vai entender isso conforme for avaliando o material que lhe foi enviado.

Sobre o que é esperado de você, bem… essa missão poderia ser feita por qualquer cavaleiro, mas a verdade é que nós, cavaleiros treinados na Sibéria, temos conhecimento e contatos com outras ordens que não são necessariamente guerreiros de Athena e é por isso que achei melhor que fosse você a pessoa mais indicada a lidar com isso. Digamos que eu tenha queimado algumas pontes há pouco tempo e, com isso, sentimentos reprimidos voltaram à superfície — assim como alguns esqueletos no armário, coisas que, em retrospecto, me fazem um hipócrita. Prometo lhe contar assim que eu mesmo assimilar tudo isso.

No envelope com o lacre do Santuário está a sua missão e comentários extremamente pertinentes às pessoas envolvidas, além de coordenadas e contatos, documentos bem detalhados. Antes dos mesmos serem enviados, eu os examinei, adicionando informações que talvez o Santuário não tivesse por serem pessoais e, ao meu ver importantes. Há apenas um sem notas ou qualquer tipo de inferência — e esse diz respeito a mim mesmo, a única explicação está nesta carta pessoal e outras virão quando me encontrar ou quando quiser me perguntar algo que queira saber.

Acho que essa missão, além de ser especial no sentido do Santuário saber sobre seu próprio passado e obter algumas respostas sobre a Guerra Santa de séculos passados, é a de que nós, Guerreiros do Gelo (e todos os guerreiros de Athena), podemos nos ater à nossa humanidade também, nos permitir sentir e, dessa maneira, melhorarmos como pessoas, acima de tudo. Percebi que se essa missão tivesse sido dada a mim, anos e anos atrás, talvez eu tivesse sido uma pessoa melhor em diversos aspectos: um mestre melhor, um Cavaleiro melhor, um ser humano melhor.

Não hesite em pedir ajuda caso necessite, seja essa ajuda em qualquer aspecto necessário — logística, de interpretação, emocional… ainda é estranho que estas palavras estejam saindo de livre e espontânea vontade, mas nunca é tarde para se reconhecer que algumas atitudes devam ser mudadas — espero que eu siga em frente; está será a parte mais difícil.

Proshchaniye,

Camus.

PS.: cuide bem de Ivan e Belka.”


Kak tvot dela — como vai?
Spyashchaya Ledi — “Bela Adormecida”
Proshchaniye — Até logo; tchau

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.