State Of Love And Trust

2 And this old world is new world and a bold world for me


Notas iniciais
Demorei um pouco, mas esse capítulo é mais uma transição da história do que outra coisa. Esse e o próximo capítulo podem ser vistos como os dias seguintes ao primeiro, depois deles, o passo vai mudar um pouco. Aviso de linguagem homofóbica no capítulo. O título do capítulo vem da música "Feeling Good", gravada por diversos artistas - mas a minha favorita sempre vai ser a versão com Nina Simone. Fanart no meio do capítulo é minha; espero que gostem do capítulo! ♥ [Também postada no meu perfil do AO3]

As últimas vinte e quatro horas haviam sido insanas para Shun; o próprio não acreditava que tivera a coragem de dizer tudo o que sentia para Hyoga, especialmente particularidades que não conseguia desabafar com ninguém — nem com Ikki, com quem às vezes dividia algumas aflições e dúvidas sobre a vida e muito menos com Hyoga, já que o russo era uma das partes importantes na história toda. Apesar de ser comunicativo e amigável, Shun evitava compartilhar certas coisas com os amigos e o irmão por acreditar estar sendo um peso com seus problemas — que, por mais que parecessem tão mundanos, eram situações novas em uma vida alheia as dos outros jovens normais.

Sempre que avistava grupos de jovens conversando e tendo vidas como as de qualquer adolescente ao redor do mundo, sentia algo que se assemelhava à inveja: era bem resolvido com o fato de que era um guerreiro cuja a vida fora cheia de renúncias por um bem maior, mas, no fundo, queria poder ter uma vida onde pudesse conciliar o “normal” e o “extraordinário”. Toda vez que esse sentimento aparecia, o remorso aparecia por simplesmente sentir algo que ele considerava ruim. Enquanto ele se culpava e se remoía por pensar assim, os amigos tentavam, dentro do possível, ter vidas que se assemelhassem às de jovens normais: Seiya estava na Grécia — após a Guerra Santa e o ferimento que quase lhe custou a vida (mas lhe rendeu uma enorme cicatriz no peito e semanas internado em um hospital), resolveu ficar por lá e criar laços com a irmã desaparecida por tantos anos; Shiryu retornara à Rozan e esperava pela volta de Dohko, juntamente com Shunrei. E Ikki… bem, o irmão era uma incógnita.

Voltando para Azabu, resolveu que pararia em Roppongi para visitar Ikki — não via o irmão há alguns dias e não era saudades o que sentia, mas gostaria de ter a companhia do irmão por algum tempo e, assim, conversar sobre coisas que talvez pudessem ser conversadas com um irmão mais velho. O pequeno prédio onde o irmão residia era antigo se comparado aos outros da região, mas Ikki não era um homem cheio de luxos — o apartamento era pequeno e minimamente decorado e as únicas coisas que Ikki fazia questão de ostentar eram a cafeteira que ele tanto amava e uma coleção de filmes — aliás, essa era uma das únicas coisas que ambos tinham em comum, o gosto por filmes. Ao sair da estação de trem e caminhar poucos minutos até o prédio do irmão, pensava se contaria ao mais velho sobre ele e Hyoga e percebeu que não haviam conversado sobre assumirem ser um casal. Parou de caminhar, olhando para o alto e se perguntando se deveria contar não só para Ikki como para os outros, mas o receio de fazer algo errado e desagradar o russo lhe apertou o peito.

Continuou a caminhar, mas aquela sensação de ansiedade começava a lhe incomodar e, quando chegou ao prédio e viu o casal de meia idade que era vizinho de Ikki, quase deu meia volta — mas fora reconhecido por eles.

“Oh, Amamiya-san! Faz algum tempo que não o vemos por aqui!” — a senhora, com um sotaque japonês carregado, acenava e sorria para Shun, que sorria de volta. — “Veio visitar Ikki-kun?”

O casal em questão não era japonês, mas já morava no Japão há alguns anos. Shun sabia que eles haviam imigrado do Canadá para o Japão há cerca de vinte anos; ela era professora de inglês e ele, médico. Não tinham filhos e adoravam a vida boêmia do bairro — Shun tinha certeza que Ikki escolhera Roppongi pelas atrações do bairro e pelo fato de poder estar em contato com pessoas de todo o mundo que lá residiam.

“Olá, senhor e senhora Blake!” — após a reverência, Shun sorriu — “Pode me chamar de Shun, não há a necessidade de honoríficos!”

“Só se você nos chamar por nossos nomes, Amamiya-san!” — riu o senhor Blake.

“Kat… John… como estão?”

“Oh, dear! Estamos bem e você parece estar radiante.” — Kat sorria, enquanto o marido pegava a correspondência e olhava pelas cartas. — “Bem, Ikki não está… ele viajou semana passada e disse que o avisaria, mas pelo visto, esqueceu!”

“Oh...” — por dentro, Shun sentia um misto de alívio e resignação. — “Como ele odeia celulares e toda essa tecnologia, provavelmente esqueceu de me avisar. Bem, vou voltar à Azabu e daqui alguns dias volto aqui. Goodbye, Kat and John!”

“Bye, Shun.”

No caminho para a mansão Kido, Shun olhava a foto tirada pela turista e a enviou para Hyoga, contando num áudio como fora abordado pela garota e, ao chegar, mandou uma mensagem dizendo que já havia chegado. Ao chegar na mansão, cumprimentou a todos como sempre fazia e, ao invés de seguir para o seu quarto, parou na cozinha para pegar algo para beber — ainda mexendo no celular e sorrindo ao responder as mensagens. Não percebera que Tatsumi estava por lá.

“Não parece tão triste porque o namoradinho foi embora… Não vai ficar triste pelos cantos, Shun?” — Como sempre, as palavras de Tatsumi estavam cheias de veneno; as mesmas tinham um tom acusatório e humilhante.

“Na verdade eu não estou triste, Tatsumi, pelo contrário. Posso visitá-lo logo.”

A reação tão automática surpreendeu não somente Tatsumi, mas a Shun também. Nunca havia respondido às provocações do fiel escudeiro da família Kido por mais degradantes que fossem, mas sentia que algo estava mudando e, desta vez, não sentiu-se arrependido por responder. Ao mesmo tempo que sentiu-se orgulhoso, a realização de que não negara — e nem afirmara, sendo honesto — que Hyoga era o seu “namoradinho” inicialmente lhe causou certo pânico, para depois lhe dar paz. Pegou uma garrafa de suco e, antes de retirar-se da cozinha, fez uma reverência ao mais velho — não foi irônico, mas demonstrou-lhe respeito quando o outro raramente o fazia.

Dirigiu-se ao seu quarto, fechando a porta e encostando-se nela, desceu até o chão. Ainda estava incrédulo com o que acontecera, mas não se martirizava por isso. Olhou para a cama ainda desarrumada, sorrindo — isso até se lembrar que não havia conversado com mais ninguém e essa situação lhe causava uma ansiedade diferente — de certo modo, o medo de que algo desse errado e ceifasse esse relacionamento logo no início o deixava apreensivo. Respirando fundo, pegou o celular e, sem pensar muito, mandou uma mensagem a quem ele realmente sentia que devia uma satisfação.

A resposta chegou quase que imediatamente — um kaomoji empolgado, que nada condizia com a figura que muitos tinham da adolescente que era a reencarnação da deusa da Guerra. Olhava a mensagem “ ヽ(*⌒∇⌒*)ノ “ e ria do absurdo da situação, até que o toque do celular o assustou.

“Saori-san! É tarde, me desculpe por acordá-la!”

“Shun, eu não estava dormindo! Ainda me deparo com as vontades de ser uma adolescente normal e aproveitar a vida, especialmente após essa última batalha, mas na maioria das vezes tenho um protocolo a seguir...” — Suspirou. “Mas, me conte!”

“Saori, eu devo explicações sobre isso, é o meu dever como cavaleiro de Athena” — ouviu que a garota iria protestar, mas seguiu em frente — “mas queria que isso partisse de mim e não de outras pessoas. Eu sentei e conversei com Hyoga, expliquei tudo o que sinto por ele...”

“E ele?”

“Bem… é recíproco.” — Sabia que estava corado, sentia o rosto arder. — “Eu ainda não sei como explicar tudo, não sei como dizer isso aos outros mas eu precisava me explicar com você.”

“Shun, você não me deve satisfação alguma...”

“Saori, me entenda: existe uma hierarquia dentro desse mundo paralelo em que vivemos e eu precisava que você soubesse da situação e, sabendo por mim e pelo Hyoga seria o ideal, mas… bem, digamos que eu perdi a paciência com alguém hoje e eu sabia que essa pessoa correria para lhe contar e, muito provavelmente distorcer toda a história, por isso me apressei em lhe contar.”

“Tatsumi ou Jabu? Há umas três mensagens do Tatsumi que eu não vi ainda, mas conhecendo-o como eu o conheço, imagino que seja ele.”

“Tatsumi. Se ele entendeu a minha resposta, correria para informar-lhe sobre esse namoro...”

“Me desculpe, Shun… Tatsumi é tão absorto nos deveres que ele tem com a família Kido que se esquece do fato de que vocês são humanos e que o legado do meu avô não é o mesmo que o meu. Com tudo o que passamos nesses últimos anos, uma das coisas que eu queria era a que fossemos como uma família acima de tudo, mas há muitas coisas que ainda devemos superar antes de qualquer coisa… Além de tudo isso, na condição de Deusa, há coisas que eu também preciso mudar. Quero que vocês tenham uma vida, que não fiquem presos às regras antiquadas e gostaria muito que reconstruíssemos o Santuário juntos, mas não como uma exigência e sim como uma maneira de nos conhecermos, de criarmos laços que vão além de hierarquias… Me desculpe, Shun, eu sei que não era isso o que você esperava ouvir, mas eu precisava desabafar. O que você espera ouvir, eu sei, é a verdade: eu estou feliz por você e por Hyoga. Estou feliz porque vocês merecem a felicidade e a cumplicidade de um amor e, ao mesmo tempo, me sinto terrível em ter pedido para que ele viajasse para a Rússia! Que timing terrível o meu!”

Conhecendo Saori como ele conhecia, sabia que ela estaria a ponto de se bater com a mão na testa — e agradecia aos deuses por ter tido a experiência de conhecê-la de uma maneira diferente dos outros. Sim, Saori fora mimada ao extremo, mas ao mesmo tempo, era uma adolescente insegura e solitária que prezava as companhias que tinha e, dada a proximidade de Shun ao morar na mesma casa que ela, pode compreender melhor a garota que era Athena e, assim, ter uma amizade mais próxima dela. Viu as barreiras que a cercavam desmoronarem aos poucos, presenciou a transição de garota insegura e esnobe para uma mulher mais decidida e mais pé no chão e agradecia pela chance de ter presenciado tudo isso. Entendia o quanto ser uma importante deusa do panteão grego era contrastante com a vida que a garota queria ter, mas sabia que Saori fazia o impossível para adaptar-se à essa vida e a mudar muito em prol daquilo que ela considerava certo.

“Saori, não se preocupe com isso! Temos nossas missões e não gostaríamos de nos esquivar delas à essa altura do campeonato. Tanto eu como Hyoga entendemos a necessidade dele deslocar-se até a Sibéria, já que Camus ainda está se reestabelecendo, assim como os outros Cavaleiros de Ouro. Só gostaria de ter sua permissão para visitá-lo, quando possível.”

“É claro que tem minha permissão, Shun! Gostaria também que você viesse à Grécia antes de viajar para a Rússia, já que gostaria de conversar pessoalmente com você e lhe colocar a par das coisas que acontecem por aqui e pedir conselhos também… você sabe o quanto aprecio sua companhia, não?”

“Sim, Saori! E eu gostaria de conversar com você também, além de visitar o Santuário e ajudar no que puder!”

Continuaram a conversar por alguns minutos, Saori informava o estado geral dos Cavaleiros de Ouro, algumas notícias de Seiya e Seika e Shun ouvia atentamente. Antes de desligarem, Saori lhe aconselhou:

“Shun, não sou parâmetro para relacionamentos; não sei se posso realmente ter um… mas não acho que um relacionamento tenha que ser vivido às escondidas, por medo ou por qualquer razão. Como eu já disse antes, haverão mudanças em nosso mundo, mas o que eu quero dizer é que você e Hyoga não precisam esconder que estão juntos, vocês têm minha benção.”

“Obrigado, Saori.”

“Não se preocupe com Tatsumi ou com qualquer outra pessoa, Shun. Sei que não preciso falar isso, mas também conheço como você fica preso em sua cabeça, pensando demais… lute as batalhas que você achar que valem a pena, tá? Boa noite!”

“Boa noite, Saori...”



Conversar com Saori foi algo apaziguador para o seu espírito — pode ter certeza que não havia nada de errado na relação que se iniciava e que teria o consentimento da deusa para seguir em frente. Percebeu que ela deveria ter falado algo com Tatsumi por ver os olhares que este lhe lançava durante a janta, quando todos estavam à mesa. Notou também que Jabu o olhava diferente, mas preferiu não se atentar demais a isso — Jabu era ciumento demais quando o assunto era Saori e a relação próxima que Shun mantinha com a garota, chegando a ser infantil com as provocações que dispensava a Shun pela amizade com Saori, algo que fazia com que o japonês sentisse pena do outro. Jabu queria sentir-se útil, essa era a verdade. Era como se a devoção que ele sentia pela mulher Saori garantisse a ele um papel de salvador, de herói na narrativa de vida que ele construía em sua cabeça. Todos eles tinham sonhos e ideias de como serem úteis; Jabu compensava isso ao se sujeitar aos caprichos da pequena e mimada Saori no passado e, hoje em dia, em zelar num modo quase que obsessivo pela mulher — era nítido que não era pela Deusa Athena a devoção dispersada por ele e sim pela mulher Saori Kido.

Ao terminar de jantar, ficou ainda pela cozinha — como sempre, era um dos últimos a sair da mesa, gostava de auxiliar as empregadas da mansão e conversar com elas enquanto preparava um chá. As mais velhas, que conheciam Shun desde pequeno, já estavam acostumadas com a presença dele e não se importavam, acabando por mimá-lo com alguns biscoitos e guloseimas que o japonês adorava. Após essa rotina, Shun sempre dirigia-se à biblioteca, onde passava algum tempo estudando por conta própria. Isolava-se um pouco de tudo e de todos, mesmo quando Hyoga e os demais estavam por perto e, depois de algumas horas, ia para o seu quarto e ficava por lá até pegar no sono — geralmente, era acordado por Hyoga para assistir algum filme ou jogar video games, às vezes era só para conversar madrugada a fora. Pensou no russo, enquanto procurava pelo game portátil que sempre carregava, encontrando a camiseta surrada do loiro que trocara com o mesmo na noite anterior.

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Sabia que chegaria tarde demais e que seria quase que impossível seguir viagem até Kohoutek àquela hora da noite — não era tão tarde, mas Outubro em Yakustk trazia a escuridão mais cedo, além dos ventos que anunciavam que o inverno chegaria logo (bem, para o lugar mais frio do mundo, o inverno sempre se mostrava presente por ali) — já que o vilarejo era fora de mão para muitos. Já tendo previsto este contratempo, Hyoga planejara passar a noite em algum hotel e seguir viagem pela manhã. Saindo do aeroporto e pegando um táxi, em vinte minutos estava em seu destino. O taxista pouco conversou com Hyoga, algo que deixou o russo contente — geralmente sentia-se deslocado com alguns costumes russos, mesmo tendo nascido no país e passado grande parte de sua vida por lá, existiam costumes e tradições que eram estranhas a ele. Ao final da jornada, pagou o motorista, agradecendo pela corrida e pegou seus pertences, seguindo para o hotel. Após fazer o check-in, entrar no quarto e deixar suas coisas num canto, jogou-se na cama, sentindo pela primeira vez a exaustão das viagens em seu corpo.

Não havia diferença no fuso horário de Yakutsk para Tokyo, portanto quando o estômago começou a doer, sabia que estava com fome e resolveu sair para comprar alguma coisa — por estar de volta à Rússia, sabia que a maioria dos lugares ao redor teria sopa — não que não gostasse de sopa, mas pensou no quanto viveria a base do prato pelos próximos meses e decidiu por outra coisa. Ao caminhar pela avenida onde o hotel estava localizado, achou um restaurante que tinha de tudo e riu, pensando no tanto que Shun se divertiria num lugar que oferecia comida local — talvez carne de rena fosse chocar Shun -, pizza e sushi. Decidiu por uma pizza e enquanto esperava o prato ficar pronto, tirava algumas fotos do cardápio e do restaurante para mandar para o namorado e, para passar o tempo, mexia no celular, alheio a tudo ao seu redor.

Demorou para perceber que, algumas mesas para trás, um grupo de homens não se importava em falar baixo e falar sobre ele: os cabelos compridos chamavam a atenção por serem associados a algo feminino. Era claro que Hyoga era um homem; o corpo e a voz eram inegavelmente masculinos, o rosto possuía uma certa ambiguidade, algo que nunca incomodou o russo.

“Posmostri na etot gomik...” (Olha aquele viado) — um dos homens que aparentava ter seus trinta e cinco anos, falava e apontava para a mesa onde Hyoga estava, arrancando risos dos outros na mesa.

Hyoga não sabia dizer se não estava mais acostumado a ouvir certas palavras em russo ou se por estar tão compenetrado em seus devaneios, não percebia que o desrespeito daqueles homens já estava acontecendo por algum tempo. Por um lado, agradecia por não ter escutado nada antes, por outro, começava a questionar por quanto tempo aguentaria aquilo. Quando o atendente veio à sua mesa avisar que o pedido estava pronto, levantou-se e não olhou para os homens, fingindo indiferença.

“Petuh!” (Bicha!)

Já pagando pela pizza, Hyoga guardava a carteira no bolso da jaqueta e, antes de sair do restaurante, lançou um olhar raivoso em direção à mesa dos homens. Havia algo naquele olhar que indicava muito mais que ódio e pode perceber que os homens ficaram em silêncio quando, um a um, os copos de vodka congelaram e quebraram nas mãos dos russos. Riu quando viu um deles fazer o sinal da cruz, assustado com o que acabara de acontecer.

De volta ao hotel, não se permitiu pensar no que acabara de acontecer — sabia que isso lhe viria à cabeça; não era a primeira vez que algo assim acontecia — quem geralmente era alvo dessas situações era Camus, que agia com maestria e raras foram as vezes em que precisou fazer algo para se defender -, mas não queria pensar naquilo agora. Colocou a caixa com a pizza na mesa e pegou o celular (teria que aproveitar o wifi do hotel, Zeus sabe quando teria internet novamente!) e mandou algumas mensagens para Shun. Quando o japonês o respondeu, os sentimentos de raiva sobre o acontecido anteriormente se dissiparam — os assuntos eram os mesmos de quando estavam perto um do outro, as discussões sobre os filmes, séries e livros que tanto gostavam, sobre qualquer coisa que haviam vivenciado durante o dia (ou até mesmo coisas do passado), enfim, nada havia mudado.

“Conversei com Saori há algumas horas…”

“Está tudo bem no Santuário?”

“Sim, ela disse que os cavaleiros de ouro ainda estão se recuperando… ela tem alguns planos para a reconstrução do Santuário, mas só vai executá-los depois de conversar com todos nós… ela pediu desculpas por ter te mandado para a Sibéria.”

“Ela se opôs ao fato de estarmos juntos?”

“Como você sabe que eu falei com ela sobre isso?”

“Shun, eu te conheço e sei que você não se sentiria bem se não conversasse com ela e, na verdade, fico feliz que tenha sido você a falar com ela… se fosse eu, ficaria reclamando sobre estar aqui, longe de você!” — A risada gostosa do japonês tomou seus ouvidos, fazendo com que a imagem de Shun sorrindo aparecesse diante de seus olhos e seu coração apertasse.

“Bem, eu tenho a permissão dela para te visitar e...”

“Precisava da permissão dela?”

“Não faça bico!” — riu, mais uma vez — “Eu te visitaria de qualquer jeito, mas antes de ir para a Rússia, ela pediu que eu fosse até o Santuário.”

“Você pode vir de lá direto para cá...”

“Sim, tenho certeza que posso fazer isso e servir de pombo correio para o Camus, o que acha?”

“Não ofereça seus serviços a ele ou terá de pagar excesso de bagagem pelo tanto de livros e instruções por escrito que ele lhe dará! Não ria, você não o conhece! Uma vez, ele deixou tantas instruções por escrito que Isaak e eu dizíamos que só faltava ele escrever que precisávamos respirar… no final delas, havia um lembrete para nos alimentarmos bem e dormirmos cedo…”

“Que exagero, Alexei!”

“Pergunte a ele sobre essa história. Cinco páginas de instruções escritas em letra cursiva!”

“Qual o problema de letra cursiva?”

“Cursiva russa.”

“Imagino que seja o fim do mundo, pobre Alexei!”

Continuaram a conversa por mais algum tempo enquanto Hyoga tentava convencer Shun de que a escrita cursiva em russo era um dos dez piores crimes cometidos contra a humanidade. Antes de desligarem o telefone, Hyoga confessou a Shun o quanto estava feliz em saber que Saori estava a par do relacionamento deles. Acabou dormindo com o celular na mão, não vendo a última mensagem enviada por Shun.

“Sleep tight :*”

(durma bem)