State Of Dreaming
20 19 - Confissão
Notas iniciais
A Fronteira Maldita versão 2.0
P. O. V Aria:
Seguir do Acampamento Meio-Sangue até o Olimpo, geralmente, era uma viagem um pouco turbulenta — monstros no caminho tentando nos matar; o trânsito caótico de Nova York; o cínico porteiro do Empire State Building que insistia em não entender quando solicitávamos pelo 600º andar, ou por uma audiência com lorde Zeus; e, finalmente, a péssima playlist do elevador divino —, mas tudo piorou inúmeras vezes agora que tudo estava completamente errado.
— Não que eu não ache neve atraente, mas, Gregory, meu querido, não precisa provocar uma tempestade em pleno verão! — Claire reclamou quando cruzamos, com o carro que tomara emprestado do pai, a barreira mágica do Acampamento.
Estávamos em meados de agosto, auge do verão; às vezes — quase nunca, para ser sincera — havia dias frios em meio a todo o calor, no entanto nunca com neve. Nem mesmo em Quebec, lar de Bóreas e Quione.
— Queria ser o culpado, mas não sou: não evoluí a esse nível ainda! — Gregory se defendeu, inclinando-se entre Claire e eu para poder mexer no rádio do carro, embora a filha de Afrodite nunca tivesse dito que ele poderia fazer tal coisa. — E a Jul está ocupada demais domando Phobos para brincar de tempestades como se fosse a Elsa.
— Sua mãe está na cidade, então? — pergunto, vendo a neve caindo e as ruas vazias.
— Graças aos deuses, não! — ele diz aliviado — Essa neve não é proposital, meninas! Não foi criada!
— Como assim? — Claire e eu perguntamos ao mesmo tempo.
Porém não foi Gregory quem nos respondeu, embora tenha sido graças a ele que tenhamos conseguido uma resposta: a rádio estava mal sintonizada, mas foi possível ouvir uma parte do noticiário através da estática.
— A cidade de Nova York sempre despertou a curiosidade de muitos, desde seus conterrâneos àqueles que estão à milhas de distância... E o “desaparecimento do sol”, no meio do verão, apenas serviu para aumentar o interesse pela Big Apple! — nesse momento, não sei se o radialista faz uma pausa dramática, ou se foi apenas a estática atrapalhando — Religiosos falam em Apocalipse, cientistas afirmam que deve haver uma explicação racional, como o Aquecimento Global; radicais confabulam sobre a fúria de deidades, mas a verdade é...
A transmissão tornou a falhar e nós desligamos o rádio. Ninguém ali precisava de explicação alguma, pois tínhamos certeza do que estava acontecendo e, embora fosse irônico, podíamos concordar: era mesmo o apocalipse — de certa forma —, misturado com a fúria de pelo menos uma deidade.
— Hélio se retirou faz tempo, e disse que nunca mais aceitaria retornar... — murmurei.
— Nenhum outro deus resistiria ao calor... — Claire completa.
— Mas... E os caras do outro lado da ponte, no Brooklyn? Ouvi falarem que eles têm sua versão... Um barco solar, algo assim... — Gregory tenta soar positivo, mas era apenas ingênuo demais para saber.
— Greg, há uma razão para ter várias versões... Não são apenas maneiras diferentes de se explicar algo, mas sim magias diferentes e complementares: para o mundo ser como é, todas as magias devem estar em completa harmonia, como os instrumentos de uma orquestra... — explico, mal controlando o pânico que sentia.
Em outras circunstâncias, eu teria controlado meu medo só para não dar um gostinho a Phobos. Mas havia coisas mais importantes com que me preocupar.
— Os pesos são iguais, não há distinção... Contudo, quando algo dá errado, temos um desequilíbrio cósmico, equivalente a...
— Uma orquestra sem seu maestro! — Gregory completa o raciocínio — E que bela hora para maestro Apolo desaparecer, não é?
E apesar da ironia, os sentimentos de Gregory eram apenas um reflexo do real problema: com Apolo desaparecido, ninguém puxava a carruagem solar, não havia calor, nem luz. Sem luz do sol, não havia lua.
Estávamos presos num eterno inverno — fora de época — de luas novas, indo visitar o lar dos piores parentes que qualquer um poderia ter... E a tendência, é claro, era apenas piorar!
P. O. V Autora:
Famílias comuns, quando os filhos somem, ligam para as autoridades, espalham cartazes com fotos e números para informações — às vezes até oferecem recompensas —, aparecem na televisão, etc... Mas os olimpianos jamais seriam uma família comum, por mais semelhantes aos humanos que fossem.
Eles jamais poderiam registrar o desaparecimento de Apolo e Ártemis, por mais desesperados que estivessem; nunca espalhariam cartazes com recompensas, embora estas, com toda certeza, seriam bem generosas, pois como teriam certeza da aparência que os gêmeos tinham? Quando foram vistos pela última vez, Apolo exibia a beleza exuberante de um jovem de 18 anos, e Ártemis a eterna caçadora de 13 anos.
Era da milionésima discussão acerca das feições dos deuses que Eros fugia quando deu de cara com uma de suas meias-irmãs semideusa e os dois jovens que a acompanhavam.
— Olhem só... Parece que Tique, enfim, está ao nosso lado...
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— O que fazem aqui? — o deus menor pergunta quando enfim se sente seguro.
Assim que Claire terminou de falar, Eros os fez andarem para longe da Sala dos Tronos antes de transportar a todos para uma saleta inúmeras vezes menor — em espaço e tamanho —, com muito menos do que “12 cadeiras”, porém lotada de todos os frascos possíveis. Era tanta coisa para se olhar, que o deus precisou chamar a atenção dos três campistas.
— Viemos pedir sua ajuda, e você não pode dizer não! — Gregory responde finalmente.
— Percebe que está falando com um deus, garoto? Mostre mais respeito, ou transformarei sua vida em...
— Me poupe, se poupe, nos poupe de toda a pompa e ameaça, lorde Eros: minha vida já é um inferno na Terra por ser filho de Quione, e como se isso não fosse o bastante essa desgraça, essa maldição some com meu tio e ainda me joga um responsabilidade grande demais para que eu saiba como agir. Não pense que me ameaçar, dizendo que vai fazer e acontecer, vai me amedrontar mais! Vai fazer o quê? Botar minha vida romântica pra fuder? Bom, boa sorte, pois ela sequer existe, então não, não vou abaixar minha cabeça e você vai nos ajudar! — no auge de suas emoções, do desespero, o semideus esbraveja totalmente alheio ao que estava causando.
— Greg! — a voz das garotas o traz de volta, fazendo-o perceber as mudanças que ocasionara.
Sendo ele um natural, a parte de seus poderes que era influenciada por suas emoções era muito maior; seu repentino surto o fizera congelar a sala, como se uma verdadeira nevasca tivesse acontecido ali. Tudo tão constrangedor que Gregory mal encontrou palavras para se desculpar, ficando quieto enquanto desfazia o erro.
— Ok, claramente todos aqui estão com o humor alterado, o que é aceitável nas atuais circunstâncias! — Claire tenta contornar a situação. — Eros, Greg ainda não entende muito bem pelo que está passando, não teve um treinamento adequado e peço desculpas por seu comportamento.
Em resposta, o deus simplesmente resmunga e faz um gesto de descaso, como se os gritos do rapaz tivessem sido irrelevantes.
— Não tempos tempo para isso! — Aria desconversa, sentindo-se incomodada: se tivesse sido ela a enfrentá-lo, porém no outono anterior, talvez não estivessem naquela situação. — Acredito que os deuses saibam sobre a profecia, certo?
— Ah, na verdade, não exatamente... Nosso profeta meio que sumiu junto com a irmã e estamos à sombra de tudo! — Eros comunica algo que os três semideuses já sabiam.
— Vocês não conseguem encontrá-los? Não podem usar seus poderes para procurá-los?
— E você acha que não tentamos, filha de Atena? Foi a primeira coisa que fizemos, porém não se pode achar aquilo que não foi escondido!
— Está dizendo que...
— Eles estão aí fora, em algum lugar dos Estados Unidos, mas nós não podemos achá-los: não foram escondidos, mas o território em que estão nos é proibido completamente... Um como nós está por trás disso, e está lá com eles, marcando o local como seu! — Eros afirma severamente.
Gregory e Aria se entreolham: haviam contado, ao todo, dez pessoas presas na maldição, que citava doze ao todo; eles tinham duas teorias sobre quem completaria o que a profecia dissera, e a mais temível das perspectivas se concretizou. Quem quer que fosse o culpado, estava lá com seus amigos, mantendo-os presos e desmemoriados!
O que os deixava com uma questão para pensarem a partir de então: quem seria a décima segunda peça?
P. O. V Gregory:
Enfrentar Eros talvez fosse a coisa mais estúpida a se fazer, mas eu realmente não me importava com isso: estávamos em uma corrida contra o tempo, e não podíamos gastá-los com mimos a deidades, ou pensando no que estava acontecendo com nossos amigos. Precisávamos focar em salvá-los.
Por tanto explicamos para Eros a profecia, especialmente a parte sobre o anjo e como isso se referia a ele.
— Você enviou Nico para lá, e ele tem nos ajudado! E agora precisa muito de sua ajuda! — e eu poderia jurar que Claire usava o charme, mas jamais saberia dizer — Imagine se sua esposa não se lembrasse de você, se Psiqué esquecesse tudo o que passaram juntos...
— Não a coloque no meio disso, semideusa! Eu sei reconhecer os meus deveres... E erros! — o deus suspira, começando a procurar por algo em meio aos frascos — Eu fiz Nico di Angelo e Thalia Grace sofrerem no passado e, se tenho uma chance de me redimir, agora é a hora... Além disso, tem algo que precisam saber!
Há toda uma pausa dramática no momento, daquelas que duram segundos, mas são longas o bastante para algo acontecer. Como Eros achar o que procurava, e eu trocar olhares desconfiados com as garotas.
— Minha mãe, Afrodite, pode ser a deusa do amor, mas ela tem estratégias e planos dignos de Atena, nada é por acaso... Até porque, as Parcas existem, mas enfim: há pares que precisam ser... “estudados” antes de um plano ser firmado e, bom, eu fiz uma merda sem igual que pode ficar ainda pior graças a esse sumiço...
Se sabíamos sobre o que ele estava falando? Óbvio. Se era desesperador? Também!
— Tem algo que possamos fazer? — pergunto e ele me entrega um frasco pequeno, de cujo conteúdo era azul cobalto.
— Façam como que isso chegue às mãos de Nico e que ele dê à Thalia. Digam que ela deve tomar antes de dormir. Digam também que eles precisam ser rápidos e trazer os dois para cá antes que a tal luta vã comece... Por que aí será tarde demais!
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