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9 Segura


Ponto de Vista – Abigail

Saímos do carro e fomos caminhando em silêncio até o pequeno parque de diversões que havia em nossa cidade. As luzes e as risadas das crianças eram contagiantes, parecia que renovava as suas energias, preenchia qualquer vazio que as pessoas pudessem sentir. Fomos até a bilheteria e soltei da mão de Bernardo para pagar e pegar nossas fichas dos brinquedos. A senhorinha que cuidava da mesma ficou nos encarando com um sorriso simpático no rosto.

Puxei Bernardo até o carrossel e ele ficou me encarando.

— É sério isso? — perguntou com um meio sorriso no rosto.

— É claro que é sério — entreguei as entradas para o senhor que cuidava do brinquedo e puxei Bernardo até um dos cavalos. Ele sentou-se meio receoso esperando alguma reação minha, mas o que encontrou foi um sorriso enorme no meu rosto. — Eu falei que íamos relaxar então nada melhor que voltar a ser criança. — Respondi de ombros enquanto me ajeitava no brinquedo.

Após sairmos do brinquedo ainda fomos em direção à casa de espelhos, onde ficamos rindo das caretas um do outro e tiramos algumas fotos das nossas imagens refletidas. E para terminar nosso trajeto antes de irmos comer fomos a casa mal assombrada.

Fomos de mãos dadas até uma cantina que tinha no parque assim que saímos da casa mal assombrada e pegamos algumas coisas para comer.

— Então – comecei enquanto caminhávamos até uma mesa vaga – vai querer terminar nossa noite por aqui e ir pra casa ou quer ir a mais algum lugar? – tomei um gole do meu refrigerante brincando com o canudo enquanto encarava Bernardo, que se sentou em minha frente.

— Na verdade eu não quero voltar pra casa hoje Abby, tenho certeza que meu pai vai estar acordado e para evitar mais uma briga eu prefiro, sei lá... Passar a noite fora – ele deu de ombros.

— Então eu sei o lugar perfeito pra isso – respondi sorrindo de orelha a orelha. – mas primeiro eu quero ir à roda gigante ainda, podemos ir? – perguntei encarando-o implorando, como se fosse uma criança implorando para ganhar algo de seus pais. Bernardo riu da minha cara.

— Usar a cara do baby Groot pra me conquistar? Sério? – assenti com sua pergunta – Isso é golpe baixo sabia. Mas vamos sim.

Fomos caminhando e eu escutei tocando em algum lugar do parque Bad Habit, do The Kooks, comecei a balançar meu corpo no ritmo da musica e cantar baixinho a letra.

— Quem é você e o que fez com a Abby? – ele perguntou pousando a mão em minha cintura quando eu parei de me balançar, senti minhas bochechas pegando fogo. – Não sabia que dançava tão bem.

— You know nothing, Bernardo Snow – respondi rindo – Esse é um dos meus lados, você só não conhecia – dei de ombros – e eu sou o tipo de pessoa que muda de humor umas quinhentas vezes por dia, você viu, de tarde eu estava mal, mas logo melhorei, e agora estou aqui fazendo graças pra te deixar bem e mostrando meus lados que poucas pessoas conhecem. Mas sinceramente, culpe meu Sol em Gêmeos pelas mudanças de humor, são constantes.

Bernardo me encarou com a sobrancelha arqueada como se não tivesse entendido.

— Sol em Gêmeos, meu signo no caso, uma das características é a bipolaridade, no meu caso é bem mais que só bi, deve ser tri, ou quadripolaridade... Eu não sou tão constante assim, mas fazer o que né, tem gente louca que gosta – dei de ombros e recebi um sorriso de Bernardo.

— Não sabia que você acreditava nessas coisas de signos.

— Eu conhecia, mas não acreditava... mas quando conheci a Bianca ela me ensinou algumas coisas, como o meu mapa astral por exemplo, muita coisa da minha personalidade, “modos de agir e pensar”, muita coisa se encaixa com o meu mapa. Como sei que quando faço drama a Bianca sempre culpa o meu ascendente, que seria como o signo que rege a minha personalidade, que é Câncer... então se um dia eu começar a fazer drama perto da Bi é capaz de você escutar ela reclamando sobre meu asc em Câncer.

— Mas como que ela descobriu seu mapa? – Perguntou parando atrás de algumas pessoas na fila.

— Na verdade ela pegou o horário que eu nasci, e por aquele horário ela descobriu meu mapa, cada planeta estava alinhado em um signo, e cada um deles tem uma função na pessoa que eu sou, em como eu ajo, em como eu penso em cada área da minha vida. Claro tem pessoas que descobrem o mapa astral pra saber qual são seus pontos que devem ter mais foco para melhorar ou as pessoas que elas podem vir a se tornar, eu tento, mas não é tão simples como parece. – Entregamos os nossos ingressos e sentamos em um dos assentos.

— Entendi, mas achei bacana isso... Estranho, mas legal – ele sorriu e ficamos encarando o céu estrelado quando o brinquedo começou a se mover.

O céu estava limpo e estrelado, se não fosse pelas luzes do parque com certeza a lua e as estrelas iluminariam o céu à noite.

— É lindo – falei olhando para o alto e fechando os olhos, relaxando com a brisa.

— É sim – Bernardo respondeu, quando abri meus olhos notei que ele me encarava. Abaixei a cabeça encarando as pessoas que estavam lá embaixo. – Então, como você tá?

— Eu que deveria te pedir isso – falei rindo sem graça e pegando um pedaço de algodão doce.

— Só tenho a te agradecer – ele disse dando de ombros sorrindo e pegando um pedaço do algodão também.

— É o mínimo que eu podia fazer... Você cuidou de mim hoje, só estou retribuindo – sorri para ele e deitei minha cabeça em seu ombro. Ele passou o braço em torno da minha cintura e continuamos assim aproveitando a vista e a companhia um do outro.

Quando a roda parou Bernardo estendeu a mão para eu descer. Fomos assim até o carro.

— Então, vamos para onde agora? – ele pediu parando meu lado e olhando para baixo, visto que eu batia para baixo do ombro dele.

— Eu vou te levar para um lugar que tenho certeza que vai amar. – falei enquanto ficava na ponta dos pés e dava um beijo em sua bochecha.

Liguei o carro e na rádio tocava um especial da MØ na rádio. Comecei a balançar minha cabeça no ritmo da música assim como batucava no volante. Notei que Bernardo me encarava e estava com o celular apontado para mim.

— O que você tá fazendo? – perguntei sorrindo.

— Te gravando... snap na verdade – ele disse virando em câmera frontal e tirando uma foto nossa. Mostrei a língua e ele fez careta. – Agora faz uma cara fofinha.

— Eu sempre sou fofa. – falei jogando os cabelos por cima do meu ombro.

— Pra foto Abby – ele disse salvando a outra foto e preparando a câmera.

— EU tô dirigindo moreno. Depois eu tiro foto fofa – comecei a rir e ele respondeu com um revirar de olhos.

Chegamos a uma parte afastada da cidade, a estrada levava em direção à praia que havia aqui perto. Peguei outro caminho, para um lugar que eu conhecia perfeitamente bem.

— Onde você tá indo? – Bernardo perguntou encarando o local que passava pela janela.

— Você vai descobrir – falei parando em frente à porta da garagem e soltando o sinto de segurança – Vamos? – Bernardo assentiu e saímos do carro.

Fui até uma planta que havia na frente da porta de entrada da casa e encontrei a chave que estava escondida. Abri a porta e joguei minha bolsa sobre o balcão que havia ali do lado.

— Lar doce lar – joguei os braços para cima me espreguiçando.

— Achei que você morava na cidade – Bernardo falou soltando a mochila ao lado da minha bolsa.

— E eu moro, aqui na verdade é a antiga casa dos meus avós. – Dei de ombros caminhando até a sala – Antes de falecerem eles a deixaram para mim, mas como ainda sou menor de idade não posso morar aqui... Então, diferente do meu irmão que quando não está bem sai para rachas, eu venho para cá e relaxo. Bem, ninguém sabe dessa casa além da minha família, então quando você quiser relaxar, que em casa esteja um inferno, pode vir para cá. – dei de ombros e sorri para ele.

— Achei que apresentava só pra membros da família – ele disse retribuindo o sorriso.

— Você é um caso à parte, confio em você por alguma razão – me dirigi até a cozinha abrindo a geladeira – Bem, tem comida aqui e nos armários, caso esteja com fome – peguei um suco que havia na geladeira e coloquei em um copo. – Estamos sozinhos, não precisa ficar tenso – notei que ele olhou para os lados esperando alguém surgir.

— Ok, se você diz. – Ele caminhou até a janela da cozinha – A vista é linda.

— De dia é ainda melhor. – Caminhei até seu lado – Acho que vamos ter que passar a noite aqui, a menos que queria voltar pra casa com temporal – apontei as nuvens que haviam se formado.

— Não vamos arriscar. – Ele virou para mim e sorriu.

Fomos até a sala e ficamos assistindo programas aleatórios que passavam na TV. Quando ambos estavam quase caindo de sono decidimos ir dormir. Levei-o até o segundo andar da casa e mostrei onde havia o quarto de visitas. Mostrei onde era meu quarto caso ele precisasse de algo.

— Hey – Bernardo falou surgindo na porta. Eu já estava deitada quase dormindo – Te acordei?

— Não não, ainda não tinha dormido. Precisa de algo? – perguntei levantando um pouco o corpo. Notei que seus olhos desceram um pouco do meu rosto para meu decote que havia se mostrado graças ao pijama. Ele passou as mãos pelo cabelo e negou.

— Não, só queria pedir que já que amanhã é sábado se poderíamos aproveitar um pouco da praia antes de voltar. – Ele pediu sem graça.

— Claro, por que não. – dei de ombros e sorri.

— Bom... Então... Boa noite Abby – ele disse caminhando em direção à porta.

— Bernardo – chamei-o virando meu corpo na cama e o encarando. – Pode ficar aqui hoje à noite?

— Abby... – ele começou.

— Por favor... Tá dando um temporal lá fora e eu não queria ficar sozinha. – Falei olhando para fora da janela, na hora deu um trovão que clareou o quarto, já que o mesmo estava com as cortinas abertas.

— Abigail está com medo? – ele respondeu divertindo-se com a situação.

— Quer saber, esquece. – virei de costas para porta esperando ele fechar a mesma, mas em vez disso notei alguém deitando ao meu lado na cama.

— Não faz assim loirinha – Ele deitou próximo ao meu corpo e depositando sua mão em cima de minha cintura – Abby, olha pra mim...

Virei meu corpo, mas não imaginava que ele tivesse tão próximo assim.

— Não tô fazendo nada, eu apenas pedi que você ficasse aqui comigo... – olhei em seus olhos e logo um sorriso de canto surgiu em seu rosto.

— E eu estou aqui...

— Não precisava dormir sem camisa – ri sem graça da situação.

— Quem vê não gosta do que está vendo – ele continuou sorrindo.

— Quanta modéstia.

— Apenas realismo.

— Se você diz... – falei colocando minha cabeça na volta do seu pescoço. Notei que o corpo de Bernardo ficou tenso com isso. Dei um beijo em seu pescoço e notei que meu toque causou arrepios nele. Sorri quando notei o que eu havia causado. – O que foi? – perguntei fazendo a maior cara de inocente.

— Nada... – ele falou levantando a cabeça um pouco para tentar me encarar.

— Bernardo...

— É só que... – notei que uma ruga se formou em sua testa, como se estivesse ponderando as palavras — Até alguns dias atrás nós vivíamos brigando, e agora estamos aqui, dormindo juntos... Abraçados... Por que eu não me aproximei antes de você Abby? – seu olhar tinha culpa, arrependimento, mas principalmente insegurança.

— Eu não sei o porquê, mas sei que estamos aqui por alguma razão. E quem sabe se você tivesse se aproximado antes tivesse evitado muita coisa – suspirei e arrumei meu corpo em seu abraço para conseguir ficar com meu rosto na mesma direção que o dele.

— Se eu pudesse voltar no tempo eu teria feito diferente, teria me aproximado, cuidado de você... Não gosto de te ver machucada – ele falou encarando as marcas no meu braço.

— E você não vai mais me ver machucada, eu sei disso – com isso sorri de canto e ele me encarou.

Nossos rostos estavam próximos o suficiente, dessa vez eu não consegui mais evitar, muito menos me controlar. Encarei seus lábios, assim como ele estava fazendo com o meu. Mesmo com a pouca iluminação notei que ele estava controlando-se para não fazer o que eu iria fazer. Encerrei com a pouca distancia que havia e juntei meus lábios ao dele, era um beijo calmo e terno, cheio de carinho e preocupação. Senti que uma das suas mãos apertou minha cintura levemente enquanto a outra ia para trás da minha nuca. Passei minha mão por seu pescoço e notei que ele se arrepiou com o toque e deslizei até seus cabelos, os quais fiquei brincando entre os dedos e dando leves puxões.

Nunca me imaginei beijando Bernardo, mas principalmente nunca pensei que nosso beijo seria assim. Quando o ar nos faltou acabamos colando nossas testas. Ele estava com um sorriso nos lábios e eu sabia que minhas bochechas estavam vermelhas.

— Isso foi... – comecei a falar.

— Não diz nada, vai estragar o momento – ele disse em um tom divertido.

— Idiota – ri baixinho.

— Idiota que você acabou de beijar.

— E pelo visto inflou o seu ego demais. – afastei meu rosto para encará-lo. – Boa noite Bernardo.

— Boa noite Abby – ele disse se aproximando e depositando um selinho em meus lábios.

Deitei novamente em seu peito colocando minha cabeça na volta do seu pescoço e o abraçando. Senti que seu corpo não estava mais tenso, agora ele estava relaxado. Escutei seu coração e este estava disparado, assim como o meu.

Após esses dois anos namorando o Carter, ele em nenhum momento me fez eu me sentir segura como estou me sentindo agora, mesmo que eu ainda estivesse namorando ele à culpa não tomou conta de mim neste momento, eu estava dormindo abraçada com um garoto que até poucos dias atrás eu odiava, e que hoje me fez eu me sentir especial e segura em todos os momentos.

Será que eu estava começando a gostar dele?