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30 Esperança
Ponto de Vista — Abby
Já faziam alguns dias desde o sequestro, se minha mente não me deixava mentir faziam exatas 72 horas, 48 minutos e 14 segundos, desde que eu esteva nesse inferno, minhas costas estavam doendo, principalmente depois de Carter ter me colocado próximo a um cano quente, mas notou que iria: Acabar deixando sua pele queimada docinho, e eu não quero esse tipo de marca em você, apenas as em relação a sua demora em voltar pra mim. Segundo ele isso era uma coisa boa, mas lá ia eu, novamente, vomitar no banheiro tudo o que tinham me forçado a comer.
Seja forte Abby, logo vamos tirar você dai. A voz de Bianca ecoava em minha mente, sentia como se ela estivesse ali passando as mãos em minhas costas para me acalmar. Eu sei que dói cobrinha, mas eu prometo que eu vou acabar com a raça desse cara no momento em que você voltar pra nós, não só eu, você sabe o que seu irmão é capaz de fazer, você devia ver o quão incrível ele é como advogado, sei que ele vai te defender. Agora respira, inspira, se acalma, não demonstra pro Carter o que você está sentindo.
Engatinhei até minha cama, o quarto era amplo, escuro, nada de claridade entravam por elas, a não ser por alguns raios de sol que estavam agora entrando pelas venezianas quebradas. A cama era de casal, mas eu sentia meus pulmões pesarem pela quantidade de mofo e bolor que tinha naquela cama, a casa toda aparentava ser velha, antiga, abandonada. O banheiro do quarto era pequeno, era um lavabo na verdade, o chuveiro existente ficava no quarto em que Carter dormia, mas por incrível que pareça quem me acompanhava nos banhos era a Priscila, e não ele, o que me deixava aliviada, mas não sem escutar toda vez “o que meu irmão viu em você? É tão sem sal”.
Escutei alguns barulhos no andar de baixo, controlei minha respiração e tentei escutar.
— Pra que continuar com isso Willian? Ela é tão importante assim? ELA NÃO VAI TRAZER NOSSOS PAIS DE VOLTA – Era a voz de Priscila, mas quem era Willian?
— Eu já falei pra você parar de querer gritar comigo Charlotte, eu já te falei que não te interessa…
— Não me interessa? Eu sou sua irmã, eu perdi meu pai, assim como você, pois ele morreu em uma missão, e você sabe disso também. Nossa mãe ficou louca e se suicidou naquele manicômio, nada do que você fizer pra Abigail…
— JÁ CHEGA, SAIA DA MINHA FRENTE CHARLOTTE, ANTES QUE SOBRE PRA VOCÊ TAMBÉM!
Espera aí, então o nome deles não era Carter e Priscila, mas sim Willian e Charlotte. Até aonde entendi o pai deles morreu em uma missão, será que ele também era militar? Fazia de alguma forma sentido ele fazer tudo isso comigo, talvez ele não esteja querendo o meu mal em si, mas sim a minha família, talvez?
Escutei passos vindo em direção ao quarto, peguei um livro que estava embaixo do travesseiro e fingi ler, forcei meus olhos mesmo com a pouca claridade. A porta foi aberta.
— Você sabe que pode usar a luz do quarto para ler, não sabe? — Uma senhorinha estava na porta, reconheci ela como sendo a tia de Priscila.
— Claro, é só que me acostumei com o quarto escuro – Forcei um sorriso mínimo.
Ela entrou no quarto e fechou a porta, acendeu a luz e a claridade fez meus olhos doerem.
— Desculpe.
— Não foi nada, como eu disse, só estou habituada com o escuro, mas logo passa – cocei meus olhos e aos poucos já me acostumei, notei suas olheiras cansadas – A senhora precisa de algo?
— Não não querida, só vim ver como você estava – Notei que ela veio até meu lado e soltou algo perto da cama, mas fingi não notar.
— Carter não vai ficar bravo da senhora estar aqui? — meu tom era preocupado com a reação do meu ex-namorado com ela.
— Ele está conversando com a irmã, vim pedir se você não quer dar uma volta pela casa, você sempre está nesse quarto fechado – seu olhar tinha medo, angústia. Ela falava como se eu pudesse sair perambulando pela casa, mas eu estava presa aqui, então não tinha porque sair daqui – Ele te proibiu de sair?
— É claro que não, não é isso, só me sinto mais confortável aqui – menti.
— Achei você – a porta foi aberta novamente, com Carter/Willian entrando – Achei que a senhora estava na cozinha.
— Só vim convidar a menina para sair um pouco do quarto, ia ver se ela quer me acompanhar – eu entendi seu olhar, ela queria, assim como eu, achar uma forma de escapar dali. Ela ficou em pé e deu alguns passos em direção da porta, imitei seu gesto, parando ao lado de Carter.
— Você quer sair, docinho?
— Não, não se preocupe, estou bem aqui – dei um sorriso amarelo em direção a senhora, aproximei meu corpo de Carter e enganchei meu braço com o dele, eu sabia ser dissimulada quando eu queria – Não é mesmo? — perguntei olhando para ele, que assentiu.
Logo a senhora saiu do quarto, mas a porta se manteve aberta.
— Você está bem? — perguntei. Me virei em sua direção, abraçando seu pescoço. Nos últimos dias o único contato que tínhamos me fazia ficar enjoada, meu estômago apertava, ou as lágrimas vinham aos meus olhos, mas ali era um teste de sobrevivência, e eu precisava ser forte.
— Por que não estaria? — Ele pareceu gostar da atitude, soltou as mãos em minha cintura de uma maneira terna, sem a brutalidade de sempre.
— Achei que tinha escutado você discutir com alguém.
— Cha-Priscila me enchendo o saco, só isso. Está tudo bem… e como você está?
— Estou bem.
— Não vai tentar gritar comigo, dizendo o monstro que eu sou por ter te sequestrado?
Neguei.
— O que você está planejando Abby?
— Nada, apenas estou aceitando o fato Carter, você me quer, estou aqui, não posso sair, então estou aceitando minha condição, aceitando suas razões, mesmo que eu não conheça elas, e tentando me aproximar de você, só isso.
Meu estômago deu uma volta, senti o bolo na garganta se formar, mas respirei fundo e coloquei meu melhor sorriso no rosto.
— Estou gostando de você assim Abby.
— Estou melhorando, por você.
Ele me deu um beijo, senti o arrepio passando por minha coluna, a vontade de empurrá-lo e correr dali, mas eu não poderia fazer isso, eu tinha que continuar fingindo, pra estadia aqui não ser tão ruim.
— Pegue suas coisas e vá até meu quarto tomar um banho, vamos sair hoje a noite, só nós dois. Você está merecendo.
— Ok – fiquei na ponta dos pés e depositei um beijo em sua bochecha, sai de seus braços e notei que a porta foi fechada, meu sorriso se desfez e deu lugar as lágrimas e os soluços silenciosos saindo da minha boca – Respira, inspira.
Caminhei até ao lado da cama que vi a senhora deixando algo, estava todo enrolado em um pano velho e encardido, tinha algo duro ali, quadrado, desenrolei o pano com cuidado, cuidando ao mesmo tempo da porta, com medo de ser vigiada, um quadrado preto estar ali, quando virei ele notei que era um celular antigo, e pelo jeito tinha carga.
Meu Deus, eu tinha como avisar o Guilherme. Sequei as lágrimas e meu sorriso aumentou, aquilo era esperança. Eu não poderia vacilar agora. Peguei ele e levei até o meio das minhas roupas improvisadas, diga-se roupas da Priscila que não serviam por estarem grandes.
Hoje a noite eu tinha que avisar o Guilherme, de alguma forma, custe o que custasse.
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