Notas iniciais
Plutão: descoberto em 1930, foi considerado o nono planeta do Sistema Solar até ser rebaixado a planeta anão em 2006 por conta de seu tamanho, perdendo assim o título de planeta, importante corpo celeste.

—Sim… Este é meu nome… — Aziraphale estava contente por ter descoberto que o cliente estranho se chamava Anthony, porém não conseguia entender a reação exagerada que recebeu ao contar o próprio nome. Tudo bem que não era o nome mais comum do mundo, mas não era pra tanto.

Anthony estava sendo no mínimo rude parado boquiaberto e com as sobrancelhas incrivelmente elevadas no meio da livraria. Mesmo com os olhos escondidos e tão distante, ele conseguia ser tão expressivo a ponto de deixar Aziraphale desconfortável. Ele não ia mais falar nada? Todo aquele drama era por causa de um nome estranho?

O vendedor entendeu infinitamente menos o que estava acontecendo quando o homem pareceu descongelar e correu em sua direção, envolvendo os braços em sua cintura com a força de uma serpente.

—A-Anthony? — Aziraphale nem conseguiu ficar bravo pelo gesto inesperado, muito chocado para reagir. O perfume do cliente era ainda melhor naquela distância, por isso foi quase automático retribuir o abraço, mesmo que sem a mesma força esmagadora que o prendia naquele momento.

Aziraphale não costumava sair por aí abraçando desconhecidos, mas tinha alguma coisa naquele abraço que o deixava seguro, feliz.

A forma que os dois corpos se entrelaçavam fazia sentido.

Imediatamente sons de soluços tomaram conta da livraria silenciosa e Anthony de alguma forma conseguiu fechar ainda mais o aperto, como se o simples pensamento de largar o vendedor fosse doloroso. Aziraphale ficou ainda mais perdido quando, sem saber direito o que fazer, decidira subir e descer uma das mãos pelas costas do outro homem… que começou a tremer e chorar ainda mais alto.

—Então… Por que você está chorando?

—QUEM ESTÁ CHORANDO? EU NÃO ESTOU CHORANDO! EU NÃO CHORO, NÃO SEI DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO! — o homem se afastou no mesmo instante e tentou se justificar mais alto que o necessário, a voz falhando e ainda embargada.

A sensação de um déjà-vu atravessou o vendedor como um raio.

—Crowley?! — mesmo com nome e estilo diferentes, aquilo fazia tanto sentido que Aziraphale teve vontade de se estapear por não ter percebido até aquele momento o que (quem!) estava diante de seus olhos.

—Sim, sim, sim! Sou eu, Aziraphale! — o homem afirmava enquanto não secava as lágrimas que escorreram pelas bochechas a partir dos olhos cobertos.

Olhos. Aziraphale precisava vê-los para confirmar que o homem diante dele não era uma mera miragem.

O vendedor deu um passo em direção a Anthony/Crowley sem dizer uma única palavra, fazendo com que os dois corpos se aproximassem outra vez.

Aziraphale estendeu as mãos para tocar o rosto alheio, mas parou quando restavam poucos centímetros. Anthony encostou uma bochecha em uma das mãos estendidas e essa foi a deixa para que seus óculos fossem retirados.

O vendedor se deparou com pálpebras fechadas por um momento que durou um instante além do necessário. Elas então se abriram e não existia nada mais no mundo.

Lá estavam eles: os olhos mais belos e únicos que Aziraphale já vira. Inconfundíveis e inteiramente de Crowley.

As íris eram de um castanho quase dourado e brilhavam ainda úmidas com as lágrimas derramadas momentos antes. Porém o que tornava aqueles olhos tão memoráveis eram suas pupilas. Estas atravessavam as íris douradas como se fossem felinas, dando ainda mais personalidade aos olhos que já seriam singulares apenas pela cor.

Infelizmente essa bela condição – coloboma, se Aziraphale se lembrava bem – causava uma aguda sensibilidade à luz e a necessidade de sempre usar óculos com lentes escuras para que a visão não fosse afetada pelo Sol.

Algo que Crowley aparentemente incorporara ao próprio estilo muito bem com o passar dos anos. Bem melhor do que o garotinho de nove anos e óculos muito grandes para o rosto que Aziraphale se lembrava.

Com a ponta de um dos dedos ele traçou o caminho percorrido pelas lágrimas, secando o rosto do outro homem enquanto admirava o quanto suas feições se modificaram com a passagem dos anos. Não se viam já fazia mais de vinte anos e agora, beirando os trinta, Crowley já não era mais a criança que Aziraphale se lembrava.

Claro que ele imaginava que o amigo de infância havia crescido, ele próprio crescera, porém era estranho finalmente encarar a versão real de tantos sonhos.

Sem que se desse conta o vendedor parara de limpar lágrimas e passara a acariciar a bochecha do astrônomo, somente se dando conta do gesto quando Crowley inclinara o rosto em direção ao toque.

Aziraphale não podia dizer que algum dia esquecera aquele que fora seu amigo como ninguém antes ou depois. O que ele podia dizer, mesmo que tenha demorado anos para admitir para si mesmo, era que Crowley fora sua primeira e provavelmente maior paixão.

Estar tão perto do homem – deuses, era possível sentir a respiração dele! – que o olhava tão intensamente e que estava tão entregue àquele simples toque mexia com o coração de Aziraphale de formas que ele não sabia explicar.

Ele se lembrava claramente do Crowley do passado: um garotinho com cabelos vermelhos cortados estilo militar, roupas claras sempre alinhadas e óculos escuros onipresentes.

Era estranho como bastava passar alguns minutos diante do outro homem para o coração do vendedor palpitar como se nenhum segundo houvesse passado desde a última vez que o vira. Não havia nada de igual entre aquelas duas versões de Crowley além dos óculos e da cor do cabelo.

Aziraphale continuara a tocar a bochecha do astrônomo até perceber que esta começara a esquentar e tomar uma tonalidade semelhante a das madeixas que caíam sobre o rosto dele.

—Só não entendi uma coisa: seu nome não é mais Crowley? Desde quando você responde por Anthony? — o vendedor mudou rápido de assunto antes que a distância entre ele e o visitante diminuísse ainda mais. O homem pareceu sair de um transe.

—Meu nome é Anthony J. Crowley, Aziraphale. Quando pequeno costumavam me chamar pelo meu sobrenome, como você sabe. Acho que nunca alguém usou meu primeiro nome antes de eu sair de casa. — ele parou por um segundo e levou um dedo até a ponte do nariz, como se quisesse ajeitar os óculos que não estavam mais lá. —Eu curtia ser chamado de Crowley, mas como eu não estou exatamente… okay... — ele fez um gesto amplo que o vendedor não entendeu —....Com minha família, preferi não usar mais tanto meu sobrenome.

—Perdão por ter te chamado pelo nome errado então! Eu não sabia, simplesmente estranhei porque só conhecia seu sobrenome… Pensei que fosse esse o seu nome…

—Não precisa pedir desculpas, eu não me importo se for você me chamando de Crowley.

—Crowley… — Aziraphale não sabia o que queria dizer, o que precisava dizer para o astrônomo naquele momento, porém qualquer coisa que fosse foi cortada pelo toque estridente do celular do homem.

—O qu- Ah, não! — o vendedor encarou assustado o celular ser retirado da calça de couro para ser xingado em seguida. Eram palavrões muito criativos e que provavelmente não podiam ser encontrados em nenhum lugar da vasta livraria.

O aparelho foi massacrado um pouquinho mais com uma digitação violenta antes de voltar para o bolso com um pouco mais de ódio.

—Tudo bem? — mesmo não entendendo nada, era melhor perguntar.

—Sim, claro! — não parecia nada bem —Eu… eu tenho que ir, desculpa.

—Tudo bem — também não parecia nada bem.

—Aziraphale… — Crowley pareceu falar antes que o próprio cérebro processasse o que seria dito e se arrependido no processo. Porém o vendedor obviamente ouvira seu nome ser pronunciado e a expressão curiosa dele foi o que deu a coragem que o astrônomo precisava para continuar. —Aziraphale, você gostaria de conhecer meu apartamento? Podemos, sei lá… Tomar vinho e olhar as estrelas com meu telescópio enquanto botamos o papo em dia… Quero dizer… Se você quiser, né? Assim, sem pressão! Não sei se você está ocupado ou se você toma vinho ou se voc-

—Eu adoraria conhecer seu apartamento, Crowley. Hoje? Eu posso fechar a loja agora, se você quiser.

—Hoje?! C-Claro! Quero dizer! Não! Hoje não! Eu tenho… Eu tenho… Prova! Eu tenho que aplicar uma prova amanhã cedo e preciso terminar hoje mesmo… Sim sim, uma prova… — Aziraphale preferiu não comentar no claro estado repentino de pânico que Crowley apresentou diante da ideia de uma visita naquele mesmo dia.

—Amanhã então? Você acha que vai estar livre amanhã?

—Sim, sim! Amanhã está ótimo! — o astrônomo parecia imensamente aliviado com aquela mudança de planos e Aziraphale resolveu também não comentar sobre aquilo.

—Umas… Oito…?

—Às oito está ótimo. Posso passar aqui e te levar pra lá.

—Aziraphale…?

—Sim?

—Tinto ou branco?

—Tinto, por favor.

—Okay… Eu… Eu preciso ir.

E partiu.

Deixando novamente um vazio mal curado no coração de Aziraphale.

Notas finais
Era pra já ter postado esse capítulo faz tempo, mas né segue o baile kk Pelo jeito escolhi o mês certo para postar essa história. Tivemos chuva de meteoros, eclipse solar e conjunção de Saturno e Júpiter... Meu headcannon favorito sobre o "J" do Crowley com certeza é que a abreviação é de "Janthony" XD