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3 Estrelas binárias


Notas iniciais
Estrelas binárias: sistema estelar que consiste de duas estrelas orbitando um baricentro (centro de massas) comum. Por estarem tão próximas uma da outra (em proporções astronômicas, claro), podem ser percebidas à primeira vista como uma única estrela.

—Se tu vens, por exemplo, às oito da noite, desde às sete da manhã eu começarei a ficar ansioso. — Aziraphale nem levantara direito e já estava parafraseando Pequeno Príncipe. Que decadência.

O vendedor não podia dizer que teve uma boa noite de sono com a ideia de um encontro (podia chamar assim?) com Crowley no dia seguinte. Ele somente esperou o outro homem sair pela porta para fechar a loja pelo dia. Não era como se algo fosse ser vendido nas próximas horas de funcionamento mesmo.

Aziraphale nem mesmo saíra para comer como planejado, decidindo ficar sozinho com os próprios sentimentos, uma caneca com chocolate quente e algum alimento que ele encontrara em modo automático na pequena cozinha no andar superior.

Já começara a escurecer quando ele conseguiu organizar minimamente os acontecimentos da tarde anterior.

Nunca esquecera Crowley, porém também nunca tivera a ilusão de reencontrá-lo algum dia. Pelo menos não depois de tanto tempo... Sabia que o amigo de infância havia se mudado de repente anos antes por conta da queda que ele causara.

Aziraphale pedira a maçã mais bonita e vermelha da árvore que havia em seu quintal e o menino de cabelos ruivos subira em um piscar de olhos em um dos galhos mais altos para realizar a tarefa. Fora apenas um desafio de criança, algo bobo e que não deveria ter qualquer consequência. O problema fora que o galho em que Crowley estava se quebrara e ele caíra, desmaiando enquanto uma poça de sangue mais vermelho que a maçã ou seus cabelos se formara.

A última notícia que Aziraphale recebera fora que Crowley estava vivo. No dia seguinte um caminhão de mudança estacionara na frente da casa do vizinho e saíra lotado.

E nunca mais ouviu-se sobre o garoto ou a família dele.

Para o vendedor, Crowley era uma lembrança dolorosa e preciosa, guardada a sete chaves no fundo do coração. Era difícil esquecer um primeiro amor, mas era ainda mais difícil fazê-lo quando se é impedido de ter qualquer tipo de encerramento.

Quando esse primeiro amor é alguém como Crowley, isso é algo impossível.

E quando ele reaparece do nada após vinte anos te convidando para conhecer a casa dele… Oh, Céus!

Aquilo era demais, muito rápido!

Porém Aziraphale tinha total consciência que fora ele quem sugerira se encontrarem de noite.

Um encontro de noite na casa de alguém e com álcool envolvido… Oh, Céus! O que ele tinha na cabeça?

O pior era que o vendedor não conhecia esse “novo” Crowley… Esse novo Anthony! Ele não sabia muito além da profissão do outro homem e que ele tomava vinho… A mudança de estilo não era mais tão surpreendente para Aziraphale após vinte quatro horas do reencontro. Crowley parecia tão confortável se vestindo de tal forma que fazia sentido. Agora, como mais o astrônomo mudara durante aqueles vinte anos fora algo que deixara Aziraphale acordado na noite anterior.

O vendedor, por sua vez, sentia um pouco como se houvesse parado no tempo. E ele não se referia (só) às suas roupas que poderiam facilmente pertencer a alguém com o triplo da idade. Ele não conseguia pensar em nada surpreendente sobre si mesmo, alguma “novidade” daquelas duas décadas, além de talvez o fato de ter saído do armário com os pais super católicos que possuía (ele tinha nome de anjo, afinal de contas…) ou ter aberto uma livraria… E até essas coisas não eram muito chocantes.

E em meio a tal turbilhão de pensamentos Aziraphale teve uma péssima noite de sono e necessitou de medidas drásticas (leia-se: tomar café e não chá de manhã) para conseguir ser mais competente do que um zumbi durante o dia.

Provavelmente aquele fora o único dia em que o vendedor ficou feliz em receber clientes, pois eles eram distrações bem vindas para o nervosismo e ótimas ferramentas para fazer o tempo passar mais rápido.

E o tempo passou.

Quando Aziraphale menos esperava já era cerca de seis horas (ele não tinha um horário de funcionamento muito… fixo mesmo) e ele precisava fechar a livraria para se arrumar.

Essa tarefa se provou tão estressante quanto pensar sobre o encontro em si, mas após meia dúzia de quase infartos, Aziraphale conseguiu escolher algo em azul e creme. Não era nada diferente do habitual, ele precisou admitir após a enésima troca de roupa, porém as peças possuíam um ótimo caimento e combinavam entre si a ponto de serem dignas de uma ocasião especial.

Arrumar o cabelo foi um desafio à parte, tanto que Aziraphale somente terminou de ajeitar o último cacho rebelde segundos antes de ouvir batidas na porta do andar inferior.

Com o coração batendo mais alto do que o contato entre punho e madeira que reverberara momentos antes pelo imóvel, o vendedor abriu a porta só para se deparar com uma visão que o deixou um pouquinho mais sem fôlego.

Crowley estava parado com um dos braços escondido atrás das costas e acenando com a outra mão. Ele usava coturnos pretos, calças de couro vermelho escuro tão apertadas quanto as do dia anterior, além de um sobretudo preto com detalhes dourados e que parecia bem quente.

Quente estava o rosto de Aziraphale ao subir o olhar e perceber que o cabelo do outro homem estava solto. As mechas caiam em ondas de carmim brilhante e emolduravam um sorriso capaz de derreter a mais forte nevasca. O vendedor estava com pernas bambas e ninguém havia dito qualquer palavra.

Não era à toa que vermelho sempre fora a cor preferida de Aziraphale.

—Você está incrível, Anjo! — o coração de Aziraphale deu uma pirueta com o apelido sendo pronunciado tão tranquilamente.

—Eu?! Você se olhou no espelho antes de sair de casa?! — Crowley respondeu ajeitando os óculos sobre o nariz e dando um sorrisinho de lado.

—Verdade! Isso é pra você. — finalmente o astrônomo revelara o que escondia nas costas e se aquilo pareceu uma desculpa pra mudar logo de assunto, ninguém disse nada sobre. Com um floreio e reverência, Crowley entregou uma rosa que era simplesmente a mais bonita que Aziraphale já vira. As pétalas vermelhas se abriam formando uma coroa com aspecto delicado e sedoso, o cabo verde não possuía qualquer vestígio de espinhos e o aroma exalado era divino. Era difícil encontrar palavras para agradecer tal presente —Então… Eu não sabia se você ainda gostava de flores… Mas lembrava que rosas vermelhas eram as suas favoritas… Tudo bem se você não gostar mais, sem problem-

—Crowley — Aziraphale cortou a verborragia alheia —Muito obrigado pela flor, sério. Ela é simplesmente maravilhosa, eu só não estava esperando por um presente e muito menos você lembrar da minha flor preferida. — os ombros do astrônomo relaxaram visivelmente e o vendedor não conseguiu evitar um sorriso. —Agora só me espera um segundo porque preciso colocá-la na água.

Quando retornou, foi inevitável ver, por um segundo, diante de si o garotinho que conhecera no que parecia ser outra vida. Crowley tinha o hábito de detonar os jardins da vizinhança inteira levando flores para o melhor amigo todas as vezes que se encontravam… Algo que acontecia todo santo dia pelo fato de serem vizinhos e terem famílias amigas.

Aziraphale piscou os olhos e voltou a ver a forma esguia em preto e vermelho que era Crowley.

Tudo estava bem.

—Vamos? — Crowley deu um sorriso impossível de não retribuir e apontou para um ponto na rua.

Estacionado diante da livraria estava um carro preto claramente de colecionador com uma das rodas sobre a calçada.

De alguma forma o vendedor soube no mesmo instante quem era o dono de tal veículo. E sinceramente estava surtando o bastante para nem mesmo pensar em censurá-lo sobre possíveis multas.

Aziraphale desistira de tentar aprender a dirigir assim que sentara diante do volante de um carro na primeira aula prática de direção. Mesmo assim ele não podia evitar se maravilhar com a lataria lustrosa do automóvel antigo, mas extremamente bem conservado.

O que já parecia óbvio foi confirmado quando Crowley abriu a porta do passageiro para que o vendedor entrasse. Aquele gesto com ar de cavalheirismo (somado a rosa vermelha) deixava-o com o estômago repleto de borboletas.

Aziraphale não pôde perder muito tempo pensando em tais insetos pois estava ocupado tentando sobreviver. Ele não duvidava que Crowley tinha muitos talentos, mas pelo jeito dirigir com responsabilidade e segurança não era um deles.

O vendedor precisou se segurar pela própria vida a cada curva acentuada que o motorista fazia em ruas de mão dupla. Quem diabos acelera em curvas?! Sem nem dar seta?!

Foram minutos longos demais de tensão embalada por Queen tocando no rádio, porém conseguiram chegar sãos e salvos ao prédio de Crowley.

A cada porta que o astrônomo abria para Aziraphale, o coração dele se derretia um pouquinho mais. Quando finalmente entraram no apartamento em si, ele aceitou de bom grado a oferta do astrônomo de pendurar seu casaco.

Por baixo do sobretudo Crowley revelara uma camisa de seda preta de botões dourados abertos muito mais do que o necessário para acelerar o coração do visitante. E se Aziraphale achou difícil respirar após o homem dobrar as mangas até os cotovelos, revelando antebraços cobertos de tatuagens de serpentes, ninguém tocou no assunto.

Melhor nem começar a falar sobre os olhos agora descobertos...

Para sorte do vendedor, Crowley não pareceu perceber o estado que ele se encontrava e partiu para uma espécie de tour pelo imóvel. Era simplesmente o oposto de sua própria residência: enquanto Aziraphale morava rodeado de bugigangas e cores quentes, aquele era um apartamento minimalista e cinza, contendo somente o mínimo necessário no que dizia respeito a móveis e apresentava pouquíssimas decorações.

De certa forma, o estilo combinava com Crowley e Aziraphale não pôde evitar sorrir enquanto o outro homem apresentava os diferentes cômodos do apartamento espaçoso, somente estranhando um pouco a presença de dois dormitórios.

E, claro, a estátua de mármore contendo dois anjos lutando, que deixara Aziraphale com o rosto quente enquanto desviava o olhar o mais rápido possível do objeto.

Foi só entrarem no último cômodo que Aziraphale foi bombardeado por verde. Diante de seus olhos havia um verdadeiro Jardim do Éden. Para onde quer que olhasse ele via as mais variadas folhagens e pétalas. O que faltava de vida no restante do apartamento estava transbordando naquele paraíso contido em quatro paredes.

O vendedor nunca teve exatamente um dedo verde, mas era impossível não ficar deslumbrado com tamanha perfeição. Aziraphale sentia que poderia ficar dias olhando para as plantas e não encontraria uma folha manchada ou pétala murcha sequer.

—Crowley! É tudo tão lindo! — o dono da casa coçou a nuca enquanto ria e Aziraphale achou aquele gesto de constrangimento adorável. O vendedor só conseguiu andar de um lado para outro, como uma criança em uma loja de doces, tentando absorver cada detalhe das diferentes plantas. Elas não só eram lindas, como tinham texturas delicadas e os mais deliciosos aromas.

E Crowley, por sua vez, só conseguia observar o outro homem passeando pelo cômodo com um sorriso no rosto.

—Espere um pouquinho aqui, Anjo. Vou pegar o vinho que te prometi e já volto, preciso desligar o forno.

—VOCÊ DEIXOU O FORNO LIGADO E SAIU DE CASA?! — a capacidade de viver no limite era uma característica que Aziraphale NÃO estava feliz em perceber que continuara intacta após duas décadas.

Crowley respondeu somente com um dar de ombros e um sorriso. E saiu correndo para a direção da cozinha.

Aziraphale respirou fundo e ele decidiu que não valia a pena brigar enquanto passava o tempo olhando o que parecia ser uma infinita coleção de flores. A cada segundo que ele passava naquele lugar mais ele se perguntava como a) poderia existir algo tão belo no plano terrestre e b) como tanta variedade de plantas cabia em um cômodo tão pequeno.

Ele não sabia porque ficou tão surpreso em encontrar uma roseira em meio às outras flores. A rosa que ele ganhara jamais poderia ter sido comprada em algum mercado qualquer, talvez nem mesmo em alguma floricultura famosa. Era sem sombras de dúvida fruto da mais profunda paciência e do mais paciente cuidado.

Aziraphale se demorou observando os mínimos detalhes da roseira até que encontrou o corte limpo e recente que resultou em sua rosa. A mais bela entre todas. Ter essa confirmação de que ganhara de presente algo que Crowley dedicara tanto esforço fez com que o coração do vendedor esquentasse mais do que o próprio rosto.

Sem pensar muito antes de se mover, Aziraphale decidiu tocar com a ponta dos dedos o ramo que fora cortado. Algo que, diga-se de passagem, não foi uma boa ideia, porque o homem terminou com um dedo espetado por um espinho.

Foi somente enquanto se recuperava do susto que o vendedor percebeu um pequeno papel verde colado ao lado das rosas em um dos poucos pedaços de parede não dominado por mais verde.

O post-it parecia ter sido escondido, estrategicamente posicionado para não ser encontrado por acaso. Ainda sim, Aziraphale o fizera.

E não conseguiu resistir à curiosidade que tomou conta de cada milímetro de sua mente. Ele precisava ler o que estava escrito.

—Interessante. — ele se viu comentando em voz alta ao terminar de ler a curta mensagem.

—O que é interessante, Anjo? — o astrônomo retornou com uma garrafa de vinho aberta em uma mão e duas taças equilibradas na outra.

—Crowley?

—Sim?

—Quem é… bem... só tem uma mosca desenhada como assinatura… — Aziraphale mostrou o bilhete que estava escondido e ficou claro o esforço que o outro homem teve que fazer para não deixar o chão forrado de cacos de vidro.

—PORRA, BEELZEBUB!

Espero que vocês aproveitem bastante esse tempo sozinhos. Usem proteção, não quero um sobrinho tão cedo, ok? ;)

Assinado: [desenho de mosca]

PS: Quero conhecer logo esse tal de Aziraphale, nunca te vi sorrir tanto

Crowley teve que respirar fundo antes de responder Aziraphale e, claro, não derrubar nada.

—Como você pode imaginar pela palavra “sobrinho”, somos irmãos. Por favor, não ligue pra essa criatura desprezível que é Beelzebub. E caso esteja curioso, vocês não se conheceram porque minha mãe estava grávida quando nos mudamos, então temos praticamente uma década de diferença.

—É, faz sentido. — Aziraphale deu uma risadinha —“Beelzebub”... E eu achando que meus pais que foram criativos com meu nome. Pelo jeito você que foi o sortudo da família, como Gabriel e Michael na minha. Impressão minha ou enquanto meus pais deram nomes de anjos pros filhos os seus deram de demônios?

Crowley deu um sorriso amarelo como se aquela última observação fizesse muito sentido.

—Independente de quem chama o quê, não ligue pra esse post-it aí, Beelzebub adora encher meu saco com provocações baratas e mentiras.

—Então não é verdade que eu te faço sorrir? — Aziraphale não sabia de onde surgira tal ousadia para perguntar aquilo, porém o simples som inumano produzido por Crowley como resposta o fez se sentir um pouquinho mais a vontade.

—Aqui! Tenho certeza que você vai adorar o vinho — o vendedor nem conseguiu ficar frustrado pela mudança descarada de assunto porque quase foi atingido no rosto com uma garrafa que parecia bem mortal.

É, algumas coisas nunca mudam. Crowley ainda era desastrado.

—Desculpa! DROGA! — Aziraphale finalmente percebeu que com o movimento brusco o conteúdo da garrafa sem rolha se derramara pelos dedos do astrônomo e pingara no chão, por pouco não caindo nas roupas dos dois.

Crowley rapidamente entregou a garrafa para Aziraphale e começou a lamber o líquido dos dedos. O vendedor deixou escapar um som no fundo da garganta que fez com que a atenção do astrônomo caísse sobre ele.

—Anjo? — ouvir seu apelido ser pronunciado daquela forma enquanto via o objeto de tantas fantasias hormonais durante a puberdade (e além) lamber os próprios dedos não podia ser saudável para o pobre coração de Aziraphale. Pior ainda quando Crowley pareceu perceber o motivo da reação do vendedor e seu rosto assumiu uma cor semelhante à do vinho tinto. —V-Você pode se sentar na sala, por favor? Eu vou… Vou lavar as mãos! — e entregou as taças sem muito cuidado, saindo como um furacão antes de ouvir qualquer resposta.

Aziraphale finalmente deixou escapar a respiração que ele nem percebera estar segurando, preferindo deixar a pequena poça de vinho para trás do que continuar muito mais tempo no lugar onde encontrara o bilhete.

Encontrar a estátua no meio do caminho não ajudou muito a respiração dele a voltar ao normal, mas ele conseguiu chegar até a longínqua sala, deixando a garrafa e as taças seguras sobre a mesa de centro enquanto se sentava no sofá de couro preto e surpreendentemente confortável.

Crowley retornou quando ele já estava mais calmo e acabara de encher as duas taças com doses generosas do líquido perfumado.

—Prontinho. — ele se aproximou acenando as mãos limpas para Aziraphale e este não conseguiu evitar retribuir o sorriso.

Os dois permaneceram sentados lado a lado pelo que pareceram meros segundos, os ponteiros grandes do relógio da cozinha dando voltas e mais voltas sem que eles se dessem conta, taças e mais taças sendo enchidas e esvaziadas no processo. Eles ficavam mais confortáveis com a presença alheia a cada palavra trocada e muito antes do vinho começar a fazer efeito em seus corpos.

Corpos estes que estavam mais próximos do que ao se sentarem pela primeira vez, como se unidos inconscientemente por um ímã.

Se sóbrios eles conversavam como se se vissem todos os dias, agora que a concentração de álcool só aumentara, eles se permitiam pequenos toques.

Nenhum deles sabia quando pararam de se sentar em pontas opostas do mesmo sofá para começarem a sentir o calor alheio fluir no encontro das coxas, esquentando os corpos mais do que o vinho conseguia. Aziraphale também não percebera em que momento Crowley apoiara um dos braços no encosto de suas costas até que o astrônomo saíra da posição para se servir de mais uma taça de vinho.

—Crowley? — ele se voltou para o vendedor com os olhos brilhando de expectativa, a taça ainda contra os lábios, um sorriso vermelho aparecendo com a simples menção do próprio nome. Aziraphale não sabia dizer se o vira sem um sorriso no rosto desde que atendera a porta da livraria horas antes. —Me desculpa pela sua queda.

Aziraphale sentiu seu coração ser esmagado diante da mudança instantânea na fisionomia alheia: o rosto de Crowley se fechou, os olhos perdendo o brilho brincalhão e os joelhos se afastaram, deixando para trás somente frio e nada mais.

Não foi preciso especificar a qual “queda” o vendedor se referia. Os dois sabiam muito bem do que ele estava falando.

Ele não deveria tê-lo lembrado daquilo. Crowley deveria odiá-lo agora.

Porém não tinha mais volta, o estrago já estava feito.

—Não há nada para pedir desculpas, Anjo. Isso está no passado, já passou. Esqueça disso, okay? — Crowley pousou cinco dedos longos sobre a coxa de Aziraphale e este se perguntou quantos anos teriam que se passar até ele conseguir negar algo quando o astrônomo o olhava, o tocava, daquela forma.

Ou conseguir negar algo a ele. E ponto.

Crowley abriu um novo sorriso enquanto esperava uma resposta e Aziraphale chegou à conclusão que não conseguiria negar nada ao homem nem naquela noite nem em seis mil anos.

—Okay. — ele se pegou dizendo, mesmo que quisesse ser desculpado. Quando percebeu, também sorria.

Crowley terminou de beber a taça que segurava e, ao perceber que não existia mais nenhuma gota na garrafa, virou-se para Aziraphale.

—Anjo… digamos que eu calculei muito mal o tempo do assado e por isso temos algumas horas de sobra, então... — Aziraphale estava muito ocupado indagando o que o outro homem planejava fazer com o tempo livre para pensar em como ele ficava adorável quando constrangido — O que você acha da gente ver agora as estrelas que prometi?

—Acho uma ótima ideia, querido. — talvez tenha sido por causa da mão de Crowley ainda em sua coxa, talvez pela forma com que o astrônomo o olhava, o que importava era que foi fácil, natural, deixar aquela última palavra deixar seus lábios.

Crowley, por sua vez, deixou um som inumano escapar e suas bochechas coraram mais do que já estavam por causa do vinho.

—Quer mais vinho?! — era impressionante a habilidade que ele tinha de mudar de assunto.

—Você que sabe... — e só para torturar o pobre homem, acrescentou: —...querido.

Aziraphale olhou para baixo por um momento e presenciou cada um dos fios ruivos que cobriam os antebraços tatuados do astrônomo se arrepiarem.

—V-Você gosta de rosé?! — o vendedor acenou com a cabeça e Crowley pareceu se acalmar minimamente. —Okay, então vou pegar um que tenho e podemos ir pra cobertura.

Apesar de anunciar tais planos, ele não fez qualquer movimento para se levantar, e sim continuou sentado na exata posição de antes. A única coisa que mudou foi que ele começou a desenhar pequenos círculos com o polegar.

Aziraphale não sabia o que era mais quente: a mão em sua coxa — mesmo sobre a calça grossa — ou o olhar de Crowley naquele momento que parecia não ter fim.

Não que ele estivesse reclamando...

—Pegue as taças, por favor, Anjo. Vou pegar o vinho então. — o astrônomo finalmente disse se levantando. E quebrava o feitiço.

Enquanto também se levantava, Aziraphale já sentia falta do toque do outro homem.

Quando chegou até a cozinha, com as taças nas mãos, Crowley já segurava uma garrafa com detalhes dourados.

Havia um laço vermelho próximo ao gargalo e Aziraphale preferiu não perguntar sobre enquanto finalmente vestiam outra vez os respectivos casacos e iam para a cobertura apenas um andar acima do que estavam.

Como prometido no dia anterior, havia um telescópio, vinho e estrelas.

Porém também havia uma imensidão de cobertores, travesseiros, almofadas e outras tantas coisas macias e confortáveis. Sob o céu estrelado tudo aquilo criava um espaço aquecido, aconchegante. Um ninho.

Aquele último pensamento foi o bastante para deixar o rosto de Aziraphale quente, apesar do vento gelado daquela noite de inverno.

Crowley, por sua vez, pareceu não perceber a reação do vendedor. Ele simplesmente se sentou sobre um edredom vermelho e deu tapinhas no espaço ao lado, um sorriso iluminando seu rosto.

Aziraphale seguiu o comando sem palavras e deixou não mais do que um palmo entre o próprio corpo e o do astrônomo. Os dois já haviam se tocado algumas vezes naquela noite, mas o simples fato de estarem sentados em um ninho deixava tudo mais intenso.

Aziraphale não sabia se conseguiria parar de tocar o outro homem se este lhe permitisse começar.

Crowley sorriu satisfeito com a aproximação e tirou um saca-rolhas de Deus sabe onde, olhando a garrafa de vinho com uma expressão pensativa.

—Eu espero que isso daqui seja bom. — tocou o laço vermelho —Ganhei essa garrafa quando defendi meu doutorado há três anos, mas nenhuma ocasião pareceu especial o bastante para abrí-lo… — o astrônomo deu uma piscadela e, pelo que parecia a milésima vez naquela noite, o rosto de Aziraphale esquentou —Até agora… — e abriu a garrafa, como se não fosse um presente valioso —Então espero realmente que isso daqui seja bom, minha orientadora se aposentou ano passado e eu não estou a fim de encher o saco dela por isso.

Crowley serviu primeiro a taça de Aziraphale e o vendedor se perguntou se ele tinha a mínima noção do quanto aquelas palavras significavam. Não era como se reencontrar alguém após quase vinte anos não fosse uma ocasião especial, mas não era pra tanto, ele pensou. Ele não era alguém digno de um vinho presenteado ou uma rosa impecável ou… daquela noite no geral.

Aziraphale não estava acostumado a ser tratado com tanto cuidado, reverência.

Como se fosse precioso, sagrado.

—Um brinde a… Nós? — Crowley sugeriu, a voz baixa, hesitante, mas cheia de expectativa.

—A nós. — Aziraphale aceitou a sugestão e o som agudo das taças se encontrando foi o bastante para acalmar o caos em seu coração.

O vinho se revelou delicioso, para a felicidade da ex-orientadora de Crowley. Tinha doçura e acidez na medida certa, com um aroma suave.

Era perfeito como tudo naquela noite e quando se deram conta, já haviam esvaziado quase metade da garrafa.

Mesmo que houvessem pelo menos meia dúzia de cobertores espalhados pelo chão, Crowley tranquilamente selecionou um deles — que cheirava a grama recém cortada e terra molhada — e se deitou ao lado de Aziraphale, que resolveu seguir o exemplo e apoiar a cabeça em um dos mil travesseiros que haviam por ali. No mesmo momento o vendedor sentiu o pesado cobertor ser posicionado sobre seu corpo e Crowley, sem dizer uma palavra, entrar debaixo do mesmo.

E ficaram deitados lado a lado, os braços se tocando enquanto encaravam o céu muito limpo para uma noite londrina.

Nenhum deles disse qualquer palavra após o brinde, permanecendo em silêncio pelo que pareceram meros segundos, ainda que Aziraphale soubesse que estavam deitados a quase uma hora. Ele se surpreendeu por não estar realmente surpreso com aquela situação.

Era fácil ficar confortável ao lado de Crowley, não importava quantos anos ou quantos silêncios estivessem envolvidos.

—Qual sua estrela favorita? — Aziraphale se viu quebrando o silêncio com a própria voz, faminto por qualquer nova informação sobre o homem ao seu lado.

O rosto de Crowley se iluminou como uma criança na manhã de Natal e ele respondeu sem hesitar.

—Alpha Centauri! — Aziraphale amava observar as estrelas, mas nunca ouvira aquele nome antes.

—Onde? — havia um telescópio a menos de dois metros deles, mas nenhum deles fez qualquer menção a se levantar. Aziraphale não estava reclamando.

—'Tá vendo aquela estrela ali? –Crowley apontou para um dos pontinhos brilhantes em meio a bilhões de outros pontinhos brilhantes como se fosse óbvio de qual ele estava falando.

—Qual? Essa? — Aziraphale fez o mesmo gesto e apontou para uma estrela particularmente brilhante em seu campo de visão.

—Não… — Crowley se aproximou até que o vendedor pudesse sentir o calor do rosto dele em seu ombro. —Essa aqui!

E envolveu a mão estendida de Aziraphale na sua, movendo-a até a posição que desejava. Sentindo o calor dos dedos de Crowley nos seus, o vendedor finalmente viu a estrela: era um pontinho um pouco menos brilhante do que o que ele apontara antes.

—Estou vendo! E por que ela é sua favorita?

Crowley abaixou a mão e Aziraphale deixou que ele abaixasse a sua com o movimento. Nos segundos que antecederam a resposta do astrônomo, os dedos dos dois homens se entrelaçaram sobre o cobertor pesado: visíveis para quem quer que olhasse e perfeitamente encaixados.

De alguma forma, o vendedor conseguiu ouvir as palavras de Crowley em meio às batidas do próprio coração.

—Alpha Centauri na verdade não é uma estrela e sim duas: Alpha Centauri e Beta Centauri. Elas são um exemplo de estrelas binárias, ou seja, são um sistema estelar formado de duas estrelas que orbitam um mesmo centro de massas — a cada palavra de Crowley, mais Aziraphale imaginava o quão sortudos eram os alunos do homem para ouví-lo falar com tal empolgação sobre as estrelas. Ele poderia ouví-lo sem parar por toda a eternidade e ainda sim não seria o bastante. —E por orbitarem um mesmo baricentro, elas estão extremamente próximas uma da outra… Em proporções astronômicas, claro. — deu uma risadinha com a própria observação —E por causa disso, quando olhamos para elas à olho nú, vemos apenas um único ponto brilhante.

Aziraphale não disse nada, observando fixamente o dito ponto brilhante. Crowley então continuou, não soando mais como Professor-Crowley, mas como Crowley-Crowley.

—Isso sempre me fascinou, sabe? Essas duas estrelas estão distantes, absurdamente distantes uma da outra. Sério, no ponto de suas órbitas em que estão mais próximas, ainda sim existem onze unidades astronômicas entre elas. Você sabe o que é uma unidade astronômica? — Aziraphale sabia, mas não ousou interromper a fala do homem, por isso permaneceu em silêncio. —É nada mais nada menos do que a distância daqui até o Sol! Agora imagina onze vezes isso! ONZE! — o vendedor sentiu os dedos entrelaçados aos seus tremerem e os apertou levemente. O tremor só piorou —Mesmo assim, Anjo… Mesmo assim, elas são vistas por nós humanos com um único corpo celeste, uma mesma entidade. Para Alpha e Beta Centauri a distância não importa de verdade, porque elas sempre estarão unidas aos nossos olhos. Sei que elas são apenas amontoados de energia, apenas uma anã vermelha e uma anã laranja em meio a tantas outras gigantes, porém eu vejo algo muito humano nessas duas estrelas e isso me faz desejar ser uma delas. Tem algo mais humano do que querer ser visto com um único corpo quando próximo de alguém? Um único corpo formando algo tão poderoso quanto uma estrela?!

Aziraphale finalmente encarou Crowley, entretanto este estava com os olhos fechados fortemente e o tremor havia voltado. Toda a lateral dos dois corpos estava colada uma na outra, como se fossem parte de um mesmo conjunto unido sob um mesmo cobertor.

O astrônomo permaneceu em silêncio por mais um momento, porém dessa vez ele parecia estar vibrando de vontade de falar algo. Sua voz somente foi ouvida após sentir outra vez um pequeno aperto nas mãos entrelaçadas.

—Aziraphale… — Crowley pronunciou tão baixo que se não fosse pela proximidade ou pelo silêncio daquela noite, ele não teria sido ouvido. O vendedor fez um som afirmativo e o astrônomo continuou —Você sabe por que minha família se mudou quando éramos crianças? Por que nos mudamos de um dia pro outro sem nenhum aviso e sem deixar qualquer contato?

—Foi por causa da queda, não foi?

Dessa vez, Crowley não fugiu do assunto.

—Acho que essa parte você sabe… Além de quebrar uma perna e trincar um pulso eu bati a cabeça na queda e por isso tive que ficar em observação no hospital. — Aziraphale acenou com a cabeça —O que você não sabe e, nem estou surpreso por você não saber, é que… é que quando minha mãe passou em casa para pegar roupas limpas ela também encontrou meu diário.

Crowley fez uma pausa longa demais e por um momento Aziraphale pensou que ele não terminaria o pensamento.

—Calma… Então sua família não se mudou porque eu indiretamente te mandei pro hospital, mas por causa de algo que tinha no seu diário? O que um menino de nove anos poderia ter escrito de tão grave assim?

Crowley tentou novamente ajeitar os óculos inexistentes antes de responder. Aziraphale estava tão confuso e ansioso com o rumo da história que nem percebeu que o outro homem se aproximara (ainda mais) ao fazer tal gesto.

—Eu escrevi sobre meu primeiro amor. Páginas e mais páginas do mais puro romantismo barato infantil — deu uma risada amarga —Tinha até direito a vários coraçõezinhos fechados com os dois nomes dentro e uma pequena lista de comidas que teria no casamento.

—Isso é adorável, mas ainda não entendi o motivo dos seus pais terem uma reação tão exagerada.

—O motivo foi que o nome nos coraçõezinhos era de outro menino.

—Oh!

—Pois é, “oh”... O que aconteceu foi que minha mãe leu meu diário, — Crowley começou a enumerar nos dedos da mão que não estava fortemente entrelaçada a de Aziraphale —Contou pro meu pai e quando eu saí do hospital no dia seguinte fomos direto para a casa dos meus avós paternos, do outro lado do país. Eu só fui saber que não voltaria mais pra Londres três dias depois, quando o caminhão de mudança chegou. Foi aí que me falaram que o garoto era uma péssima influência e que eu ficaria melhor longe dele. A partir daí que meu inferno particular começou. -Aziraphale começou a fazer movimentos circulares com o polegar quando percebeu que a história ainda não havia acabado. —Eu não aguentei mais continuar morando com meus pais, saí de casa na manhã que fiz dezoito e passei a me apresentar como Anthony… Então há três anos Beelzebub apareceu na minha porta e moramos juntos desde então. Aparentemente se meus pais não me aceitaram por gostar de caras, aceitaram ainda menos alguém que não se encaixa em um gênero binário...

—Okay… já entendi que seus pais são babacas com mentes fechadas e sinto muito por isso, mas por que eles praticamente fugiram do nada? Quem era esse menino que você gostava? Por que você não podia continuar morando no mesmo lugar e teve que ir pro outro lado do país? Era alguém da escola?

Crowley ajeitou pela milésima vez o óculos inexistente e soltou um suspiro exasperado antes de responder.

—Aziraphale… Você realmente não entendeu ou está brincando comigo?

—Não, não entendi. Como eu ia saber quem você gostava quando tínhamos nove anos? Nem estudávamos na mesma escola e você também nunca comentou nada do tipo!

Ouvindo aquilo, Crowley se sentou de repente: os joelhos contra o peito e as duas mãos (Aziraphale imediatamente sentiu falta do toque) contra o próprio rosto. O astrônomo produziu um som que parecia muito com um choramingo.

—O menino era você, Aziraphale! — ele declarou por fim, a voz saindo abafada e coberta de desespero. —Era você. É você. Sempre será você.

Oh.

Aquilo explicava muita coisa…

Mesmo assim, o vendedor precisou de um instante para organizar o turbilhão de pensamentos e sensações que povoava sua mente naquele instante. Diante de si estava seu primeiro amor afirmando que correspondia seus sentimentos românticos. Não só no passado, quando os dois tinham nove anos, mas atualmente com vinte nove… E para sempre.

Foi impossível controlar o coração dando piruetas do estômago à garganta diante daquela afirmação. Daquela promessa.

Era tudo o que Aziraphale desejara ao longo dos anos e um pouco mais. Cada pensamento que ele julgara absurdo havia sido validado com um punhado de frases.

Ele sentia que iria morrer se não visse os olhos dourados de Crowley naquele exato segundo. Por isso, finalmente se levantou, diminuindo a distância entre os dois homens ao se aproximar de joelhos de forma lenta.

Aziraphale não sabia de quem era o tremor que sentiu ao tocar uma das mãos que cobriam o rosto de Crowley. Talvez pertencesse a ambos.

Sem os óculos nem as mãos para protegê-lo do olhar de Aziraphale, Crowley parecia particularmente jovem. Era possível ler tudo o que se passava em sua mente como se ele fosse um livro aberto.

O vendedor se aproximou um pouquinho mais, uma das mãos sobre uma das bochechas quentes e avermelhadas de Crowley. A outra afastando os joelhos do astrônomo.

Foi preciso apenas um leve toque para que Crowley entendesse o comando e abrisse espaço para Aziraphale se posicionar entre suas longas pernas. Ele estava maleável e dócil sob seu toque.

Sentando-se sobre os próprios calcanhares com um joelho cercando cada lado de seu corpo, Aziraphale teve mais certeza do que nunca do que desejava.

Sentia que iria morrer se não beijasse Crowley naquele instante.

—Aziraphale… Espera… — o vendedor se afastou na mesma hora, o coração doendo com a possibilidade de Crowley ter finalmente percebido o que estavam prestes a fazer e se arrependido. Eles ainda estavam próximos, o bastante para sentir o calor da respiração um do outro, mas ainda sim a distância parecia grande demais. —Isso... — o astrônomo fez um gesto entre os dois —Isso é por causa do vinho?

Aziraphale precisou de um momento para absorver aquela questão. Crowley parecia realmente temer ter suas suspeitas confirmadas.

O vendedor se deu mais alguns instantes antes de responder, trazendo o rosto do outro homem para perto do seu. Quando as testas se tocaram, Aziraphale fechou os olhos e se concentrou no perfume de Crowley: grama recém cortada, terra molhada e um toque inconfundível de uvas fermentadas.

Aquilo deu-lhe a coragem que faltava para responder. Ele precisava ser destemido alguma vez na vida ou se arrependeria para sempre se não dissesse o que estava na ponta da língua desde que confirmara a identidade daquele que se encontrava a sua frente.

—Só se o vinho que tomei tiver gosto de “você foi meu primeiro amor e nunca consegui te esquecer, nem depois de 20 anos”—Aziraphale não conseguiu manter a expressão séria depois de ouvir o ofego surpreso de Crowley. A vontade de rir estourou como uma bolha no peito do vendedor, o alívio de finalmente falar aquilo em voz alta demais para conseguir parar.

Crowley pareceu entender e se deixou ser contaminado pela gargalhada contagiante de Aziraphale.

Quando eles finalmente conseguiram se controlar a lua ainda estava alta no céu. Ambos permaneciam com a respiração levemente alterada, bochechas coradas e olhos úmidos, ostentando sorrisos que rasgavam os rostos.

—Então parece que estamos bebendo o mesmo vinho.

Crowley enfim respondeu com uma naturalidade que fez o sorriso de Aziraphale ser substituído por lábios abertos em “O”. Porém bastou olhar a expressão do astrônomo para que os cantos de sua boca se voltassem outra vez para cima: o rosto dele era uma mistura infinita de emoções que o vendedor não conseguiu decifrar por inteiro nos segundos em que estudou todos os detalhes que compunham sua face.

Só sabia de uma coisa: nunca antes Crowley parecera tão vulnerável.

Com o coração sendo entregue de bandeja.

Para Aziraphale fazer o que quisesse.

O que ele queria — e fez — era acabar com a distância de dez centímetros e vinte anos que ainda existia entre os dois.

O primeiro toque entre os lábios fez com que um pequeno choque fosse sentido. Eles se permitiram sorrir pelo nervosismo, mas voltaram ao que estavam fazendo momentos depois, dessa vez com as mãos de Aziraphale se enredando em mechas vermelhas enquanto Crowley o trazia para perto com uma mão no final de suas costas e a outra em seu rosto.

O beijo tinha gosto de vinho e de algo mais familiar e aconchegante, de retornar a um lar de onde nunca deveriam ter saído. Tendo somente as estrelas como testemunhas de cada sorriso que adornava os lábios úmidos, eles construíram um novo lar nos braços um do outro.

E em meio a beijos e toques que deixavam a pele elétrica, eles começaram a escrever um novo capítulo daquela história há tanto tempo deixada de lado. Nem Aziraphale nem Crowley sabiam o que o futuro os reservava, apenas desejavam matar a saudade que estava impregnada nos respectivos corações um beijo de cada vez.

O que seria deles quando o Sol tomasse o lugar da Lua no céu era outra história.

E o que seria da carne esquecida queimando no forno enquanto eles trocavam carícias com gosto de uva, também era outra história.

Porque aquela era a história de duas estrelas que se alinhavam, de um encontro de corpos celestes.

Era a história do reencontro de almas gêmeas separadas pelo tempo.

E nada mais importava.

Notas finais
Olar, meu povo lindo ;) quem é vivo sempre aparece Era pra eu ter terminado essa fanfic no Natal, mas fazer o que posso fazer se o mundo (e minha vida) tá um caos, né? Algumas observações: 1) Eu mudei a classificação da história. Desculpa se criei expectativas em alguém, mas simplesmente senti que qualquer coisa mais explicita não se encaixaria de forma natural com a história do jeito que fui escrevendo 2) Esse último capítulo ficou gigante comparado com os outros, eu sei, mas não quis separar e nem queria levar mais tempo com postagens em momentos diferentes. Considerem isso um presentinho pela demora hehe 3) Me recuso a usar pronomes femininos ou masculinos com Beelzebub, como já vi em outras fanfics em português. Então é isso aí, zero pronomes é o rolê (eu poderia usar pronomes neutros, mas tô com zero paciência pra discutir com meus leitores) 4) Alpha Centauri é um sistema estelar composto por TRÊS estrelas e não duas, mas como só duas são vistas a olho nú decidi ignorar a Alpha Proxima, já que dependendo da fonte só consideram as outras mesmo kk Acho que é isso. Espero que tenham gostado, mesmo com tanta demora c:
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!