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1 Capítulo 1 - A loja esquisita
Notas iniciais
Domingos em família eram o que o jovem Alex mais detestava.
Não só por ver toda a família de sua mãe entupida de churrasco e cerveja, mas, também, pelo som alto nas caixas de som que os tios faziam questão de forçar ao máximo com suas músicas de 50 anos atrás. Sem contar no chamado funk proibidão que fazia o jovem sentir vergonha pelas letras indecentes.
Todos os Domingos esse ritual era repetido na casa de sua avó, que era ao lado da sua. Desde as sete da manhã Amália, sua mãe, colocava ele e os irmãos de pé para aproveitarem o dia em família. Márcio e Alexandra não faziam questão da festa e muito menos se sentiam incomodados com ela. Mas, Alex, ah, o jovem Alex, esse sentia suas veias saltarem com o ódio e o desgosto.
Naquele Domingo em questão tudo corria como sempre correu desde que ele se lembra enquanto pessoa. Música alta, churrasco, e o barulho das crianças correndo ao redor da pequenina piscina que apenas servia de distração para os mais novos.
Na mesa de plástico no quintal, abrigado do sol forte pela imensa mangueira no quintal. Alex mexia no celular ouvindo os tios fazerem piadas sobre times, e notícias locais enquanto se serviam de cerveja gelada. A mãe havia proibido que ele ficasse em casa, ordem que ele acabou com certa resistência, então resultado foi ficar ali se distraindo com o aparelho eletrônico.
— Esse menino só fica no celular, Amália! Coloca esse menino pra jogar um futebol com o Maurício e o Gabriel! — A voz de Rubens, o tio de barba preta e bem aparada, fez Alex levantar o olhar para a mãe. Ele buscou socorro, mas só o que recebeu foi o olhar duro de Amália.
— Tem razão, Alex pega o dinheiro com a sua Avó e vai comprar mais refrigerante que o que tem aqui não vai dar. — Alex levantou-se em silêncio diante da ordem da mãe. Secretamente feliz por ter que sair daquele ambiente.
Pegou o dinheiro com a Avó, uma senhorinha simpática, e pegou a sua bike azul. O primeiro pedalar e ele se sentiu livre quando o vento bagunçou um pouco do seu cabelo e música horrível ficou para trás.
O comércio que vendia refrigerantes era um pouco longe, cerca de três quadras, então ele não tinha pressa de chegar e nem meso de retornar. A sua rua era uma rua tranquila, onde naquela altura do final de semana estava completamente vazia em razão também do feriado prolongado.
Uma pedalada, ele alcançou a casa de Meire, duas peladas passou pelo famoso hidrante, três pedaladas e passou a frente da loja esquisita, que tem sempre aquele ar de sebo ou livraria antiga, embora Alex não soubesse exatamente o que o dono da loja vendia ali. Só sabia que ele era um homem velho, carrancudo e sinistro.
Ao contrário de outras vezes que passou ali, desta vez a loja possuía na vitrine um papel branco A4 com letras bem visíveis com os dizeres: "Precisa-se de ajudante. Trabalho de Quarta à Domingo. Boa remuneração."
O frear foi inevitável.
A chance de ouro de conseguir o dinheiro tão sonhado para seu próximo console e ainda por cima se livrar das festas de família tão detestáveis. Uma verdadeira chance de conseguir tudo o que ele mais queria, e na rua de casa. Tudo o que ele precisava era de coragem para entrar e pedir a vaga.
"Não pode ser tão ruim." Repetiu feito um mantra ao descer da bicicleta e deixá-la encostada na calçada com o descanso abaixado. Tomou coragem e foi até a porta de madeira que dizia "entre" em uma plaquinha.
Mais uma dose de coragem e ele girou a maçaneta.
...
A loja em si era uma junção das duas coisas que Alex achava a início que podia ser. Era velha e empoeirada por dentro, tanto e loja como seus objetos nas prateleiras. A luz era impedida de entrar por conta das camadas de poeira que se acumulavam nos vidros amarelados. Tudo parecia sem vida.
Um coçar de garganta e o adolescente voltou-se para a pessoa parada atrás da caixa registradora. Um velho de barba cinza e desarrumada olhava para Alex com um olhar sério quase escondido por trás de grossas sobrancelhas pretas, tão escuras quanto a barba de Rubens.
—O que quer, garoto? — A voz do home lembrou Alex de alguém que passou a vida inteira com tosse. Era chiada e desagradável.
— Ah, eu vim pela vaga. Está contratando, não está? — Alex se aproximou de onde o velho estava, quase tropeçando em algo rastejante que cruzou seu caminho e sumiu debaixo de outra estante antes que ele pudesse atinar o que era. — Espera, o que era aquilo?
— Dorothy, acredito, eu não a vejo faz 30 anos. — O velho coçou a cabeça com cabelos ralos. — E sim, estou contratando. 30 reais por dia. Quarta à Domingo, não tenha rinite, não seja falante e não seja um desses espertinhos que acham que podem enganar velhos. Porque eu não gosto de ser enganado!
"E quem gosta?" Alex se perguntou mentalmente, embora por fora apenas concordou mecanicamente.
— Ah, okay, e o que eu vou ter que fazer? —Questionou, sentindo uma sensação estranha de estar sendo observado.
— O de sempre. Limpar, organizar as coisas e me trazer café da cafeteria da outra esquina todos os dias. Pegar ou largar! — O grito da última frase fez com que Alex se assustasse. Porém, levando os prós e os contras, resolveu aceitar.
— Eu aceito...? — Respondeu um pouco confuso ainda. O homem pareceu satisfeito, embora sua expressão não tenha mudado.
— Sendo assim... FORA! Está espantando minha freguesia, garoto lerdo! Volte na Quarta e não me apareça aqui antes disso!
— Mas... — Alex tentou falar, mas foi impedido por outro grito.
— FORA!
Alex saiu dali tão rápido quanto entrou, completamente atônito. Quando a luz do sol cegou seus olhos ao sair, ele lembrou da tarefa dada por sua mãe e que teria que retornar para o ambiente completamente desagradável que consistia a casa da sua Avó naquele instante.
Mas, pensar que agora ele tinha um emprego o deixou animado. Seus Domingos agora seriam em um local que não haveria mais toma toma toma e nem nada do tipo, nenhuma música indecente.
Claro, teria aquele velho estranho, mas qualquer coisa que não fosse sua família materna era tolerável.
Subindo na sua bike azul ele se sentiu feliz, e um pouco ansioso pela Quarta-feira.
Ainda que algo dissesse a ele, que talvez aquela não tivesse sido a melhor escolha.
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