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2 Capítulo 2 - Bad Liar
Notas iniciais
O dia seguinte, na escola, não poderia ser mais inusitado.
Além das declarações oficiais da diretora sobre os novos bebedouros, que há muito tempo eram esperados, houve também um alvoroço por causa de dois valentões no pátio da escola um pouco antes da hora da saída.
Não que as brigas na escola fossem inusitadas, mas aquela em si pareceu, ainda mais quando os dois que estavam a brigar estavam sujos por batom. Um batom vermelho muito parecido e na região da boca.
— Qual cê' acha que é o motivo? — Perguntou Alex para o amigo, Leandro, que espiava junto a ele a briga na janela do andar superior.
— Mulher, cara, quase sempre é. Ainda mais com aquele batom. Espera... sabe quem estava com um batom igualzinho hoje? — Leo tocou no ombro de Alex, lhe dando um sorriso de lado.
Alex não entendeu de início até lembrar do tom vibrante que costumavam ter os lábios de...
— Sem essa. Cassandra? — O jovem parecia entre a descrença e a vontade de rir. A risada alta de Leandro levou todas as suas dúvidas ao fim e deu lugar às certezas.
Cassandra era uma jovem peculiar. Possuía longos cabelos negros ondulados, pele escura e um ar místico em volta de si. Todos especulavam se ela possuía ou não alguma origem cigana ou similar. Mas ninguém nunca teve a coragem de perguntar diretamente. O único que andava junto a ela também parecia ser tão fechado quanto.
— Nunca imaginei que ela pegaria os dois, e em um só intervalo. Isso deve ser um recorde. — Leandro parecia surpreso, e Alex também estava. "Pegar" dois rapazes em 20 minutos não era para um principiante, pensava Alex. Ou talvez ele fosse tapado o suficiente para não conseguir pegar ninguém nem em 20 intervalos.
— Bom, que seja, a Lucinalda já chegou. — Comentou Alex vendo a diretora tomar controle da situação e toda a roda de pessoas ao redor se dissolver.
Com a confusão resolvida os dois resolveram que ir embora era o melhor a se fazer. Leandro tinha ensaio da banda, e Alex dever de casa pendente. O horário da saída fez o sinal da escola dar seu longo trimmm e os dois rapazes já estavam prontos para irem para casa.
Descendo pelas escadas, os dois conversavam sobre o próximo torneio do jogo online que gostavam quando ouviram uma conversa acalorada, parecendo mais uma discussão do que uma conversa. A porta do corredor abriu e de lá um garoto saiu a passos firmes, sem nem olhar para aqueles que desciam a escada.
De costas para os rapazes seu cabelo negro apontava em diversas direções, balançando como se fossem espinhos.
Como esperado logo em seguida a segunda pessoa também saiu do lugar, mas totalmente diferente. Se o primeiro a sair parecia bravo, a segunda pessoa parecia triste. Cassandra sequer olhou para os dois o que fez com que eles se entreolhassem quando ela subiu as escadas ao seu lado em lágrimas.
— Cassandra? Acha que é pela confusão lá embaixo? — Alex questionou, olhando para Leandro que apenas deu de ombros, como quem diz quem sabe".
— Cada um com seus problemas. Vamo' logo que eu quero logo chegar em casa.
Assim Leandro empurrou o amigo pelos ombros até o fim da escada.
...
Em sua bike azul Alex saiu da escola e foi em direção à sua casa. Enquanto pedalava se distraía ouvindo uma playlist aleatória, que no momento em questão fazia com que as batidas suaves de uma música desconhecida o fizessem "viajar" com o vento em seu rosto.
Dobrando na quadra próximo à sua casa ele viu um certo cabelo de "espinhos". Quase bateu a bike no meio-fio oposto ao do garoto ao olhar que o colega de turma estava entrando na loja do velho esquisito.
— Será que ele é o tipo de freguesia que aquele velho tanto se referia? — Continuando a pedalar ele pensou sobre o assunto.
O garoto, além de ser amigo de Cassandra, tinha um sotaque engraçado e foi transferido ano passado para a escola dele. Mas, por algum motivo, ele não conseguia memorizar o nome dele. Ramon, Marlon, era algo assim, mas Alex não conseguia lembrar de maneira correta.
Sem contar que ele não costumava falar com os outros na escola a menos que fosse necessário. Se fosse um clichê romântico de vampiros, ele sem dúvida seria um. Um vampiro de cabelos espetados e expressão fechada.
Faria muito sucesso. Concluiu Alex parando a bike a frente de casa.
Quando entrou teve uma surpresa ao ver a mãe vindo diretamente ao seu encontro. Parecia preocupada, péssimo sinal. Ele ainda não havia tido coragem para dizer que ia trabalhar nos finais de semana, ou melhor ele ainda não havia dito que agora possuía um emprego.
— Mãe? — Arriscou começar a conversa.
— Você está trabalhando pro' Senhor Ferreira?
Oh-oh. Alex engoliu em seco. Ele estava ferrado.
—Sim? —Era esse o nome dele? — Poxa, mãe, eu quero muito aquele console. Sei que a senhora não iria comprar para mim, então qual o problema?
Amália colocou as mãos na cintura, antes parecia preocupada, mas agora estava mais para triste.
— Sei que ganho pouco, mas não precisa ficar se forçando a isso. Sabe, se quiser eu posso pegar os turnos da Lúcia, mas não precisa ficar sacrificando seus finais de semana para isso. É tão jovem e trabalhar é tão difícil. Além de que seus primos ficarão tristes por você não participar mais da festa de Domingo.
Alex ficou em silêncio. Por um lado estava com a consciência pesada por fazer a mãe se sentir daquele jeito, porém, por outro estava pensando em como iria arrumar uma desculpa para dizer a ela indiretamente que era justo pela festa de família que ele queria ir trabalhar.
Era uma balança onde os pesos se equilibravam. De fato queria muito o tal console, e de fato queria muito se livrar das piadas e dos barulhos irritantes de todo Domingo. Era o útil e o agradável juntos.
— Ah, mãe. Não fala isso, eu já tenho idade para trabalhar, além de que vai ser só durante as tardes, é bom que eu crio responsabilidades como um homem, não é isso o que o tio Augusto sempre diz?
Era sua melhor jogada. Se não colasse ele não saberia o que fazer.
Por sorte, Amália sorriu, e passou a mão na cabeça do filho.
— Fico tão feliz que esteja pensando deste jeito. Definitivamente é meu bebê.
Alex sorriu sem jeito, mais envergonhado pelo que acabara de dizer do que por ser chamado de "bebê" aos 15 anos de idade.
Pediu permissão para a mãe e saiu escada acima para ir direto ao seu quarto. O andar de cima estava em reforma ainda, portanto ele era o único que dormia ali. Sua mãe e irmãos dormiam nos quartos inferiores.
Chegando no quarto, fechou a porta e sentou na cama tirando do bolso o celular. A playlist ainda tocava, e pareceu ironia quando o nome da música tocando apareceu diante de seus olhos.
Talvez fosse uma mensagem do destino a música em questão se chamar "Bad Liar".
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