Starry, Starry Night

1 Uma carta para alguém que nunca irá recebê-la


Notas iniciais
Escrevi isso em um dos dias em que fico pensando em Vincent Van Gogh mais do que deveria, é bem curtinho e espero que tenha ficado bom. Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=oxHnRfhDmrk

Vincent,

Ao olhar para o céu noturno, não pude evitar vê-lo transformado na sua criação. Receio admitir que estava errada: os dias não são mais brilhantes que as noites, como uma vez lhe disse, contudo, em minha defesa, nunca tinha visto o fulgor do luar através de seus olhos; para mim, não passava de algo vazio, escuro e assombroso. Foi você quem lhe atribuiu cores e, para ser honesta, sua pintura é mais repleta de beleza do que a própria noite – como alunos muitas vezes excedem seus mestres – porque carrega algo puro e exorbitante que nunca mais será visto nesse mundo – algo inteiramente seu. Contemplarei as noites que restarem em minha vida para homenageá-lo, porém sempre faltará algo que só você poderia acrescentar.

Meu coração é carregado com o peso do entendimento daquilo que você quis me mostrar e que eu não pude compreender de imediato. Seu vício pela autodestruição não era para machucar sua família, era para tentar silenciar seus próprios temores internos. Você me fez abandonar o medo da noite, mas eu não pude ajudá-lo com os fantasmas da sua sanidade.

Sinto profundamente por todo o sofrimento que lhe foi causado nessa vida, meu querido Vincent, sinto por ninguém tê-lo compreendido, todavia, a despeito daquilo que nunca pude entender, saiba que meu amor foi verdadeiro e tenho certeza que o de Theo também.

Esse mundo, Vincent, tão imperfeito, cruel, repleto de escárnios e injustiças, nunca foi feito para alguém tão bonito como você, que via luzes e cores onde os outros enxergavam medo e escuridão. Você, que pensava ser alguém vazio, escuro e assombroso, trouxe luz ao céu noturno, uma luz que nunca será apagada.

Escrevo unicamente porque se não o fizesse, essas palavras me sufocariam. Sei que é um esforço vão, afinal, minha confissão nunca chegará até você. Dói saber que você partiu com a mesma convicção que vivera: de que não era importante e que seus feitos seriam soterrados pelo tempo. Imaginar sua solidão me machuca profundamente, prefiro fantasiar agora com sua presença no céu que iluminaste.

Partirei para a França imediatamente, onde lhe direi meu último adeus e prometerei jamais acrescentar tristeza à sua memória. Ao contrário, irei colorir toda e qualquer menção ao seu nome de azul.

Com todo o amor e compreensão que não pude lhe dar,

Amelia.

Notas finais
O nome Amelia é inspirado em uma das minhas personagens favoritas, Amelia Pond, de Doctor Who, que encontra Vincent em um dos episódios (Vincent and the doctor) que eu mais chorei na minha vida porque eles realizam meu sonho de poder dizer ao Vincent o quanto ele mudou o mundo da arte. Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!