Starry, Starry Night
1 Uma carta para alguém que nunca irá recebê-la
Notas iniciais
Vincent,
Ao olhar para o céu noturno, não pude evitar vê-lo transformado na sua criação. Receio admitir que estava errada: os dias não são mais brilhantes que as noites, como uma vez lhe disse, contudo, em minha defesa, nunca tinha visto o fulgor do luar através de seus olhos; para mim, não passava de algo vazio, escuro e assombroso. Foi você quem lhe atribuiu cores e, para ser honesta, sua pintura é mais repleta de beleza do que a própria noite – como alunos muitas vezes excedem seus mestres – porque carrega algo puro e exorbitante que nunca mais será visto nesse mundo – algo inteiramente seu. Contemplarei as noites que restarem em minha vida para homenageá-lo, porém sempre faltará algo que só você poderia acrescentar.
Meu coração é carregado com o peso do entendimento daquilo que você quis me mostrar e que eu não pude compreender de imediato. Seu vício pela autodestruição não era para machucar sua família, era para tentar silenciar seus próprios temores internos. Você me fez abandonar o medo da noite, mas eu não pude ajudá-lo com os fantasmas da sua sanidade.
Sinto profundamente por todo o sofrimento que lhe foi causado nessa vida, meu querido Vincent, sinto por ninguém tê-lo compreendido, todavia, a despeito daquilo que nunca pude entender, saiba que meu amor foi verdadeiro e tenho certeza que o de Theo também.
Esse mundo, Vincent, tão imperfeito, cruel, repleto de escárnios e injustiças, nunca foi feito para alguém tão bonito como você, que via luzes e cores onde os outros enxergavam medo e escuridão. Você, que pensava ser alguém vazio, escuro e assombroso, trouxe luz ao céu noturno, uma luz que nunca será apagada.
Escrevo unicamente porque se não o fizesse, essas palavras me sufocariam. Sei que é um esforço vão, afinal, minha confissão nunca chegará até você. Dói saber que você partiu com a mesma convicção que vivera: de que não era importante e que seus feitos seriam soterrados pelo tempo. Imaginar sua solidão me machuca profundamente, prefiro fantasiar agora com sua presença no céu que iluminaste.
Partirei para a França imediatamente, onde lhe direi meu último adeus e prometerei jamais acrescentar tristeza à sua memória. Ao contrário, irei colorir toda e qualquer menção ao seu nome de azul.
Com todo o amor e compreensão que não pude lhe dar,
Amelia.
Fale com o autor