Starlight
14 Infinito
Notas iniciais
Infinito
O novo dia começou normalmente para Kei. O cientista seguiu a mesma rotina de sempre, e foi tomar seu café da mesma maneira que fazia todos os dias. Em sua cabeça, porém, ele sabia que depois daquilo o dia não se seguiria como sempre, com ele indo até o laboratório para trabalhar e ficando lá enclausurado com Yamaguchi.
Seus colegas pareciam estar um pouco mais quietos do que de costume. Ainda assim, a conversa fluiu naturalmente na cozinha, quase como se nada tivesse acontecido nos últimos dias, mas Tsukishima sabia que os outros tripulantes também haviam mudado um pouco — alguns mais do que outros.
Era até agradável, de certa forma, poder comer junto com eles e conviver em paz por alguns minutos. Ele até rira um pouco de algumas piadas, e quando enfim terminou, casualmente se ausentou para o laboratório.
Ao chegar lá, o cientista apenas olhou para Yamaguchi. O alienígena parecia ter acordado havia um certo tempo, e quando seus olhos castanhos enfim encontraram o loiro, ele sorriu, ficando mais perto da cela, observando-o alegremente enquanto sua cauda balançava — o que era algo que não deixava de ser bastante adorável de sua parte.
“Tsukki!” Tadashi exclamou, e Tsukishima sabia que ele fez isso apenas porque se sentia seguro o suficiente estando sozinho com o humano. Assim que ele o escutou, Kei sorriu, e se aproximou da cela o suficiente para passar o braço por entre as barras e acariciar o cabelo bagunçado do outro num gesto carinhoso que o fizera balançar a cauda com ainda mais vontade do que antes.
“Bom dia, Tadashi. Está com fome?” O loiro perguntou gentilmente, para depois acabar com o contato e se afastar, dando alguns passos para trás e ficando assim a uma distância que poderia ser considerada segura da cela. Ele gostaria de continuar fazendo aquilo, mas não queria que ninguém entrasse no laboratório e o pegasse assim, ou isso atrapalharia seus planos. Tadashi soltou um pequeno grunhido em reprovação, já que ele parecia estar muito contente em ser mimado daquela forma, mas logo depois ele passou a encarar o cientista com um pequeno sorriso no rosto.
“Sim, Tsukki.” O alienígena respondeu, e de imediato Tsukishima foi pegar a sua carne congelada. Em pouco menos de um minuto o loiro estava abrindo a cela, jogando o pedaço frio na direção de Tadashi — e, como de costume, ele não teve nenhuma dificuldade para pegá-la e assim começar a comer.
Kei desejou poder ficar ali e apenas assistir enquanto Yamaguchi se alimentava, rasgando a carne com as presas e garras. Ainda assim, o cientista sabia que aquele era o momento em que ele deveria se ausentar para seguir em frente com o que tinha planejado na noite passada, enquanto conversava com Akiteru.
No entanto, ele ainda estava um pouco nervoso. Quando ele estava conversando com o irmão, tudo parecia ser bem mais fácil de se resolver, talvez por Akiteru ser mais velho do que ele e passar um ar de maduridade e segurança que era tão natural. Agora, porém, ele estava sozinho, e não havia nada no universo que seria capaz de magicamente fazer com que seu irmão mais velho aparecesse na sua frente, para então segurar sua mão e guiá-lo para longe de seus problemas, como se Kei por acaso tivesse voltado a ser um garotinho.
Ele precisava resolver isso como um adulto.
“Eu vou ter que sair agora, Tadashi. Preciso conversar com o capitão. É sobre você, mas é porque eu quero te ajudar. Você… Merece muito mais do que uma cela.” Ele aproveitou o momento para dar aquele aviso ao alienígena, que deixou de prestar atenção na carne em suas garras para poder olhar para o cientista. Apesar de ainda estar mastigando, Tsukishima conseguiu notar a dúvida escondida nos olhos castanhos de Yamaguchi, junto com um pouco de preocupação — o que era algo bastante compreensível, considerando a situação em que ambos se encontravam.
“Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem. Mesmo que o capitão não concorde comigo, ele não pode me machucar. Prometo que vou voltar, e se tudo der certo, as coisas vão melhorar pra nós dois.” Ele esperava que aquelas palavras fossem servir para aliviar o coração de Tadashi, que apenas assentiu com a cabeça antes de dar outra mordida na carne. Ele tinha entendido, aquilo era claro, e o cientista acreditou que, no momento, aquilo já era o bastante.
Como ele não podia ficar enrolando mais do que já estava, Kei decidiu sair do laboratório. Daichi deveria estar na sala de controle, como normalmente costumava ficar, mesmo que não tivesse muito o que fazer lá enquanto a nave estivesse pousada. Enquanto ele seguia pelo caminho até lá, Tsukishima sentia o coração bater forte em seu peito. Ele não fazia a menor ideia de qual seria a reação do capitão Sawamura, e isso o deixava um tanto preocupado.
Obviamente, se a resposta fosse negativa, Daichi não poderia puní-lo fisicamente. Não havia lógica alguma nele atacá-lo, e todos naquela nave já tinham idade o bastante para saber resolver conflitos sem apelar para a violência — além disso, se ele o fizesse, acabaria pondo o seu posto como capitão da Equipe CORVO em risco.
Ainda assim, isso não significava que tudo estaria bem caso ele discordasse de seu plano e de sua decisão. Claro que não. Uma rejeição significava que Daichi não estava disposto a lhe ouvir, acreditar nos seus relatos, e principalmente, dar-lhe mais uma chance.
Pelo menos Tanaka não espalhou o fato de que ele passou uma noite inteira na cela com Tadashi. Isso, e o fato de que ele e o alienígena estavam envolvidos de uma maneira que era definitivamente romântica, se bem que isso ainda era um segredo — e, por enquanto, era melhor que ficasse assim.
Quando ele finalmente chegou na sala, não demorou muito para encontrar Daichi. O moreno estava sentado em sua cadeira, e o modo como ele segurava a sua caneca com café e cofiava a barba ainda por fazer só o fazia parecer bem mais velho do que realmente era.
“Tsukki? Algum problema?” Ele perguntou assim que notou a sua presença, quase como um pai ligeiramente preocupado com o filho — e, de fato, ele bem que costumava dizer algumas vezes que todos os tripulantes ali eram para ele como filhos adotivos, apesar de todos terem idades tão próximas.
“Não necessariamente… Eu só quero conversar sobre o Yamaguchi de novo, se você me permite.” Tsukishima não sabia porque diabos estava sendo tão formal e educado quando normalmente era capaz de fazer relatórios e conversar com Daichi da mesma maneira que fazia com os outros membros da Equipe CORVO. Talvez isso era um reflexo de seu nervosismo — coisa que o outro homem com certeza já deveria ter notado, por mais que ele tenha tentado manter o seu tom de voz natural e neutro -, ou então era apenas porque ele não costumava procurar o capitão daquela forma que parecia tão rigidamente profissional.
“Claro que permito. Vamos, sente-se. Acredito que você tem muito o que relatar.” A voz de Daichi era surpreendentemente calma e serena, e isso de certa forma acabava fazendo com que Tsukishima se sentisse um pouco menos nervoso. Falando assim, o capitão quase fazia aquilo parecer com uma conversa simples e casual, mesmo quando claramente não era.
Os olhos dourados de Kei se fixaram nos de Daichi, que eram redondos e castanho-escuro, da mesma cor do café que estava tomando. Por alguns poucos segundos eles se encararam, e o capitão não parecia sequer ter a intenção de piscar, ao menos não enquanto o cientista não se sentasse.
Como ele sabia que não tinha mais como fugir, Tsukishima apenas obedeceu ao comando sutil que Daichi lhe enviou com o olhar. Ele se sentou na frente do outro homem, ficando assim apenas com a mesa separando-os, e Kei sabia que era a vez dele começar a falar.
“Obrigado. Nos últimos dias aconteceram algumas desavenças sobre esse assunto, como você bem sabe… E eu confesso que meu comportamento em relação a isso não foi um dos melhores. Na verdade só piorou as coisas. Mas eu queria esclarecer tudo pra você.” Ele começou a narrar tudo, e quando pausou, Daichi apenas assentiu com a cabeça, dando-lhe permissão para continuar. No momento, tudo que o cientista precisava fazer era falar, clara e abertamente, sobre tudo o que tinha acontecido.
“Bem, como já te falei antes, o Yamaguchi é capaz de falar. Nós dois conversamos antes de você aparecer no laboratório alguns dias atrás, e ainda nos falamos todos os dias. Ele se abre bem comigo, e é bastante curioso sobre o vocabulário humano, e fica tentando aprender palavras novas sempre que possível, além de ter se mostrado capaz de memorizá-las e compreender seu significado. Ele sabe a diferença entre ‘sim’ e ‘não’, entende que pode me chamar de Tsukki, sabe falar o seu nome completo, e responde quando eu o chamo por Tadashi. Considerando que ele está aqui há poucos dias, eu diria que é algo bem impressionante.” O loiro conseguiu resumir aquilo em um pequeno relato, e Daichi não parava de prestar atenção nele. Aquilo era um bom sinal, e o enchia de esperança. Se continuasse assim, o que ele tinha em mente teria mais chance de ser aceito pelo capitão, e consequentemente dar certo.
“Seu temperamento também está mais dócil. Ele nunca mais tentou me atacar, nem mesmo quando abro a porta da cela para dar comida. Quando estou trabalhando, ele costuma ficar quieto no seu canto, mas ainda assim fica me observando com bastante curiosidade, e só me procura quando está com fome de novo… Ou então muito carente.” Como Tsukishima sabia que essa última frase iria acabar gerando no mínimo um questionamento, ele parou de falar — e no mesmo momento o moreno abriu a boca.
“Como assim carente?” Daichi perguntou, sem saber o que exatamente captar a partir daquela palavra. Kei não o culpou por isso, já que parecia ser algo estranho, mas ele estava mais do que disposto a explicar.
“Ele é bastante expressivo quando se trata de sentimentos. Ele sorri, fica entediado, chora. Igual a um de nós. E também fica carente. Não sei se é normal da espécie dele, mas algumas vezes Tadashi tenta fazer com que eu dê um pouco mais de atenção para ele, e quando eu o faço, isso o deixa claramente feliz. Oh, e eu já percebi que ele usa a cauda para se expressar também. Então podemos considerar que ele compreende e usa linguagem corporal para se comunicar.” Ele explicou, recebendo em resposta um pequeno “certo” por parte do capitão. Por um momento Tsukishima achou que ele iria fazer algum comentário, mas logo o seu silêncio provou-se como sendo uma permissão para o loiro concluir seu raciocínio.
“Basicamente, o que eu estou querendo dizer é que Yamaguchi é muito inteligente pra ser uma cobaia de laboratório. E que ele realmente não merece ficar preso numa cela.” O cientista terminou de falar, por fim, soltando um pequeno suspiro logo em seguida. Era bastante informação para dar de uma vez, mas Daichi parecia ter entendido bem tudo o que ele falou. O moreno inspirou um pouco mais fundo, como que absorvendo tudo que Kei acabou de contar, e soltou o ar junto com um questionamento.
“Qual a sua sugestão nesse caso?” Tsukishima já esperava aquela pergunta, e grande parte de sua ansiedade era em relação a ela. No entanto, ela também significava que o capitão realmente o estava levando a sério, e não apenas acreditava em cada uma de suas palavras como também confiava nele o suficiente para perguntá-lo o que ele gostaria de fazer sobre essa situação.
“Sei que pode ser uma loucura, mas no lugar de soltá-lo, eu gostaria de voltar com ele para Thalassa. Agora. Seria injusto soltar Yamguchi depois de tudo isso, e ele parece estar bem… Apegado a mim, talvez a essa nave. Sem falar que ele poderia ser caçado pela Foundation depois, junto com outros da espécie dele. Esse não é o cenário ideal, por isso gostaria de levá-lo para Thalassa para provar o quanto ele é racional.” Era mais fácil pensar nas palavras do que realmente dizê-las, mas no final Tsukishima conseguiu expressar sua ideia de uma maneira bastante clara. Akiteru se sentiria orgulhoso, e ele quase conseguia sentir o tapinha amigável do irmão em seu ombro.
Daichi continuou em silêncio por alguns instantes, refletindo sozinho antes de falar novamente, e Kei já imaginava o que ele iria dizer.
“Sinto muito, mas isso soa muito perigoso para você…” A preocupação estava presente não apenas na voz do capitão como também em seu olhar, e nesse momento ele em muito lembrava um pai. Seu argumento tinha bastante fundamento, mas o cientista já teve que lidar com ele antes e a resposta permanecia a mesma.
“Eu sei que é perigoso. Não pense que estou tomando essa decisão agora, capitão, porque eu já refleti. E estou aqui disposto a correr todos os riscos que ela representa. Então, por favor… Me deixe fazer isso. É o que eu sinto ser necessário. E, se não for pedir demais, eu tenho uma condição especial em relação a isso.” O loiro falou, e ele mesmo se surpreendeu com a calma e serenidade que usou para se expressar, ainda mais quando sentia as suas mãos suando e o coração batendo forte em seu peito, tanto que ele se perguntava como era possível Daichi não escutá-lo.
O capitão quase retrucou, mas ao perceber o convencimento na voz de Tsukishima, resolveu ficar quieto, e quando voltou a abrir a boca, foi apenas para fazer-lhe mais uma pergunta.
“E o que seria?” Kei sentiu o seu coração praticamente saltar para a sua garganta, pois aquela era a parte mais arriscada de seu plano, e ele não podia fraquejar naquele momento. Discretamente, ele limpou o suor de suas mãos nas pernas, concentrando-se nas palavras que devia dizer agora.
“Durante a viagem, Tadashi deve ficar solto, e ser tratado como um de nós. Acredito que ele pode aprender bastante com essa experiência, e se ele se tornar violento de novo, dou permissão para ele ser neutralizado e enjaulado até se acalmar.” Milagrosamente, ele conseguiu falar aquilo tudo sem fraquejar ou gaguejar, apesar de seu nervosismo. Tsukishima tinha mesmo muita sorte em ter uma oratória tão boa, e ele esperava que sua postura estivesse convincente o bastante também, para dar-lhe o ar totalmente composto de calma que ele tanto esperava esbanjar.
Daichi apenas ficou ali, ponderando cada uma das palavras que o loiro acabou de proferir. Durante esse momento, Kei tentou normalizar as batidas de seu coração, e estava se controlando para não pressionar o capitão a falar logo e acabar com a ansiedade que estava prestes a deixá-lo insano.
“Vá para o laboratório. Liberte Yamaguchi e o traga até aqui. Eu vou chamar os outros enquanto isso.” A resposta de Daichi foi exatamente o que ele queria, e assim que Tsukishima a escutou, todas as dúvidas foram embora de sua mente, fazendo-o sentir-se muito mais leve e aliviado.
“Certo, Daichi. E obrigado.” O loiro respondeu com um sorriso sincero antes de se levantar e sair da sala, indo enfim em direção ao laboratório e controlando suas longas pernas para não sair correndo até lá, assim como também teve que se controlar para não ficar sorrindo tanto ao ponto de fazer suas bochechas doerem.
Ele mal podia acreditar que tinha sido tão fácil convencer Daichi, na verdade, pois esperava uma grande briga. Aparentemente, tudo que ele precisava fazer era sentar e conversar como uma pessoa madura e responsável — o que foi exatamente o que ele não tinha feito dias atrás.
No entanto, agora não era o momento para ele lamentar suas ações um tanto imaturas da sua parte no passado, pois ele chegou no laboratório e tinha coisas bem mais importantes e urgentes para fazer.
Assim que ele viu Yamaguchi sentado no chão, o loiro acenou para ele, e logo em seguida ele foi mexer no computador. Finalmente poderia desativar aquele maldito campo de força ao redor da cela do alienígena, e fazer essa operação foi algo extremamente satisfatório para o cientista. Logo depois de tê-la desativado, Tsukishima andou até onde Tadashi estava preso, abrindo a porta da cela e oferecendo-lhe a mão.
“Segura minha mão.” Ele falou, e logo em seguida Tadashi segurou a sua mão. Kei tinha sentido falta disso, especialmente de sentir as escamas verdes contra sua pele, e ele ajudou o alienígena a se levantar. Assim que o fizera, Kei não se aguentou, e acabou por abraçá-lo, fazendo-o soltar uma exclamação com aquela demonstração repentina de afeto antes de retribuí-la, ainda que timidamente.
“Eu consegui, Tadashi. Vai dar tudo certo.” Quando o cientista se afastou e passou a olhar para o rosto do outro, ele percebeu que Tadashi estava um tanto corado. Ele acabou rindo disso, achando uma certa graça, e também porque Yamaguchi ficava realmente adorável com as bochechas vermelhas, roubando dele um selinho.
Aquele simples gesto fez com que Tadashi soltasse um “Tsukki” baixinho e meio envergonhado, e nesse momento Tsukishima teve certeza de que não queria mais largar aquele alienígena, que apesar de estar um tanto embaraçado, ainda tinha a cauda se mexendo de um lado para o outro logo atrás dele, o que era uma prova de que ele estava feliz com aquilo tudo.
Sua mão encontrou a dele novamente, e Kei a segurou de leve. Não tinha a menor necessidade de ficar forçando, de qualquer forma, já que Tadashi também gostava de ficar assim com ele e retribuiu o ato de imediato, fazendo carinho em sua pele com as garras. No entanto, o humano não pode deixar de perceber uma certa confusão no olhos castanhos dele, e ele logo começou a explicar o que tinha acontecido.
“Nós vamos viajar pelo espaço. Vamos visitar meu planeta. E você não vai mais dormir nessa cela. Ninguém mais vai te machucar, também. As coisas estão melhorando, Tadashi. A partir de agora, todos aqui vão te tratar melhor, e você vai viver melhor também.” O otimismo era claro em sua voz, e também em seus gestos. A sua mão livre estava acariciando suavemente o cabelo e rosto de Tadashi, e Tsukishima usava as pontas dos dedos para ligar os espaços entre cada uma de suas sardas. O alienígena não parecia se incomodar com aquilo tudo — considerando como a sua cauda estava balançando, aquilo era um sinal claro de satisfação -, e estava até mesmo sorrindo.
“Tsukki… Tsukki, eu… Hmn…” Yamaguchi estava tentando encontrar palavras para formar uma frase, e Kei imaginava que ele gostaria de dizer o quanto estava grato por tudo que tinha acabado de acontecer. Sua confusão com as palavras o deixava frustrado, visto o quanto ele estava grunhindo baixinho e murmurando para si mesmo, mas nem assim ele deixava de ser interessante e até mesmo fofo.
“Tá tudo bem, não precisa tentar me agradecer ou algo assim.” O cientista falou, agora fazendo carinho atrás da orelha de Tadashi, fazendo-o se esquecer momentaneamente do que estava tentando falar antes para soltar um barulhinho de felicidade e satisfação, que quase pareceu um ronronar — se é que Tsukishima podia chamar aquilo de ronronar.
No entanto, por mais que Yamaguchi fosse estupidamente adorável quando estava feliz e parecia apreciar bastante carinhos atrás da orelha, eles ainda não estavam livres para fazer o que bem entendessem. Considerando o tempo que tinha passado, era bem provável que os outros membros da Equipe CORVO já estavam na sala de comando, e agora estavam esperando por ele e pelo alienígena.
“Vem comigo, Tadashi. Temos que ir juntos pra sala de comando… Vai ter muita gente lá, mas ninguém vai tentar te machucar, e você pode ficar segurando minha mão.” O loiro falou, dando um pouco mais de segurança para o alienígena antes dos dois deixarem o laboratório, caminhando de mãos dadas até a sala de comando, sem pressa e em silêncio, já que Tadashi teria que se familiarizar com o interior da nave e aquele seria um bom começo.
Como já era esperado, todos os outros tripulantes já estavam lá, e só faltava a presença do cientista e de Yamaguchi. Assim que eles chegaram, Tsukishima percebeu que Tadashi apertou a sua mão com um pouco mais de força, ficando também um pouco mais perto dele, como que para garantir sua segurança.
Kei aproveitou o momento para observar os arredores, e era óbvio que todos os olhares estavam fixos nele e no alienígena, que mais parecia um garotinho tímido e dócil do que uma criatura selvagem capaz de matar qualquer um ali em instantes caso tivesse vontade.
“Desculpe a demora. Ele é meio tímido.” Tsukishima apenas explicou calmamente, já que era uma meia verdade e era bem melhor do que falar que ele estava tendo um momento romântico com Yamaguchi — até porque isso parecia ser bem mais profissional e sério. Sugawara e Tanaka lançaram olhares que pareciam um tanto suspeitos, mas nada comentaram, assim como o resto da equipe — Daichi, em especial, pareceu acreditar completamente na sua desculpa.
“Tudo bem. Você não se atrasou muito.” Surpreendentemente, quem falou aquilo foi Kageyama, que agora parecia estar praticamente do seu lado. Tsukishima se sentiu bem grato a isso, mas apenas fez que sim com a cabeça, para então olhar para o capitão, esperando ele falar. Daichi, percebendo aquilo, apenas cruzou os braços e deu-lhe um leve sorriso, acenando com a cabeça para o cientista.
“Acho mais justo você explicar.” Ele afirmou, e Kei apenas pigarreou antes de começar a falar.
“Certo. Eu procurei o capitão um pouco antes, e expliquei o que andou acontecendo esses dias. Não quero perder tempo, então vou direto ao ponto. Tadashi é muito inteligente, e ele é capaz de falar, aprender palavras novas e também a conviver com a gente de maneira pacífica. Então, apesar de seus trejeitos selvagens, ele é capaz de ser tão civilizado quanto nossa espécie, e por isso mesmo não deve ser tratado como uma mera cobaia de laboratório.” Tsukishima começou a explicar, pausando para tomar nota das reações de cada um.
Daichi apenas esperava pacientemente que ele acabasse, enquanto Sugawara estava ao seu lado, olhando para Tadashi com uma certa curiosidade. Hinata estava praticamente agarrado em Kageyama, e pelo brilho em seu olhar, ele estava se segurando para não soltar alguma espécie de exclamação, enquanto o moreno apenas permanecia com sua expressão neutra de sempre. Nishinoya estava praticamente imitando Hinata, exceto pelo fato de que ele estava mais entre Tanaka de Asahi — este último olhava para o alienígena com o que parecia ser respeito e até mesmo um certo arrependimento por tê-lo machucado dias antes, enquanto Tanaka apenas assentia a cada frase.
Boas reações, Kei diria. Excelentes, até, e elas o incentivavam a continuar.
“Por conta disso, eu pedi para nós retornarmos para Thalassa a partir desse exato momento, tendo Tadashi como um tripulante, e ele deve ser tratado da mesma maneira que a gente se trata. Sei muito bem que chamar a atenção da Foundation sobre isso é algo arriscado, mas é a melhor opção, considerando que sua espécie seria caçada caso ele fosse solto normalmente, e acredito que não apenas Tadashi como todos os outros membros dela merecem uma chance.” Ele pausou novamente, e Tadashi parecia ter se acalmado um pouco, já que soltou mais a sua mão. O cientista deu uma rápida olhada para ele, percebendo que sua cauda balançava um pouco logo atrás e estava bastante próxima de suas pernas, num sinal claro de timidez.
“Quanto a ele, espero que vocês o tratem bem. Ele é tímido, então pode demorar um pouco para ele começar a falar e se soltar com vocês, mas isso deve acontecer eventualmente. A melhor maneira de saber o seu humor é olhando para sua cauda, e ele é bastante curioso, então aconselho dar muito incentivo para ele ampliar seu vocabulário falado e aprender mais sobre nossa cultura. Se tiverem qualquer dúvida, podem falar comigo, já que ele é bastante apegado a mim, como vocês podem ver.” O loiro enfim terminou, e ninguém falou mais nada por alguns bons segundos. Aparentemente, todos os presentes estavam processando a série de informações que ele tinha acabado de fornecer.
“Alguma pergunta?” Foi Daichi quem acabou com aquele silêncio todo, e todos ali apenas negaram com a cabeça. Kei não pode deixar de se sentir um tanto orgulhoso, já que tinha conseguido convencer todos os membros daquela nave que não estava enlouquecendo quando falava de Yamaguchi.
Pelo menos agora eles tinham a prova de que ele estava falando a verdade — e ela estava no fato de que o alienígena estava lá, entre eles, como um igual.
“Então vamos partir.” Daichi afirmou, e apenas isso foi o suficiente para fazer com que ele, Sugawara e Nishinoya fossem aprontar tudo para que eles saíssem daquele planeta. Ainda assim, todos permaneceram na sala, e Tsukishima percebeu que Tadashi apenas olhava ao redor, curioso e com uma certa desconfiança, e o cientista aproveitou o momento para acariciar discretamente a mão dele, fazendo carinho em suas escamas.
Não demorou muito para os outros membros começarem a conversar entre si, mas Kei estava pouco ligando para isso, já que tinha a companhia do alienígena.
Em uma questão de minutos, a nave estava deixando a atmosfera daquele planeta tropical e rico. Yamaguchi parecia estar especialmente atento em observar enquanto eles iam se afastando cada vez mais da superfície do lugar onde ele sempre viveu, e até mesmo soltou um pequeno murmúrio baixo em admiração. Aquela era a primeira vez que ele estava presenciando o que era viajar pelo espaço, e mesmo Tsukishima devia admitir que tinha algo de mágico nisso, por mais que já tivesse vivido muito tempo em naves, indo de um planeta para o outro.
Logo eles estavam olhando para o espaço puro, e os olhos de Tadashi pareciam brilhar tanto quanto as estrelas na sua frente — que eram tão incontáveis quanto as sardas em seu corpo. Estava óbvio que aquela visão o tinha conquistado, da mesma maneira que também conquistou o cientista quando ele teve sua primeira oportunidade de viajar pelo infinito de estrelas, asteróides, planetas, luas e nebulosas.
O loiro pensou em fazer um comentário sobre a beleza do universo, mas achou melhor ficar calado e deixar que Yamaguchi a admirasse por si só. Ainda assim, ele conseguia sentir enquanto suas garras se mexiam, acariciando sua mão gentilmente, e sua cauda agora estava balançando com mais vontade, ainda que suavemente.
Tsukishima sorriu com aquilo, e voltou a olhar para as estrelas junto com o alienígena. Uma sensação de orgulho tomou conta de seu peito, junto com a paz que ele sempre sentia quando parava para observar a imensidão do espaço que parecia tornar sua existência e seus problemas coisas incrivelmente pequenas e banais.
Aquele era apenas o primeiro passo.
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