Notas iniciais
Olá pessoas, como vocês estão? Tudo bom? gklasdhgaldskhgasdl eu voltei!!! YAY!!!!!!!!! dessa vez, com um ship diferente: kenhina.
Ahhhh, kenhina.... é tão fofo......... dou uma choradinha sempre que eles interagem. fico tão feliz de ver meu filho kenma contente, e tal... então eu escrevi essa fanfic com o máximo de felicidade possível, aproveitando um plot que eu já tinha pensado há muito tempo, sepá alguns anos, embora eu tenha feito... algumas coisas maldosas com meu menino :ccccc foi pelo bem do andamento da história!!!
E!!!! Da mesma forma que aconteceu com a minha fanfic kagehina, eu terminei bem a tempo do aniversário dela!!!! Então vão lá dar parabéns pra ela no twitter!! Digam-na que fui que mandei vocês :3c
Haverão algumas palavras em japonês que colocarei os significados nas notas finais.
Espero que gostem da leitura e, se gostaram, compartilhem com os amiguinhos que shippam, deixem um comentário, sei lá!!!
Quem quiser falar comigo, pode me mandar mensagem privada ou entrar em contato pelo twitter, que é @kenmagoesblep.
Esta fanfic também está postada no spiritfanfics no meu usuário, que também é kenmagoesblep.

A asma era o menor de seus problemas, se alguém pedisse sua opinião. Não que ela não incomodasse, principalmente quando qualquer coisa podia causar uma crise, mas Kenma conseguia listar um punhado de outras coisas que o incomodavam tanto quanto ou até mais que ela. Sua ansiedade, lugares cheios de pessoas, barulhos muito altos, wi-fi ruim, chefões muito difíceis de vencer em seus jogos favoritos — mas não via sua mãe tomando decisões ousadas para solucionar nenhum destes. É claro que ela tem prioridades diferentes, mas, mesmo assim, ser totalmente desconsiderado nesse quesito o irritava, e foi essa desconsideração que o levou à estação de trem num domingo de manhã, para passar as férias com sua tia na pequena cidade litorânea em que ela morava.

Que merda.

Tinha de admitir, entretanto, que entendia de onde uma ideia dessas vinha. Estava em sua primeira semana de férias e os ventos e chuvas de verão, fazendo com que as temperaturas mudassem de um dia para o outro e trazendo a sujeira da rua para dentro da sua casa, já estavam fazendo seus efeitos nele, causando já pelo menos duas crises, uma delas um pouco pior, e o médico da família estava começando a ficar preocupado. Questionara sobre sua alimentação, sobre o estado de limpeza de sua casa e de seu quarto, se havia feito exercício físico recentemente… Ele também fizera várias perguntas para sua mãe, mas do lado de fora do seu quarto, provavelmente não querendo deixá-lo muito transtornado (como se ouvir os seus murmúrios e não saber o que estavam dizendo não o deixasse inquieto), e, aparentemente, chegaram juntos à conclusão de que seria bom para ele passar um tempo respirando ares mais limpos.

Kenma conseguia entender tudo isso, mas, francamente… Não gostava do interior. Paisagens verdes e extensas nunca chamaram-lhe muito a atenção, atividades ao ar livre o irritavam e a internet provavelmente era ruim. Além disso, não é como se tivesse grande intimidade com a sua tia, ou com a filha dela, sequer tinha certeza de qual era seu nome. Então não tinha qualquer boa expectativa dessa viagem.

— Não se esqueça de ligar para mim quando chegar lá, — sua mãe tinha lágrimas em seus olhos, como se estivesse despedindo-se dele antes dele ir para a guerra, arrumando sua roupa, checando os zíperes das malas, ajeitando o boné em sua cabeça — não esqueça de estar sempre com a sua bombinha de asma e seus remédios de alergia, caso precise, ok?

— Ok… — respondeu em seu tom usual, monótono, mas, internamente, dividido entre rolar os olhos e se sentir culpado; ela estava exagerando, o que não tornava fácil para ele assisti-la ficar emocional daquele jeito, sentia os próprios olhos reagindo, ficando mais úmidos.

— Também não fique dormindo muito tarde e coma todas as refeições. — ela fungou brevemente, ajeitando a sua camiseta novamente, esticando-a em seus ombros, e depois ajeitou seu cabelo, tirando-o de seu rosto e pondo atrás de sua orelha — E não se esqueça de tomar banho.

— Certo… — suspirou brevemente, ainda evitando contato visual imediato, pegando seu celular para responder uma mensagem enquanto a mãe falava; ainda não avisara ninguém do colégio que não estaria na cidade nas férias e provavelmente eram eles que estavam fazendo seu celular vibrar como louco naquele momento.

— E não deixe de ligar para mim toda noite. — foi a última coisa que ela listou, dizendo esta depois de afastar o celular do campo de visão do filho colocando uma das mãos sobre a tela, a outra vindo tocar-lhe a bochecha — Eu vou sentir sua falta, filho.

— Está bem, mãe. — Kenma não ousaria mentir sobre sentir falta dela, porque tinha consciência de que ela sentiria mais do que ele, mas ainda concordou e, depois de suspirar novamente, um tanto irritado, deu-lhe um pequeno sorriso, como que querendo consolá-la.

Ela o abraçou uma última vez e então deixou-o ir, acompanhando-o até a porta do trem levando as malas, embora não tivesse pedido por dita ajuda. Sempre que ele ficava pior da asma, era assim; ela agia como se ele não pudesse fazer nada, e não havia jeito de convencê-la de que essa não era a situação, então apenas rolou os olhos silenciosamente e aceitou. Mas não entrou no vagão antes de dar uma última olhada em sua mãe, como que numa última súplica. Quem sabe agora ela não desista de mandá-lo nessa viagem. Ela não caiu em seu olhar de cãozinho chutado, pois logo gesticulou para que ele entrasse, e quem desistiu foi ele. Não havia como fugir dessas férias horríveis, mesmo.

A viagem não fora tão ruim por si só. Ninguém sentou ao seu lado ou nos assentos à sua frente, dando a ele a chance de tirar os tênis e mover seus dedos, os bancos eram mais confortáveis do que esperava que fossem e o sinal de internet ali dentro pegava bem (pelo menos, por um tempo). Observou pela janela até a cidade acabar e seu campo de visão se enchesse de verde, que foi quando decidiu jogar em seu PSP. Ainda tinha um chefe extra no jogo para derrotar que o impedia de completar o jogo com 100%, com todos aqueles ataques que o deixavam com apenas um ponto de vida e comportamento imprevisível, e mesmo usando o personagem mais balanceado do jogo, não conseguia vencê-lo. Maldita figura misteriosa… Jogou vezes o suficiente para cansar da voz do personagem e querer jogar o console pela janela, decidindo que era melhor tentar se distrair com outra coisa — que foi trocar SMS com Kuroo, que queria estar dormindo, mas acordara para fazer xixi, não conseguira voltar a dormir e agora estava contando-lhe detalhes desnecessários sobre a situação, fazendo citações a memes a cada 2 frases pelo menos.

Respondeu todas as mensagens com pouco interesse (porque, francamente, não queria saber de seus problemas com banheiro, mas os memes eram engraçados, embora nunca fosse dar ao Kuroo o gosto de saber) e humor autodepreciativo, algumas vezes genuinamente irritado, mas, lá no fundo, sentiria falta disso. “Me dá um soco, eu preciso me sentir vivo” foi a última mensagem que conseguiu mandar antes das árvores lá fora roubarem o seu sinal de celular, sem ter passado nem metade da viagem, sendo forçado a observá-las até que caísse no sono. Ele realmente dormia em qualquer posição, para sua sorte. Acordou apenas quando o trem estava parando na estação destino, sendo recebido pela imagem da sua tia acenando animadamente na plataforma.

— Kenma!!! — a mais velha disse mais alto, como se tentasse se destacar dentro de uma multidão, mesmo sendo a única lá e a estação estava quase totalmente silenciosa, caminhando calmamente pela estação vazia para recebê-lo na porta; ela estava mais velha do que se lembrava, o que era óbvio, considerando que não a via desde o falecimento da sua avó, e, mesmo sem se conhecerem direito, ela sorria como se tivesse sentido muito sua falta nesse tempo — Fez boa viagem? Você parece cansado!

— É… Foi chato… — assim como o resto dessa viagem será, quis dizer, mas não queria ofendê-la, já que não era exatamente culpa dela que ele estava ali; também não sorriu de volta, desviando um pouco o olhar, sentindo-se levemente constrangido enquanto ela olhava-o de cima abaixo.

— O resto da viagem vai ser melhor. — por acaso ela leu sua mente? Provavelmente não, aquele parecia um comentário genuíno, acompanhado de um tapinha nos ombros e um novo sorriso, um menos intimidador que o último, mais confortável, quase aconchegante, lembrando um pouco da sua mãe (o que era uma coisa positiva ao mesmo tempo que não); em seguida, ela pegou uma de suas malas e começou a andar — Vamos!

Kenma olhou para o trem por um segundo, sonhando que, se entrasse de novo, voltaria pra casa, porém logo desistiu da ideia e a seguiu para fora da estação, indo direto para o carro, colocando as suas coisas no porta-malas e logo depois entrando na porta do passageiro. Passou o caminho todo oscilando entre checar as mensagens em seu celular — Kuroo havia deixado um monte de mensagens, as primeiras preocupadas por ter parado de responder, as seguintes todas com fotos aleatórias e provavelmente alguns pensamentos estranhos que teve durante o banho — e observar a paisagem, que estava longe de ser interessante, mas preferia olhá-la. Enquanto isso, sua tia fazia-lhe perguntas banais, que respondia por educação. Como estava a sua mãe? E a escola? Ainda jogava vôlei? Estava namorando? Pior do que isso, apenas a sua vã tentativa de mostrar a cidade e seus pontos interessantes.

Quer dizer… Existia algum ponto interessante nessa cidade? Desceram da estação, que ficava numa área mais alta da cidade, cruzando-a inteira pela maior via da cidade de carro, onde só viu várias casas de variados tamanhos, o serviço de correio, lojas e mercados, uma praça grande e vazia, muitas árvores e mato, e a praia no horizonte. Ela era desinteressante e sem vida, não havia pessoas na rua, estava até esperando alguns inimigos spawnarem do chão.

A casa da sua tia era tão entediante quanto o resto da vizinhança, da cidade, de toda a distância que havia percorrido. Era uma casa não muito grande, mas tinha dois andares e várias janelas, tendo uma aparência antiga, com vinhas crescendo pelas paredes, e havia um jardim com uma plantação de vegetais na frente, onde seu tio estava trabalhando até chegarem. Tinha uma vista boa para fotos, pois era bem de frente para a praia, separada da areia por um terreno enorme e vazio, coberto de grama e mato alto, muito inclinado para se descer confortavelmente. O lado de dentro era ainda mais tumultuado: janelas grandes, quase todas com sinos de vento; móveis dos dois lados dos corredores, tornando-os estreitos; porta retratos, vasos e livros espalhados por toda a casa; uma decoração dolorosamente colorida, com flores, colchas de retalhos, tapetes com estampas, vidros coloridos, muito artesanato. Bem diferente da sua própria morada, tão mais limpa e moderna. Torceu o nariz para tudo aquilo, sentindo-se claustrofóbico lá dentro com tantas coisas lá, além de ter certeza de que havia muito pó.

Sua tia deixou-o com o quarto de sua prima, que já não morava mais por lá pois já era adulta, que provavelmente era o melhor cômodo da casa. Estava perfeitamente limpo (o que provavelmente foi pedido de sua mãe), a cama era maior que a sua própria e bastante confortável, havia várias tomadas espalhadas pelo quarto, além de que o roteador da internet e do wi-fi estavam na escrivaninha. A decoração continuava parecida com o resto, tendo lençóis com estampas vivas e pôsteres e fotos pelas paredes, além de não ter ar condicionado, contando apenas com um ventilador de teto para lidar com o calor, mas podia lidar com isso. Kenma conseguiria passar seus dias ali relativamente fácil, não precisava pensar muito para chegar a essa conclusão.

Ficou enfurnado do quarto pelos três dias que se seguiram, saindo apenas para usar o banheiro, tomar banho e comer, envolto em seus jogos de computador (mesmo contra os pedidos de sua mãe, escondeu seu notebook na mala) e de consoles portáteis, agradecendo que estava chovendo forte, pois sabia que não teria escolha a não ser sair quando o sol finalmente reinasse na cidade — e era lembrado disso constantemente, sempre que encontrava com sua tia, fosse durante as refeições ou no corredor.

— Você não veio aqui só pra fazer as mesmas coisas que faz em casa, Kenma! — ela disse na primeira manhã de sol da semana, enquanto trazia tudo que havia preparado de café da manhã para a mesa — Vá conhecer a cidade, fazer algumas amizades. ‘Cê ainda vai ter muito tempo pra jogar nessa vida.

— Eu não quero sair… — resmungou, franzindo o rosto, olhando feio para a comida que cutucava com seus hashis; não havia nenhum problema com a refeição, de qualquer forma, todas as coisas à mesa sendo de seu agrado, entretanto, o calor escaldante que infiltrou a casa amortecia seu estômago e nem o apelo visual conseguia fazê-lo pôr algo na boca, mas, mais importante, não queria jogar aquele olhar irritado em sua tia com certo receio da sua reação — Está muito quente… Muito sol… — Olhou lá fora por um segundo, querendo fazer um ponto, mas voltou logo a mirar seu prato, pois a luz solar, mesmo sendo indireta, pareceu cegá-lo.

— É pra isso que protetor solar existe, rapaz. — seu tio comentou do outro lado da mesa, comendo seu café da manhã com gosto, a temperatura nem afetando-o; as roupas dele tinham resistência ao calor ou o que? — E você sempre pode se refrescar no mar, é só cruzar o gramado da frente. — Ugh, não o mar; não gostava do cheiro da água, sempre entrava na boca e voltava com areia em todo seu corpo, até nos lugares mais difíceis de entrar.

Kenma estava aborrecido, com certeza, porém conformado. Sabia que, eventualmente, seus tios o colocariam para fora da casa, porque esse é o tipo de pessoa que eles são; estavam sempre do lado de fora, cuidando do jardim, fazendo coisas, interagindo com pessoas, e eram incapazes de entender como alguém consegue viver sem qualquer uma dessas coisas. Todas elas… Tão superestimadas. Suspirou profundamente, terminou de comer e foi para o quarto se arrumar para aquela tarde de tortura.

Vestiu uma bermuda e uma camiseta (porque, mesmo não gostando de estar ao sol, não era louco o suficiente para se cobrir inteiro), pegou um chapéu do armário da sua prima, passou no corpo uma camada do protetor solar e repelente mais fortes que tinha e escondeu em seu bolsos o celular, o PSP e fones de ouvido e saiu andando, olhando ao redor enquanto caminhava pela rua da casa dos seus tios procurando por um lugar escondido o suficiente para que não o encontrassem, com sombra para se sentar e jogar. E aquilo não era tarefa fácil, já sabia desde o começo. Pelo que já tinha visto da rua — da cidade inteira, para ser sincero —, não havia muitos lugares assim. Não havia muitas árvores naquele bairro, embora tivesse passado por várias no trajeto da estação até lá, nem cantos desocupados que não estivessem tomados por mato. Chegou a encontrar uma loja de conveniência e uma praça enquanto andava, mas não queria encarar as pessoas ali, mesmo que poucas. Elas pareciam saber que ele não era dali, talvez porque todos se conheciam, talvez pelo jeito que ele estava se portando, ou quem sabe por alguma habilidade especial. Um cara em especial ficou intrigado com ele, encarando-o intensamente por muito tempo, o que deixou-o incrivelmente nervoso.

Mas, depois de alguns minutos, encontrou um lugar que o interessou. Sobre a colina que separava a rua da praia, tinham construído um pequeno pier, que estava vazio. Podia se sentar embaixo do pier, na praia, em plena paz e silêncio… Contemplou um pouco a possibilidade, medindo os prós e os contras. Os maiores contras que podia pensar era a possível presença de animais e ter de sentar na areia, mas um dos prós é que ninguém pensaria em ir ali, então, por fim, decidiu descer a colina e sentar-se lá. Quem sabe, se tudo corresse bem de manhã, voltaria lá depois do almoço com uma toalha.

E a manhã correu perfeitamente bem. Não havia animais ou lixo sob o pier, ninguém o incomodou ali e seu sinal de celular pegava. Era longe da casa dos seus tios? Relativamente, mas isso tornava seu esconderijo melhor, sendo bem franco. Eles dois nunca encontrariam-no ali. Então, quando o puseram pra fora de casa no dia seguinte, já estava melhor preparado, trazendo desta vez uma mochila com algumas coisas a mais do que levou no dia anterior, como uma toalha, uma bateria externa e algum dinheiro, que usou quando passou pela loja de conveniência para comprar alguns doces, e isso se repetiu pelo resto da semana.

Até que, na segunda-feira, alguém o encontrou. Não fazia ideia de como, mas, de repente, quando ergueu os olhos de seu console, lá estava um garoto, que sorriu quando fizeram contato visual com a naturalidade de quem o conhecia há muito tempo, apesar de ter certeza de que nunca o viu na vida. Ele era ruivo, com um cabelo mais desarrumado que o do Kuroo, tinha a pele morena e com algumas sardas por exposição ao sol, olhos grandes, castanhos e bastante curiosos e estava apenas usando uma daquelas caudas de sereia que viu algumas meninas usando em fotos no Instagram, que tinha um design parecido com a cauda de um peixe-palhaço. Bonitinho, mas pouco prático, pensou por um instante, assim como pensou quando viu suas colegas de classe com uma parecida. Só que essa é um pouco mais realista.

— O que é isso na sua mão? — ele perguntou depois de alguns segundos de silêncio, apontando para o seu PSP, chegando um pouco mais perto para olhar melhor — Você fica sentado aqui mexendo nisso todo dia, o dia todo. O que tem de tão interessante nisso?

— É um PSP. Comprei um jogo novo no começo das férias, um que eu não conhecia. — respondeu simplesmente, acreditando que aquilo saciaria a curiosidade do rapaz ao seu lado, mas, aparentemente, apenas aumentou, pois ele continuou olhando-o com a mesma expressão, apenas inclinando a cabeça um pouco para o lado; ele queria saber o nome do jogo, quem sabe? — Me & My Katamari.

Também não adiantou, ele continuava evidentemente confuso. O que ele queria? Qual era realmente sua dúvida?

— O que é um PSP?

… Ok, de todas as perguntas possíveis, essa era a que achava menos provável. Kenma encarou-o por um momento, piscou vagarosamente uma, duas, três vezes, tentando pensar em quais os motivos plausíveis para alguém não saber o que era um PSP. Talvez ele fosse um fã da Nintendo e não prestasse atenção aos lançamentos da Sony? Não gostava tanto assim de videogames portáteis então não se importava em saber dos novos? Ou quem sabe ele não fosse um cara recluso que cresceu ensinado em casa e que os pais nunca o apresentaram aos videogames? Seria rude perguntar.

— É um videogame portátil que a Sony lançou, não é tão novo assim. Já tem versões mais modernas. — mas não tão melhores assim, pensou mudamente; não precisava expor sua opinião a respeito para um novato, que sequer havia visto um daqueles na sua vida, embora tivesse certeza que viu pelo menos dois outros garotos numa praça ali perto jogando em um.

— Oooh. — fez um balanço afirmativo com a cabeça, mas, ainda assim, se pôs sentado um pouco mais perto, suas mãos se aproximando do console como que querendo tocá-lo, passando seu dedo indicador pela tela por um momento e parecendo se surpreender com a textura, como quem esperava outra coisa — Legal!!! — exclamou, fascinado — E o que é um videogame? O que faz?

Ele só podia estar brincando. Encarou-o com os olhos semicerrados, abrindo a boca para tentar dar alguma resposta, mas a fechou em seguida. Esse cara com certeza mora debaixo de uma pedra, julgou-o mentalmente, ou ele é incrivelmente excêntrico. O que dizer em seguida? Como responder àquela pergunta? Será que deveria responder aquela pergunta? Ou poderia apenas voltar a jogar sem dizer nada? Talvez ele o deixasse em paz… Resolveu tentar isso.

O que não deu certo, porque o ruivo continuou sentado ao seu lado, encostando o dedo sujo de areia na sua tela, perguntando o que o videogame fazia, o que era aquela imagem nele, se era uma criatura viva lá dentro arrastando aquela bola, o que estava grudando na bola, queria saber o porquê das coisas estarem grudando na bola. Ele parecia uma criança de 3 anos e, àquela altura, estava começando a achar que ele estava fazendo aquilo para aborrecê-lo — e estava conseguindo, ficando mais difícil de se concentrar e de pensar.

— Por favor, pare. — pausou o jogo, interrompendo sua última pergunta, e abaixou a mão para empurrar o joelho dele, que estava incomodamente perto do seu, e aí, sentiu a textura daquela cauda; parecia que tinha posto a mão em um peixe de verdade, tinha a mesma viscosidade, uma textura realista demais de escama, não parecia em nada com tecido de roupa de banho ou qualquer tecido, de fato — !!! — recolheu a mão imediatamente, assustado, e encarou-o; que merda é essa?!

— Ah, desculpa, — ele ergueu as próprias mãos também, espantado com seu susto, com um pingo de culpa no fundo dos olhos — Eu não conheço muitas coisas sobre vocês, humanos, só as coisas que caem na água, e ‘cês fazem coisas muito interessantes, então…

Aquilo bastava. Kenma, sem nem ter realmente absorvido as últimas coisas que ele tinha dito, apenas se levantou, recolheu suas coisas e foi embora. As perguntas, o comportamento estranho, as justificativas… Aquele cara tinha problemas. Sérios problemas. E não queria mais estar ali, perto dele, de jeito nenhum. Correu colina acima abraçando a mochila, olhou para trás rapidamente, viu o outro ainda olhando-o, e acelerou o passo. Acabou correndo até o portão da sua tia, sem fôlego e com uma dor enorme no peito, como se seus pulmões tivessem se fechado. Ah, que ótimo. Ela, que estava sentada à beira da janela, tomando chá com uma amiga, viu-o e logo percebeu que precisava de ajuda.

Sua tia trouxe-lhe correndo a bombinha, o fez se sentar no chão para aplicá-la e só depois de alguns minutos o pôs para dentro, quando estava respirando melhor, e não deixou-o sair de casa no dia seguinte, dando-o tempo para descansar e pensar no que aconteceu.

Aquele cara estava só fingindo ser um tritão, queria se convencer disso. Não que acreditasse firmemente que eles não existem, afinal, sabe-se mais sobre a superfície da lua do que sobre o fundo do oceano, além de que nunca mais conseguiu ter certeza de que seres sobrenaturais não são reais depois de ter uma conversa um pouco mais profunda do que gostaria com um amigo do Kuroo que era incrivelmente apaixonado por alienígenas; mas, francamente, não tinha tantas evidências assim que confirmassem aquilo. Sua atitude podia até ser fingida, embora tivesse um tom incrivelmente sincero, só que aquela cauda era realista demais para ser só uma roupa de banho estilosa: a transição entre a pele do torso e as escamas era muito suave, natural, ao invés de uma linha distinta; a textura dela era quase idêntica à de um peixe, ou, ao menos, com a que conhecia, tendo posto a mão em seu peixe de estimação várias vezes quando era criança; além de que, pelo breve contato que teve com a cauda, não conseguia saber se realmente havia uma perna ali ou não.

Não queria acreditar. Aquilo lhe dava calafrios, o deixava nervoso.

Sequer sabia o que fazer a respeito disso. Deveria agir como se estivesse em um jogo de quebra-cabeças e investigação e tentar descobrir se aquela era a verdade? Ou seria melhor fingir que não aconteceu? Não queria admitir nem para si, mas era difícil negar que estava tanto assustado quanto intrigado quando sua mente continuamente o levava a pensar sobre aquilo de novo, quando desviava o olhar para o mar e se perdia observando as ondas e se perguntando o que exatamente morava naquela água, mesmo enquanto usava o computador ou jogava alguma coisa, sentindo o mesmo frio na barriga que tinha quando começava um jogo de terror novo e a história começava a se desenrolar. Kenma tentou o máximo possível suprimir essa curiosidade, não querendo arriscar passar por uma nova crise asmática.

Passou o dia que se seguiu à crise no quarto pensando nisso, graças ao tempo livre que a preocupação da sua tia proporcionara — ela não expressamente o proibiu de sair mas também não o colocou para fora como nos outros dias, o que já era bom —, ponderando qual seria a melhor opção. Chegou a pensar, por um momento, a mandar uma mensagem ao Kuroo sobre isso, mas depois de tentar fraseá-la de um modo que não parecesse um louco ou um idota falando e falhando, decidiu não fazer qualquer comentário sobre a situação, nem sobre o ataque, nem sobre o encontro que teve com uma possível criatura sobrenatural.

Entretanto, na manhã seguinte, foi forçado a sair de casa para fazer algo ainda pior do que se encontrar com um tritão e exigir explicações: socializar.

— Você deu um susto muito grande na minha amiga anteontem, Kenma! — a mais velha anunciou no café da manhã, colocando mais arroz em sua tigela sem ter pedido, falando em tom de repreensão; que culpa tinha disso? Ele não tinha escolhido ter asma, ou estar ali, para começo de conversa — Ela me perguntou sobre você no telefone, então vamos visitá-la hoje!

— Eu preciso mesmo ir? — suspirou e, como fez das outras vezes em que ficou frustrado com algo que seus parentes lhe disseram, encarou a comida irritado, cutucando-a com os hashis.

— Precisar, não precisa, mas acho que não vai ser tão desinteressante quanto ‘cê pensa. — ah não, pensou imediatamente, tentando prever o que ela ia dizer em seguida, conseguindo fazer uma lista — Ela tem um filho, mais ou menos da sua idade, com quem ‘cê pode conversar! Seria bom ter um amigo aqui, não?— Ah não, aquela era a pior das alternativas.

— Eu não faço questão… De conhecê-lo… — aquilo era um eufemismo, evidentemente, porque pessoas da sua idade eram, em sua grande maioria, incrivelmente irritantes e difíceis de lidar, além de que muitas vezes julgavam sua falta de palavras como rudeza quando, na verdade, só não sentia que tinha algo de bom a dizer, e isso tornava sua vida muito mais difícil; podia sentir um suor gelado se formando na testa.

— Não faz questão ou não quer? — tentou convencê-la apenas com um olhar de que não queria ir de jeito algum, mas não fora um olhar muito convincente, pois ela sorriu em seguida; aquilo (muito provavelmente) teria funcionado com sua mãe… — Então nós vamos. Na volta, eu faço uma torta de maçã pra você. Sua mãe disse que você gosta muito. — a perspectiva do doce no final do dia não impediu que uma gota escorresse pelo canto do seu olho.

Droga.

“Queria estar morto” digitou rapidamente a mensagem e mandou ao Kuroo assim que entrou no quarto para se trocar, jogando-se sobre a cama e afundando o rosto no travesseiro por um momento, resmungando sozinho. Recebeu uma resposta pouco tempo depois, dizendo “sendo bem honesto, eu também” , seguida de um “o que aconteceu agora?”, que adoraria poder usar como desculpa para enrolar mais alguns minutos deitado, mas, logo em seguida, sua tia veio apressá-lo, literalmente puxando seu pé para que saísse da cama. Só então de fato se trocou e saiu, voltando a pegar o celular quando estava no carro.

A cidade, mais uma vez, se prova entediante, uma vez que não levaram nem dez minutos para chegar à casa da dita amiga. Podia entender como aquilo era agradável, considerando que nunca chegaria a lugar nenhum de carro em Tóquio nesse tempo e conhecia muita gente que odiava a vida na cidade grande por causa disso, mas era a maior desgraça que podia lhe acontecer naquele momento, em que queria chegar lá o mais tarde possível, para que, quem sabe, sua tia decidisse voltar cedo e não tivesse que passar tanto tempo falando. Se tivesse sorte, esse outro cara também não gostaria muito de conversar, então poderiam sentar em silêncio e mexer cada um no seu celular.

Mas não teve essa felicidade. Aparentemente, 99% da população daquela cidade era extrovertida, porque não só foram cumprimentados por todas as pessoas que sua tia conhecia com quem cruzaram na rua, ela chegando a parar o carro no meio da via para bater um papo, o que o incomodou infinitamente (uma coisa como essas jamais seria feita em Tóquio), como pelo tempo que ficou na casa dos Haiba.

Todos os membros da família falavam bastante, até demais. A matriarca, que tinha um nome russo muito difícil de gravar e um cabelo longo e incrivelmente branco apesar dela não parecer tão velha assim, já jogou inúmeras perguntas para cima de Kenma assim que chegaram, querendo saber se ele estava bem do surto de asma que teve na tarde em que ela havia ido visitar, mal sabendo ela que suas perguntas o deixavam nervoso; apenas depois de ter garantido à ela que estava tudo bem, foram conduzidos à sala de estar, onde havia uma mesa arrumada para tomar chá. Essa foi a parte mais tranquila daquela tarde, porque os filhos dela— a quem sua tia queria apresentá-lo — não estavam em casa ainda, então pôde ficar no celular conversando por mensagem e comendo bolo enquanto isso, porém, eventualmente eles chegaram. Alisa, a irmã mais velha (que, curiosamente, também tinha cabelo branco), chegou primeiro, curvando-se brevemente para saudá-los e logo depois se juntando à mesa, falando animadamente sobre a festa de aniversário da qual acabara de chegar, e sobre as conversas, e a decoração, e novidades das amigas… Mesmo que quisesse entender do que a moça falava, falava tão rápido e mudava tão rápido de assunto que mal conseguia entender a linha de pensamento dela, embora as duas mais velhas entendessem plenamente.

Mas, de longe, o pior de todos era o Lev, primeiramente porque sua própria presença o deixava nervoso. Reconheceu-o do primeiro dia que passeou pela cidade, quando estava passando pela praça e fizeram contato visual. Não imaginava que encontraria na mesma cidade outro rapaz tão alto como ele, de cabelos brancos e olhos verdes. Quanto ele media? Dois metros? Parecia um pouco com um elfo. Ele também o reconheceu e sorriu, surpreso, sentando-se e ficando em silêncio ouvindo a irmã falar até que, por algum motivo, voleibol surgiu como pauta de conversa.

— Kenma também joga vôlei! — sua tia disse animada, esperando que aquilo o fizesse falar, o colocasse dentro da conversa, mas apenas deixou-o mais estressado.

— Sério?! — batendo a mão na mesa com mais força que o necessário, Lev exclamou, logo em seguida jogando-lhe um olhar brilhante, como se estivesse vendo algo que nunca viu na vida, mais intenso do que a encarada do outro dia — Em que posição você joga?!

— … Eu sou levantador… — hesitou em responder, porque, um cara alto como aquele, provavelmente era atacante ou ponta, e não queria que ele tivesse esperanças de que levantasse para ele.

— Jura?! Eu jogo como bloqueador, mas quero ser o ás! — falava com confiança e animação, quase vibrando na cadeira, tamanha alegria até o deixava confuso; não é como se detestasse vôlei, mas definitivamente não entendia toda essa paixão pelo esporte — Você joga em algum time?! Tóquio tem vários times grandes!!!

— Eu estudo no colégio Nekoma… Mas não jogo no time… — recebeu, de fato, o olhar confuso que esperava receber; “Por quê?!”, imaginava que era o que ele estava pensando — Tenho asma.

— Ah. — sua decepção era evidente, seu olhar tendo baixado para a mesa e suas mãos redirecionadas para o prato, querendo voltar ao seu pedaço de bolo — Que pena. Eu queria saber como são os torneios nacionais, meu colégio nunca passa no torneio da província.

— Um amigo meu joga no time, ele diz que são difíceis. — não quis dizer mais do que isso porque, apesar de saber vários detalhes sobre o funcionamento do campeonato e acompanhar os jogos do colégio (porque, se não fosse, Kuroo provavelmente iria choramingar para o resto da vida, ou choraria de fato), não queia manter aquela conversa; Lev o deixava nervoso com toda sua excitação.

— Por que vocês dois não vão jogar um pouco lá fora? — a senhora Haiba propôs, sorrindo meigamente, mas evidentemente querendo tirá-los da sala para falar sobre outras coisas — Nós queríamos falar sobre outras coisas, coisas de garotas, e acho que só vamos atrapalhar a conversa de vocês.

— Ah, claro! — Lev colocou todo o bolo na boca de uma vez e levantou, animado mais uma vez; Ah, não — Vamos??? — só então perguntou ao Kenma se ele gostaria de jogar, também.

Olhou para sua tia, mentalmente pedindo para que ela intervisse por ele de alguma forma, mas ela não o fez, apenas sorriu e fez com as mãos para que ele fosse. Ela estava empenhada em torná-los amigos, de alguma forma. Queria muito morrer naquele momento, mas, quando se passaram alguns segundos e ele não faleceu, levantou e seguiu o mais alto para os fundos da casa.

E jogar com Lev era quase tão ruim ou pior do que conversar com ele, porque ele jogava muito mal. Era justificável, uma vez que ele mesmo admitira que só começou a jogar vôlei naquele ano, quando entrou no ensino médio, mas Kenma conhecia ele próprio outros alunos do primeiro ano que aprenderam mais rápido, e que tinham ambições bem mais… próximas. Ele ainda precisava treinar muito e melhorar em coisas incrivelmente básicas para chegar lá, mas ele continuava insistindo em tentar cortar a bola, mesmo errando várias vezes. Talvez ele fosse melhor se jogasse sem ficar falando, numa linha de raciocínio tão confusa quanto a de sua irmã estava mais cedo naquele dia, contando sobre sua última partida, sobre histórias de seus amigos, ideias estranhas que tinha quando criança, alguns pensamentos aleatórios que tivera no chuveiro um dia e que nunca esquecera… Algumas vezes, ele chegou a parar de falar para perguntar-lhe algo, pedir sua opinião, ao que respondia de forma curta, com esperança de que ele parasse, mas não. Ele não parou até que o sol começasse a se pôr e fosse salvo por sua tia, que finalmente decidiu ir embora, mas não antes de sentir-se totalmente drenado.

Não só queria aquela maldita torta de maçã prometida, mas esperava que ela fosse a melhor que já comeu, porra, senão aquela tarde não valeria a pena.

(Não disse à sua tia por pura irritação, mas estava muito boa. Bem que sua mãe tinha dito que ela cozinhava bem.)

No dia seguinte, viu-se novamente para fora do portão da casa dos seus tios, diante da rua vazia, do mato e da praia, e decidiu que deveria ir até o pier novamente. Conversar com o ruivo, sendo um tritão ou não, com certeza era mais agradável (embora por pouco) do que estar na presença de Lev Haiba, além de já ter desistido de tentar se convencer de que não estava investido naquele mistério. Apesar de estar se sentindo ansioso — num misto do bom e do ruim —, caminhou pela rua, passou pela loja de conveniências e comprou o mesmo doce que comprou naquele dia e sentou-se no mesmo lugar que sentou antes, na esperança de que aquilo “ativaria o evento” e o encontrasse novamente.

Ficou sentado esperando um pouco, observando ao redor, como que brincando de jogo dos sete erros. A madeira das estacas do pier continuavam descascadas como antes, não haviam novas cracas crescendo, nem lixo na areia, o nível do mar continuava no mesmo observado no outro dia… Mas havia um punhado de conchas coloridas que não estavam lá antes. Três conchas, duas maiores e uma de tamanho médio, todas em formato espiralado, de cores claras em tons de rosa, salmão, laranja e amarelo. Dificilmente teriam parado ali sozinhas com a maré, chegou à conclusão quando segurou-as nas mãos, ainda mais numa praia de águas tão calmas quanto aquelas. Como elas vieram parar ali? Alguém deixou-as ali de propósito? Não sabia dizer, mas resolveu levá-las consigo, colocando-as na mochila.

Depois de alguns minutos parado lá, esperando algo acontecer, resolveu pegar seu PSP e voltar a jogar, querendo dar mais uma chance ao chefe extra que tentou derrotar durante a viagem e não conseguiu. Jamais ficaria satisfeito enquanto não derrotasse aquele desgraçado, não podia simplesmente desistir, não era da sua personalidade, e estava com uma sensação boa naquele dia. Quem sabe, aquele não fosse o dia que o derrotaria.

Pôs-se a jogar sem fones dessa vez, esperando que alguma coisa acontecesse, e se deixou perder na batalha, nas estratégias, no arranjo de habilidades e equipamento, até que ouviu o som de algo se arrastando na areia e ergueu os olhos. Ah, ele realmente apareceu. Observou-o aproximar-se mudo, com a cabeça levemente baixa, seu olhar sem a alegria do outro dia, mas com um tom de apreensão. Ele veio e sentou-se ao seu lado, como da outra vez, mordendo o lábio inferior, e continuou sem dizer nada, apenas observando-o de volta. Era um pouco fofo, tinha que admitir, mas ainda assim engoliu a saliva, sem saber o que falar. Será que começava logo com perguntas sobre sua natureza? Sobre aspectos físicos? Pedia desculpas por ter sido grosso e corrido no outro dia?

Pensou um pouco, pensando nas possíveis rotas que seu diálogo o levaria, e decidiu começar abrindo Me & My Katamari em seu PSP, na fase incompleta. Explicou, primeiramente, o que era um videogame, explicando principalmente o conceito de algo eletrônico, pois “jogo” foi um conceito que ele entendeu com facilidade, citando alguns que ele já jogou com peixes. Depois, passou para os elementos do jogo: seu personagem era o príncipe, filho do Rei do Cosmos, e você tinha de coletar material para formar estrelas com a sua Katamari, a bola. Por sorte, não teve de explicar muito sobre as estrelas, pois ele às conhecia muito bem, tendo observado-as no céu durante a noite por muito tempo, embora ele não soubesse o que era o espaço, ou, até mesmo, o planeta — que foram conceitos um pouco mais complicados, uma vez que Kenma não lia nada a respeito há muito tempo e nunca se interessou tanto assim no assunto.

Parecia que estava explicando as coisas muito bem ao outro, uma vez que ele parecia cada vez mais contente, seu sorriso não se abalando por nada, o interesse e fascínio crescendo em seus olhos, mas estava conseguindo poucas respostas, ainda sem saber se ele era realmente o que aparentava ser ou se era um farsante. Não conseguia uma oportunidade de fazer-lhe perguntas de volta, a curiosidade do ruivo transbordando, e precisou ter muita paciência. Respondeu calmamente tudo o que lhe foi perguntado da melhor maneira possível enquanto aguardava por uma brecha para ele mesmo verbalizar suas dúvidas, que se agravavam mais com cada conhecimento básico que se via explicando a ele.

— Então… — em algum momento, o tritão silenciou-se, prestando mais atenção no jogo, ainda encantado, quase hipnotizado pelo movimento da bola na tela — Você realmente não entende do que eu estou falando? — ele olhou-o confuso, inclinando a cabeça para um lado — Você… realmente não é humano?

Ele piscou algumas vezes, um tanto boquiaberto, parado daquele jeito por alguns segundos, até que começou a rir, inicialmente bem baixo, ficando gradualmente mais alto, em algum momento tendo começado a sacudir; ria um riso bobo, alegre, como o de uma criança, divertindo-se genuinamente. O que aquilo queria dizer? Que ele estava fingindo? Kenma apenas ficou encarando-o até que o riso cessasse, mais confuso do que estava antes de chegar ali.

— Eu pareço tanto assim com pessoas? — finalmente disse depois de tanto rir, ainda sorrindo, com os olhos quase fechados, radiando de tão contente; o que havia de tão engraçado no que tinha dito? Estava até um pouco irritado— Nunca duvidaram de mim antes!

—Tem várias pessoas por aí que fingem ser o que não são. — respondeu em monotom, como se nem se importasse com aquilo, embora, no fundo, estivesse aborrecido com a atitude dele; seu riso não tinha um tom de maldade, mas ainda assim, foi uma reação que o incomodou, como se sua pergunta fosse ridícula — Só uma cauda de peixe não convence mais, já fizeram falsas.

— Sério?! — ficou boquiaberto novamente, seus olhos brilhando como se aquela fosse a sua primeira manhã de Natal abrindo presentes, descobrindo um brinquedo novo dentro da caixa — Uau! Humanos fazem umas coisas incríveis, né?! Todas essas coisas que você estava falando até agora, nunca ia imaginar!!! — Kenma continuou encarando-o em silêncio, ainda aborrecido pela falta de respostas; o outro logo percebeu e não prosseguiu a frase — … ‘Cê ainda não acredita em mim, né? — ele riu baixinho, apoiando as mãos em sua cauda — Tá, acho que posso mostrar algo que vai convencer melhor.

O ruivo sorriu e passou a mão no pescoço para tirar a areia do local, e Kenma pôde observar algumas linhas finas por baixo dos dedos, algo que não tinha notado antes, mas não entendeu exatamente o que aquilo era até que começou a se abrir, deixando exposta a pele fina que havia por dentro, mexendo levemente com a brisa da praia. Aquilo realmente eram guelras, não dava para fingir uma porra daquelas, pensou junto do que um arrepio subiu pelas suas costas, fazendo seu corpo inteiro tremer, e sentiu vontade de sair correndo de novo, mas suas pernas não reagiram e continuou sentado. O que com certeza aconteceu foi seu choque e pânico transparecerem no rosto, pois o outro notou e imediatamente fechou as guelras.

— D-Desculpa!!! Eu não quis assustar você!!! — praticamente gritou, sua voz saindo mais fina do que o normal, balançando as mãos à frente do corpo rapidamente — Não vá embora!!!

Aquela fala tirou-o da sua crise de pânico em desenvolvimento, não por ser incrivelmente calmante, mas por tirá-lo de seu ciclo de pensamento com uma dose de culpa. Kenma sabia que a reação que teve no outro dia não era a melhor de todas — sentia-se envergonhado por ter corrido, além de bastante frustrado por ter um ataque de asma por isso —, entretanto nem pensou na forma que o outro iria reagir ao que fez até aquele momento, em que viu em primeira mão que ele ficou chateado. Mesmo sendo praticamente desconhecidos, sentiu aquilo pesar em si; podia ter pouco interesse em conversar com as pessoas em geral, o que não significava que não se importava. Não gostava de deixar coisas mal explicadas e angústias no ar. Então, se recompôs e respondeu:

— Eu não vou embora.

Foi a melhor resposta que conseguiu formular, mas logo dando-se conta de que provavelmente leu aquilo num dating sim, o que constrangeu-o um pouco, não o suficiente para impedi-lo de olhá-lo seriamente, mas não conseguiu manter por muito tempo. O tritão sorriu com um alívio tão grande, seus olhos voltando a ficar contentes, brilhando, que sentiu seu rosto queimar de vergonha e não conseguiu mais manter contato visual. Por que ele sorria daquele jeito para ele? Nem se conheciam, por que ele já parecia tão cheio de afeição? Aquilo o deixava inquieto.

— Obrigado. — ele voltou a falar depois de um momento embaraçoso de silêncio, ainda sorridente, num tom gentil pouco característico dele, o que não impediu-o de voltar ao normal na frase seguinte — Mas, já que eu respondi a sua pergunta… Você pode me explicar o que é um celular?

— Por que quer saber disso? — ergueu-lhe uma sobrancelha, o assunto repentino intrigando-o; então, era assim que as conversas deles funcionariam? Um fazendo perguntas para o outro em sequência? Parecia um jogo interessante.

— Alguém estava aqui em cima e começou a gritar porque derrubou na água.

Consigo imaginar o terror dessa pessoa, Kenma pensou, imediatamente tocando o próprio celular como se estivesse se assegurando que aquilo não havia acontecido com ele, mas aproveitou que o fez para poder mostrar em primeira mão o que estava falando.

O outro ainda tinha dificuldades em entender eletrônicos, então tirou a bateria e mostrou a ele como o aparelho era por dentro, explicando os componentes o melhor possível, desde a bateria até os chips de telefonia e o cartão micro SD. Só então começou a mostrar as diversas funções dele, desde o próprio telefone, até o calendário, despertador e a câmera fotográfica — a parte mais intrigante para o ruivo, que estava encantado com o poder de capturar algo da realidade e ter em seu bolso para ver pra sempre. Mais intrigante do que poder tirar fotos das outras coisas foi, entretanto, descobrir a existência da câmera frontal e a possibilidade de tirar fotos de si. Insistiu muito para que tirassem uma foto juntos, pulando no lugar até convencê-lo. E passaram a tarde toda dessa forma, trocando perguntas, sabendo mais do estilo de vida um do outro, até que o sol começou a baixar e a maré a subir.

— É melhor eu ir embora agora… — Kenma levantou assim que percebeu que a água estava muito próxima dos seus pés, recolhendo suas coisas com um pouco de pressa, colocando-as todas de qualquer jeito dentro do maior bolso da mochila e jogando a toalha por cima de seu ombro; só então, deu-se conta de que a falta de um nome o incomodava, mesmo que não o chamasse verbalmente de nenhuma forma — Erm… Você… tem um nome? — a pergunta pareceu ficar sem contexto, mas preferiu fazê-la ao invés de ir embora sem fazê-la.

— Hmm… Shouyou. — ele demorou um pouco para responder, dando ao humano a impressão de que ele literalmente acabara de escolher aquele nome para si, que provavelmente escutou alguma vez enquanto estava nadando por ali — ‘Cê provavelmente nem vai entender meu nome de nascimento.

— Ok… — sentiu um pouco de vontade de rir, mas foi logo lembrado de que era melhor sair dali pela água do mar, que espirrou em sua perna; Shouyou, por mais que provavelmente seja um nome que escolheu apenas por soar bonito, era um nome que combinava muito com ele, considerando que sempre sentia como se tivesse passado o dia inteiro sob o Sol quando falava com ele, um misto de cansaço com contentamento — Sou Kenma.

— Nome legal!!! — ele sorriu novamente, animado — A gente se vê amanhã, Kenma?

Sentiu uma agitação em seu estômago em ouvi-lo chamar pelo seu primeiro nome, mesmo que preferisse assim (nunca gostou muito da formalidade de chamar as pessoas pelo sobrenome, além de que seu nome era muito mais fácil de pronunciar do que Kozume, seu sobrenome), mas ignorou aquilo e acenou positivamente com a cabeça antes de ir embora, correndo colina acima em direção à rua, olhando-o à distância. Shouyou acenou animadamente, erguendo o braço acima da cabeça, mas logo foi se arrastando pela areia até o mar e desapareceu rapidamente entre as ondas.

(Mais tarde naquela noite, Kuroo, em uma crise de ciumeira ou em um momento de extrema babaquice durante a chamada de vídeo, fez questão de apontar que estava mais animado que o normal, fazendo a mesma cara que fazia quando comprava um jogo novo, o que negou até o fim, embora, de fato, estivesse ansioso pelo dia seguinte.)

Voltou no dia seguinte com algumas revistas relacionadas à uma pergunta que não conseguiu responder no dia anterior e uma câmera velha que encontrou no armário da sua prima (ela nem morava mais lá, nunca saberia que a câmera sumiu… ), achando que ele poderia ficar feliz em poder fotografar coisas , e acabou fazendo algo semelhante todos os dias que se seguiram. Shouyou progressivamente fazia questionamentos mais complexos de se explicar sem exemplos práticos sobre inventos e objetos, que encontrava no fundo do mar perto da costa e trazia para saber o que faziam; sobre a cultura e hábitos humanos, baseado em coisas que ouviu das pessoas passeando pela praia ou pela rua ali perto enquanto tomava sol; além de, às vezes, simplesmente apontar para algo aleatório e esperar uma explicação imediata. A última pergunta do dia sempre acabava mal respondida por causa disso, forçando Kenma a se esgueirar pela casa da sua tia assim que chegava em casa e pegar algo escondido que o ajudasse a resolver aquilo na próxima vez que se vissem. Era um pouco incômodo, porque quase sempre seus parentes o viam e jogavam-lhe um olhar de intriga e curiosidade, mas, pelo menos, sentia um pouco de excitação naquela viagem chata e tinha algo para fazer todo dia, quando o botavam para fora da casa.

Um dia, depois do ruivo muito insistir, decidiu levar um pouco de comida humana para ele experimentar. Ele sempre via panfletos pela praia de pratos bonitos, até mesmo nos jogos que jogavam no PSP, e ele sempre dizia que gostaria de provar algo diferente das algas que eram seu alimento usual. O único problema era o fato de que teria de fazer a comida, de alguma forma, e não sabia preparar muitas coisas. Então, naquele fim de tarde, quando sua tia avisou que faria compras, juntou coragem para pedi-la ajuda para montar dois bentos, porque queria levar a um amigo. Ela ergueu-lhe as sobrancelhas, perguntando sugestivamente se realmente era um amigo ou alguém “mais especial”, o que deixou-o infinitamente enraivecido e envergonhado apesar de só ter feito uma expressão de desgosto, mas ela não recusou seu pedido, apenas pediu que fossem juntos ao mercado para escolher os ingredientes — o que se provou ser bem mais difícil do que imaginava. Sabia fazer um jantar comestível se sua mãe pedisse que cozinhasse, mas nunca havia se importado em ir com ela fazer compras, então não sabia como escolher os itens para comprar. Não só isso, como também não fazia ideia de como montar um cardápio que o agradasse e não fosse ofensivo, só tendo certeza de que não podia, sob circunstância alguma, levar algo com peixe. Não podia dar algo assim para um tritão, seria muito fodido.

Por fim, quem acabou escolhendo o que teria para comer naquele piquenique, foi sua tia, e ela propositalmente escolheu coisas que os dois podiam fazer facilmente e que “agradaria qualquer um, até uma criança”. Fizeram onigiris, que temperaram com furikake; salada de batatas; salsichas grelhadas (que a mais velha quis fazer em formato de polvos, mas o rapaz insistiu que não o fizessem); frango karaage com pouca pimenta; tamagoyaki com espinafre; maçãs cortadas como coelhinhos e abóbora adocicada com mel. Os bentos até que ficaram bonitos, embrulhados em panos com estampas de bichinhos fofos, todos os alimentos separados por formas de papel coloridas, apesar de que tudo que Kenma fez ter ficado torto e brutamente cortado. Suspirou, conformado com seu fracasso, mas aquele era o melhor que sabia fazer — tinha de subir de nível na cozinha se quisesse algo melhor, coisa para a qual não tinha paciência, então ficaria por aquilo, mesmo.

Seu único consolo foi ver a cara de Shouyou se iluminar ao ver toda a comida, não notando a diferença no formato entre as coisas ou simplesmente não se importando, soltando um gritinho agudo de alegria ao vê-la. Sequer teve tempo de sugerir-lhe uma ordem ou falar para comer devagar: ele começou com mordidas pequenas, mas logo já tinha colocado um onigiri inteiro na boca, deixando poucos grãos de arroz para trás, grudados ao redor dos lábios (que estavam surpreendentemente lisos, pra quem mora em água salgada) e nas bochechas. Assisti-lo se entupir de comida deixou seu estômago agitado e o peito tremendo conforme tentava segurar risadas dentro de si. Por que queria rir? Aquilo nem era engraçado. Era bonitinho, para dizer o mínimo. Cativante, interessante. Até esqueceu de comer a própria comida, que acabou dando metade a ele, que falou animadamente sobre tudo que achou de cada um dos itens.

Mas, durante a refeição, pessoas apareceram na praia. Um casal, para ser mais exato, que desceu correndo pela colina de grama até a areia, gritando e rindo. A moça, que correu na frente, foi saltitante até a água, tirando os sapatos antes de chegar na beirada, antes do companheiro chegar por trás dela e abraçá-la. Kenma e Shouyou, mesmo sentados um pouco longe e bem escondidos embaixo do pier, caíram em silêncio absoluto, observando-os atentamente. Os pombinhos trocavam elogios, falavam de casamento, de morar naquela cidade quando tivessem filhos, dando vários beijos no rosto um do outro, só se beijando de fato no final do papo meloso. Eles, então, sentaram-se à beira da água, deixando a onda chegar aos pés, abraçados. Ficaram lá por muito tempo, o suficiente para os dois observadores se entreolharem estranho algumas vezes e criar uma atmosfera estranha. O humano se sentia um intruso naquela situação.

O casal demorou um pouco a ir embora, mas, eventualmente, se beijaram uma última vez, se levantaram e subiram a colina de mãos dadas, falando algo sobre tomar banho antes de saírem para jantar. Ah, ainda bem, eles foram embora. Kenma não tinha certeza por quanto mais tempo aguentaria ficar ali, sentado, respirando aquela atmosfera esquisita. Ele e o ruivo se olharam por um momento, ainda em silêncio enquanto conseguiam ouvir passos.

— O que foi isso?! — Shouyou quase gritou, incrivelmente confuso, apontando uma mão na direção geral aonde os dois namorados se sentavam antes.

— Isso o que? — riu soprado, relaxando após afastar-se num espasmo, tendo se assustado com a exclamação repentina — Eles estavam namorando, eu já expliquei pra você o que é.

— Eu sei, eu sei! Não é disso que eu ‘tô falando! — ele continuou a falar no mesmo tom, como se estivesse desesperado, gesticulando com as mãos loucamente, tentando explicar o que queria saber, juntando as mãos em um ângulo estranho — Por que eles bateram os rostos um no do outro?! Eles estavam brigando?!

— Ah. — aquela era uma pergunta difícil de explicar, pensou Kenma, o riso previamente em seu rosto se dissolvendo e dando lugar a uma expressão mais séria, sentindo-se subitamente envergonhado — Eles estavam se beijando. É normal.

— É normal??? — pareceu inconformado, com os olhos estatelados, ainda com as mãos no ar, a boca formando um pequeno bico — Mas por que pessoas fazem isso? É tão bizarro.

— Porque… — droga, a pergunta ficou mais difícil, chegou à conclusão enquanto sentia suas bochechas ficando embaraçosamente vermelhas, tendo de fazer esforço físico para não franzir o rosto inteiro; Kenma não se sentia confortável falando sobre romance em nenhuma circunstância que não fosse enquanto discutia as possíveis rotas de jogos de namoro, e seu coração estar batendo mais rápido sem nenhum motivo não ajudava — É uma maneira de pessoas demonstrarem que tem sentimentos pela outra. Mostrar que se gostam.

É, aquela era uma explicação razoável.

— Ooooooooooooh. — a expressão de Shouyou ficou mais suave depois de sua resposta, se iluminando como se uma lâmpada tivesse acendido acima de sua cabeça, finalmente parando com os gestos manuais extremos — Faz sentido! Eles realmente pareciam estar contentes juntos, não brigando! — ele finalmente sorriu, acenando positivamente com a cabeça para si mesmo, como se tudo no mundo fizesse sentido, antes de virar-se novamente para o outro e perguntar: — Você já beijou alguém, Kenma?

— … Não… — podia até ter dito que tinha beijado sua mãe e provar seu ponto, mas a resposta saiu automaticamente de sua boca, em volume baixo, quase cochichando; não é como se realmente tivesse vergonha ou se sentisse mal por isso, uma vez que nunca teve interesse em beijar outras pessoas, mas se sentia um pouco estranho respondendo a pergunta; ficaram em silêncio por alguns segundos até que decidiu tirar a sobremesa da mochila — Quer um? — disse, oferecendo um dos pudins que tinha comprado na mercearia à caminho.

— !!! Quero!!! — ainda bem que Shouyou não insistiu no assunto, porque, se seu constrangimento continuasse crescendo exponencialmente, o rosto de Kenma provavelmente pegaria fogo; ele apenas comentou risonho — Parece o seu cabelo!!! — antes de começar a comer com a pequena colher de plástico.

O assunto morreu na conversa, o tritão focando-se em descrever o sabor do pudim e perguntar mais sobre o que eram aqueles alimentos e porquê tinham tantos gostos diferentes — que, de alguma forma, acabou resultando nos dois renomeando todos os gatos no Neko Atsume — mas não desapareceu da cabeça do humano, junto da sensação estranha que tinha no peito. Voltou para casa com a garganta um pouco seca, o coração inquieto e a mente uma bagunça, tentando apagar aqueles pensamentos forçando-se a visualizar outras coisas.

Mesmo de noite, quando estava tentando dormir, aquilo ainda estava em sua cabeça. A imagem do casal se abraçando e se beijando na praia mais cedo, o fato de nunca ter beijado ninguém, os lábios nem-tão-rachados de Shouyou… Aquilo prejudicou sua noite de sono e talvez sua saúde cardíaca.

Pelo menos, pela manhã, conseguira isolar aquele pensamento em um canto abandonado de sua mente, assim permitindo que prosseguisse com sua semana em relativa paz. Ele ainda voltou quando encontrou-se com o outro embaixo do pier, mas como se agora fosse só um sussurro, um leve formigamento, que não incomodava tanto, mas ainda estava lá, deixando Kenma estranho. Os sorrisos e palavras gentis do ruivo, seus gestos enérgicos e jeito radiante causavam-lhe uma sensação diferente, uma que não conseguia entender plenamente, que não conseguia apontar o que era, ainda que não fosse de todo negativa. Enquanto aquela sensação de que não havia ar suficiente no mundo e a efervescência no seu estômago não causassem um ataque de asma, lidaria com isso.

Todavia, outras coisas podiam causar nervosismo o suficiente para ter uma crise, como, por exemplo, o festival de verão que teria no templo da cidade no sábado à noite que sua tia anunciou tão alegremente durante o café da manhã da sexta-feira, a penúltima que passaria na cidade.

— É um festival maravilhoso, Kenma, você deveria ir! — ela disse enquanto punha mais um peixe grelhado no seu prato; era impressão, ou ela tentava comprá-lo com comida sempre que queria convencê-lo de alguma coisa? Não é como se tivesse funcionado de fato qualquer uma das vezes… — A comida é ótima e o show de fogos é lindo. Aposto que é melhor do que os de Tóquio~ — cantarolou, dando-lhe uma piscadinha.

— Hm… — murmurou sem interesse, olhando para o peixe em seu prato com tanto desprazer quanto sentia ouvindo aquela proposta — Eu não gosto de festivais, tia…

— ‘Cê não tem cara de que gosta, mesmo, — ela deu de ombros, mas logo em seguida sorriu de novo, como se tivesse pensado num argumento infalível — mas é quase certeza que seus amigos vão estar lá, não? Eu sei que o Lev vai, e provavelmente seu outro amigo vai, também. Qual o nome dele, mesmo?

— Amigo? — ficou genuinamente confuso por um instante, demorando a lembrar sobre ter comentado de ter um amigo quando pediu ajuda com a comida por causa do sono, que ainda fazia pesar seus olhos — O Shouyou… ele disse que não vai. — ele não pode ir, ele não tem pés, pensou, mas, como tantas vezes, não verbalizou.

— Ah, que pena! — ela deu-lhe um olhar triste, quase decepcionado, suspirando por um momento antes de voltar a sorrir — Bom, eu e seu tio vamos, e ficaríamos contentes se você fosse, também.

— É!! — seu tio, que havia permanecido em silêncio até aquele momento, concentrado em comer seu café da manhã (e o de Kenma também, visto que tomou a liberdade de tirar o peixe grelhado do seu prato), exclamou, sorridente também — Você nem precisa ficar o evento todo se não quiser, garoto. A gente te dá uma chave daqui e ‘cê volta pra casa depois de comer.

Agora é uma proposta razoável, pensou, relaxando um pouco. Ainda não gostava tanto assim da ideia de ir ao festival, considerando que todos os moradores de lá provavelmente estariam lá e novamente teria de aguentar o olhar de todos pesando sobre ele, o único desconhecido da cidade, mas conseguiria lidar com isso por pouco tempo. Podia ir lá, comer o que quisesse, jogar em alguma das barracas de diversão se visse algum prêmio interessante (e se de fato existisse qualquer barraca dessas), tirar algumas fotos e ir embora, para a paz da casa vazia, aproveitar o wifi e jogar. Podia conseguir algo para o Shouyou, ele ficaria feliz.

— Acho que vou, então… — disse, sem perceber que um pequeno sorriso havia se formado em seu rosto, voltando a comer.

— !!! Que bom!!! — sua tia, que até aquele momento parecia irritada com a proposta feita por seu marido, exclamou alegre, batendo uma palma, seu ânimo revigorado — Você não trouxe uma yukata, trouxe? — respondeu que não com a cabeça — Não tem problema! Se não se incomodar, eu lavo a da sua prima pra você.

Assentiu, nem prestando atenção quando a mais velha voltou a falar, apenas sentindo o breve carinho que ela fez no topo da sua cabeça antes de voltar a conversar com seu tio. A yukata provavelmente teria algum desenho bem florido, bem feminino, imaginou pela decoração do quarto da sua prima, mas não é como se ligasse. Nunca foi do tipo de pessoa a se importar com o “gênero” das roupas (ou de realmente acreditar que roupas de fato tem gênero), vestiria qualquer coisa desde que fosse confortável e o agradasse esteticamente, então estaria tudo bem. Terminou seu café da manhã pouco depois e se levantou, indo para o quarto se arrumar e colocar as coisas que precisava em sua mochila, além das coisas de sempre. Shouyou não havia feito nenhuma pergunta complicada no dia anterior, então tomou a liberdade de levar coisas que achou que ele poderia se interessar.

Correu tudo bem durante a tarde, a conversa fluindo bem entre eles dois, falando sobre animais de estimação, brincadeiras e jogos tradicionais, sobre os mangás que trouxera na mochila para mostrar e sobre objetos que o tritão encontrava no mar. Ele trouxe uma porção de coisas enroladas num pano encharcado, incluindo um garfo, um globo de neve e uma câmera fotográfica antiga. Falaram sobre muitas outras coisas, a linha de raciocínio ficando mais difícil de seguir cada vez que divagavam sobre alguma coisa e mudavam de assunto. O único ponto negativo daquele dia foi ter de avisá-lo ao fim da tarde que não viria vê-lo no dia seguinte, explicando sobre o festival e porquê gostaria de descansar antes de ir (embora ele não realmente entendesse seu nervosismo com pessoas; “Deve ser incrível, ter tanta gente por perto!”), vendo a tristeza alheia com a notícia. Tinha de trazer algo muito bom para ele para compensar.

Acordou na manhã de sábado sentindo como se tivesse derretido, os lençóis molhados do seu suor, seu cabelo ensebado, o ventilador ligado não dando conta de refrescá-lo, o cheiro de roupa limpa vindo pela janela. Aquele provavelmente era o dia mais quente que passara lá, com a temperatura mais alta, o sol mais insuportável do que nunca, o que por si só já deixava Kenma incrivelmente desconfortável. Levantou e foi direto ao banheiro, lavando-se inteiro com água gelada até não conseguir sentir qualquer traço de suor em si, enchendo o banheiro com o cheiro de shampoo e de sabonete de flores. Prendeu o cabelo, vestiu uma regata branca e um shorts e desceu para o café da manhã, onde encontrou seus tios, inafetados pela temperatura mais uma vez. Como eles conseguiam?! Não era possível… Eles tinham de estar usando alguma roupa com resistência ao calor… Ou eles eram lagartos.

Passou o dia na casa pela primeira vez em algum tempo, ajudando sua tia a lavar as yukatas e estendê-las ao sol, a regar as plantas com a mangueira e colher frutinhas dos arbustos, apenas abstendo-se de ajudá-la na limpeza por causa da poeira. Ela estava especialmente contente naquele dia (seria pelo calor? Pela ajuda que recebeu? Ou simplesmente acordara de bom humor? Não sabia dizer), então, ao invés de discutir com ele, deixou que se sentasse na varanda e tomasse um sorvete. Não precebeu inicialmente como estava apreciando seus arredores: o verde ao seu redor não o incomodava mais, o céu estava enormemente azul e sem nuvens e, por algum motivo, os lençóis e roupas ao vento pareciam estranhamente interessantes. As três vestimentas eram bastante tradicionais, com estampas discretas, que combinavam uma com a outra. A do seu tio era verde com listras, que combinava com o verde suave do fundo das peças que ele e sua tia usariam, que eram floridas. A sua era a única curta, o que fazia muito sentido considerando o que sabia de sua prima, e agradecia bastante também. Provavelmente iria derreter como uma casquinha de sorvete se fosse longa.

Sem perceber, passou a tarde toda observando a paisagem e mexendo no celular, e quanto foi ver, era hora de se vestir. Se trocou em seu quarto, indo checar seus tios no quarto deles se eles iriam demorar depois de esperar sentado por vários minutos, trocando mensagens, apenas para ser encurralado por sua tia e forçado a usar o enfeite de cabelo da sua prima, também. Tinha de admitir que era bonitinho, mas causava uma sensação ruim em sua cabeça, puxando demais o cabelo, mas decidiu tirar depois, quando se separasse dos parentes. Mandou uma foto ao Kuroo, depois dele muito perguntar a respeito, e colocou o celular no bolso depois de receber mais um uso desnecessário do meme do “good shit right there”, esperando por mais alguns minutos antes de ir.

E, depois de andarem só algumas quadras, já foi percebendo que o evento era maior do que imaginava. Enquanto subiam pela rua principal, Kenma foi vendo cada vez mais pessoas vindo das ruas adjacentes, todas vestidas em trajes tradicionais de verão, conversando animadamente, várias delas vindo até ele e seus tios cumprimentá-los, e, devagar, a rua gradativamente ficando mais cheia, mais barulhenta, e o cheiro de comida ficando mais forte. Morava tanta gente assim naquela cidade, tão pequena, tão pacata? Ou será que pessoas das cidades vizinhas estavam vindo, também? Qualquer uma das respostas não era boa, sendo bem franco, mas a ideia de ambas serem verdade… Só aquilo já o deixou nervoso, sentindo seu suor se intensificar, como se o calor não fosse o suficiente. O único jeito daquilo ficar pior seria...

— Oi!!! Kenma!!! — assim que chegaram ao templo, deu de cara com Lev, que logo o reconheceu e veio correndo em sua direção; logo atrás dele, havia um grupo de adolescentes, provavelmente seus amigos, que já tinham um ar zombeteiro por natureza, intensificado pelo sorriso de deboche que se formou nos rostos deles assim que puseram seus olhos em Kenma — Eu não sabia que você vinha!!!

— Oi, Lev… — abaixou o olhar, falando mais baixo que o normal, as palavras saindo com certa dificuldade, mordendo o lábio inferior em seguida; os outros rapazes logo se aproximaram, depois de caminharem cochichando uns com os outros, parando logo atrás do mais alto.

— Que bom que veio!! — ele sorriu genuinamente — Esses são meus amigos! — ele apontou com a mão, e cada um deles se apresentou, mas não prestou atenção aos nomes deles — A gente ia dar uma olhada nas barracas de comida, quer ir com a gente?

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Kenma olhou ao redor, nervoso, sem saber o que fazer. Não tinha uma sensação boa desses caras, pelo jeito com que o olharam de cima à baixo, pelo risinho preso no rosto deles, até o cabelo deles parecia o de babacas de anime. Àquele ponto, a melhor pessoa do grupo com certeza era o Lev, o que já dizia muita coisa sobre o tipo de gente com que teria de lidar. Mas estava querendo ir para o mesmo lugar, não tinha uma real desculpa para não ir, e sua tia com certeza não interviria por ele… Então acenou positivamente com a cabeça e foi atrás deles até as barracas.

E cada minuto na presença daqueles adolescentes o deixava mais nervoso. Tentava se distrair falando com Kuroo por mensagem, mas a internet móvel ficava falhando por causa da proximidade do templo com o bosque e eles conversavam insuportavelmente alto, tirando sarro de tudo e de todos ao redor, fazendo comentários incrívelmente idiotas. Falando do cabelo de um, da aparência de outro, fazendo comentários maldosos sobre colegas de classe que cruzavam com eles no festival, sendo rudes com os atendentes das barracas e menosprezando tanto a comida (que estava perfeitamente aceitável, muito boa) quanto os brindes que ganhavam nos jogos. Lev não era ruim a esse nível, mas ele continuava puxando assuntos aleatórios, sendo desagradável e intrometido provavelmente sem nem perceber. E Kenma se manteve quieto o tempo todo, tirando fotos das coisas do festival, sabendo que toda aquela zombaria e desrespeito seria voltada à ele se os enfrentasse, mas estava chegando perto do seu limite. Seu ouvido não era privada pra ficar ouvindo aquela quantidade de merda, e estava ficando mais a mais estressado, seu coração batendo mais rápido e mais apertado no peito.

Infelizmente, estava certo, porque, depois deles zombarem de praticamente todo mundo no festival, inclusive uns aos outros, chegou a sua hora. Estavam passando pelas barracas de jogos, quando algo chamou sua atenção: um chaveiro do Neko Atsume, do gato favorito do Shouyou, que renomearam para Coral por ser laranja. Separou-se do grupo e foi rapidamente até ali, esquecendo-se um pouco da companhia e se focando em encontrar o dinheiro em sua carteira para pagar pelo jogo. E ganhou muito facilmente, aquele sendo um dos prêmios mais fáceis de conseguir com a sua pontuação, mas ainda assim se sentiu incrivelmente satisfeito consigo mesmo por ter ganhado, admirando o pequeno chaveiro em suas mãos. Tirando o takoyaki que comeu, era a única coisa boa que aconteceu naquele festival. Mas não teve tempo de viver aquele momento de alegria.

— Kenma!! Achamos você!!! — Lev novamente foi o primeiro a encontrá-lo, provavelmente sendo o único a sentir sua falta no grupo, anunciando bem alto e correndo em sua direção — O que você ganhou??? Deixa eu ver!!

— Ei, baixinho, o que você conseguiu aí? —um dos amigos, o segundo mais alto, virou-se já com um sorriso zombeteiro no rosto, cotovelando um dos outros rapazes, como se fosse fazer uma piada ótima.

— É um presente. Vou dar pra alguém. — disse seco, se virando de lado para se afastar dele, fechando as mãos por cima do chaveiro com força, já sabendo pela atitude dele que não havia amizade alguma ali.

— Oooooh, você tem uma namorada? — o que recebeu a cotovelada falou, provocando-o, vindo em sua direção do mesmo lado para o qual se virou; estavam tentando intimidá-lo ou o que? — Não imaginei que alguma garota ia cair por você, cara. Não quando ‘cê se veste que nem elas.

— Não entendi porque não gostariam, Kenma é um cara legal. — Lev comentou, ainda rodeando-o, tentando espiar o que havia em sua mão. — Você namora, mesmo?

Eu preciso sair daqui, gritou em sua mente, sentindo sua respiração se alterando e seu nervosismo se somando. Estava muito quente, num festival, com vários desconhecidos ao redor e literalmente cercado por valentões, tudo aquilo não sentando bem em seu estômago e tirando sua capacidade de pensar direito. Olhou ao redor, seu rosto suando, tentando encontrar uma rota de escape dali, mas, enquanto o fazia, o último dos babacas, que não havia dito nada até aquele momento, veio bem na sua frente e forçou sua mão a se abrir, pegando o chaveiro e erguendo-o diante dos olhos.

— Aaaaaw, que fofo! — ele disse, obviamente zombando-o, balançando o gato de um lado para o outro enquanto exibia aos colegas — Que meigo!

— Que amor. — um deles disse, rindo da sua cara, tirando o chaveiro da mão do amigo e afastando-o ainda mais do dono — É um presente bonitinho. Não esperava tanto sentimentalismo de um cara tão insosso quanto você.

— Mas é um presente meio infantil, né? — Lev comentou com um sorriso estúpido no rosto, sendo o próximo a pegar o chaveiro, erguendo-o diante dos próprios olhos.

— Me devolve isso! — observou quieto enquanto o chaveiro passava de mão em mão até que conseguiu fazer as palavras saírem da sua boca, mais altas e mais aflitas do que o necessário, andando com passos pesados até o mais alto com a mão esticada, conseguindo alcançar por pouco, mas o de cabelos brancos não soltou imediatamente.

— Calma!! Eu ainda não vi!! — choramingou, puxando o chaveiro para si, mas, àquele ponto, Kenma não conseguia mais acreditar que ele estava fazendo isso sem nenhuma má intenção.

— Eu não me importo! — as palavras quase tropeçavam umas nas outras, saindo mais rápido do que normalmente, junto do que sua respiração ficava rasa, puxando de volta. — Solta!

— Ui, o baixinho ficou nervoso! — um deles riu — E tá falando bastante! Que novidade!

— Eu prefiro não falar nada a ficar falando um monte de merda! — estava falando as coisas por impulso, ouvindo seu coração batendo em seus ouvidos, podia até se sentir tremendo um pouco, mas continuava a puxar com força.

— Kenma, calma, eu-

Não conseguiu perceber a força com que estava puxando até que uma parte do chaveiro quebrou e acabou caindo no chão. Todos ficaram em silêncio, observando Kenma sentado na terra batida, que abriu sua mão para ver os danos: uma das orelhas do gato, que antes tinha a argola onde encaixava a corrente, havia quebrado e ficado na mão de Lev. Não conseguia ouvir mais nada ao seu redor, ou pensar no que estava acontecendo, só conseguia sentir um vazio. Não havia conseguido manter aquele chaveiro intacto nem por três segundos…

Quando Lev o ergueu pelo braço, assim que estava com os dois pés firmes no chão, nem deu tempo que ele dissesse qualquer coisa, o empurrando com toda a força que seus braços trêmulos tinham e correu para longe, para a saída do templo, para a rua, que agora se encontrava vazia, apenas com as luzes dos postes. Perdeu-se, correndo tanto que mal conseguia enxergar os prédios para reconhecê-los ou dar-se um tempo para pensar no que estava fazendo, até que se viu na rua principal da cidade, vendo lá embaixo a lua refletida no mar, que estava mais alto do que a primeira vez que o viu. Percorreu a distância entre onde estava, no topo da cidade, até a praia em um segundo, tropeçando em si mesmo, parando apenas quando já estava com água até acima do joelho. Seu coração doía de tanto bater e quase não entrava ar em seus pulmões, sua pele repuxando entre as costelas, tentando inalar ao mesmo tempo que um grito tentava sair da sua garganta. Olhou o gato quebrado em sua mão depois de tanto apertá-lo entre os dedos uma última vez antes de atirá-lo para frente, pegando sua bombinha de asma logo em seguida.

Ficou em pé ali por vários minutos, trêmulo, seu ritmo cardíaco diminuindo mas não se libertando da angústia, seus músculos do peito e das costas relaxando depois de ter feito tanta força para respirar, ouvindo os grilos saltando e as cigarras cantando na relva. Só então percebeu onde estava, que nem mais estava de sandálias e que sua roupa estava molhada pela espuma do mar, e aí saiu da água, indo se sentar na areia, abraçando os joelhos.

— Kenma…? — ouviu um chamado fraco vindo do mar, que quase se perdeu no barulho das ondas e que não teria se reconhecido se, quando ergueu os olhos, não tivesse visto o rosto de Shouyou iluminado pela lua — Eu pensei que você não vinha hoje! — ele disse, agora mais contente, vindo em sua direção se arrastando pela areia, trazendo uma concha nas mãos; ele continuou sorrindo até chegar realmente perto e perceber que algo estava errado — Ei… O que foi?

Ele sentou ao lado do humano, seus ombros se encostando, e ficou encarando-o, esperando que dissesse alguma coisa, mas ficaram em silêncio por um longo tempo. Kenma não conseguia dizer, abria a boca para tentar falar, para tentar explicar o que aconteceu, mas as palavras corriam em sua mente de uma forma que não conseguia formar uma frase, muito menos verbalizá-la. Era algo tão tolo, um tormento boa parte infligido a ele pela própria mente, algo que podia ter sido evitado se simplesmente tivesse colocado o chaveiro no bolso, ou se recusado a seguir aquele grupo e ido passear sozinho.

— Desculpa… Eu não… Consegui trazer nada do festival pra você…

Eventualmente conseguiu dizer, entretanto, foi tão difícil de tirar as palavras da sua garganta naquele momento que, quando viu, seus olhos se encheram de lágrima e transbordaram, e não conseguiu mais parar. Nem conseguiu dizer mais nada, apenas gemer enquanto chorava, tão alto que parecia uma criança. A última vez que chorou daquele jeito foi quando tinha nove ou dez anos, que caiu de cima de uma árvore e quebrou o braço. Shouyou não sabia o que fazer, provavelmente nunca tinha visto alguém daquele jeito, mas eventualmente passou seu braço por trás dele e o trouxe para perto, deixando que apoiasse a cabeça em seu ombro e se debulhasse, sem dizer uma palavra, talvez por não saber como consolá-lo. E, no fundo, não precisava dizer nada, realmente, pois não haviam palavras que pudessem fazê-lo melhorar, o contato físico sendo o conforto que precisava.

Demorou para conseguir parar, as lágrimas parando de escorrer devagar, soluços morrendo em sua garganta, seu corpo parando de tremer aos poucos, mas demorou ainda mais para se separar dele. Não queria ter de se mover, ou sair dali, para todos os efeitos. Mas, eventualmente, teve de se mexer, seu corpo doendo naquela posição, além de que, graças à dor de cabeça causada pelo choro, aquele enfeite de cabelo começou a machucar. Se desfez do braço do outro para esticar os braços e retirar aquela presilha do cabelo.

— Você não precisa me trazer nada, sabe? — Shouyou disse eventualmente, virando-se no lugar para pegar a concha que trazia na mão quando chegou e entregando-a ao outro — Você vem até aqui todo dia sempre me trazendo algo… Eu que preciso dar algo a você de volta, né?

Kenma piscou algumas vezes, olhando a concha em sua mão. Ela era igual àquelas que havia achado algumas semanas atrás, embaixo do pier, onde eles ficam sentados. Então… Foi o Shouyou que as deixou ali? Para ele? Sentiu um pouco de vontade de chorar de novo, seus olhos ficando molhados outra vez e um soluço escapando pela sua boca, embora não fosse de tristeza. Não queria nada em troca pela companhia, pelo tempo juntos, pelas conversas, pelos sorrisos e palavras gentis, por cativá-lo todos os dias. Não podia pedir mais nada além disso. Como foi que acabou tão emocionalmente apegado daquele jeito, em tão pouco tempo? A alguém que mal conhecia?

Naquele momento, se lembrou dos pensamentos estranhos do outro dia e seu subconsciente conectou os pontos, mas impediu que a conclusão realmente viesse ao seu consciente.

Abraçou a concha e sorriu, embora seus lábios ainda tremessem, não sabendo pôr em palavras aquilo que estava sentindo. Era gratidão, alegria, misturado com a angústia que ainda não havia saído totalmente dele. Shouyou conseguiu entender o que acontecia pelo seu rosto e apenas sorriu de volta, iluminando-o mais uma vez. Mas mesmo se sentindo confortável ali, Kenma decidiu ir embora. Estava de noite, uma brisa gelada estava vindo do mar e ele ainda se sentia fraco, era melhor voltar para casa. Levantou-se com certa dificuldade, suas pernas doloridas por causa da sua corrida frenética, acenou com certa estranheza e se foi.

Quando finalmente chegou na casa da sua tia, não só estava cansado como faminto, então abriu a geladeira, pegou o arroz e o porco à milanesa que haviam sobrado do almoço, colocou numa tigela junto de um pouco de shoyu e subiu, cada andar reafirmando o quanto precisava de descanso. Comeu até o último grão de gohan, aquilo provavelmente sendo o máximo que comeu em todos aqueles dias de férias, até seu estômago parar de reclamar, e então se deitou, sentindo cada músculo do seu corpo destensionar de uma vez, afundando no colchão macio, sentindo algo que beirava a dor, mas, ao mesmo tempo, era incrivelmente relaxante. Dormiu em questão de minutos, mesmo que pretendesse ainda se levantar e tirar a yukata molhada e fedida, e acordou apenas para o almoço do dia seguinte na mesma posição em que adormeceu.

Passou o domingo inteiro deitado, exausto, com o ventilador de teto ligado no máximo, o celular conectado ao carregador do lado da cama e o PSP na mão, mas passando mais tempo encarando o teto do que de fato usando qualquer um dos aparelhos. Não sentia vontade de fazer nada, sem encontrar forças para levantar nem para ir à praia, esclarecer as coisas ao Shouyou. Ele devia estar preocupado… E sozinho.

E ficaria sozinho todos os dias a partir da semana que vem, percebeu eventualmente, deixando a si mesmo triste. Aquela era sua última semana na cidade, a última semana de férias, também, e não poderia contatá-lo de qualquer forma. Ele não tinha um celular, ou um computador, ou um endereço. Não poderia falar com ele nem por pombo correio, e aquilo era doloroso de se pensar, depois de passar todos os dias por quase um mês com ele. Evitava passar muito tempo pensando nisso, se torturando com uma despedida que ainda não tinha de fazer.

Conseguiu se distrair o suficiente para dormir mais uma noite e, enfim, acordar com o corpo em mínimas condições de sobrevivência. Levantou cedo, descendo para o café da manhã e dando de cara direto com o olhar preocupado de seus tios, que haviam cuidado dele no dia anterior, mas não tinham recebido qualquer explicação para seu cansaço absoluto. Não contou a história toda, mas explicou a eles que havia tido um ataque de asma por causa de ansiedade, porque não se sentia confortável no festival. Eles suspiraram um pouco aliviados, achando que estava doente ou algo assim, mas ainda assim lhe deram uma bronca por não ter avisado nada e exigiram que ficasse em casa naquele dia. Nunca pensou que faria isso, considerando que chegou na cidade odiando ficar do lado de fora, mas rolou os olhos e aceitou o castigo, engarrafando a sua indignação.

Ficou deitado durante toda a manhã, alternando entre olhar para o mar pela janela, checar o celular para ver se recebera mensagens em vão e tentar jogar algo no seu console mas não se entreter com nada, até que sua tia veio ao seu quarto, dizer que ele tinha uma visita.

— Erm… — assim que desceu a escada e entrou na sala de estar da casa, deu de cara com Lev, que estava de pé no meio do cômodo, entrelaçando os dedos nervosamente, que sorriu estranhamente quando o viu; Kenma logo fechou o rosto, não gostando nem um pouco da situação — Oi, Lev.

Kenma não estava nem um pouco contente com aquilo, honestamente falando. Já sabia porquê ele estava ali, e não queria nem saber. Mesmo que ele se arrependesse do que aconteceu naquele dia, não tinha como realmente compensá-lo pelo que o fez passar. Pelo chaveiro quebrado, pela ansiedade, pela crise de asma. Queria muito assentir com a cabeça e fingir que o perdoou apenas para que ele fosse embora e pudesse nunca mais vê-lo.

— Oi, Kenma… hah… — aquilo parecia muito fora de seu caráter, ele parecia muito desconfortável — Eu… Queria pedir desculpas pelo que aconteceu no sábado. Meus amigos não foram muito legais com você, e eu não percebi na hora. — ele coçou atrás da cabeça, sorrindo amarelo, caindo em silêncio por alguns segundos. — Eu… erm… espera. — ele provavelmente estava vendo na sua cara que não estava gostando, então começou a remexer os bolsos do shorts e na sua mochila, até que finalmente pegou algo na mão e estendeu em sua direção — Eu joguei na barraca de novo e consegui um novo pra você. — e, quando realmente pôs os olhos nas mãos enormes do outro, realmente estava lá: um chaveiro idêntico ao que tinha quebrado.

— Ah… — não soube muito bem o que dizer, aquilo não sendo exatamente o que esperava; o mais alto continuou falando sem parar, nem conseguia ouvir direito o que ele estava dizendo, mas ele provavelmente estava lhe explicando que teve dificuldades em conseguir o chaveiro, ou algo do gênero, até que, eventualmente, ele parou de falar e entregou-lhe o chaveiro de uma vez — Obrigado… Eu acho…

— Não precisa me agradecer. Espero que a sua namorada… Ou namorado, sei lá… Goste. — disse sorrindo, agora um pouco menos nervoso, voltando a parecer mais com quem ele é normalmente — É um chaveiro realmente bonito.

— Ele não é meu namorado, — respondeu, levemente constrangido, mas não o suficiente para não não conseguir dizer nada, ou impedi-lo de sorrir, mesmo que discretamente — mas vai ficar feliz.

Estaria mentindo se dissesse que todo seu ressentimento tinha ido embora, ainda sentia as pernas doloridas e pesadas, continuava tossindo e ainda tinha de se recuperar do cansaço, mas tinha de admitir que sua visão de Lev havia ficado mais leve. Sua atitude ainda era desagradável, sendo por vezes intrometido e inconveniente, só que nada do que disse ou fez tinha má intenção, como os “amigos” dele tinham, disso tinha certeza. Se tivesse, não estaria ali, buscando redenção, trazendo um novo Coral com ele. Chegou a pensar em convidá-lo a ficar, para jogarem um pouco ou algo assim, mais por gentileza do que qualquer outra coisa, porém sua tia já havia feito o convite primeiro e sido negada. Ele tinha treino de vôlei, o time estava se preparando para tentar ir ao torneio nacional e Lev precisava muito treinar recepção de bola, então acenou e logo saiu, indo embora de bicicleta.

Pôde, então, prosseguir a semana com um pouco mais de paz de espírito, voltando à rotina de acordar, tomar café da manhã e ir até o pier, mas não plena. A iminência das aulas estava sempre presente, pairando sobre ele, vindo incomodá-lo cada vez que tinha um momento com a mente vaga, sombreando seus pensamentos quando estava com Shouyou. Este nem parecia notar, entusiasmado e radiante como sempre, sorrindo e rindo livremente, sem suspeitar que as tardes preguiçosas que passavam juntos estavam para acabar. Será que ele ficaria sozinho até voltar? Não gostava de pensar nisso, todavia, pensar que ele poderia fazer outro amigo ou amiga em sua ausência parecia pior, o ciúme mordendo-o — um sentimento estrangeiro para ele.

Queria e ao mesmo tempo não queria contar, avisar, pensando todos os dias em fazê-lo e desistindo ao fim de cada tarde, não querendo estragar o sorriso que recebia dele todos os dias, tão inocente e tão contente em vê-lo, mas não podia evitar que em alguma hora acontecesse. Kenma estava apenas adiando o inevitável, entristecendo-se com isso pouco a pouco, até que teve de ir com a sua tia à estação para comprar sua passagem de ida para Tóquio, para a manhã seguinte. Nem tinha arrumado sua mala, as roupas espalhadas pelo quarto e pelo guarda roupa vazio, os sapatos todos no genkan, os cabos ainda conectados nas tomadas, os remédios sobre a escrivaninha.

— Eu vou embora amanhã. — soltou a bomba sem qualquer aviso, depois de alguns minutos encarando a água quieto, abraçando seus joelhos em seguida.

— … Oi? — Shouyou disse, a cabeça inclinando-se para o lado enquanto piscava devagar, confuso com o que acabara de ouvir.

— Eu… não moro aqui, Shouyou. — finalmente continuou, engolindo a saliva em seguida, fazendo desenhos na areia com o dedo tentando aliviar seu desconforto de alguma forma enquanto tinha de explicar aquilo, que considerava tão desagradável — Eu vim ficar um tempo na casa da minha tia, mas eu moro numa cidade bem longe daqui. Pego um trem amanhã bem cedo.

— Ah… entendi… — ele ainda sorria, mas percebeu logo que sua expressão se abateu, o olhar dele caindo sobre as ondas também enquanto parecia processar de fato a informação recebida; depois de alguns segundos, ele soltou um pequeno riso, um que evidentemente não achava graça em nada, coçando atrás da cabeça — Eu bem que suspeitei que você não fosse daqui… ‘Cê nunca tinha vindo aqui antes.

— É… Essa foi minha primeira vez aqui na cidade, também. — as memórias trouxeram uma sensação positiva, o que não foi o suficiente para fazê-lo sorrir — Eu não sei quando poderei voltar.

— Tudo bem, não vou a lugar nenhum. — aquilo provavelmente era para deixá-lo mais animado, mas Kenma apenas se sentiu pior, encolhendo-se ainda mais por cima de si mesmo — Ei!! Não é pra ficar mais triste!!! — Shouyou começou a falar agudo, como fazia sempre que ficava nervoso, balançando as mãos — Sorria, sorria!!!

— Desculpa, desculpa… — um riso fraco chegou a sair da sua boca, sentindo os músculos do rosto aliviando um pouco; provavelmente tinha feito bico sem perceber, como sempre faziam questão de apontar para ele quando ficava triste, o que sempre o deixou aborrecido — Eu preciso ir embora agora, Shouyou. — disse, percebendo que o mar estava começando a subir, interrompendo aquele breve instante de leveza.

— Já? — dessa vez, foi ele quem fez bico, abaixando o olhar momentaneamente antes de mirá-lo de novo, com um fundo de tristeza nos olhos mesmo que sorrisse — Tchau, Kenma.

— … — Hesitou, sentindo seu rosto se contorcer de novo, os lábios tremendo um pouco, mas, por fim, levantou-se e acenou — Adeus, Shouyou.

— Adeus, Kenma.

Correu para longe pela areia com o coração apertado, só virando para trás quando já estava na rua, não conseguindo mais enxergá-lo entre as pilastras do pier, sentindo uma insatisfação incrível. Aquela despedida parecia errada, como se só acenar com a mão e dizer-lhe tchau não fosse o suficiente, embora não pudesse fazer nada para mudá-la. Mesmo se tivesse a oportunidade de voltar cinco minutos no tempo, não sabia exatamente o que fazer para melhorar aquilo. Não era nesse tom que gostaria de terminar suas férias, mas talvez aquele fosse o único jeito, mesmo.

Kenma apenas parou na loja de conveniência no caminho para comprar um sorvete e alguns petiscos para levar na viagem no dia seguinte antes de ir para a casa da sua tia jantar, suspirando pesado o caminho todo, descontente. Mal comeu antes de subir ao quarto para recolher suas coisas, dobrando suas roupas, enrolando seus cabos, retirado todos os seus pertences do banheiro e dos armários e colocando cada coisa em seu devido lugar (os objetos que tirou da casa para mostrar ao tritão inclusive), terminando com a mala arrumada da mesma forma que chegou, nem parecia que passara o mês inteiro lá e que todas aquelas peças haviam sido lavadas pelo menos três vezes. Foi dormir apenas depois de ter conferido todos os cômodos para ter certeza que voltaria com tudo que trouxera, uma vez que ainda levaria muito tempo para que visse seus tios de novo depois que fosse embora.

Acordou com incrível dificuldade, o sol entrando um pouco por entre as cortinas, mas força não faltou em sua mão para desligar o despertador no celular. Estava com tanta preguiça, a cama estava tão confortável, seus olhos mal se abriam… Só despertou de fato em torno de uma meia hora depois, quando sua tia veio abrir a janela, falando alto, anunciando que tinha menos de uma hora para se arrumar antes de viajar. Ugh, que inferno. Levantou-se depois de conseguir se habituar à claridade, se trocou e desceu já com as malas em mãos, para facilitar o trabalho. Depois só teria que voltar lá em cima para escovar os dentes e conferir mais uma vez se não tinha esquecido nada.

— Foi bom ter você aqui em casa, guri. — seu tio disse ao fim do café da manhã, dando-lhe dois tapas fortes nas suas costas para se despedir, fazendo-o duvidar de suas palavras; por que o agredia daquele jeito? — Volte outras vezes!

— Volte sim! — sua tia enfatizou, sorridente, enfiando alguns onigiris e outros lanchinhos na sua mochila, mesmo tendo negado-os — O quarto vai estar sempre livre ‘pra você. Agora vai lá ver se não esqueceu nada, vou esperar no carro.

— Ok…

Kenma bufou e subiu as escadas vagarosamente, adiando cada degrau, mesmo sabendo que estava com o tempo bem delimitado. Duvidava muito que tivesse esquecido qualquer coisa no quarto, já tinha conferido na noite anterior, só indo até lá realmente tirar seu celular da tomada e recolher seu carregador. Mas ainda bem que deu uma última olhada no quarto antes de sair pela porta, dando um adeus ao quarto que o acolheu naqueles dias, pois pegou com o canto do olho algo que tinha totalmente deletado de sua mente: o chaveiro da Coral, sentada em cima da escrivaninha, onde havia deixado distintamente para não esquecê-la e acabou fazendo mesmo assim.

Não havia entregado aquilo ao Shouyou.

Pegou o chaveiro na mão e disparou para fora do quarto e escadaria abaixo, escancarando a porta de entrada da casa e saindo, deixando apenas um “Eu já volto, esqueci de uma coisa importante!” como explicação para seus tios, que o observaram confusos. Ele não podia ir embora sem dar aquele presente ao ruivo, não depois do esforço que ele (e Lev) fizeram para consegui-lo, não depois da despedida merda do dia anterior. Aquele gato de plástico significava muito para ele. Correu rapidamente pela rua, desviando do ocasional carro, esquecendo-se depois de poucos metros que tinha de regular sua respiração para não passar mal, chegando à praia em um instante. Olhou para a areia de cima da colina, bem de frente para o mar, o olhar percorrendo toda a costa visível, até encontrar o outro deitado na areia, tomando sol.

— Shouyou! — chamou alto enquanto descia pela grama, os braços meio erguidos para ajudá-lo a se equilibrar, ainda assim tropeçando e escorregando pelo gramado até tocar a praia, onde conseguiu se levantar e voltar a andar.

— Kenma??? — ele levantou-se num pulo, olhando para ele espantado, mas ainda assim sorriu enormemente em vê-lo — Eu pensei que ‘cê ia embora hoje!

— Eu vou! — teve de fazer uma pausa para respirar quando chegou perto dele, apoiando as mãos nos joelhos por um momento antes de agachar-se de cócoras para entregar-lhe o chaveiro — Mas… eu queria dar isso ‘pra você primeiro.

— !!! — Shouyou soltou um gritinho de alegria, seus olhos brilhando, seus lábios trêmulos; pegou o chaveiro na mão, apalpou-o, sentindo os detalhes do gato de plástico, admirando-o contra a luz solar — É a Coral! Obrigado! — Kenma assentiu com a cabeça, aliviado por ter chegado lá e de fato o encontrado, e se encararam por um momento, um sorrindo para o outro; queria poder vê-lo todos os dias, sentindo seu coração se expandir a cada segundo olhando fundo em seus olhos, que poderiam cegá-lo a qualquer momento; mirá-lo diretamente era como encarar o Sol, embora muito mais cativante — Eu queria dar algo ‘pra você, também.

— Uma concha? — riu um pouco, pensando se ainda havia algum espaço na sua mochila para guardá-la, pois nunca recebia conchas pequenas, apenas das grandes, que provavelmente pertenceram a algum molusco estranho do fundo do oceano; o ruivo negou com a cabeça, sorrindo tanto que seus olhos estavam quase fechados, até que de fato se fecharam, ao mesmo tempo em que suas mãos se pressionaram contra as bochechas do humano, e surpreendeu-o com um breve beijo, um selinho simples e genuíno, que o fez cair na areia quente — S-S-Shouyou… Por quê você… — queria gritar, seu coração batendo forte contra seu peito, seu rosto quente o suficiente para fritar um ovo; escondeu-se atrás dos braços, querendo esconder-se.

— Porque eu gosto de você, oras. — ele riu, seus ombros balançando, dizendo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, embora parecesse completamente alheio aos efeitos do que fazia; estar apaixonado por uma pessoa-peixe era literalmente a pior coisa que podia acontecer e a última que achava ser possível, mas lá estava ele, sentindo falta de alguém que ainda estava do seu lado antecipadamente, e aquele era seu primeiro beijo, algo que nunca ansiou, mas agora tinha um efeito enorme nele.

Naquele momento, em que tentava se acalmar para poder dizer-lhe alguma coisa — alguma que não fosse tirada de um dating game e que não tornasse a situação ainda mais constrangedora —, ouviu sua tia gritar na rua, perguntando o que ele estava fazendo ali, seu trem saía em menos de dez minutos. Ela provavelmente seguiu-o de carro até lá quando o viu correr desenfreado pela rua, o que tornava aquela situação ainda mais embaraçosa para Kenma. Cambaleou enquanto tentava se pôr de pé, seu calçado afundando na areia escaldante, Shouyou ainda olhando-o com um sorriso enorme no rosto. Não se importava se ficasse cego de tanto mirá-lo.

— E-Eu tenho que ir. — limpou a garganta para dizer, ainda sentindo seu rosto flamejando, ignorando por um momento a mais velha gritando da beira da rua para juntar sua confiança, sorrir e dizer: — Mas eu vou voltar.

— Eu sei. — ele respondeu, animado — Até mais, Kenma.

— Até, Shouyou.

Ele então subiu a colina a passos apressados, olhando-o por cima do ombro antes de entrar no carro, dando-se conta naquele momento que sentiria sua falta todos os dias até que voltasse no verão do ano seguinte.

Notas finais
*Todas as comidas citadas nessa fanfic vieram de receitas do canal Cooking With Dog no Youtube, outras coisas tipicamente japonesas da fanfic vem do meu conhecimento geral graças à pesquisa, minha participação no grupo seinenkai da minha cidade e conhecimento de anime. Se você for do Japão e não for assim... me perdoa
Onigiri: bolinhos feitos de arroz japonês
Furikake: um tipo de tempero, pode ser usado para temperar coisas
Karaage: frango frito apimentado japonês
Tamagoyaki: rolo feito com ovo
Yukata: kimono de verão, usado tipicamente em festivais, podem ser longos ou curtos.
Genkan: espaço na entrada de uma casa ou estabelecimento onde as pessoas deixam os sapatos que usaram na rua para não trazerem a sujeira de fora para dentro
Me avisem nos comentários se eu tiver esquecido de alguma coisa!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!