Staring

1 Capítulo único


Estamos sentados na grama de frente um para o outro. O desafio é ficar três minutos encarando Harry sem esboçar reação nenhuma. Tenho certeza de que quando ele propôs esse jogo não tinha a mínima ideia de com quem estava lidando, porque sou mestre em matéria de sentir tudo e não demonstrar nada. É o que tenho feito nos últimos dois anos de nossa amizade. Estou perdidamente apaixonada por Harry, mas nunca vou deixa-lo saber.

Eu já consegui ficar dois minutos inteiros sem cair em qualquer um de seus truques para me fazer rir, só falta mais um. Mal sabe ele que sou capaz de passar a eternidade o admirando em silêncio.

— Disso você vai rir, tenho certeza – diz, em seguida puxa as duas orelhas com os dedos e projeta a boca para frente. É uma careta horrorosa e sinto meu abdômen se expandir quando faço esforço para manter a risada presa dentro da garganta. Quero rir não porque foi engraçado, mas porque, dentre todas as caras feias que ele poderia fazer, acabou escolhendo a mais clichê. Ele nota meu espasmo e sorri, crente que está perto de conseguir alguma coisa. Meu estômago afunda com a visão de seu sorriso. É um sorriso pateta e adorável, adornado por covinhas fundas.

Harry coloca a língua para fora e revira os olhos para cima, outra careta típica. Continuo com uma expressão impassível e imperturbável, mesmo quando o vento brinca com o seu cabelo castanho e faz com que os fios se direcionem para todos os ângulos, uma bagunça perfeita. Mesmo quando ele umedece os lábios com a língua e os torna ainda mais convidativos e tentadores. Mesmo quando seu pé descalço encosta acidentalmente no meu, ativando cada célula nervosa do meu corpo. Mesmo quando ele não tira o pé dali e ao invés disso seus dedos começam a brincar com os meus. Fito-o como se não o quisesse com toda a minha alma, como se ele não fosse o meu mundo inteiro e um pouco mais.

Ele franze a testa diante da minha inflexibilidade e resolve, do modo mais covarde possível, apelar para as cócegas. No meu pescoço, na minha barriga, debaixo dos meus braços. Eu não sinto cócegas, nunca senti. Então, nesse instante, ao invés de estar fazendo o que ele espera que eu faça, que é me debater de tanto rir, estou imóvel feito uma pedra, tentando processar o fato de que ele está me tocando. E enquanto faz isso, ri, e o som rouco de sua risada preenche todo o ambiente, ecoando dentro de mim até que tudo o que consigo pensar é que não consigo pensar em mais nada. Meu coração dói dentro do peito.

Eu.

O.

Amo.

Tanto.

Ele para de rir e algo em sua expressão muda. Agora Harry está me encarando como se escaneasse minha alma, como se visse além de mim, seus olhos verdes penetrando nas minhas entranhas feito unha fincando na carne. Então eu me dou conta de que ele sabe do meu segredo. Ele sempre soube.

O cronômetro apita, declarando minha vitória. Não tenho tempo de processar qualquer coisa além disso porque Harry se inclina na minha direção e encosta sua boca na minha. Seus lábios são doces e quentes e tê-los juntos aos meus é como ser arrebatada. O som agudo e contínuo do cronômetro serve de backing vocal para as batidas ensurdecedoras do meu coração, que esmurra as paredes internas do meu peito, como se não encontrasse espaço suficiente dentro de mim. Cada mínimo pedaço do meu corpo pulsa quando a língua de Harry encontra a minha e um som rouco escapa de sua garganta. Seus dedos alcançam a parte de trás do meu pescoço e, com deliberada lentidão, sobem até meu cabelo, enterrando-se ali. Levo minhas mãos ávidas até seus ombros e os acaricio, sentindo a maciez de sua pele, mas não me contento em tocá-lo num lugar só, faço um tour por toda a área superior de seu corpo e sinto-o tremular sob meus dedos.

Harry separa sua boca da minha suavemente, nossas testas encostadas uma na outra. Ouço-o respirar fundo e encaro as pupilas dilatadas dos seus olhos. Suas mãos agora estão em cada lado do meu rosto, segurando-o gentilmente, como se eu fosse quebrar. Até onde sei, eu poderia mesmo. Minha cabeça ainda está girando e meu estômago é um imenso viveiro de borboletas. Não sei exatamente o que acabou de acontecer, mas também não tenho interesse em saber, porque tudo o que importa agora é a sensação morna de sua respiração desritmada contra a minha pele fria.

— Você ganhou – Harry anuncia enquanto fricciona seu nariz delicadamente contra o meu.

Não sei a respeito do que ele está falando, sou uma grande e generalizada bagunça. Mas então, ao deixar que meus ouvidos se concentrem em outra coisa que não seja o som de sua voz, ouço o barulho insistente do cronômetro do seu celular.

— Sim, eu ganhei – minha voz está embriagada de emoção e parece pertencer a outra pessoa.

Harry sorri para mim e eu sorrio de volta.

Então ele me beija mais uma vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!