Stand by
4 4
Notas iniciais
O som borbulhante do riacho à sua frente era o pano de fundo perfeito para a melodia cantarolada por Lysandre, que tinha os olhos fechados enquanto descansava a cabeça em seu colo. Você acariciava os cabelos dele, que cresciam cada vez mais, e tentava lutar contra as próprias emoções.
— Pretendo assumir a fazenda.
Você acenou com a cabeça. Já sabia que ele faria isso desde a notícia de que Josiane não estava bem. Depois do falecimento dela, eles tentaram vender a propriedade por alguns meses, mas até mesmo você torceu para que isso não acontecesse. Lysandre amava o lugar com todas as forças; era a casa de sua infância, onde estavam todas as memórias dele.
Seu segundo ano de faculdade acabara de começar, junto a um emprego de meio período para cobrir os custos de moradia que a bolsa não alcançava; o único dia de folga do trabalho na semana era na segunda-feira, que mesmo assim era um dia letivo. Você há um tempo já não conseguia visitá-lo por conta disso, e todos os seus encontros eram quando ele podia viajar. Agora, com uma responsabilidade desse tamanho em período integral, vocês não conseguiriam se ver.
E, mesmo sabendo de tudo isso, você não hesitou antes de responder:
— Estou torcendo para que você goste da vida de fazendeiro.
Um sorriso suave cruzou os lábios dele.
— Talvez nós não consigamos…
— Lys. — Você o calou com um dedo sobre os lábios dele. — Já passamos por coisa pior. É apenas temporário.
Ele franziu as sobrancelhas e abriu os olhos.
— É?
Não para ele, claro. Se ele realmente assumisse a fazenda e se sentisse tão à vontade lá quanto você imaginava que ele iria… Seria para toda a vida. Por outro lado, para você, o caminho ainda era incerto.
— Eu vou terminar a faculdade, eventualmente. Depois disso, quem sabe? Ainda não sei o que quero fazer. São muitas possibilidades.
— Alguma delas envolve acordar cedo para recolher os ovos das galinhas? — Ele ergueu uma sobrancelha. Apesar de brincar, dava para ver em seu rosto como estava cansado. Os últimos meses tinham sido os mais duros de toda a vida dele.
— Várias, na verdade. — Você segurou a mão dele, erguendo os dedos elegantes até sua boca para dar-lhes um beijo. — Eu já sei disso há um tempo. Minha casa é onde você estiver. Todo o resto é passageiro.
Ele respirou fundo, a expressão distante. Havia alguma coisa que ele não estava dizendo. Você o esperou pacientemente, sabendo que ele falaria quando encontrasse as palavras.
— Não é justo que você fique adiando toda a sua vida por mim. — Ele se levantou com cuidado, suas mãos ainda unidas, e sentou-se frente a você. — Eu não seria capaz de pedir isso. Posso prometer que vou escrever todas as noites, que vamos nos falar ao telefone, mas nós sabemos que… — A voz dele sumiu aos poucos, restando apenas aquele olhar suplicante.
Você balançou a cabeça, erguendo a outra mão para acariciá-lo no rosto.
— Está tudo bem — você assegurou, calma. — Fale devagar. O que quer que tenha a me dizer, eu vou ouvir e vamos conversar sobre isso, como sempre fazemos.
Ele não demorou muito.
— Acho que seria melhor para você se terminássemos.
As palavras, apesar de ásperas, foram ditas em um tom tão cuidadoso que o significado chegou até você. Ele estava preocupado.
— Você quer terminar?
Ele piscou algumas vezes, aparentemente lutando contra algumas lágrimas. Suas mãos nunca deixaram o contato com ele.
— É claro que não.
Você sorriu.
— Eu imaginei. Por que você resolveu propor isso, então?
Em parte, você já sabia, mas precisava ter certeza. A resposta dele determinaria os próximos passos.
— Não vamos nos ver por um tempo. Talvez seja… um longo tempo. Não vamos nos falar com a frequência que eu gostaria, muito menos a frequência que você gostaria. Como posso me chamar de seu namorado se não terei a menor capacidade de lhe fazer feliz? Como posso pedir que você espere por mim?
Você se aproximou com cuidado até que suas testas se tocassem e fechou os olhos, desejando que ele sentisse ao menos uma fração do seu amor por ele.
— Lys — você começou, com a voz mais amável que conseguiu. — Eu amo você, e isso não vai mudar. — Você beijou a ponta do nariz dele, e cada uma de suas pálpebras quando ele fechou os olhos para apreciar o toque. — Vou valorizar cada um dos nossos preciosos momentos. Vou escrever para você, e se seu celular não tiver sinal ou estiver perdido, enviarei cartas. Se você perder as cartas, enviarei outras. Vou esperar pelo nosso próximo encontro pelo tempo que precisar.
— Você não deveria ter que se esforçar tanto. — Ele parecia tão melancólico, como se já tivesse repetido o mesmo cenário na cabeça diversas vezes. Lysandre pensava demais.
— Não é esforço algum. Estar com você é natural como respirar.
Ele balançou a cabeça. Ainda havia algo o incomodando.
— E se… — Ele desviou o olhar. — E se, nesse período, você encontrar uma pessoa que lhe faça mais feliz? E se você perceber que estaria mais feliz só? Não quero ser um cargo, uma responsabilidade. Não quero que manter-se fiel a um relacionamento à distância seja um sacrifício. Se já é difícil agora, que dirá quando não houver perspectiva de quando nos veremos de novo.
Ele estava tão constrangido com a sugestão que você quis embalá-lo nos braços até que ele entendesse que tudo ficaria bem. Em vez disso, você respirou fundo e tentou responder de uma forma que o fizesse acreditar em cada palavra.
— Eu não acho que a frequência com que nos vemos seja algum determinante disso. Antes de conhecer você, eu passei dezesseis anos sem me apaixonar. — Você sorriu, e um pouco da preocupação dele pareceu ir embora. — Francamente, Lysandre, você é a única pessoa que existe para mim. Eu não seria capaz de olhar outro com olhos românticos. Desde que me mudei, contando com todas as turmas em que me inscrevi, devo ter conhecido duzentas pessoas. Nenhuma delas foi capaz de fazer as cores do mundo ficarem mais vivas, como você faz. Acho que o resultado seria o mesmo se fossem dez mil.
— Mas e se…? — Ele deixou a frase incompleta, a angústia quase palpável. Há quanto tempo ele pensava nisso? — Não é algo que pode ser controlado. Só não quero ser o motivo de seu sofrimento.
— Como você poderia? — Você colocou uma mecha de cabelo dele atrás da orelha, imitando o movimento que ele sempre fazia. Ele relaxou um pouco mais, mas ainda tinha tanta dúvida no olhar… Você suspirou. — Vamos fazer um acordo. Se um dia um outro alguém cruzar um pensamento sequer meu, você vai saber. Se por um instante eu acreditar que nosso namoro não me faz feliz, vamos conversar sobre isso. Prometo não anular meus desejos e pensar na minha própria felicidade se você prometer o mesmo.
Ele abriu a boca para protestar, mas sabia que era um caso perdido.
— Apesar de ter certeza que não vai acontecer comigo, eu prometo.
Você assentiu e segurou as duas mãos dele. Era uma promessa.
— Até segunda ordem, seremos um do outro. Não importa quanto tempo passe. Não importa se não pudermos nos ver, nem nos falar. Estamos juntos até não estarmos mais.
Ele finalmente soltou uma risadinha pelo nariz.
— Estão parecendo votos de casamento.
Você fez um som de indignação e empurrou o braço dele de brincadeira.
— Meus votos de casamento serão de tirar o fôlego, não algo horrível assim. Vou prometer estar com você para sempre e não “até não estar mais”. Isso é só para que você entenda que eu prometo sinceridade sobre os meus sentimentos, mas não pretendo deixá-lo. Nem agora, nem nunca. Enquanto você me quiser, estarei aqui.
Ele sorriu, e desta vez parecia genuíno.
— Não consigo ver um futuro em que eu não lhe queira.
— Eu acho bom — você brincou, o clima mais leve. — Além do mais, eu adoraria viver na fazenda com você.
Ele lhe direcionou um olhar confuso.
— Desde quando?
— Desde que isso se tornou uma possibilidade. — Você deu de ombros. — Eu disse. Minha casa é onde você estiver. A ideia de acordar cedo, ir até a cozinha e te encontrar cantando enquanto me faz um café não é nem um pouco desagradável.
Ele assentiu, um sorriso encantador nos lábios, que você não pôde evitar beijar com carinho.
— Obrigado.
Você balançou a cabeça.
— Não me agradeça. Estou fazendo isso por mim, porque sei que os momentos com você me fazem mais feliz que qualquer outra coisa. Você é minha música, Lys.
Você sempre admirou a cor adorável que pintava o rosto dele quando ficava envergonhado.
— É você quem inspira a composição.
Fale com o autor