Stampede
1 Com os alemães
Notas iniciais
Pov. Matt
Acordei, ainda meio tonto e com uma baita dor de cabeça. Retomando a conciência aos poucos, percebi onde e com quem estava. É. Fudeu.
Numa hora, eu estava abaixado e camuflado com o meu fuzil, finalmente com o alvo na mira, coisa que eu já esperava á alguns dias. Aí, uma pancada na cabeça, e na outra hora... espera, onde eu estava mesmo? Ah...
Era uma sala não muito grande, quadrada, com paredes de pedra cinza, iluminada só com uma lampadazinha que balançava pra lá e pra cá no teto, e parecendo bem antiga. Tinha uma porta escura e pesada de madeira bem na minha frente, com um homem encostado na parede do lado dela; uma mesa pequena, com aqueles brinquedinhos que o exército adora e que você não deixaria o seu filho chegar nem perto, estava apoiada na parede á minha direita, e á esquerda tinha um outro homem sentado numa cadeira.
Eu? Eu estava todo amarrado numa cadeira bem desconfortável, só com os coturnos, a calça camuflada e a camiseta branca que usava debaixo do uniforme, os cabelos e o rosto ainda absurdamente sujos de terra por ter que "me misturar ao ambiente". Puxei os braços e tentei mexer as pernas. É, pelo menos isso eles sabem fazer. As cordas estavam firmes, enroladas quase até os meus cotovelos, pelo o que eu podia sentir, e meus pés estavam amarrados nos da cadeira, com cordas até os joelhos.
E o pior, o meu fuzil estava no outro canto do cômodo. Ta, acordar com dois caras num lugar desconhecido não tem nenhum problema... mas sem o fuzil... o MEU fuzil, o meu xodó de última linha e com uma mira de dar inveja! E tem gente que pergunta porque eu odeio esses caras...
Quando me viu 'acordado', o cara da cadeira falou um "Ei, Adam", e balançou a cabeça na minha direção. E o querido Adam veio na minha direção, cheio de marra.
–Então, por onde começamos? — sorriu.
Já to no inferno, porque não abraçar o capeta?
–Que tal você me arranjar um cigarro? — sorri — Ai, mon ami*, a gente conversa — ele pareceu ponderar um pouco, mas concordou com a cabeça — Bolso esquerdo, sim? — disse, e ele pegou um cigarro e colocou de volta onde estava. Botou o cigarro na minha boca e acendeu com um isqueiro que tirou do bolso.
–Obrigado – falei, dando uma tragada pra acalmar os nervos — Então, mon amour*, o que quer saber? – sorri.
Antes que ele pudesse falar, ouvi passos abafados que pareciam vir do corredor. Um outro homem abriu a porta, e era um típico soldado alemão. Estatura mediana, olhos claros e cabelos loiros, mas num corte chanel e uniforme, e não raspado nas laterais como os outros; usava aquela farda verde musgo bem escura, e luvas pretas. No rosto fino, tinha uma grande cicatriz, que me parecia de queimadura, que cobria a parte esquerda do rosto, o pescoço e sumia entre as roupas.
Reparei em algumas coisas pequenas, como as condecorações no peito e a arma no coldre, que com certeza estava carregada. É, nada importante.
–Já revistaram ele? – perguntou sério.
Os outros dois se entreolharam e fizeram que não com a cabeça, meio trêmulos. O loiro fez um “tsc”, e andou até aquela mesinha, tirando as luvas e deixando-as lá, logo depois arregaçou as mangas e desabotoou a parte de cima da farda, deixando á mostra a blusa preta e um pouco justa que ele usava por baixo.
Veio até mim, me avaliando de cima a baixo, e começou a mexer nos meus bolsos. Tirou de lá umas duas caixas de cigarro, um isqueiro, e um canivete. Deixou tudo em cima da mesinha, parecendo aliviado. O que ele esperava encontrar ali? Uma granada?... Se eu esperasse sair vivo dali faria uma nota mental de carregar uma granada na próxima vez...
Ele voltou e segurou a gola da minha camisa, puxando o que provavelmente achava ser a minha placa de identificação, mas na verdade era a minha corrente. MINHA corrente. Eu sou um cara pacífico. Um cara pacífico, mesmo cobiçando uma granada e carregando um fuzil maior que o meu braço. Mas o “cara pacifico” vai pro inferno e troca de lugar com o demônio quando mexem nas minhas coisas. Ainda mais quando é na minha corrente, que eu carrego desde criança, desde que me mudei pra França. Mesmo assim, tentei me manter calmo e tranquilo, pelo menos por fora.
Ele tinha um sorriso, e uma expressão “calma e tranquila”. Ás vezes, o sorriso vindo deles faz você tremer mais do que se viesse um exército inteiro e armado. Passou a corrente pela minha cabeça, tirando-a e avaliando a corrente contra a luz fraca. A única coisa que ele viu, com certeza foi só dois nomes e um monte de arranhões.
–Saiam – ele disse autoritário, apertando a corrente bem forte nas mãos, e os outros dois obedeceram feito cachorrinhos.
–N-não... — balbuciei — Ei, Adam... ADAM! Vai me deixar aqui com ele? É assim que você começa uma amizade, é?! Também não vou mais dividir meus cigarros com você...
O soldado segurou o meu queixo, me obrigando a encara-lo.
–Chega de brincadeiras. Só uma chance, ok? – sibilou, balançando a corrente na minha frente – De quem você tirou isso?
Ora, não custava nada responder.
–De ninguém, é meu.
Vi aquele cara, aparentemente inexpressivo, se transformar em um demônio bem na minha frente. Cerrou os punhos, rangeu os dentes, seu rosto ficou vermelho e os seu olhos ardiam de raiva e ódio.
–DE QUEM VOCÊ TIROU ISSO?! HEIN? FALA LOGO, FILHO DA PUTA! – berrava, jogando a corrente no chão, e desferindo um sonoro tapa no meu rosto, seguido de muitos outros socos, chutes e pontapés em tudo que era lugar — ANDA, FALA O NOME DO MENINO DE OLHOS VERDES QUE VOCÊ MATOU! FALA!!! — segurou os meus cabelos e puxou pra trás, o rosto a centímetros do meu – Você não devia nem saber o nome, não é? Seu bastardo imundo!
Continuava me agredindo, xingando feito louco. Eu nunca tinha visto ninguém tão bravo... e eu não pude fazer nada, preso pelas cordas que já estavam machucando. Ele segurou os meus ombros, dando uma joelhada no estomago. Eu virei o rosto pro lado, tossindo e sentindo algo quente escorrer pelos lábios e o gosto de sangue tomar minha boca.
Mas ali perto, no chão, ainda tinha aquela corrente prateada. Sorri sôfrego e fraco. Depois de tanto tempo, como uma simples cruz ainda me fazia sorrir...?
Ele puxou os meus cabelos de novo, pegando um canivete do bolso, fazendo um corte na minha bochecha esquerda que ardeu na hora. Mas sabia que ele poderia fazer muito pior.
Parecendo um pouco mais calmo – mentira, ainda dava vontade de chamar um padre pra benzer aquele lá – pegou as luvas de cima da mesinha, e catou a corrente no chão, apontado o dedo pra mim como ameaça.
–Amanhã eu volto. E quero a minha resposta sobre isso aqui – sacudiu a corrente, saindo a passos furiosos e batendo a porta.
E eu teria o resto da noite pra pensar no que aconteceu. Mas, afinal... O QUE ACONTECEU?!
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