Notas iniciais
Depois de mil anos eu to aqui pra postar isso e dizer que to tentando lidar com minha falta de escrita. Esse capitulo já tava até pronto, eu só não queria viver ele. To tentando fazer o próximo. Obrigada pela compreensão ~

Solace estava radiante. Mais radiante do que sempre estava. Magnus havia até esfregado isso em sua cara com “eu vou ter que tirar o pó dos meus óculos de sol se você continuar brilhando desse jeito”. E Will brilhava. Dava para perceber em seu sorriso. Em seus olhos, toda vez que olhava para Nico.

Eles estavam saindo à três semanas.

Três semanas de encontros fofos, situações embaraçosas, risadas recíprocas e sorrisos lembrando de algo que só eles iriam entender.

Três semanas de facetimes de madrugada, conversas sobre as coisas loucas do universo e selinhos roubados antes da aula.

Todos roubados por Will, exceto pelo último.

Quando Nico finalmente tinha convidado Will para conhecer sua casa.

Will tinha passado a aula inteira sabendo que Nico queria dizer algo mas não dizia. Ele tinha se enrolado nas palavras no primeiro horário e evitado Will durante o intervalo. Foi apenas na saída que Nico veio até Will, e Solace sabia que Alex estava os observando de algum lugar. “Venha na minha casa amanhã”, ele saiu sem nem dar tempo de Will responder. Alex enviou o endereço depois.

Seguido de outra mensagem que fez Will sorrir consigo mesmo.

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Alex e Magnus não se viam direto à três semanas.

Eles tentaram se encontrar depois do primeiro encontro. Depois do primeiro beijo. Tentaram sair juntos da aula mas o professor dos últimos três períodos de Alex resolveu não aparecer. Tentaram se encontrar dois dias depois, mas o pai de Magnus iria viajar logo outra vez e queria passar o dia com filho.

Alex nunca podia nos fins de semana. Alex nunca podia depois das sete. Alex não podia nem nos intervalos, que, quando não passava com Nico, simplesmente não estava em lugar nenhum.

E nos últimos dias Alex sequer tinha ido na aula.

Magnus começou a achar que talvez Alex apenas não quisesse mais vê-lo.

Que talvez ele e Alex só estivessem tentando montar algo em cima do “abandono” de Will e Nico. Ou talvez só ele estivesse. Alex não parecia nem um pouco abandonado.

Magnus devia só deixar de lado, ele se decidiu.

O que não teve efeito algum sobre o modo como sua mente girou quando Alex, e não Nico, abriu a porta para ele e Will naquele sábado.

— Você está garota hoje.

Ótimo jeito de começar, Magnus.

Alex riu.

— Sim. Palpite de sorte?

Ela estava verdadeiramente intrigada. Não estava na sua maior exuberância feminina. Seus jeans eram justos (mas nada que não usasse também no masculino) e usava uma camisa xadrez rosa e verde por fora dos jeans. Tinha quase certeza que havia usado aquela camisa mais vezes como garoto do que como garota.

Magnus deu de ombros, parecendo envergonhado.

Will cortou seu campo de visão.

— Que surpresa te ver por aqui, senhorita Alex.

— Uma surpresa vê-lo por aqui também, senhor Solace.

Alex viu Magnus encarar dela para Will e vice versa, percebendo que os dois sabiam muito bem que iriam se encontrar. Ele empurrou Will para frente com um pouquinho de força demais.

— Escoltado, vossa alteza solar. Agora, se me permite-

— Sim — Alex o parou com aqueles olhos felinos — Se nos permite, Will. Nico está na sala entrando em pânico.

— Alex! — foi a voz de Nico, que enfiava a cabeça pela porta da sala. Alex piscou para ele e saiu correndo, arrastando Magnus pelo braço. Ela pode ouviu Will rindo.

— Vocês combinaram isso? — Magnus perguntou o óbvio quando Alex finalmente o soltou. Eles estavam apenas do outro lado da rua, em um parque estrategicamente posicionado como ex machina.

— É claro.

— Por que?

— Por que? — Ela o encarou, sua cabeça pendendo para o lado. Alex estava especialmente animada hoje. Todas as suas reações multiplicadas a vinte. — Achei que tínhamos superado aquele primeiro beijo.

— Acho que superamos — Magnus não pode deixar de sorrir lembrando do desastre. — Mas achei… Que talvez não quisesse me ver de novo.

— O que? Por que?

— Faz três semanas que a gente só se vê na aula e olhe lá. Achei que só estivesse tentando se livrar de mim passivamente.

Foi como se algo desmoronasse dentro de Alex. Magnus era tão… Familiar que Alex tinha esquecido. Tinha esquecido que Magnus simplesmente não sabia. E Alex não sabia como reagir a isso.

— Você acha que eu seria capaz disso? Bom saber o que pensa de mim, que eu não teria decência de terminar algo cara a cara.

Magnus a encarou confuso. Não ficou irritado de volta. Parecia poder ver que, embaixo da raiva, doía. E aquilo doeu ainda mais em Alex. Magnus era uma pessoa boa demais.

E nada disso era culpa dele, Alex lembrou a si mesma. Respirou fundo.

— Não estou tentando me livrar de você, abestado.

— Ah — Magnus baixou a cabeça, mas Alex ainda podia ver o canto do seu sorriso. — Isso é bom.

—Sim.

— É.

— Espero que não tenha planos de se livrar de mim também.

Magnus aumentou o sorriso.

— Não tenho.

— Bom.

— Sim.

Alex puxou ele pelo braço novamente. Eles foram parar sentados nos balanços.

— Qual é sua fruta preferida?

Alex o encarou, meio confusa, meio rindo.

— Por que?

— Sei lá. Puxando assunto — ela podia ver que Magnus estava ficando um pouco vermelho. — Eu ia perguntar da cor, mas…— ele fez um gesto para o corpo de Alex, todo verde e rosa.

Ela riu.

— Qual a sua cor preferida?

— Eu não sei. Só sei que não gosto de azul.

— Bom, se você não gostasse de verde, aí teríamos um problema.

— E se eu não gostasse de rosa?

— Aí nós teríamos um outro problema, chamado “heteronormatividade”.

— Bom que eu não tenho problemas com rosa, então.

— Bom mesmo.

Eles se encaram em silêncio por um segundo. Então começaram a rir.

Era isso que Alex queria dizer. Era fácil ficar perto de Magnus. Era mais fácil até do que ficar perto de Nico. Nico era o seu melhor amigo e uma pessoa maravilhosa, mas ele tinha um lado obscuro que Alex já tinha visto muito bem. Lembrava o dela.

Magnus era… leve. Magnus iria puxar assunto perguntando da sua fruta preferida. Magnus tinha uma família saudável. Will Solace era descrito como o sol por todos, mas Alex o achava brilhante demais. Não que fosse algo ruim. Mas ela preferia o calor aconchegante de Magnus.

— E foi aí que que a rede enrolou num ângulo muito errado e Will quase causou minha morte pela trigésima vez antes dos nossos dez anos.

Ela não tinha noção de quanto tempo tinha se passado. Mas o sol ainda estava alto no céu. E ela não precisava se preocupar com o tempo.

Não hoje.

— Ótimo recorde para um futuro médico.

Eles estavam deitados na grama, olhando o céu por entre as árvores. Magnus rolou para o lado.

— Da minha parte ou da dele?

— Dois dois?

Ela encarou Magnus de volta. Com o cabelo loiro esparramado na grama, o rosto brilhando do sol e e o jeito que olhava para Alex. Ele parecia ter saindo de algum conto de fada. Alex não acreditava em contos de fada. Em qualquer outro dia ela mandaria aquele pensamento para longe.

Mas não hoje.

— Eu sei que essa é uma péssima pergunta— Magnus quebrou o silêncio. Alex se xingou por achar que um momento mágico daquele poderia durar. — Mas você tem ideia do que quer fazer depois da escola?

Alex voltou a olhar para cima. Ninguém gostava daquela pergunta. Mas dependendo de quem fizesse, não era ruim. Para Alex sempre era ruim.

— Ok, sem resposta. Tudo bem — Magnus estava começando a enxergar que havia uma linha até onde ele podia ir. Alex não queria ter essa linha com ele.

— Meu pai e minha madrasta acham que vão decidir o que eu vou fazer.

Magnus não sabia o que dizer. Ela se virou de volta para ele.

— Às vezes eu acho que eles vão decidir o que eu vou fazer.

— Eles não vão. Você vai.

Magnus sorriu e pegou na mão de Alex enquanto dizia isso. Ele soava verdadeiro. Nada como aquela lenga-lenga dos conselheiros da escola. Magnus realmente acreditava que Alex poderia escolher o seu futuro um dia.

— Claro — ela sorriu para ele. Porque Magnus era bom demais. Porque Magnus devia acreditar em contos de fada. Porque Magnus talvez fizesse dela alguém um pouco melhor.

Ela poderia acreditar nisso. Hoje.

Alex sabia que ele queria perguntar mais.

Um dia talvez ela respondesse.

Mas não hoje.

Não hoje.

Ela fechou a boca de Magnus com seus lábios, e sorriu da feição atordoada que ficou em seu rosto.

— Você quer conhecer minha encantadora residência?

Não hoje que seus pais não estavam em casa.

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Nico amaldiçoou Alex de todas as maneiras possíveis. Ela tinha dito que ficaria por perto. Claro, não perto, tão perto (por todos os deuses, Nico achava que Will iria finalmente beijá-lo direito e Alex não poderia ver de modo algum). Ela poderia ficar, sabe-se lá, dando voltas na cozinha. Mas não, muito melhor sair para se pegar com Magnus em algum lugar. Ela tinha até piscado para Nico, piscado!, como se dissesse “aproveite para se pegar aí também”.

— Sabe, eu não mordo — Will sorria para ele escorado na parede do corredor, fazendo-se em casa. Nico percebeu a si mesmo, parado no meio da calçada, depois de ter tentando agarrar Alex, encarando o ponto em que Magnus e ela desapareceram.

Ele se virou para Will.

— É uma pena.

Deuses. De onde veio aquilo? De alguma forma aquela frase havia escapado sem passar pelos milhares de filtros da cabeça de Nico. Will lhe causava aquilo. Nico receava até onde poderia chegar.

Will o encarou surpreso, antes de dar uma risada curta, baixinha. Ele esticou a mão para Nico.

— Por que não vem aqui testar?

Sobre Will enlouquecer sua cabeça? Bem, era possível que Nico morresse de combustão espontânea muito antes.

Ele foi.

Caminhou até Will e o seguiu para dentro de casa, fechando a porta atrás de si.

Era agora?

Will continuava sorrindo, escorado contra a parede.

Era agora, era agora, era agora.

Nico não estava preparado. A ansiedade subia pelo corpo. A discussão infinita em sua mente dava o ar da graça, assim como na primeira vez que Will lhe dera um selinho. E em todas as vezes subsequentes. Ele e Will já haviam falado sobre isso algumas vezes. Will tentava fazer o possível para deixá-lo calmo e confortável. Nico sabia que era por isso que Will estava parado, esperando que Nico inicasse a aproximação.

Nico não iria simplesmente deixá-lo lá.

Ele se aproximou de Will, frente a frente, suas mão subindo em direção a nuca alheia. Eles não haviam planejado aquilo. Ninguém tinha dito “quando você me convidar para sua casa será nosso primeiro beijo de verdade”. Mas era como se houvesse um entendimento mútuo. Era um bom momento. Era certo.

Will agarrou Nico pela cintura e juntou seus lábios.

Certamente, morte por combustão espontânea.

Nico não fazia ideia do que fazer. Ele nunca tinha beijado ninguém. Nunca havia encostado tanto em alguém antes de Will.

Will já havia beijado mais pessoas do que ele conseguia lembrar.

Nada que pudesse comparar com Nico.

Will sentiu Nico segurar sua nuca com força, numa dualidade de querer juntá-los ainda mais e esperar que Will mostrasse o que fazer. Will ficou mais que feliz em acatar o pedido.

Os lábios de Nico estavam entreabertos e Will aproveitou para passar sua língua entre eles, sentir a textura, a pressão dos dentes atrás, e deixar uma mordida de leve antes seguir explorando a boca alheia.

Era talvez o beijo mais lento da história.

Mas de maneira alguma ruim.

Nico tentava acompanhar os movimentos de Will. Tentava imitar o sinuar da língua, a pressão dos lábios. O toque da língua de Will na sua não era algo que tivesse chegado perto de sentir. Ele pensou em como Will já tinha sentido aquilo milhares de vezes. E ignorou sua mente dizendo que essa vez, então, não era nada demais. Ele focou no corpo de Will. Na pressão contra o seu. Nos batimento levemente acelerados. Na respiração.

O peito de Will subia e descia devagar. Ele estava respirando. Ele estava respirando? Nico tentou ignorar outra vez. Obviamente ele estava respirando. Mas pessoas respiravam durante o beijo? E todo aquele “eles se separam para tomar ar” que sempre tinha lido em milhares de coisas? Will não parecia estar precisando recuperar o ar. Ok, respirar. Nico precisava respirar também. Respirar enquanto beijava Will. Isso não ia dar certo. Não ia dar certo. Ele ia fazer alguma coisa errada simplesmente respirando. Isso era possível? Respirar não poderia causar nada de mais. Sim. Era completamente possível respirar e beijar ao mesmo tempo. Dava para respirar enquanto beijava Will. Will. Will era ótimo. Will era perceptível demais. Deuses, Will devia estar percebendo que ele estava pensando demais. Will devia estar sentindo. Porque ele estava beijando Nico. Por que ele sabia beijar as pessoas, e sabia respirar durante um beijo e-

Nico se afastou de Will, ofegando com força.

Will subiu suas mão até o rosto vermelho de Nico, sorrindo para ele.

— Tudo bem?

Nico enfiou a cabeça no ombro de Will.

— Sim.

— Isso foi bom.

Um momento de silêncio da parte de Nico. Will não podia ver, mas ele estava sorrindo.

— Sim.

E quando Will virou a cabeça e depositou um beijo leve em seu pescoço, nenhuma parte da mente de Nico pôde discutir.

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Alex travou com força no instante que desceram do uber. Ela morava em um canto da cidade que Magnus nunca tinha ido. Eles estavam parados em frente a uma casa. Uma casa enorme. Alex não se mexeu. Tinha uma garota parada na porta.

A garota usava um jeans azul e uma bata rosa. Magnus não podia ver nada do seu rosto, não só por estar de costas, mas por ter um hijab verde em volta da cabeça. O corpo de Alex pareceu se agitar e ela foi até a porta correndo, chamando a atenção da garota.

— Hey! — Alex parou frente a frente da desconhecida. Por um momento Magnus achou que ela sequer ia parar, e apenas entrar em casa correndo.

Agora ele podia ver o rosto de perfil. Elas tinham a mesma altura. Quase o mesmo tom de pele. A garota poderia muito bem ser uma versão paralela de Alex, em um mundo em que Alex fosse mais muçulmana e menos queer.

— O que quer na minha casa?

A garota observou Alex de cima abaixo.

— Alex Fierro?

Alex a encarou de cima, como se tentasse parecer maior. Quem quer que fosse, Alex não parecia feliz em ver. Mas Alex também não parecia saber quem era. Magnus não conseguia entender o que havia de tão absurdo em ter alguém batendo na sua porta. O modo que Alex olhava para a garota fez Magnus perceber que talvez ele não entendesse muita coisa.

A garota não pareceu incomodada.

— Meu nome é Samirah — ela disse. — E eu sou sua irmã.

Notas finais
Desculpem qualquer erro, deixem comentários se gostaram e façam uma autora feliz ~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.