Stall Me
1 Capítulo I
Notas iniciais
A festa estava lotada. Quem diria que a equipe médica do St. Bart’s conseguiria organizar uma comemoração tão incrível. A decoração preenchia o salão com belas cores, como verde e azul em tons claros, semelhantes aos das toalhas de mesa e dos arranjos de flores. Uma pista de dança se encontrava no centro do salão com várias luzes coloridas piscando e uma música extremamente alta tocando, o que tornava impossível alguém começar uma conversa sem gritar.
No geral, a maior parte da equipe havia mudado desde a última vez que fui ao velho hospital. Mas isso foi há muito tempo, antes de eu entrar para o exército ou ir servir no Afeganistão. Fazia apenas uns dois dias que eu havia voltado para a vida civil e, no geral, estava sendo uma experiência um tanto complicada. Era como se os fantasmas da guerra não me deixassem para trás e fizessem questão de me tirar boas horas de sono, o que só me deixava cada vez mais exausto.
Se milagres existem, acredito que o meu tenha um nome: Mike Stamford. Um velho amigo da equipe cirúrgica do Bart’s, de quando eu ainda trabalhava lá. Depois de encontra-lo pelas ruas de Londres, ele me convidou para essa tal festa na qual nos encontramos agora. E aqui estou, na esperança de que talvez a música, a bebida ou as pessoas me ajudem a relaxar. Não que eu acredite que isso realmente vá acontecer, mas, no momento, o copo de whisky em minhas mãos parece muito mais acolhedor do que aquele velho apartamento de cores frias e monótonas.
Comecei a beber aos poucos. Pequenas doses da bebida de cor caramelada apenas para me alegrar um pouco. Conheço meus limites, creio eu. Mas ao olhar para a festa e ver todas aquelas pessoas dançando, geralmente com copos de bebidas maiores que o meu em mãos e ficando cada vez mais altos, eu não me sentia muito diferente de estar aqui ou no pequeno apartamento vazio.
– Mais uma dose, por favor! – falei alto para que o barman ouvisse, assim que o líquido desceu queimando pela minha garganta. Era a terceira que eu pedia e ainda não sentia diferença alguma em meu organismo. “Vamos lá, John, é pra você se divertir!” Pensei comigo mesmo e bebi a nova dose do mesmo whisky que havia acabado de ser posta à minha frente.
– Cerveja. Escura e amarga! – Uma voz grave e embargada soou ao meu lado ao que reparei, pelo canto do olho, um homem alto e cambaleante sentando-se junto ao balcão como eu. – Que maravilha de festa, não?! – O mesmo se curvou para o meu lado, apoiando o cotovelo na madeira bem lustrada a sua frente enquanto firmava o próprio maxilar com a mão. Olhei-o franzindo a testa como se perguntasse a mim mesmo se ele falava comigo. – Geralmente não vou a eventos como este. – Falou voltando a sua posição inicial, tirando um maço de cigarros do bolso e acendendo um com um pequeno isqueiro prateado.
– Nem eu... – Murmurei de uma forma que não pude ser escutado por causa da música alta, observando o pequeno copo de vidro em minhas mãos. Fiz sinal pedindo mais uma dose ao barman, que servia a cerveja do homem ao meu lado.
– Achei que essas porcarias fossem mais interessantes! – O estranho deu uma curta gargalhada carregada em ironia, dando uma tragada em seu cigarro e logo em seguida um grande gole em sua cerveja.
Por um momento, não contive a curiosidade e o observei rapidamente, reparando em seu sobretudo, preto, assim como seu cabelo encaracolado, e sua pele pálida. Parecia ser alguns anos mais novo que eu, e com certeza já estava mais alterado pela bebida também.
– Nem me diga! Tá tudo incrível, mas parece o inferno! – Falei e permiti que o whisky novamente queimasse minha garganta.
– Se o inferno for tão divertido quanto isso aqui, teremos que levar muita cerveja e muitos cigarros quando morrermos! – Sua voz pareceu ainda mais embargada e eu ri de verdade pela primeira vez aquela noite. – Qual seu nome, soldado? – Ele voltou a se curvar para o meu lado, se apoiando no balcão assim como antes. Me perguntei se ele estava apenas brincando ou se ele sabia mesmo que eu havia servido ao exército, mas minha vista começou a girar e acabei deixando tal questão escapar de minha mente.
– John Watson! – Levei a mão à testa como se batesse continência e ri sem motivo. – Posso? – Apontei para seu copo de cerveja – Faz tempo que não tomo uma dessas... Só um gole, claro! – Por um momento me repreendi por ter pedido aquilo, ele era apenas um estranho, afinal. Mas logo ignorei o pensamento quando ele mesmo empurrou a bebida para mim. Bebi um bom gole da cerveja amarga e lhe devolvi o copo. – Ah, maravilha! Obrigado! – Chamei o barman e pedi uma igual para mim enquanto o de cabelos encaracolados bebia todo o resto de sua bebida de uma vez.
Isso durou por um bom tempo. A cada dose minha visão ficava mais embaçada, assim como minha voz ficava mais embargada e as palavras mais embaralhadas. Começou a ficar difícil entender o que estava acontecendo e a última imagem que me lembro da festa foi de levantar de onde estava sentado com o tal estranho e tudo começar a girar bruscamente.
[...]
Devia ser por volta de meio dia quando acordei sentindo minha cabeça latejar fortemente. Tentei abrir os olhos e recebi uma forte pontada de dor ao que a claridade invadiu a minha vista, obrigando-me a fecha-los com força em seguida. "Maldita ressaca!" Eu não bebia tanto assim desde a minha adolescência. Virei para o outro lado da cama, tentando evitar a claridade direta, provavelmente da janela, e senti meu corpo um tanto dolorido.
Sentindo que meu rosto já estava fora do alcance do sol, abri os olhos devagar, piscando repetidamente para então minha vista se focar na imagem de um homem deitado ao meu lado. "O QUE?!" Gritei comigo mesmo em minha mente enquanto arregalava os olhos. Um homem de pele pálida e cabelo preto encaracolado. "O cara da festa?!" Olhei o quarto ao meu redor e, não o reconhecendo, o desespero começou a aumentar. "Que merda você fez, John Watson?!"
A melhor coisa a fazer era sair dali o quanto antes. De preferência sem acordar o tal estranho. Então me afastei lentamente e o movimento foi suficiente para perceber a ausência de roupas, o que me fez arregalar ainda mais os olhos. "Não! Não! Não!" Eu repetia desesperadamente em minha cabeça. Levantei tomando cuidado para não puxar o lençol que dividíamos e me afastei da cama, procurando minhas roupas pelo chão do quarto e me vestindo rapidamente. Conferi se todos os meus pertences continuavam nos bolsos e saí o mais rápido possível daquele lugar. Só queria ir para casa e tomar um banho. Esquecer aquela situação e torcer para que ninguém jamais soubesse do ocorrido.
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