Stalker
19 Súplicas e provocações

No caminho para o trabalho, a mãe de Mio analisava tudo que havia descoberto sobre Ian; ela não entendia como um homem rico veio morar em um bairro de classe média e não ostentava uma vida digna de quem tem uma condição financeira e social que nem a dele, o fato de ser noivo também a preocupava, mesmo que sua noiva não fosse alguém aparentemente normal pelo o que ela entendeu. Temia como Mio reagiria ao revelar para ele essas informações, ela via seu filho como alguém puro e inocente que facilmente foi enganado por alguém mais esperto e vivido que ele, esses pensamentos à respeito de Ian, fazia seu sangue ferver de raiva, não tolerava que ninguém fizesse mal aos seus meninos. Chegou a desejar que Mio nunca o tivesse salvado daquela tentativa de homicídio, pois foi graças a esse incidente que ele conheceu Ian e todo seu mundo tornou-se um caos.
Ela ainda tinha dúvidas de como o bilhete de Ian chegou aos bolsos da calça de Mio, se esse não sabia nada sobre isso, imaginou que alguém ou o próprio colocou em seu bolso e ele não viu, era única maneira daquele pedaço de papel comprometedor ter chegado aonde estava. Seguindo sua rotina de trabalho, ela ficou sabendo que ficaria no lugar de uma colega que faltaria no dia, e para adiantar seu serviço e esquecer os problemas pessoais, ela prontamente pegou os prontuários dos pacientes que sua colega deveria visitar em seus quartos quando viu aquele nome que rodeava sua mente desde cedo.
Colocando ele como prioridade na lista, foi o primeiro que visitou naquele inicio de tarde, estranhou chegar na ala dos pacientes vips e se deparar com dois seguranças fazendo guarda de um quarto, apesar de saber que quem se hospedava naqueles apartamentos médicos eram pessoas importantes como artistas e políticos, já que ela trabalhava no melhor hospital da cidade, era incomum ver aquele tipo de situação. Foi obrigada a se identificar na entrada do quarto informando sua finalidade ali, para que eles permitissem que ela entrasse.
Encontrou o paciente problemático dormindo tranquilamente em sua cama, e não perdendo tempo foi acordá-lo de modo nada sutil, com um tapa em seu braço. Ian acordou assustado pensando que estava sendo atacado novamente pelos seguranças de Natally, mas aturdido ficou quando percebeu quem era sua visita naquele quarto. Sentou na cama e esfregou os olhos para ter certeza que não estava delirando.
— O que a senhora faz aqui? — perguntou ele sem notar que ela estava uniformizada como as funcionárias do hospital.
— Eu quem deveria te fazer essa pergunta! Não percebe pela minha roupa que sou uma enfermeira aqui? — respondeu ela não sendo nada gentil.
Ian fez sinal de silêncio e começou a sussurrar para ela.
— Eles não podem saber que eu te conheço, muito menos que é a mãe de Mio, por favor não fale muito alto.
— E por que eu deveria obedecer a você? Ah, deixa me ver, será que é porque você é noivo e fica dando em cima de meninos novos inocentes confundido a cabeça deles quanto a sua sexualidade?
— Senhora... — respirou fundo Ian, não querendo entrar em discussão com ela, mas percebia que seria um pouco difícil conversar com aquela mulher sem discutirem — Por favor, eu lhe imploro, fale mais baixo. Minha história é complicada e eu juro para você que gostaria muito de contar detalhadamente ela, porém sei que não tenho muito do seu tempo e oportunidade de fazer isso sem que eles descubram.
— Os seus seguranças?
— Não são meus seguranças e sim da pessoa que se intitula minha noiva. Tentarei resumir para a senhora minha situação, tem uma mulher desequilibrada emocionalmente que conheço a minha vida toda, filha dos melhores amigos dos meus pais, e vinda de uma família de prestígio no meu país; fomos prometidos em noivado muito novos, porém quando eu fiquei adolescente vi que não queria ela como esse tipo de pessoa em minha vida, porém ela não aceitou e desde então ela usa seu dinheiro e influência para me perseguir e prejudicar todos com quem eu me relaciono.
— Que belo enredo de novela você tem, pensa em ser dramaturgo? — ironizou a mulher.
— Se acha que estou brincando veja por si só o que eles fizeram comigo! — apontava ele para o hematoma em seu olho esquerdo, e depois levantando a camisa mostrando outros hematomas pelo abdômen. — É isso que acontece comigo quando não faço o que ela quer, ela simplesmente manda eles me surrarem sem piedade. Agora leia meu relatório médico, ver se tem alguma coisa falando sobre minhas costelas quebradas ou esses hematomas? Duvido que encontre alguma coisa sobre isso escrito, porque ela paga os médicos e enfermeiros para ficarem de bico fechado, é por esse motivo que nunca conseguir comprovar nada do que ela faz para minha família ou os pais dela. Ninguém acredita que ela seja capaz de fazer esse tipo de coisa.
Ela olhou o prontuário e realmente dizia que ele estava ali somente por uma pequena infecção na mão, e um símbolo no inicio da pagina simbolizando paciente especial. Isso significava que poucos funcionários tinham acessos a seus dados.
— Se você leva uma vida digna de filme, por que meteu meu filho nisso? Se andar com você e tão perigoso, por que o enganou com suas conversas amorosas? Sabe o mal que você fez a ele? — reclamava ela.
— Senhora, eu amo de verdade o Mio, mesmo que a senhora não entenda o que significa esse sentimento entre dois homens, eu nunca o enganei, meus sentimentos por ele são sinceros, e nunca foi a minha intenção coloca-lo em risco. Eu estava a mais de um ano livre da Natally, até o momento que ela descobriu a minha localização, por conta disso fui obrigado a terminar com o Mio sem muito ter o que dizer, para que ele não se machucasse se ela ficasse com ciúmes dele. O que eu mais quero é que ele saiba que eu não queria que as coisas terminassem assim, eu sei que ele já sai com outra pessoa, eu somente queria me explicar, porque me doí saber que ele me odeia por conta de um grande engano.
Ela não entendia de onde ele havia tirado que Mio estava saindo com outra pessoa, mas achou que seria melhor deixar ele acreditar nisso para manter distância de seu filho.
— Graças a Deus meu filho superou tudo que você o obrigou passar, e agora segue sua vida como um adulto normal, sem pensamentos impróprios e gostaria de permanecesse assim. Você não é boa influência para ele.
— Já que a senhora citou Deus, lembre-se de amar o próximo como a si mesmo, e não julgar as pessoas para não ser julgada. O que te peço somente é que explique ao Mio o que acontece comigo.
— Que diferença isso faz?
— Muita diferença, Sra. Kimura. Se por acaso eu morrer tentando provar a todos que Natally é uma lunática perseguidora, eu ter certeza que morri com Mio sabendo a verdade. A senhora sendo tão fiel a Deus, negará isso a um enfermo e vítima de alguém? O relatório médico e os seguranças do lado de fora não me deixam mentir, a senhora sabe que estou falando a verdade, nada mais justo que o Mio também saiba. Como eu disse, não pretendo mudar a vida dele, quero que ele seja feliz independente com quem seja, e se a senhora pensa da mesma forma que eu, sabe que o Mio não deve estar satisfeito com meu sumiço repentino sem explicação. — arriscou Ian apelando para religiosidade da mulher e pela suposição de que Mio por ser sensível tivesse no mínimo ficado incomodado quando eles terminaram.
Era uma aposta às cegas.
Tentando fingir que não sentia pena da situação dele, e que o filho havia verdadeiramente superado tudo que havia passado, ela ficou um tempo refletindo até finalmente respondê-lo:
— Meu filho está bem como você mesmo sabe, acho que essa informação não é mais útil em sua vida, se o que diz é verdade, andar com você é fazer ele correr riscos, e eu não desejo isso para ele. Espero que você supere seu problema. — disse virando-se para ir embora, mas Ian desesperadamente o agarrou pelo braço impedindo-a de sair.
— Sra. Kimura, te suplico por tudo que seja mais sagrado em sua vida, me deixe falar com o Mio uma única vez! Me permita morrer ciente que ele sabe a verdade, me conceda a oportunidade de me despedir corretamente dele, por favor! — pedia ele tentando alcançar aquele coração frio.
— Eu não quero colocar meu filho em situação de perigo, você nem sequer deu queixa dessa mulher para à polícia! — tentava justificar ela.
— Que provas eu mostraria? A Senhora tem uma prova nas suas mãos, ela me ajuda em alguma coisa? Não, porque é sempre assim que as coisas acontecem, ela compra tudo e todos, e sempre manda outros fazerem seus serviços, eu sempre fico de mãos atadas. Tudo que me resta é viver fugindo até que eu consiga provar que ela é a mandante de tudo de ruim que acontece em minha vida.
— Eu não quero meu filho metido nisso...
— Por favor, eu te prometo que o Mio não se machucará, eu irei somente me afastar dele corretamente para todo o sempre. Eu preciso dizer isso diretamente a ele e pronto. Mio nunca mais terá que me ver novamente e muito menos a senhora precisará se preocupar com nosso relacionamento.
— E como você cumpriria isso? Fazer o Mio não correr risco quando você não consegue nem se proteger?
— Esse seguranças me seguem em todos os cantos, menos no banheiro. Eles sempre ficam parados na frente da porta me esperando sair, claro, primeiro eles conferem se no banheiro tem janelas. Tenho certeza que aqui tem banheiros, a senhora pediria para o Mio me esperar em um deles em determinado horário e eu daria um jeito de encontrá-lo lá. Ele ficaria dentro de algum box me aguardando, dai eu falaria com ele, terminaríamos oficialmente e cada uma viveria sua vida sem remoço. — finalizou sorrindo.
Ela olhou para ele, e depois deu uma boa olhada no quarto onde ele estava hospedado, muito parecido com um quarto de hotel, o único detalhe eram os aparelhos hospitalares.
— Que desculpa arranjaria para usar o banheiro público do hospital quando você tem um particular em seu quarto? — disse ela apontando para a porta do banheiro.
— É muito fácil entupir um vaso de sanitário.
— Se eu deixar que isso aconteça, o que não estou afirmando que farei, você realmente diria tudo que meu filho precisa para nunca mais procurar você?
— Sim, falarei tudo que a senhora quiser. — disse ele enquanto secretamente cruzava os dedos.
— Pensarei no seu caso, tenho que voltar para o meu serviço.
Ian a puxou e a abraçou apelando para o sentimentalismo.
— Obrigado, Sra. Kimura, que deus abençoe seus esforços! Por favor, me ajude a amenizar pelo menos um dos problemas da minha vida, segundo o médico desse hospital, ficarei aqui por uma semana, tempo suficiente para a senhora pensar, não é?
— Sim. — respondeu se soltando dos braços dele. — Mas não garanto nada.
— Quando a senhora voltar aqui, se uma mulher loira estiver, não comente nada, finja que somos desconhecidos, por essa é a Natally, se ela souber que a senhora trabalha aqui é capaz de conseguir sua demissão ou sabe-se lá o que de pior ela faça, e também por favor, não comente isso com mais ninguém, principalmente desse hospital, eu não posso me arriscar que algum deles sejam informantes da Natally, só confio na senhora porque é a mãe do Mio e sei que é alguém de bom coração. — tentou novamente apelar para os sentimentos de mãe da mulher. — A senhora lembra muito minha mãe, sinto falta de ter alguém que cuide de mim.
— Entendi. — disse ela se retirando do quarto.
Ian ficou ali sentado esperando que tivesse conseguido algum tipo de simpatia daquela mulher, até porque tudo que ele contou não era mentira.
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Mio lanchava no refeitório do curso na companhia de Kame, quando alguém foi até ele levar um recado do diretor.
— Mio, o diretor pediu que você comparecesse a sua sala com urgência pois tem alguém procurando por você lá.
— Na direção? — Mio perguntou para ter certeza, pois era estranho visitas na sala do diretor, sem contar que ele não recebia visitas de ninguém no curso.
— Sim, parece importante, melhor você se apressar. — respondeu a pessoa saindo.
Mio começou a ficar nervoso pensando que algo poderia ter acontecido com alguém de sua família e foram avisá-lo, seu nervosismo era tão evidente que Kame percebeu e se ofereceu a ir com ele até a diretoria ver sobre o que se tratava. Mio aceitou a ajuda do amigo.
Chegando na sala do diretor, ele somente encontrou uma linda mulher loira e bem vestida sentada na cadeira dele como se fosse a chefe da instituição. De inicio, ele não percebeu quem ela era, mas logo depois ele se lembrou de quem ela se tratava, era a garota que Ian tinha escolhido ao invés dele. A sensação de medo e nervosismo, deu lugar a raiva e o ciúmes que tinha por ela.
Ela levantou e andou elegantemente até ele e Kame, parando em sua frente e o olhando dos pés à cabeça, disse:
— Eu estava ansiosa para falar com você, até que é bonitinho olhando-se de perto.
Mio ignorou seu comentário e se fez de desentendido.
— Nos conhecemos, moça?
— Ainda não, mas não seja por isso. Sou a noiva do Ian Rolf, e vim aqui para te convidar para o nosso casamento, queremos que você seja nosso padrinho, pedido especial do Ian, ele sente muito carinho por você ter sido um bom amigo para ele enquanto estava de férias nesse país. — respondeu sorridente entregando para ele um convite com um lindo laço dourado enorme fechando o envelope.
O Sangue de Mio parecia ter sido drenado do seu corpo, porque instantaneamente ele perdeu todas as forças que tinha e uma péssima sensação de falta de ar tomou conta do seu corpo. O desespero daquela noticia repentina o acertou como se tivesse escutado que algum parente seu houvesse falecido. Tentou o máximo que conseguia manter a calma e a pose em frente aquela mulher que sorria satisfeita com sua reação.
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