Stalker
30 O Plano
Notas iniciais

Fazia alguns minutos que Mio aguardava no banheiro vazio daquele andar, a chegada de Rafael para libertá-lo daquela prisão voluntária. O silêncio no ambiente, fazia sua mente gritar sobre as situações que o levaram até ali. Completaria três anos que conheceu Ian, ele nunca imaginou que se envolver com aquele homem que ele passou um ano somente observando escondido, o levaria a cometer tantas loucuras. Se eles estavam destinados a se conhecerem daquela forma, que destino sádico era esse que por tantas vezes fazia suas vidas se cruzarem e logo depois os separava novamente? Quantos obstáculos eles ainda teriam que enfrentar? Mio estava se sentindo cansado mentalmente de tudo aquilo.
Seu coração apertou ainda mais ao imaginar a face de Kame, como pudera fazer isso com ele? Traí-lo com Ian depois de tudo que conversaram pela manhã. Ficou aliviado por ter convencido Kame ir para casa e não esperá-lo depois que pedisse demissão. Ele não seria capaz de encará-lo depois de ter feito amor com Ian e fingir que nada aconteceu. Chorava com raiva de si mesmo, por não conseguir cumprir suas promessas, por ter traído o seu namorado e o maior de todos os motivos: não conseguir desistir de Ian. Natally era uma mulher doente e que agia covardemente contra Ian, mas Mio pensava, no que ele era melhor que ela? Ele poderia não ser ruim para Ian, mas o que ele fazia com Kame, não era uma maldade também?
Ele sabia que Natally era somente um dos milhares problemas que eles tinham, sua família nunca aceitaria seu relacionamento com Ian, assim como a sociedade não os veriam com bons olhos, talvez isso afetasse sua vida profissional. Ian é o vice-presidente de uma empresa famosa, o que seria dos acionistas se ficassem sabendo que ele tem esse tipo de relacionamento? Deixariam de fazer contratos com ele? Isso causaria falência? Mio sabia que a sociedade era machista e homofobia, tinha medo que isso afetasse a vida deles profissional, além da pessoal. Pensou que Ian talvez, não estivesse considerando esse futuro, o que era para ele perigoso.
Mio estava transtornado, o desespero ao analisar tudo aquilo estava deixando seu coração aflito, era uma mistura de sentimentos conflitantes que ele não conseguia mais controlar, chorava como uma criança, se odiava por tudo que tinha feito e decidido, não sabia o que fazer. Um funcionário entrou no banheiro, e ele entrou em um dos boxes que ficava os sanitários, sentou na tampa da privada fechada, encolhendo-se abraçando os joelhos, aguardando o momento que Rafael lhe libertaria dali. Quanto tempo ele ainda precisava esperar? Seria assim de agora em diante? Vivendo no medo de ser descoberto? Escondendo seus sentimentos, fingindo que Ian é somente seu superior e nada mais na frente de seus colegas? Por quanto tempo ele aguentaria ficar nessa farsa? Mio não era um ator, ele não sabia manter seus sentimentos escondidos daquela maneira, era difícil para ele fazer coisas escondidas, por mais que fosse a única forma que existisse para ficar com Ian.
Passou-se tanto tempo pensando nas coisas, que mal notou Rafael sussurrando seu nome entres os boxes, procurando por ele. Abriu e porta e saiu.
— Já posso ir? — perguntou ajeitando a mochila nas costas.
— Sim, está tudo limpo agora. Desculpe, nem o Ian sabia que ela viria para cá hoje, foi de surpresa, que bom que eu te vi entrar na sala dele evitando que ela fosse até lá. Vocês tem muita sorte. — disse Rafael.
— Por quanto tempo? Por quanto tempo teremos essa "sorte"? Eu estou cansado de viver dessa maneira, irei enviar por fax meu pedido de demissão. — disse caminhando para a saída, porém, Rafael segurou seu braço o impedindo de sair.
— Como assim? Você não o ama? Não estavam juntos a pouco tempo?
— Sim, eu o amo, o amo demais até, mas eu não posso viver dessa maneira! Sempre será escondido, eu sempre terei que correr no mínimo sinal que a Natally esteja na empresa, passarei meus dias no medo de que algo aconteça comigo ou com ele, e o pior, traindo uma pessoa que me quer bem por conta de Ian. Isso não é justo, Rafael.
— Eu posso entender que essas coisas não são fáceis, até porque eu acompanho toda essa loucura que é a vida do Ian e, sou um dos que escondem muita coisa dos outros em prol dele. Porém, Mio, ele precisa muito de você, é o amor que ele sente por você que mantém ele ainda lutando na tentativa de arrumar toda essa confusão. Se você desistir dele, Ian também irá desistir de si mesmo e, eu não poderei mais ajudar se isso acontecer, porque não poderei lutar por ele.
—Eu realmente acho lindo a amizade de vocês dois, mas Rafael, a minha vida não pode ser em função de Ian. É sempre ele que tenho que pensar antes de tudo. A chegada de Ian na minha vida tem me trazido mais dor do que coisas boas, eu briguei com minha família por ele, trair meu atual namorado com ele, sou ameaçado de vida por ele, tenho que largar meu emprego por causa dele! Ele não é o único a sofrer com tudo isso, sabia? Quando ele resolver o problema dele com Natally, a vida dele continuará a mesma, ele continuará a trabalhar aqui, ser seu amigo, ter a família dele, e eu? Eu saio perdendo tudo, amigos, família, emprego, tudo! Ian me tirou o sono, o juízo, a confiança, as esperanças, a minha tranquilidade! Eu estou cansado disso, eu... Eu não aguento mais!— disse soluçando ao chorar.
Rafael o abraçou confortando-o.
— Eu entendo, calma, peço que não seja precipitado. Eu entendo a sua posição também, e sei que ele também sabe que as coisas não estão sendo fáceis para você. Acredite. O amor de vocês tem alguns degraus que é preciso serem enfrentados, e vocês devem fazer isso juntos! Depois que vi a maneira que vocês se olham, e falam um do outro, eu acredito que vocês são capazes de vencer todas as barreiras que vierem na vida. Só precisam confiar um no outro. Sobre sua família, se eles realmente te amam, irão aceitar você do jeito que é, e qualquer pessoa que você vier amar e, caso não aceitem, não viva por eles e sim por você! Seja feliz, não se importe com aprovação de ninguém, porque ninguém te pede aprovação para viver. — afastando Mio lentamente, ele continuou falando olhando bem em seus olhos — Meu medo é que vocês desistam um do outro por conta dos empecilhos. Por que sei que o que mantém vocês fortes é o amor que sentem um pelo outro. Eu te juro por tudo que é mais sagrado para mim, eu nunca vi Ian tão empenhado em resolver esse problema, se fosse como aconteceu outras vezes, ele já teria fugido para outro país assim que ela tivesse o encontrado, mas dessa vez ele ficou para lutar e por um ponto final nisso. Por que ele quer ficar com você, se você desistir dele, eu temo que ele se entregue a loucura e faça alguma besteira.
— Que tipo de besteira você se refere? — perguntou Mio curioso.
— A pouco, quando ele entrou na minha sala, eu vi em seus olhos o ódio que ele estava sentindo pela Natally, ele a puxou pela braço levando para fora da sala. Eu não estou com um bom pressentimento sobre a sua paciência com ela, ele está chegando ao seu limite, se ele tentar alguma coisa contra ela em um momento de raiva, ele não irá sobreviver se os seguranças pegarem ele.
— Ian não é esse tipo de pessoa, ele não é violento! — defendeu Mio tentando afastar aqueles pensamentos ruins de Rafael.
— Ele não é violento, mas se você que o ama chegou ao seu limite de aguentar toda essa situação, que limite você acha que ele ainda tem para aguentar tantos anos de perseguição? Ela está pior do que a última vez que a vi, espalha para todos que eles estão noivos, está preparando tudo para um casamento, acredita fielmente que Ian quer se casar com ela, por mais que ele a trate friamente. Eu não sei por quanto tempo Ian irá aguentar viver alimentando a fantasia dela, ela está ficando mais exigente, mais doente. Com você desistindo dele, ele não terá motivos para se preocupar em fazer uma besteira.
Rafael conseguiu deixar Mio muito preocupado, e com razão. O próprio Mio não estava aguentando a perseguição de Natally, imagine Ian que passou tantos anos fugindo dela? Mudando toda sua vida, abandonando seus amigos, terminando relacionamentos porque ela não o permite viver? O único que estava pressionando Mio no momento, era Kame, mas por ser seu namorado e ele lhe dever satisfações, fora isso, sua vida era normal como a de qualquer cara de vinte anos. Mio não morava com Kame, não teria que aturar todos os dias manter uma farsa, diferente de Ian com Natally. Ainda mais depois de passarem aquela tarde juntos, revivendo os bons momentos, o calor do corpo um do outro, ter que voltar para os braços de Natally deve ter sido muito frustrante para Ian.
— Rafael, eu preciso conversar com Ian com urgência.
— Continue na empresa e o verá amanhã.
— Não! Estou muito preocupado agora, eu preciso conversar com ele hoje ainda! Se Ian está no seu limite também, eu preciso tentar manter suas esperanças vivas ainda, para que ele não cometa nenhuma idiotice. Hoje mais cedo, antes de sair, ele me pediu para não esquecer que o amava, e eu não respondi nada de volta sobre isso. Eu percebi que ele esperava ouvir o mesmo de mim, mas eu não consegui falar nada que te desse esperanças, ou acalmasse seu coração. Agora, depois de você me alertar sobre como ele deve estar cansado, tenho medo que ele lembre-se disso e, opte pelo pior.
— Isso não me parece uma boa ideia, mas como estou realmente preocupado com a maneira que ele saiu daqui hoje, acho que irei aceitar seu pedido. Tenho certeza que se ele falar com você, ele poderá ficar mais calmo e aturar por mais um pouco. Mas, como irei fazer você falar com ele sem que ela note? A única maneira atualmente de falar com o Ian sem a presença dela é aqui na empresa. Eu estava pensando em ir na casa dele, mas com você fica meio difícil...
— Eu irei com você, me disfarço, uso peruca, qualquer coisa, mas irei com você! — disse Mio muito seguro de suas palavras.
— Disfarçado? Hmnn, não é uma má ideia, acho que conheço alguém que pode nos ajudar.
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