Stalker

7 Medos e dúvidas


Notas iniciais
Estou tentando adiantar alguns capítulos , já que as aulas começaram... Depois disso não garanto postar com tanta frequência.

Mio acordou com a luz do sol em seu rosto. E uma bela dor de cabeça. Eram nove horas da manhã, confirmou ao ver o relógio no lado da cama. Estava um pouco zonzo e seu corpo não o encorajava a levantar, então resolveu continuar deitado por mais um tempo. Até que lembrou que aquele não era seu quarto e nem aquela era sua cama. Levantou-se correndo tropeçando nos lençóis. Ele adormeceu na casa de Ian. Constatou depois de tentar lembrar fatos da noite anterior.

Viu-se no espelho do guarda-roupa, estava acabado, literalmente. Seu rosto não negava a ressaca. E que roupas eram aquelas? Deveriam ser de Ian... pensou. Ficou feliz com aquele pedacinho de intimidade. Deitou-se na cama mais um pouco, não para dormir, mas para sentir o perfume do seu amado nos lençóis e travesseiros. Tentou se recompor após seu ataque de fã, evitando que o dono da casa não o visse naquele estado. Falando nele... Aonde Ian dormiu? Ele sabia que aquela casa só tinha um quarto então imaginou que ele estivesse na sala. Foi até lá.

Não tinha mais ninguém na casa. Percebeu um recado colado na parte superior da TV de 50 polegadas:

"Desculpe não o acordar, mas você dormia como um anjinho, seria malvadeza da minha parte interromper um sono de anjo. Eu tive que resolver uns compromissos agora cedo, mas deixei algumas coisas já prontas para quando acordasse. Na mesa tem o café da manhã, esquente no micro-ondas caso algo esteja frio. Suas roupas mandei para lavanderia. Ontem você vomitou todo percurso da boate até em casa. Não podia deixá-lo voltar assim, eles prometeram que antes das dez horas da manhã as roupas seriam entregues. Tenho certeza que estará acordando por esse horário. Lembrando que sua mãe não parou de ligar. Prepare-se, ela está muito brava. Contei uma mentirinha para que não seja punido, acho que colou. Deixarei que descubra quando for falar com ela. Tenha um bom dia."

Mio estava encantado com tamanha atenção. Não esperava tanto. Resolveu tomar um banho e fazer seu desjejum. Iria aguardar a entrega da roupa. Aproveitou para explorar mais um pouco a casa de Ian, as partes que ele ainda não tinha visto pelas janelas. Olhou os Shampoos, sabonetes, creme de barbear, pasta de dente. Depois foi para o quarto e olhou o guarda-roupa. Ian possuía muitas roupas de marca, assim como sapatos e relógios. Parecia ganhar muito bem para alguém que morava em um bairro de classe média. Naquele instante percebeu que na verdade não sabia quase nada sobre ele. Quem eram seus pais? De onde veio? Se teria irmãos... Não sabia nada sobre seu passado.

Sua cabeça encheu de perguntas e dúvidas. Pelo menos tinha uma certeza, ele era solteiro.

Ouviu o barulho da campainha, era o entregador da lavanderia. Ficou um pouco triste, porque significava sua volta para casa. E assim o fez.

Chegando em casa sua mãe o esperava sentada na poltrona colocada estrategicamente de frente pra a porta.

— Veja só quem resolveu aparecer depois de uma noitada com mulheres desconhecidas pegando bactérias e possíveis doenças venéreas.

— Pode respirar agora mãe — brincou ele por ela ter dito a frase sem pausar — E bom dia para você também.

— Eu te criei para isso Mio Kimura? Você pelo menos usou preservativo?

— Do que você está falando? — neste momento recordou da mentirinha do Ian e logo sacou do que se tratava — Ah sim, usei todos os preservativos possíveis. Obrigado, irei dormir — disse seguindo para o quarto. Ela foi atrás.

— Depois que conheceu esse homem, você mudou! Não estou te reconhecendo!

— Depois que conheci o Ian, percebi que existe vida atrás das janelas. A vida que o Nan e Hayato já vivem a tempos. E a senhora nunca os questionou sobre isso — disse ao fechar a porta. Ela ficou por um tempo reclamando mas ele não deu importância. Trocou de roupa e deitou-se na cama. Ficou pensando no grande passo que deu em relação a Ian. Ele queria muito ser amigo dele e parecia que tudo estava caminhando para que isso acontecesse. Mentira, ele queria algo mais que amizade. Queria amor. Sim, queria que o Ian gostasse dele.

Ele nunca pensou sobre sua orientação sexual, nunca percebeu para falar a verdade. Era primeira vez que se apaixonava por alguém. E queria muito confessar esse sentimento, falar, perguntar o que deveria fazer. Havia alguém que poderia escutá-lo. Pegou o celular e discou para um número:

— Diga maninho! O novo não virgem do pedaço! — respondeu do outro lado um uma voz masculina jovial.

— Nan, eu preciso falar com você, sobre coisas minhas, pode ser?

Nan era o irmão do meio e mais próximo do Mio. Tinha apenas 24 anos. Adorava sair e era considerado pela mãe o rebelde da família por sempre expor suas opiniões. Era alguém perfeito para dar conselhos.

— Nan ...err... — pensava ele como diria — eu estou gostando de alguém.

— Da garota com quem ficou ontem?

— Não... na verdade não existe nenhuma garota. Apenas dormi de tão bêbado na casa de um amigo.

— O primeiro PORRE do meu irmãozinho e eu não estava por perto! — gargalhou do outro lado da linha.

— Falando sério. Eu gosto de alguém e é um homem — mandou direto a frase.

— (...) — seu irmão ficou alguns minutos mudo na linha — Isso é sério ou só zoação?

— Sou alguém que brinca de zoar com você?

— Uol... hammm, bem ... O que dizer em uma hora dessas... Era de se esperar.

— COMO ASSIM?! — perguntou Mio estranhando.

— A mãe te criou como se fosse feito de porcelana. Normal que virasse gay. Aliás, desconfiava que isso aconteceria. Sempre apresentava as amigas das minhas namoradas e você não dava bola a nenhuma.

— Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Além do mais eu nunca curti o tipo de meninas que você namora. Acredito que outro tipo poderia me agradar...

— Tipo barbuda e com músculos? — soltou mais uma gargalhada no telefone.

— Vai ser assim? Vou desligar!

— Espera! Calma! E você por acaso já ... sabe ... com seu namorado?

— Ele não é meu namorado e nem sabe dessa minha opção sexual. Ele sai com garotas. Não é gay.

— Assim complica. Bom, se quer meu apoio para falar com a mãe e o Hayato sobre sua opção sexual , pode deixar. Quero mais que seja feliz, mesmo que seja dando o rabo por aí ... — não resistiu soltar mais uma piada.

— Ok engraçadinho, vá à merda! — e desligou o telefone.

Logo em seguida recebeu uma mensagem de texto do irmão dizendo que deveria procurar saber do rapaz se tinha alguma chance. Ele refletiu sobre isso. Ian o tratava bem e era muito carinhoso, mas não demostrava sinal de ter esse tipo de relação com homens.

Recordou de uma situação, logo no início quando Ian se mudou para o bairro. De tê-lo visto muito íntimo de um rapaz. Jurava que os dois se olhavam enquanto tomava uma xícara de chá ou café.

Começou a chover forte nessa hora. Mio odiava tempo de chuva. Quando chovia a janela ficava embaçada e desse modo sua visão da casa de Ian era prejudicada. Mesmo assim, encostou a cabeça no vidro e tentou olhar para o outro prédio. Percebeu um borrão na casa do outro. Era Ian, bebendo algo enquanto olhava para sua janela.

Ele não reagiu, ficou parado. Até que seu celular tocou:

— Bom dia, o anjo dormiu confortável em minha cama?

— Bom dia ... er... desculpe pelo trabalho que dei ontem. Imagino que não me chamará nunca mais para sair.

— Não se preocupe com isso. Era sua primeira vez em uma boate, não é?

— Sim — confessou por falta de justificativa — Mesmo assim, me desculpe.

— Então, como foram as coisas com sua mãe? Ela está mais tranquila agora?

— Ela acha que sou o mais novo cafetão da cidade.

— Ha ha ha, lamento. Pensei que ela entenderia ao dizer que estava com uma garota.

— Minha mãe é possessiva demais. Não entende nada que ela não esteja incluída.

— Entendi.

— (...) — perpetuou um longo silêncio entre ambos. Foi Mio que quebrou o gelo.

— Ian... Você mora sozinho por quê?

— Porque já sei me cuidar.

— E seus pais o que acham disso?

— Hmm ... como posso explicar para alguém que vive ainda com a mãe...- brincou .

— OK! Não precisa! — disse Mio, ríspido com comentário do amigo.

— Desculpe, não sei o porquê, mais adoro te tirar do sério. Deve ser por aparentar inocência.

— "Sou um inocente vivendo em um mundo pervertido" — zoou Mio depois de perceber que Ian só estava brincando como qualquer amigo faria.

— Pois bem, Mio-chan — pausa pra risadinha — Eu e meu pai não concordamos com muitas coisas e para evitar as constantes brigas na frente de minha mãe, resolvi morar sozinho. Como tenho um bom emprego e posso me sustentar, achei o melhor a fazer. E antes que me pergunte, sou filho único.

— Mais não sente falta deles?

— Sinto as vezes, estou sempre em contato com minha mãe. Meu pai não falo muito, mas ela faz questão de repassar as preocupações dele comigo.

— Você tem um sotaque, fraco mais notável. De onde é?

— OH!Notato il mio accento italiano, buona!

— O quê???

— Sou italiano, nascido em Roma. Tenho dupla cidadania, me madre é japonesa, e meu babbo italiano, capisci?

— Entendi, isso explica seu jeito descontraído. Os italianos realmente sabem ser espontâneos.

— Com o tempo você se acostuma.

— É verdade, tem outra coisa que gostaria de te perguntar.

— Sinta-se à vontade.

— Quantos anos você tem?

— 27.

—Não deixou nenhuma namorada na Itália? As mulheres de lá são bonitas.

— São maravilhosas, es vero. Sim, deixei.

— Sério?! — perguntou Mio sem conseguir esconder surpresa.

— Seríssimo! Deixei uma noiva. Falando nela... acho que vem me visitar esse fim de mês.

— Eu pensei que fosse solteiro, você disse que era de todo mundo... — sua voz não disfarçava sua decepção.

— Sim e sou. Ela está acostumada com isso.

— Ok...

— Impressão minha ou sentir um desânimo em sua voz?

— Por que ficaria desanimado?

— Era o que esperava que me respondesse.

— Um homem não tem motivos para fica triste com noivado do outro...

— Depende. Se esse homem não estivesse interessado no outro.

— O que quer dizer?

— O que já estou dizendo — falou Ian sério.

— Continuo sem entender — respondia Mio nervoso.

— Então deixe-me explicar. Quando estava bêbado em minha casa, você confessou que espiava-me pelas janelas. Convenhamos que isso não é algo normal, não concorda?

— Oras... não era exatamente espiar... era tipo... só de vez em quando... é... quando estava de bobeira em casa.

— Ainda sim isso não é normal, não quando um homem espia outro. Será que não fazia isso por estar interessado em mim?

Mio ficou tão constrangido com a dedução correta do Ian que sua única reação foi desligar o celular.

Tirou a bateria e jogou no chão, depois fechou as cortinas do quarto.

O que ele faria? Ian descobriu seu maior segredo. Com certeza nunca mais iria querer vê-lo. Estava desesperado, as lágrimas não paravam de cair. Seu mundo desabou.