Stalker
49 Futuro
Notas iniciais

Anabella e Mio estavam na casa de Rafael, assistiam tudo que acontecia no apartamento de Ian diretamente na TV dele, com direito a escolha das câmeras.
— Essa mulher é realmente sinistra, olha só como ela fala com as funcionárias? Parece que tem um rei na barriga! — reclamou Anabella.
— Esse é o jeito de gente rica, acho que é por conta disso que ninguém percebe o quanto ela é perigosa. Parece somente uma garota mimada.
— Mas, mudando de assunto... Essa tecnologia de Rafael é bem melhor que espiar pela janela né? — brincou com ele, dando pequenos empurrões com os ombros — ela tentava distraí-lo, desde que chegaram na casa de Rafael, Mio tremia e se mantinha muito sério. Era medo e ansiedade preocupando aquela jovem mente. Anabella achou que deveria fazer alguma coisa para animá-lo.
— Ana... Você acha que depois de tudo isso acabar, eu e Ian ainda podermos ser alguma coisa? — perguntou para ela sem tirar seus olhos da imagem de Ian na tela.
— Não tenho a menor dúvida, vocês nasceram para ficarem juntos! Fique tranquilo, tudo dará certo, vocês irão se beijar muito! — disse o abraçando, depois chamou a atenção dele para o que acontecia na TV — Oh, será que é o Rafael agora? Chegou alguém, passe para imagem da câmera da entrada. — pediu ela.
Mio pegou o controle, e escolheu a opção de visualizar as imagens da câmera um, que ficava na entrada do apartamento, de frente para o corredor e elevador do andar. Quando viram quem aguardava do apartamento de Ian, Mio levantou do sofá desesperado.
— O que foi, Mio? Por que levantou assim de repente? — perguntou a amiga sem entender.
— Ana, é o Kame! — respondeu andando para um lado e para o outro, olhando várias vezes para a tela — Meus deus, o que ele foi fazer lá? É perigoso! Além que ele pode estragar tudo! Nós temos que tirá-lo de lá, sei como Kame é, ele irritado pode causar um enorme tumulto. Sem contar que ele odeia o Ian, certamente foi lá procurar briga, apesar que não faço ideia por qual motivo. — puxou a amiga, fazendo com que ela levantasse do sofá— Vamos, precisamos ir para lá.
— Calma, Mio! — pediu ela — Você esqueceu o motivo de estarmos na casa de Rafael? Ela colocou assassinos atrás de você! Não podemos sair, além que os seguranças de Rafael não deixariam.
— Eu não posso ficar aqui sentado vendo o Kame estragar as coisas, veja, ele e o Ian estão discutindo, isso não vai dar certo! Podemos sair pelos fundos, os seguranças dele estão tomando conta somente da entrada, pulamos o muro, fazemos qualquer coisa! Prometo ser cuidadoso, mas preciso ir lá agora. Se você não vier, irei sozinho! — ameaçou.
— Eu acho que deveríamos ir com mais calma, vamos procurar algo que sirva para te disfarçar, você de qualquer maneira, terá que entrar no prédio, e provavelmente os aliados dela estarão lá no seu aguardo. — Anabella começou a invadir os quartos, até encontrar o quarto do dono da casa, sem cerimônia, começou a vasculhar armários e gavetas, atrás de alguma coisa que servisse de disfarce.
No fim, encontraram um gorro, um falso óculos de grau, pegaram emprestado uma camisa, e para esconder o rosto, Mio iria fingir estar gripado, para usar o lenço como pretexto quando passasse próximo a algum conhecido. Seguindo a ideia do mais novo, esses dois saíram pelos fundos, onde atrás da piscina tinha um muro que dava para o pátio da casa vizinha, onde era fácil ver a pequena cerca que dava para saída. Como o muro não era muito alto, escalaram, Anabella com um pouco mais de dificuldade por estar usando vestido com espartilho. Pegaram um Táxi, assim que chegaram na rua principal, indo direto para a casa de Ian.
Quando chegaram no prédio, conseguiram passar sem serem notados, o porteiro estava ocupado atendendo reclamações sobre muito barulho, que Mio logo entendeu que deveria ser os barulhos da casa de Ian. Pegaram o elevador até o sexto andar, aliviados por não encontrarem nenhum segurança de Natally os aguardando. Ao chegar no corredor, acharam estranho não encontrarem mas Kame.
— Será que ele foi embora? — perguntou Anabella.
— Do jeito que ele estava irritado? Duvido muito, devem estar discutindo lá dentro. Precisamos tirá-lo daqui. Com esse disfarce podemos fingir ser parentes dele, e arrastar-lo para fora. Assim, manteremos a segurança dele e a nossa.
— Sério que esse é seu plano? — desdenhou ela — Você tem assistido filmes demais, Mio.
— Você tem um plano melhor? Se tiver, seria uma ótima hora para compartilhá-lo.
— Eu toco a campainha, digo que sou a namorada dele e que ele bebeu além da conta, pego ele e saímos.
— Como você é brilhante...— ironizou batendo palmas — Seria uma pena se ele te desmentisse na frente de todos, simplesmente por não te reconhecer de lugar nenhum e ...— ele interrompeu sua fala ao ouvir barulhos de gritos vindo do apartamento de Ian.
A voz de Natally ecoava por todo corredor, fazia sentido os vizinhos estarem reclamando com o porteiro, que ao mesmo tempo era sindico.
— O Kame deve ter criado uma grande confusão lá dentro, precisamos salvá-lo! — alertou ele correndo para o apartamento e tocando a campainha.
Quando a porta abriu, todos olharam para eles curiosos, mas não tiveram muito tempo de questionar sua presença ali, Natally em um excesso de raiva, começou a gritá-lo, xingando, e muito rapidamente veio correndo em sua direção com uma faca na mão. Mio ficou sem reação, seu corpo tremia, sua pernas não lhe obedeciam, e pelo visto Anabê também estava na mesma situação.
Quando estava preste a ser perfurado por aquela enorme faca prateada, Mio fechou os olhos esperando pelo pior, mas um peso enorme caiu em cima dele, gritos de desespero e surpresa o alertou do que havia acontecido. Caído, em cima dele, no chão, estava Ian, sagrando com a faca encravada em suas costas. Ele havia se jogado na frente dele, para evitar que Natally o golpeasse. Uma atitude imprudente e impulsiva, mas que acabou salvando sua vida. Porém, aquilo deixou Mio assustado, não conseguia acreditar que aquela cena fosse realmente séria. Suas mãos tocaram o corpo de Ian tremendo, ele caiu sentado com Ian por cima dele. O pior de tudo era que Ian não se movia, nem respondia as pessoas ao seu redor chamando por seu nome, Mio estava muito aflito, as lagrimas estavam o cegando, só via vultos passando ao seu redor. Vultos pretos, assustadores, que ele pensou estarem atrás de Ian. Seria a morte querendo o levá-lo? Ele não permitiria. Quando sentiu que algo arrastava o corpo imóvel de Ian, ele o agarrou com força, puxando o corpo pra si.
— Soltem ele! Soltem ele! — gritava.
— Mio, você precisa soltar ele para levarmos ao hospital o mais rápido possível — pediu alguém, mas Mio estava com muito medo, e não conseguia identificar quem falava, ou de onde a voz vinha.
Anabella se juntou a ele no chão, o abraçando por trás, e pedido para que ele soltasse Ian.
— Mio, precisamos salvar ele, solte-o por favor. Vamos ao médico, ele ficará bem.
Aos poucos, ele foi voltando a realidade e vendo que os vultos nada mais eram que os convidados da festa. Ouviu Rafael ordenar trancarem Natally no banheiro até a policia chegar, uma mulher chorava perto deles, segurando os pés de Ian, outra chorava horrorizada do outro lado da sala. E tinha uma versão mais velha de Ian brigando com outro homem.
Anabella o ajudou a levantar e deixar o corpo de Ian, Mio notou que o corredor já estava cheio de expectadores, que finalmente saíram de suas casas para observar o que acontecia no apartamento. Ele lembrou do dia que salvou Ian, eles também estavam lá. Rafael assumiu a dianteira, dando as ordens para o porteiro chamar a policia e uma ambulância, ele mesmo prestou os primeiros socorros a Ian, colocando ele em posição de recuperação, deitado de lado, removeu a camisa dele que já estava aberta, e deixou exposto o ferimento nas costas.
— O que pensa que está fazendo? — gritou o pai de Ian, tentando afastá-lo do filho.
— Eu servi ao exército por três anos, antes de ir para faculdade, sei o básico de primeiros socorros a vítimas de facadas. Não posso deixá-o nesse estado enquanto a ambulância chega, cada minuto que ele perde sangue, piora sua situação. — depois de explicar, procurou na sala quem parecia menos em choque para auxilia-lo, e notou que a amiga de Mio aparentava ser a mais calma. Então solicitou a sua ajuda. Pediu que ela buscasse na casa toalhas limpas e secas, e que as molhassem levemente. Ela assim o fez, com a ajuda das funcionarias de Natally, rapidamente trouxe até ele tudo que pediu.
Rafael passou a toalha úmida nas costas do amigo, deixando mais visível a abertura feita pela faca. Após ter feito isso, ele pegou as toalhas secas e colocou em cima do ferimento, pressionando para evitar mais perca de sangue. Ficou naquela posição até a chegada da ambulância.
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Depois que Ian foi levado para o hospital, Rafael se viu obrigado a ficar no apartamento dando depoimento do que aconteceu à polícia. Mio, Anabella e os pais de Ian, seguiram para o hospital. Segundo um dos enfermeiros, o estado de Ian era grave, pois além da facada ter sido funda, e a quantidade de sangue perdido, o objeto que Natally usou para esfaqueá-lo, não estava limpo, causando uma infecção no local. Graças ao primeiros-socorros que recebeu de Rafael, as coisas não ficaram piores. Todos aguardavam noticias no corredor, da cirurgia que ele fazia no momento.
— Você... — chamou o pai de Ian, Mio.
Eles estavam sentados um de frente para o outro, Mio com Anabella ao seu lado, e ele com a sua esposa em prantos. Mio estava nervoso com a operação que Ian estava passando, e só agora caiu sua fixa que aquele era o pai dele, o homem que abominava o tipo de relação que eles tinham, deixando ele muito mais nervoso.
— Quanto tempo vocês dois andavam saindo? — perguntou o pai de Ian.
— Nossa relação é complicada, mas praticamente quase dois anos...
— Onde se conheceram? Nessas baladas onde pessoas como vocês costumam andar?
— Não, não. Eu nunca fui em um lugar assim. Na verdade nossa amizade começou quando eu o salvei de morrer por gás de cozinha. Quando os seguranças da Natally atacaram a primeira vez. Acabei vendo a cena pela janela do meu quarto, que fica de frente para sala dele, e corri para ajudá-lo.
— Entendo... — respondeu pensativo — Mas vocês estão, sabe...Namorando?
— Não. Ele não é o único que tem problemas com a família por não aceitar nossa formar de amar. — Mio deu uma pausa, respirou fundo e voltou a falar — Desde quando começamos a sentir algo um pelo outro, que as pessoas tem tentado nos atrapalhar, e por mais que a gente se ame, nunca conseguimos ficar juntos.
O silêncio dominou o corredor onde estavam, o pai de Ian não fez mais nenhuma pergunta, mas depois de um tempo, o homem voltou a falar.
— Desculpe, eu ainda preciso de um tempo para absorver. Mas, eu agradeço por você salvar meu filho pela primeira vez, e por ajudá-lo a se tornar um homem de valor. Eu nunca imaginei na vida que o Ian pudesse dar sua vida para salvar a de outra pessoa, do jeito que ele fez hoje. O que ele sente por você, não é algo passageiro como imaginava.
— Ian vem salvando minha vida, desde o dia que o conheci, Sr. Quando tirei ele daquele apartamento cheirando a gás, não foi somente eu que o ajudei, ele me ajudou. Eu vivia trancado em casa, sem contato com outras pessoas que não fossem da minha família, sobrevivendo a cada dia, sem emoção, felicidade e amor. E ele me ensinou que tudo isso eu poderia ter. Mesmo sem o apoio inicial da minha família, eu consegui ser mais maduro, e fazer as coisas sozinho.
— Eles não aceitam o relacionamento de vocês?— dessa vez, foi a mãe de Ian que fez a pergunta, ela enxugava as lágrimas com um lenço bordado.
— Não, até entendo. Tudo que eu faço para eles é novo, então eles acreditam que tudo não passa de uma fase de experiência por ter saído do meu quarto para conhecer o mundo. Mas, o que sinto por Ian, vai além disso. É verdadeiro.
— É uma pena que não terei um neto... — tentou brincar o pai de Ian.
— Eles podem adotar. — se intrometeu, Anabella.
— É, podem... Quem sou eu para julgar as decisões de dois homens adultos? Eu, um péssimo pai, um péssimo exemplo de ser humano. Que abandonou seu filho no mundo para manter os negócios com a família de Natally. Neguei ajuda ao meu único filho, ele deve me odiar agora. Se ele morrer, eu nunca me perdoarei.
— Não fale isso, Sr. Rolf! — pediu Mio, temendo a palavra morte naquele corredor — A Natally era uma excelente atriz, enganou até os próprios pais, é normal achar que seu filho estava somente blefando, já que ela não demostrava nenhum comportamento abusivo. Tenho certeza que Ian não vai odiá-lo, e ele ficará bem. Vocês voltaram ser uma família unida novamente.— finalizou.
— Obrigado, pelo apoio. Espero que sim.
O médico encarregado pela cirurgia de Ian, apareceu trazendo noticias da operação. Todos levantaram-se, e foram para perto dele.
— Boa noite, a cirurgia foi bem sucedida, controlamos o sangramento e a infecção. Ele teve sorte de nenhum órgão importante ser sido atingido, apesar de chegar muito próximo. As coisas ficaram complicadas anteriormente, devido ele ter duas costelas quebradas, e está desnutrido. Ele será levado para sala de observação e por enquanto, não será permitido visitas. Por conta da dor que irá sentir, ele ficará sedado maior parte do tempo, mas avisaremos quando as visitas forem liberadas e ele estiver acordado para recebê-los. — disse o doutor.
— Agradecemos muito por salvar a vida do meu filho, obrigado. — disse a mãe de Ian.
— Eu ajudei, mas agradeça mesmo quem deu os primeiros socorros. Fez um excelente trabalho, e evitou que as coisas ficassem piores. Bom, tenho que ir agora. Tenham uma boa noite.
— O Rafael é realmente fantástico! — disse Anabella — Além de se manter calmo diante uma situação monstruosa, expôs Natally, e salvou a vida de Ian! Incrível! Irei ligar para ele informando a situação de Ian, ele me pediu antes de sair.
— Você pegou o número dele? — perguntou Mio.
— Na verdade, ele que me deu seu cartão e pediu que o mantivesse informado.
— Agradeça ele por mim, por favor.
— Tudo bem, irei para um local onde o sinal pegue melhor, já volto. — disse ela saindo.
— Preciso levar minha esposa de volta para o hotel, ela precisa tomar os comprimidos para pressão. Hoje foi um dia muito agitado para nós dois. Deixarei meu filho, por enquanto, em seus cuidados. Toma. — disse o homem mais velho, entregando um cartão de visitas — Me telefone caso surja alguma novidade.
— Tudo bem.
Mio viu quando os técnicos levaram Ian para o quarto, ele os seguiu, mas não pôde entrar. Ficou observando colocarem ele na cama, e as aparelhagens em seu corpo. Ele queria tocá-lo, alisar seu cabelo, beijar sua testa e sussurra em seu ouvido que tudo ficaria bem, que ele estava ao seu lado. Queria reclamar também, por ele ter se jogado imprudentemente em sua frente, se ele morresse por sua causa? Como viveria com essa culpa? Amava Ian demais para conviver com ela, morreria para se encontrar com ele. Será que agora os dois terão o direito de se amarem sem medo? Para Mio, essa pergunta ainda não tinha uma resposta.
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