Stalker
17 A ameaça
Notas iniciais

Era raro seu celular tocar tão tarde, às três horas da manhã ele já estava deitado em sua cama, quando ouviu o som da ligação instintivamente pensou em uma única pessoa. Estava tão esperançoso apesar de tudo que havia acontecido que pegou o telefone desesperado, porém quando atendeu já tinham desligado. A sensação de que aquela ligação era importante, apertava o seu peito e ele não entendia o motivo.
Mesmo percebendo as intenções de Kame com ele, Mio carregava consigo a esperança de Ian voltar e explicar tudo que estava acontecendo, mesmo sem garantias que isso um dia fosse acontecer, ele queria acreditar que aquela promessa e os momentos vividos juntos foram reais. Tentou retornar a ligação para o número que havia ligado para o celular dele, mas não obteve sucesso. Pouquíssimas pessoas tinham o número daquele celular, ele comprou um novo chip quando começou o curso, então as únicas pessoas que possuíam aquele número antigo era sua família e Ian. Por conta disso suas esperanças estavam renovadas, mesmo que a noite ele tenha sucumbido aos toques ousados de Kame, seu coração continuava preso a sua promessa com Ian.
Sentindo-se ordinário por não conseguir ir em frente como jurou para si mesmo, começou a chorar desesperado. Não foi um choro por abandono, e sim pela sensação ruim que sentia sobre Ian, algo dizia que ele não estava bem, e ele temia isso, mesmo que ele não fosse mais nada no coração desse. Talvez por nunca ter escutado de sua boca que eles tinham terminado e que tudo que passaram não foi nada mais que uma brincadeira, sua mente não conseguia aceitar que Ian pudesse ser um crápula como descrito por seu irmão.
Quando chegou do jantar com Kame mais cedo, sua mãe o esperava na sala totalmente acordada em busca de informações que ela achasse importante. Porém, quando viu que Mio não parecia estar bem, ficou calada e o deixou em paz. Ela sabia que ele chorava todas as noites depois que o homem que ele salvou do outro prédio deixou de visitá-lo. Nunca perguntou o que aconteceu entre eles depois da viagem, e achou que foi o melhor que aconteceu ele ter sumido. No entanto, naquela noite ela estava preocupada, porque fazia semanas que ele não caia em prantos como fazia agora, bateu na porta do seu quarto tentando iniciar um conversa, entrou e o encontrou sentado na cama com as mãos apoiando a cabeça. Sentou-se ao seu lado, colocou ele para deitar com a cabeça em seu colo, deixando que ele chorasse à vontade.
— Você encontrou aquele vizinho de novo? — perguntou.
— Não.
Mio ficou surpreso por ela fazer aquela perguntar sem gritar e nem ser em um tom ameaçador.
— Então por que você está chorando? O seu amigo te tratou mal, aconteceu alguma coisa nesse jantar?
— Não, o Kame foi muito bom comigo, só estou chorando por coisas minhas que ainda não conseguir superar.
— Tipo o quê?
Mio precisava desabafar naquele momento com alguém, não conseguia mais manter seus sentimentos escondido dentro dele, estava transbordando de agonia.
— Mãe, eu não consigo esquecer o Ian, você pode não entender meus sentimentos por ele, mas eu realmente o amo, amo muito! Eu queria entender o que aconteceu entre a gente, por que ele despareceu, por que não me explicou nada! Sinto que não conseguirei ir em frente sem ouvir as respostas saindo de sua boca, eu preciso encontrá-lo e tirar essas dúvidas.
— Não acho que essa seja uma boa ideia...— reagiu ela mostrando desconforto.— Além do mais, seus irmãos não querem isso.
— Eu não me importo com a opinião deles, eu preciso saber de Ian o que ele pensa sobre mim para eu conseguir seguir em frente. — ele voltou a sentar ao seu lado e olhando com os olhos vermelhos e lagrimejados insistia: — Eu preciso, mãe!
— Se você ouvir dele o que tem a dizer, você irá desistir dessa ideia absurda de ter algum tipo de relacionamento com ele, não é? Se for assim, posso tentar falar com o porteiro do prédio dele e deixar um recado para ele comparecer em nossa casa em um horário que seus irmãos não estarão.
— Não adianta, já perguntei ao porteiro de lá e ele me informou que o Ian não mora mais no apartamento.
— Então, o que mais você quer? Isso não é prova o suficiente de que ele não vale nada?
— Não, algo me diz que alguma coisa aconteceu, por isso está tudo tão confuso desse jeito. Por favor, mãe, me ajude a descobrir!
— Eu posso tentar falar com algumas irmãs da igreja que moram naquele prédio se sabem alguma coisa sobre ele. É o máximo que posso fazer! — foi logo avisando.
— É serio, mãe? — perguntou Mio euforicamente feliz — Obrigado, te amo muito!
— Nessa horas você ama, não é? Agora tire essa roupa de rua, não deveria estar sentado na cama usando elas, sabe quantas bactérias está levando para sua cama?
— Tudo bem, tiro agora mesmo.
Ele tirou toda sua roupa e a entregou ficando somente de samba- canção, já ia para o banheiro quando sua mãe assustada chamou sua atenção.
— Mio! Aonde você se machucou para ganhar essa marca em seu peitoral?— perguntou passando a mão no pequeno hematoma meio roxeado que ele esboçava em sua pele clara.
Mio por um momento não lembrou, depois se recordou dos chupões que Kame deu em seu peito e de como ele tem facilidade de ficar com marcas no corpo. Obviamente, ele não poderia dizer aquilo a sua mãe, principalmente porque ela via Kame como um rapaz respeitoso e direito. Se soubesse o que ele tentava fazer com ele em um banheiro de restaurante...
— Ah... Isso? Bom... Mas cedo sentir uma picada e... e fiquei coçando e coçando, acho que machuquei sem querer. Sabe né, sou branco demais... Sou fácil de ficar com hematomas, mas nem doí mais, não se preocupe irei agora para o banho. — disse saindo correndo para o banheiro.
Ela achou a história um pouco estranha, mas não passou pela sua cabeça nada do que realmente tinha acontecido, comentou com ele que deixaria uma pomada para ele passar no local e saiu do quarto levando suas roupas.
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Assim que Ian abriu os olhos, percebeu que não estava mais no quarto do Hotel onde estava hospedado. Uma fina e fraca luz entrava pela janela, e ele tentava, um pouco zonzo, identificar aonde ele estaria, e percebeu que estava em um quarto de hospital. De longe, escutou uma voz.
— Olha só quem finalmente acordou? O Belo adormecido. — disse uma mulher que ele logo percebeu ser uma enfermeira.
Simpática e sorridente, ela ajeitava seu travesseiro atrás da sua cabeça. O momento de conforto e paz não demorou muito, porque a próxima voz que escutou era bastante conhecida.
— Meu amor, finalmente você voltou a vida! — dizia Natally abraçando ele.
Ian virou o rosto para o lado, ignorando a sua tentativa de beijá-lo.
— Sua noiva é um amor de pessoa, você é um rapaz de sorte. Acredita que ela mal saiu do seu lado nesses três dias que esteve internado no hospital? — confessou alegremente a enfermeira enquanto checava sua temperatura e pressão.
— Sorte? — perguntou ele em tom irônico.
— Rute, ele já está melhor? Podemos sair desse hospital? — perguntava Natally mostrando intimidade com a enfermeira. Ian olhava para sua cena teatral, percebendo como ela conseguia passar uma aura inocente e gentil para as pessoas.
— Tenho que passar as informações para o doutor, dai ele vem verificar tudo corretamente para dizer se pode ou não liberá-lo. Mas, pelo que estou vendo, ele está bem melhor, é possível que receba alta.
— Espero que sim, estou tão cansada de passar nossos dias nesse hospital...
— Já, já vocês voltarão para sua lua-de-mel! Garanto. — disse ela piscando para Natally.
— Lua-de-mel? — perguntou Ian confuso — Esse é o nome que usam para inferno astral?
Natally começou a ri da situação como se ele tivesse contado uma piada.
— Esse meu noivo é tão engraçado, só porque cortou a mão e ficou de cama um pouco já considera nossas férias um inferno. Isso vai passar amor, voltaremos para o nosso amor de sempre juntinhos. — disse beijando seu rosto.
— O bom é que ele acordou de bom humor, irei agora e deixarei os pombinhos à sós. — disse a enfermeira saindo.
— Noiva? Lua-de-mel? Não tinha uma desculpa melhor para dar?
— Você queria me desmentir na frente dela, idiota? — falou ela exaltada — E que diabos você estava fazendo bebendo na madrugada na sacada com as mãos sangrando? Sabe o susto que levei ao te encontrar desmaiado em uma poça de sangue, quase roxo? Estava tentando cometer suicídio, por acaso?
— E falhei na missão... — brincou ele, mas ela não gostou nem um pouco.
— O gerente do hotel veio me informar que um telefone havia sido jogado da nossa sacada, e por pouco não atingiu alguém que passava. — se aproximando dele na cama, apoiando os braços em volta do seu corpo para encará-lo, ela continuou — Não ligou para o albino que você saia não é? Por que não serei boazinha com ele de novo se me aparecer aqui no hospital ou em qualquer lugar procurando você.
Ian ficou enfurecido em ouvir aquela ameaça, estava farto de ficar correndo por temer Natally, emanando de raiva acabou tomando uma atitude que nunca havia tomado na vida, segurou o rosto dela apertando os dedos fazendo com que uma bochecha encostasse na outra.
— Se você fizer alguma coisa com ele, eu te mato Natally! — falou por entre os dentes.
Natally ficou assustada, não conseguia afastar-se dele, batia em seu peito na tentativa de fazer ele parar, e quando estava se soltando, ele a puxou pelo braço novamente.
— Você entendeu o que eu disse?
— Giusepe! Luigi! — gritou ela para seus seguranças que faziam guarda do lado de fora do quarto.
Vendo sua patroa tentando se desvencilhar de Ian, eles chegaram violentamente em cima dele, dando socos. Ian a soltou para poder se defender da agressão, e eles só pararam quando Natally gritou ordenando fazê-lo.
— Sabe o que mais? — começou ela com sua ameaça — Eu farei seu querido albino te odiar, ele nunca na vida vai querer ficar com você! Você vai sofrer vendo ele com outra pessoa, só assim você dará valor aos meus sentimentos! — ela pegou a bolsa no sofá e ordenou que os seguranças ficassem de guarda na porta.
Ian não conseguiu entender a sua ameaça.
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