Stalemate
28 XXVIII. Abandono - Final
Notas iniciais

– Mello, por favor... Será que não tem outra opção?
Mala pronta. Dinheiro. Armas. Chocolate. Tudo empacotado. O que Mihael Keehl precisaria dali em diante estava em uma bagagem média em sua mão, que pesava mais do que aparentava. A roupa do corpo, sempre tão chamativa, hoje se encontrava como qualquer outra: moletom de frio branco mais escuro nas mangas e na gola, calça jeans e tênis. Para onde iria, luxo era dispensável.
– Não me ignora, por favor. – os olhos verdes de Mail Jeevas se enchiam de pesar, o coração de seu colega de quarto apertando-se com a cena.
– Matt... – ele suspirou, olhando para qualquer lugar exceto aqueles orbes chorosos. – Não deixa isso mais difícil.
– MAIS DIFÍCIL? – Matt exclamou incrédulo. – NÃO TEM COMO SER MAIS DIFÍCIL! VOCÊ QUER IR EMBORA SOZINHO E ME DEIXAR AQUI! – ele explodiu, as lágrimas rolando descontroladas pelas bochechas.
Mais cedo, naquela mesma manhã, Near e Mello foram chamados pelo coordenador do orfanato, Roger Ruvie. Segundo ele, uma mensagem acabara de chegar em seu celular.
Uma mensagem que mudaria tudo.
– Mello, Near... – Roger falou, se esforçando para manter a voz calma. – L e Watari... Estão mortos.
– M-mortos? – o choque, a descrença e o desespero passaram pelo rosto de Mello. – M-mas como?! E-eles foram mortos por Kira... foi isso?
– Provavelmente... – o outro respondeu com um suspiro. Seus olhos estavam vermelhos: com certeza estivera chorando por Watari.
Mello correu até ele, puxando-lhe a gola.
– ESTÁ ME DIZENDO QUE L PROMETEU MANDAR KIRA PARA A FORCA... E ELE E WATARI ACABARAM SENDO MORTOS?
– Mello... – o idoso não sabia como reagir.
– Quem não ganha um jogo... ou monta um quebra-cabeça... Não passa de um perdedor. – Near falou sem se alterar, como sempre, enquanto desmontava seu quebra-cabeça preferido.
Mello trincou os dentes, sem acreditar que aquele albino cabeçudo pudesse ser tão frio quando o assunto era L.
– E qual de nós L escolheu? – ele perguntou, ansiando pela resposta. – Eu... ou Near?
L, pelo visto, não tivera tempo de decidir. Morrera com sua preferência, qualquer que fosse. Entretanto, Mello suspeitava que o detetive nunca tivera realmente intenção de escolher entre os dois. Achava que o moreno, assim como Watari e Roger, faria de tudo para que trabalhassem juntos em nome da justiça.
Uma perda de tempo da parte deles. Mello jamais trabalharia ao lado de Near. Tinha a mais completa aversão ao número um da Wammy’s House, que roubava-lhe a glória.
Mas estava tudo bem. Como o anão sempre governou sozinho, que assim se mantenha após a morte do rei: o príncipe assuma a linha direta do trono.
E os parentes distantes e próximos, que tanto almejaram aquela posição? Vão para longe, viver afastados da influência do novo rei.
Viver às suas próprias maneiras.
Assim Mello queria fazê-lo: pegar suas tralhas e se mudar, talvez para outra cidade, outro estado ou outro país. As possibilidades eram infinitas.
Mas havia um problema.
Levando-se em conta que Mello não era somente um parente distante, mais sim um Senhor Feudal cuja dominação se estendia muito além do horizonte, a coisa mudava de figura. Pois um Senhor Feudal é um nobre. E nobres podem possuir vassalos.
O termo vassalo, na Idade Média, era utilizado para designar homens que estavam a serviço de seus respectivos Suseranos, jurando fidelidade a eles em troca de benefícios chamados feudos. Os vassalos eram responsáveis por prestar certos serviços, entre eles os de proteger e guerrear em nome de seus Suseranos.
E, no caso de Mihael, o vassalo era da melhor qualidade. Fiel, companheiro e obediente, Mail Jeevas talvez se enquadrasse melhor na categoria cão, mas ainda assim valia por mil vassalos. De seu ponto de vista, nada era mais importante do que seu Suserano; o mundo que conhecia girava em torno de Mello.
E era exatamente essa a dificuldade enfrentada pelo loiro, visto que, às portas (literalmente) de sua liberdade, fora barrado por seu fiel cachorrinho, que abrira os braços e se colocara entre ele e o corredor.
– Eu não sei como vai ser a minha vida daqui em diante, Matt. Não faço ideia se vou conseguir um lugar decente pra dormir ou mesmo se vou conseguir comer! Não é justo te tirar do conforto desse lugar por um capricho meu.
– Se é só um capricho... Então POR QUE VOCÊ VAI EMBORA? – ele perfurava Mello com aquelas esmeraldas, fazendo questão de não secar as lágrimas. Queria que o loiro visse toda a dor e sofrimento que lhe causava com essa ideia de deixa-lo.
– Porque... esse lugar só me traz memórias ruins, Matt. – o mais velho colocou a mala no chão, massageando o braço dolorido. – Minha disputa com Near, L, Watari...
– E EU?
– VOCÊ É UMA EXCEÇÃO! – os limites de Mihael se rompiam, seu autocontrole indo montanha abaixo. – E É JUSTAMENTE POR ISSO QUE EU NÃO QUERO TE LEVAR AINDA MAIS PRO MUNDO PODRE QUE EXISTE FORA DAQUI!
– MELLO, VOCÊ É MINHA FAMÍLIA! NÃO PODE ME ABANDONAR AQUI! – Mail soluçava, os olhos brilhosos e o corpo trêmulo. Estava cansado de chorar, cansado de sofrer... Tudo o que queria era passar o resto de sua vida com ele e nada mais. Por que era tão difícil? – P-por favor. Leva a única coisa boa desse lugar com você.
Mello mordeu o lábio. Não faz isso comigo, Matt. Fica mais difícil pra mim deixar de ser egoísta.
– ... não posso. – ele disse por fim. Abrindo a mala e retirando uma arma, apontou-a para o outro. – Sai da frente, Matt.
– ... é... é sério isso? – Mail mal conseguia falar, tão abalado estava. A visão embaçada o fazia piscar mais rápido que o normal, dando-lhe uma expressão desolada e perdida, como a de um cachorrinho assustado no meio da chuva. – V-você teria coragem de... e-em mim...?
– Não me obriga a fazer isso. – Mihael preparou o revólver, o dedo sobre o gatilho. Sua expressão era quase cruel.
– Atira então. – Matt abriu ainda mais os braços, o choro se tornando violento e raivoso. – ATIRA, MELLO! ME MOSTRA QUE VOCÊ NÃO DÁ A MÍNIMA PRA MIM E SÓ SE PREOCUPA COM VOCÊ MESMO!
– SÉRA QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? – as safiras se arregalavam nas órbitas, enlouquecidas. – É POR ME PREOCUPAR COM VOCÊ QUE QUERO QUE FIQUE EM SEGURANÇA!
– QUE SE FODA A SEGURANÇA! – ele cuspia as palavras. – DIFERENTE DE VOCÊ, EU NÃO TENHO MOTIVO NENHUM PRA VIVER! DESDE QUE CHEGUEI AQUI, EU SÓ VIVI POR VOCÊ, MELLO! POR VOCÊ! – as últimas palavras saíram aos berros dos lábios de Matt, que, claramente emocionando, fungou e fechou os olhos com força, chorando e soluçando com fúria. As gotas salgadas caíam no chão, imitando as que molhavam os jardins da Wammy’s.
– Matt... – a mão do loiro tremeu e ele baixou a arma, assim como os olhos. Desde o início soubera que não tinha coragem de atirar. Não em Mail, não em seu querido Mail. Guardando a preciosa Desert Eagle, ele se aproximou do outro, secando-lhe as lágrimas com os polegares. Ainda assim, elas logo voltavam a cair. – Então fica por mim também.
– N-não... – ele balançava a cabeça com força, recusando-se a aceitar aquilo.
– Por f...
– NÃO! – os olhos se abriram de supetão, a dor de sua alma gritando através deles. – EU QUERO IR COM VOCÊ! – afastando os braços de Mello de seu caminho, ele se jogou sobre o loiro e abraçou-lhe a cintura até quase esmaga-lo, sua bochecha úmida roçando na dele. – Não me deixa sozinho.
Dor... Tristeza... Raiva... Por que tudo isso é tão forte dentro de mim? Por que me obriga a sentir essas coisas, Mello? Por que não simplesmente desiste dessa ideia e fica comigo?
Jeevas era um grande egoísta. A mera possibilidade de perder, de novo, sua família, seu bem mais precioso, o aterrorizava mais do que ter todos os seus vídeos games e goggles destruídos. Somente por pensar no assunto por breves cinco minutos durante o dia já o fazia ter terríveis pesadelos à noite, nos quais Mello era morto, sequestrado ou simplesmente levado para fora de seu alcance. Sempre, sem qualquer exceção, o ruivo acordava desses sonhos tremendo e com o travesseiro molhado.
Ele é meu. Meu. MEU! E NENHUM MOTIVO IDIOTA VAI TIRÁ-LO DE MIM!
– Entenda Matt, por favor. – o loiro envolveu o pescoço alheio com os braços, acariciando seus cabelos vermelho-escuros. Mail ronronou. – Eu faço isso porqu...
– Não. – ele interrompeu. – Eu não quero entender nada. Quero que você fique.
– Não vou ficar. – Mello ditou firme, afastando-o minimamente para encará-lo. – Esse lugar não é mais a minha casa. E nada do que fizer vai me impedir de ir.
– M-mas... – Matt sustentou aquele olhar firme, quase sem acreditar. Fechou o aperto em torno de Mello e engoliu em seco, piscando para afastar as lágrimas. – Então eu vou com v...
– Não.
– Mas...
– Eu não quero que você venha. – a voz do loiro não tremia, mas sua língua foi mordida assim que ele se calou. A expressão perdida do outro lhe doeu o coração.
Não posso deixa-lo ir comigo. Aqui Matt vai ter uma casa, comida, um lugar pra dormir, segurança e pessoas nas quais pode confiar. Preciso pensar nele: na saúde e no bem estar dele.
– ... é sério isso? – a voz do mais novo quase falhou, os cantos de seus lábios curvando-se para baixo.
– É muito sério, Matt. Eu quero que fique.
– Você diz isso, mas balançou a cabeça como se dissesse “não”. – o loiro cerrou os dentes. – Mello, seu corpo desmente você.
Esse cara... Por que não entende que faço isso porque preciso e não porque quero?
– Já chega, me solta. – sem olhar para o outro, Mello empurrou-o com os braços, usando tanta força que Matt fez uma careta de dor. Se abaixando, ele pegou novamente a mala. – Não esquece de queimar as minhas coisas que ficaram aqui. Não quero que guarde nada. – dois passos em direção à porta foi o máximo que conseguiu dar, já que Matt se agarrou à sua perna como cimento endurecido. – MATT, ME LARGA!
– O QUE MAIS VOCÊ QUER QUE EU FAÇA? JÁ IMPLOREI PRA ME DEIXAR IR COM VOCÊ, ME HUMILHEI... O QUE MAIS VOCÊ QUER, MIHAEL? – o nome do outro saiu em forma de berro, raspando sua garganta dolorida. Nem é preciso dizer que as lágrimas desciam com mais velocidade enquanto o ruivo o encarava; seus braços fechando o cerco entorno daquela perna. Com certeza Mail era capaz de quebra-la, só para não deixa-lo ir.
Isso é ridículo. – Mello pensou, fitando o ser que se ajoelhava diante dele. – Você me deixa sem saída assim... Porra, Matt.
– ... tudo bem. – ele disse com um suspiro, sua voz tão baixa que o outro não a ouviu. Limpou a garganta. – Tudo bem, Matt. – as esmeraldas, tão imutáveis ao longo daqueles dezessete anos, ergueram-se em súplica. Mihael olhou para o outro lado. – Arruma as suas coisas.
Foi como se um peso gigantesco deixasse o coração de Mail. Seus ombros relaxaram, sua respiração se controlou e um sorriso fraco enfeitou sua face. Ergueu-se de um pulo, renovado com uma súbita onda de energia, e correu para o próprio armário, arrancando roupas, jogos e tralhas que estivessem por ali, juntando somente o que considerava essencial.
Minutos depois e nem a metade estava cheia, visto que, a cada passo de Mello, ele erguia a cabeça em pânico, o coração disparado.
– Mail. – respirando fundo e ajoelhando-se ao lado do outro, Mello limpou outra vez as lágrimas daquelas bochechas e sorriu de leve para aquela expressão desamparada, seus próprios olhos piscando para afastar a água que se acumulava ali. – Eu não vou sem você.
O brilho verde se tornou ainda mais intenso e as lágrimas do Jeevas voltaram a cair, acompanhadas de soluços. Agora, porém, não eram lágrimas de tristeza.
Eram de alívio.
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Um mês.
Esse fora o tempo que se passara desde que Mihael Keehl e Mail Jeevas deixaram o orfanato Wammy’s House para se aventurarem pelo inferno que as pessoas chamam de mundo. O instituto, externamente, não mudara em nada, mas a atmosfera interna estava completamente diferente. Faltavam sorrisos, sons de perseguição, brigas, gritos e discussões dentro daquele prédio. Tudo o que restava eram sombras de um casal tempestuoso: resquícios nas paredes de lutas violentas, rumores sobre os lugares onde ambos se encontravam à meia noite, lembranças dos sons estranhos que deixavam aquele quarto...
Mas nada além. Vultos, rabiscos, memórias. Somente fiapos da presença daqueles dois teimavam em persistir, cristalizados, principalmente, nas recordações de um certo albino.
– Roger? – o pequeno, antes mencionado, abria ruidosamente a porta da sala do diretor. Os cabelos brancos macios e enrolados cobriam parcial e propositalmente seus olhos. As roupas claras e largas se moldavam ao porte infantil, combinando com um par de tênis branco que protegia-o do chão frio. Seus passos e sua voz demoraram a ser ouvidos pelo idoso, que só lhe deu atenção após alguns minutos.
– Oh, Near, entre, entre.
Ele obedeceu, mantendo-se em pé no centro da sala e encarando o chão. Era difícil de acreditar que possuía catorze anos.
– Preciso daquilo que te pedi mais cedo. – seu olhar mantinha-se fixo em um ponto qualquer, a mão esquerda enrolando um fiozinho de seu cabelo.
– Aqui está. – o mais velho ergueu-se da poltrona e estendeu uma pequena foto ao menor, cuja mão tremeu quase que imperceptivelmente ao tocá-la.
– Obrigado. – dito isso ele se afastou, fechando a porta atrás de si e passando a admirar o objeto em suas mãos.
Já se passou um mês... Você teve tempo de se organizar... Então por que, Mello?
Por que deixou uma foto sua para trás?
Caminhando por aqueles corredores estranhamente desertos e silenciosos, Near permitiu escolher o rumo de seus pensamentos, afastando-os de qualquer linha de investigação e concentrando-os em si mesmo. Raramente concedia-se tal luxo, mas iria explodir caso não o fizesse.
Imagens de Mello saltaram em sua cabeça, desde o dia em que o pequeno gênio o conhecera, aos onze anos de idade, até a última vez em que o vira, na sala do diretor, três meses depois que o loiro visitara a Central de Operações do Caso Kira.
Near riu com o pensamento. Não fora informado, na época, sobre aquele acontecimento, que ocorrera no aniversário de Mello. Suas suspeitas diziam que o próprio chocólatra pedira para que mantivessem segredo dele. Mas isso, é claro, não impediu que o sucessor de L descobrisse por outros meios.
Ah, Mello... Por que insiste em me afastar?
Alcançando a porta de seu quarto, Near a abriu com delicadeza, fechando-a rapidamente ao entrar. Remexendo por algum tempo em sua gaveta, ele finalmente encontrou o que procurava: uma pequena caneta preta permanente. Virando a foto – raríssima – de um Mello sorridente, ele rabiscou as seguintes palavras em uma bela letra cursiva e ondulada.
Dear Mello.
Um sorriso fraco, quase invisível, surgiu nos lábios cheinhos. Durante os três anos que passara naquele lugar, Nate River começara a confiar plenamente no ditado “Os opostos se atraem”. Nunca algo tão verdadeiro lhe parecera e ele duvidava que um dia fosse superado. Os fatos, as evidências que coletara naqueles 36 meses comprovavam claramente sua teoria.
Eu. Invisível. Calado. Calculista. Silencioso. Discreto. Reservado. Controlado.
Ele. Visível. Escandaloso. Ágil. Emotivo. Impulsivo. Chamativo. Instintivo.
Mais do que qualquer um, Near era o completo oposto do loiro de olhos azuis. Apesar do intelecto inquestionável que compartilhavam, seus métodos, crenças e propósitos eram o inverso um do outro.
Pensar/ Agir.
Elaborar/ Colocar em prática.
Conversar/ Realizar.
A diferença era grande demais para não ser notada, levando-os a se tornar inimigos mortais. Deveriam a todo custo se evitar, de forma que apenas um prosperasse e provasse que sua forma de conduzir as coisas era a mais adequada.
Essa era a filosofia de vida de Mello.
Para Near, no entanto, a situação deveria ser diferente. Pensar, Agir; Elaborar, Colocar em prática; Conversar, Realizar. Será mesmo que as duas vertentes divergiam tanto assim? Será que...
Não poderiam se completar?
Nós nunca fomos tão diferentes um do outro como pensa, Mello. E eu não fui o único a perceber isso.
Os dentes do adolescente se fecharam com força. Contra sua vontade, seus pensamentos seguiram um caminho indesejado, cursando em direção ao maior obstáculo de sua tese. Aquela obstrução o impedira de testar sua teoria, de retirá-la do plano das ideias e fazê-la funcionar.
E quem é a obstrução? Obviamente a praga que se meteu onde não deveria.
O terceiro, que nunca fora digno de atenção.
O observador.
A sombra.
Se não fosse você, Matt... – o pequeno cravou as unhas curtas na janela de seu quarto, observando o céu cinza-escuro que anunciava a vinda de uma tempestade. – ... tudo seria diferente.
Lembrava-se como se estivesse acontecendo naquele presente momento. A sombra rastejante de Mello, acompanhando-o pelos corredores, pelas aulas, pelas salas, dominando-o até no próprio quarto. Desagradável e persistente, a sombra o seguia por onde quer que fosse, falando em seu ouvido, manipulando-o, consumindo-o, até que, finalmente, o possuísse por completo.
E Mello? O pobre loiro, vítima da víbora, nada pôde fazer para se defender. Desarmado, indefeso, se submeteu a ela sem questionar.
Me perdoe, Mello. Se eu fosse mais como você, poderia tê-lo salvo... Mas não pude. Minha voz, a primeira a ser ouvida em uma perseguição policial ou em uma discussão de estratégias, foi incapaz de se pronunciar sobre o que vinha do coração, e não da cabeça, mantendo-se calada e fechando-se em si mesma, agonizando e definhando, sem, contudo, me abandonar.
Desta vez, assim como em todas as outras em que pensava em Mello naquele mês, lágrimas solitárias cobriram as bochechas brancas e lisas de Near. Ele as fitou no reflexo parcial da janela, deixando-as cair. Sua mente estava longe demais para se importar.
Naquele dia, se eu tivesse dito as palavras certas... Você teria se afastado dele...
... Sombra?
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– Near? – a cabeça de Matt surgiu na fresta da porta da sala de brinquedos. O albino mordeu de leve o lábio, pronto para ficar em silêncio.
Mudou de ideia no último segundo.
– O que houve... Matt? – disse com um suspiro, sua pirâmide de dados ainda pela metade. – Achei que estava no hospital, se preparando para a cirurgia.
– É só daqui a uma semana. – ele se esgueirou para dentro. Usava a roupa típica de um paciente: uma espécie de camisola grande, de cor clara, com abertura para os braços. – Mesmo assim, eu tô um pouco nervoso. – riu sem graça, sentando-se ao lado de Near no chão gelado e estremecendo.
– Os novos médicos selecionados a dedo por Watari são competentes. Não tem com o que se preocupar. – enquanto falava, o pequeno se ajoelhava ao lado da pirâmide, acrescentando mais e mais dados sem hesitar.
– B-bom, enfim... hm... Se por acaso acontecer alguma coisa comigo... Eu queria esclarecer um assunto com você antes. – ele limpou a garganta, esforçando-se para não desviar o olhar. Near finalmente virou a cabeça, seus olhos cinzentos se estreitando.
– E o que é?
Fala tudo de uma vez... – Matt respirava fundo, se controlando. – Você precisa resolver isso hoje.
– Near. – as esmeraldas fitaram intensamente a névoa, uma batalha silenciosa sendo travada. – Eu sei que você gosta do Mello.
Era uma afirmação, não uma pergunta. Uma onde de choque atingiu o albino, mas este se manteve impassível. Seus olhos, sua expressão, suas mãos, seus pés; nada em seu corpo denunciou a tempestade que se agitava em seu interior.
– Gostar? Você se refere ao que um homem normalmente sentiria por uma mulher?
– Exatamente. – um sorriso ardiloso formou-se no canto dos lábios finos de Matt. – E não adianta negar. Consigo ver através de você.
– Não me lembro de ter dito que iria negar. – o albino se sentou, como sempre fazia, com uma perna dobrada. – Você não me assusta, Matt. Conheço suas capacidades e limitações.
– Escuta... – o ruivo se aproximou devagar, uma faísca acendendo no fundo dos olhos. – Quero que fique longe dele.
– Quer que eu me mude?
– Não tente ser engraçado, não funciona pra você. – Matt trincava os dentes, começando a se aborrecer. Agora entendia a raiva de Mello: era realmente irritante conversar com alguém que não esboçava qualquer reação. – Se eu morrer... Mesmo que seja hoje, daqui a uma semana ou vinte anos... Quero que me prometa que não tentará nada com Mello.
– Que egoísmo da sua parte... – Near estreitava ainda mais o olhar, sua mão erguendo-se até encontrar uma mecha próxima do cabelo ondulado. – E por que eu faria isso?
– Porque, caso contrário... – Seus rostos estavam agora a poucos centímetros um do outro. – Podem acontecer... acidentes desagradáveis.
– Você fala como se ele fosse sua propriedade. – Near não se intimidou. – Talvez isso seja um choque, Matt, mas Mello nunca te deu a mínima. E nunca dará.
– Sei que está tentando se convencer disso, mas não é verdade. – Matt se levantou, deitando-se de costas na cama do albino. Não bastasse este ser frio, sua cama também o era. – Entre o melhor amigo dele e o cara que mais odeia, quem você acha que Mello vai escolher?
– Escolher... – Near baixou os olhos, fitando os próprios pés. Uma coceirinha em sua garganta se transformou em um riso seco, que aumentou de tamanho até tornar uma risadinha contida e posteriormente uma gargalhada. Era divertido, estava achando muita graça naquilo tudo. Matt se sentou depressa, os olhos arregalados. – Ingênuo! Você é iludido, Matt. Mello nunca vai escolher nenhum de nós. Ele não se importa com você, um mero cachorro que usa quando tem vontade; ou comigo, uma reles pedra no seu sapato. Admita... – seu sorriso se alargou e, pela primeira vez, Mail realmente se assustou. – Lá no fundo... você não faz ideia dos sentimentos verdadeiros dele.
– I-isso... – o mais velho engoliu em seco. – É outro motivo para eu ter vindo. – ele se ergueu, curvando-se e observando Near de cima. – Se eu não posso tê-lo... Ninguém pode.
– Tsc, patético. – Near também se levantou, pronto para confrontá-lo. Pela primeira vez na vida a raiva subia-lhe a cabeça e ele parecia gostar da sensação. Sorria como um maníaco, o sangue correndo velozmente pelas veias. Sentia-se capaz de qualquer coisa, apesar de ainda ter de erguer a cabeça para fitar o outro nos olhos. – Você não é bom o suficiente para ele.
– Não... sou bom... ? – uma veia saltava na testa de Matt, mas, ainda assim, ele sorria. – EU O AMO MAIS DO QUE VOCÊ PODE IMAGINAR, SEU ANÃO CABEÇUDO!
– Amor? O que você sabe sobre amor, Matt? Está mais do claro que sente uma atração por Mello, mas posso garantir a você que nem de longe isso é amor. Você é só mais um escravo de seus hormônios. Tudo o que quer é transar com ele e depois dispensá-lo, como fez com várias das suas namoradas! O que Mello diria se soubesse disso? – Os ombros de Matt se encolheram e ele se afastou dois passos. – A propósito, eu agradeceria se não gritasse no meu rosto novamente.
– C-c... Com Mello é diferente, eu... E-ele é...
– Único. – o albino completo, virando-lhe as costas. – Eu sei.
Mordendo o lábio e xingando mentalmente aquele anão, o mais velho virou-se para a porta, os pulsos cerrados de raiva. Parou pouco antes de deixar o quarto.
– Apesar de tudo, Near, fico feliz por ter vindo aqui. Parece que finalmente vejo uma pessoa de verdade dentro de você.
E fechou a porta.
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Após aquela visita, Matt apenas tratara do assunto com ele mais uma vez, no próprio quarto do albino. A conversa fora extremamente curta já que, apesar dos constantes avisos deste de que o loiro não se importava com ele e um dia iria machucá-lo, Matt não lhe deu ouvidos. Não queria discutir aquilo outra vez.
Sacudindo a cabeça para se livrar daquelas memórias, Nate River voltou seu olhar para a foto, o rosto sorridente do loiro a fitá-lo. Suspirando com pesar, ele a guardou delicadamente entre suas vestes, recusando-se a perdê-la. Queria se lembrar do outro daquela forma, como uma criança inocente e pura.
Por que Mello? Por que você teve que mudar tanto e se transformar no que é agora?
Apesar disso, Near não sentia pena alguma dele. Se o chocólatra escolhera aquele caminho, tudo bem, era seu direito. Lamentava, estranhamente, pela sombra, que fora arrastada pela luz para um beco de trevas.
Matt... Não importa o que diga, eu sei que há dúvidas e incerteza dentro de você. E sei também que é tarde demais para fazê-lo enxergar o que está diante de seus olhos. A verdade, porém, é clara para mim. Mello ainda irá magoá-lo muito mais do que pode imaginar.
Presságio.
Maldição.
Não importa como se chame, o fato é que o pensamento de Near se cumpriria em exatos oito anos, tão certo como a neve cai no ápice do inverno e as flores desabrocham após o equinócio de primavera.
Mas isso... Já é outra história.
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– Matt... Me perdoa. – o loiro se encaixava entre os braços do mais novo, respirando aquele cheio que tanto lhe agradava. Os dois dormiam em uma cama qualquer, em um quarto qualquer, que ficava em um lugar qualquer. Haviam acabado de sair da Wammy’s House, prometendo nunca mais voltar. Após arrumarem suas coisas e saírem, aconchegaram-se no melhor hotel nas proximidades e ali se instalaram. – Eu queria que viesse comigo desde o início, mas... Não seria justo te pedir isso.
– Mesmo que fugisse durante a noite, Mello, eu procuraria pelos quatro cantos do mundo até te encontrar. – o ruivo sorria e, apesar dos olhos vermelhos de choro, suas feições eram lindas à luz do luar.
Mello ficou em silêncio por um tempo, agarrando as roupas de Matt enquanto sentia o peso daquelas palavras.
– Posso... te perguntar uma coisa? – o loiro se afastou minimamente para poder fita-lo. Mail assentiu. – Por que você gosta tanto de mim?
Matt ergueu uma sobrancelha.
– Por que? Ué, porque você é você.
– Isso não é uma resposta.
– Então... hm...Ah, não dá pra explicar direito. Eu te quero perto de mim, só isso.
Novamente, silêncio.
– Foi por isso que você ameaçou o Near?
– Exatamente. – o sorriso de Matt diminuiu. – Só de pensar naquele projeto de gente chegando perto de você, me dá náuseas. – Mello riu. – E falando nele... Você deixou aquela foto com o Roger?
– Uhum. Mas ainda acho errado. Isso pode dar a ele uma vantagem caso queira nos investigar.
– Isso... é o mínimo que nós podemos fazer por ele, Mello. – o sorriso triste do ruivo, coberto de significados, trouxe um novo e breve momento de quietude.
– Ei, Matt... Eu te amo.
Mail congelou. Não lembrava de ter se drogado, mas, por via das dúvidas...
– O-o que foi que você disse? – seus olhos se encontraram com os de Mello e ele percebeu que o outro falava sério.
– Eu te amo. Muito.
Uma fração de segundo de incredulidade passou pelo rosto de Matt, seu corpo movendo-se com rapidez. Seus lábios tomaram os de Mello com uma velocidade que não parecia ser possível, os braços deste circundando suas costas com necessidade, puxando-o para perto e tirando suas roupas.
São muitas as coisas que eu quero te dizer, Matt, mas, por enquanto, essa basta. Sei que, pra você, essas três palavras têm muito significado. Saiba que elas são verdadeiras e, mesmo que eu nunca as tenha dito, sempre estiveram na ponta da minha língua.
Obrigado por ter me aguentado por tanto tempo, ruivo.
– Eu também te amo, Mello! – o ruivo ria, puxando a própria camisa por sobre a cabeça antes de beijar cada pedacinho visível do rosto do mais velho. – Muito, muito, muito, muito, MUITO!
Não que seja necessário dizer, mas, naquela noite, eles se afogaram desesperadamente na tristeza um do outro. Tristeza por L. Por Watari. Tristeza por toda uma existência que deixaram para trás.
E, principalmente, tristeza pelo destino que os aguardava.
[THE END]
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