O casal só se separou quando ouviu um leve pigarro. Camilo e Jane olhavam para a cena com um sorriso contido. A mão de Darcy ainda estava na cintura de Elisabeta e a jovem tentava retomar a normalidade de sua respiração. Passou a mão pelos cabelos numa tentativa de arrumá-los.

— Realmente não queríamos ter atrapalhado, mas Jane não achou que seria de bom tom se vocês fossem vistos nessa… Nessa situação. — Disse Camilo quebrando o silêncio e trazendo os amigos de volta a realidade.

— Jane sempre muito sensata. Eu nem sei como isso foi acontecer. Peço desculpas a Elisabeta, e a vocês dois. Preciso voltar para a mansão. Devem estar estranhando a ausência do anfitrião. Boa noite.

Darcy soltou a cintura de Elisa e caminhou atordoado de volta para a casa, tentando controlar os fios de cabelo que insistiam em ficar fora do lugar. Camilo pediu licença às damas e foi atrás do amigo.

— Você sabe que vocês dois viraram o assunto do baile pela forma como saíram do salão, não sabe? — Jane questionou a irmã.

— Darcy não estava falando coisa com coisa, eu não estava entendendo nada, então achei melhor sairmos para conversar longe de toda aquela gente.

— Você saiu o puxando pela mão depois de interromper a dança. Mamãe mesmo queria correr atrás de vocês, papai que não deixou. Então Camilo se ofereceu para vir procurá-los e eu o acompanhei. Cecília e Rômulo também saíram a sua procura, mas algo me diz que eles não estão se esforçando para achá-la. Meu jesusinho, vocês são tão doidinhas, minha irmã.

Elisabeta nunca iria se acostumar com a inocência da irmã. Camilo se despediu dela com um beijo na bochecha e o rosto de Jane instantaneamente ficou vermelho. Sem contar na cara da irmã ao ver o beijo de Darcy e Elisabeta.

— Mas me diga, o que foi esse beijo? Você diz que não estão namorando mas dançam juntos e ficam trocando beijos. Eu não consigo acompanhar sua cabecinha, Elisa.

— E nem deveria, já que eu mesma não acompanho as vezes. Eu… Eu não sei, Jane. Eu e Darcy não estamos namorando. Na verdade ele me evitou por duas semanas inteiras, e no baile também, e então ele começou a falar de sentimentos e que eu estava atrapalhando os planos dele e quando dei por mim já estávamos nos beijando.

Elisa suspirou cansada e desabou sobre o banco de madeira próximo a ela.

— Esse é um dos raros momentos da minha vida em que eu não sei o que fazer, minha irmã.

— Você gosta dele? De Darcy?

— Não! Ele é o homem mais implicante que eu conheço!

— Você que implica com ele, Elisa.

— Mas é porque é divertido vê-lo assim.

— Ai, Elisa, você está apaixonada! Como eu e Camilo. Não, com a gente é diferente. Eu não o acho implicante, pelo contrário, Camilo é o homem mais carinhoso e atencioso que já conheci. Mas ele também me diverte e me faz bem. E eu sinto muita vontade de beijá-lo o dia todo, mesmo sabendo que não devo. Então, para mim, é bem parecido com a forma como você se sente em relação a Darcy.

Elisabeta agora encarava a irmã com um sorriso surpreso e ao mesmo tempo orgulhoso.

— Eu não acredito que estou ouvindo Jane Benedito falar sobre seus sentimentos! Eu sabia que você estava apaixonada por Camilo, mas não imaginei que fosse ouvir isso da sua boca assim. Você sempre foi tão reservada e tímida.

— Ainda sou, Elisa. Mas Camilo… Ele mexe comigo.

— E ele já sabe? Que você o ama?

— Eu acho que sim.

— Sem achismos, Jane! Você precisa dizer a ele!

— Da mesma forma que você disse a Darcy? — rebateu a loira.

Aquelas palavras atingiram Elisabeta como uma faca afiada. Ela não conseguia mais enganar a si mesma, estava apaixonada por Darcy Williamson e, assim como ele, estava tentando lutar contra esse sentimento, mas em vão.

***

Os Benedito chegaram em casa completamente exaustos do baile, mas isso não impediu dona Ofélia de interrogar Elisabeta sobre a cena que causou com Darcy no meio do salão. Era tão Elisabeta discutir com o anfitrião da festa na frente de todo mundo, e depois puxá-lo pela mão com aquele ar de superioridade, de quem está sempre certa. Coitado do rapaz, a matriarca dissera. Ninguém era merecedor de ouvir as ladainhas de Elisabeta, ainda mais durante seu próprio baile.

Dona Ofélia era incapaz de pensar em Darcy e Elisabeta convivendo amigavelmente, pois a filha era sempre muito hostil com o jovem lorde, mesmo quando ele não estava presente — o que era quase sempre -, e isso aliviou Elisa. Se sua mãe ao menos desconfiasse do que estava se passando entre os dois sua vida se transformaria em um verdadeiro inferno.

Aquela foi mais uma noite em que a mais velha dos Benedito passou em claro pensando em Darcy. Você me enfeitiçou. Meu corpo e alma. A voz dele ocupava todos os espaços da mente dela. A boca dele também. Elisa sentiu seu corpo esquentar com a lembrança dos beijos. Ela achou que o beijo na cachoeira havia sido perfeito, mas o beijo que trocaram no baile conseguiu superar o insuperável. Foi um beijo diferente, e Elisabeta descobriu partes do seu próprio corpo que ela desconhecia. Darcy despertava nela as mais intensas sensações. E ela o odiou por isso. Com exceção de que o amava justamente por isso. Eu preciso que você saiba o quanto eu te admiro, e o quanto eu te respeito. As mãos dele na nuca dela, na cintura, puxando seu cabelo. Os ombros dele, o perfume, a urgência com a qual ele a beijava, praticamente a engolindo. De repente o quarto ficou quente, e Elisa abriu as janelas. O vento do Vale do Café tirava algumas mechas de seu cabelo solto do lugar, e Elisabeta quase conseguiu sentir os dedos de Darcy as colocando atrás de sua orelha.

Na mansão de Julieta, Darcy tentava se concentrar na leitura das cartas que chegaram da Europa, o atualizando dos negócios por lá, sob o comando de Lady Margareth. Mas o jovem lorde não conseguia pensar em inglês naquele momento, ele só conseguia pensar em Elisabeta Benedito, e em como a boca dela se movimentava em uma sincronia perfeita com a dele. Em como ela deixou escapar um gemido quase imperceptível quando Darcy apertou um pouco mais a sua cintura. Aquela mulher o estava enlouquecendo, em todos os sentidos. E ele soube que precisaria de um banho frio se quisesse dormir naquela madrugada.

Mas Elisabeta não o amava. Suspeitava de que ela sequer gostava da companhia dele. Gostava dos beijos, disso ele tinha absoluta certeza, porque a sentia em todos os beijos. Mas ele, melhor do que ninguém, sabia que era perfeitamente possível gostar apenas dos beijos de uma pessoa sem necessariamente estar apaixonada por ela. Ele riu com a ironia do destino que agora o colocava do outro lado dessa situação. Não que Darcy tivesse tido muitas mulheres, afinal sempre foi um rapaz reservado, mas se divertiu em duas ou três noites parisienses.

***

O alto do morro era o lugar preferido de Elisabeta em todo o Vale — e no mundo, ela suspeitava. Mal o sol nasceu e a menina correu com Tornado para lá. Precisava de ar. Precisava se sentir livre. Lá chegando, desceu do cavalo e amarrou o animal na árvore costumeira. Foi até a beira do morro e abriu os braços, deixando que o sol e o vento tomassem de conta dela. Abriu os olhos e encarou a paisagem. Ela estava em paz.

Quando Darcy subiu o morro sabia que existia a possibilidade de encontrar Elisabeta, mas não foi até lá com essa intenção. Ele queria apenas pensar. Não imaginou que ela estaria lá tão cedo, o sol agora que estava nascendo.

Uma leve neblina cobria o céu, mas não atrapalhou a visão da Benedito. Ela viu Darcy se aproximar devagar. Não estava de terno, e ele parecia cansado, como se tivesse passado a noite em claro.

—Oi. — A voz dela saiu baixa, tímida.

—Oi. — Ele respondeu em uma voz rouca, um sorriso torto. — Imaginei que fosse encontrá-la aqui, mas não tão cedo.

— Não consegui dormir.

— Nem eu.

— Posso ir embora, se você preferir.

— Não, tudo bem. Eu lhe devo uma resposta, de qualquer maneira.

— Eu não lhe perguntei nada para que seja respondido, Elisabeta. Você é generosa demais para brincar comigo, por mais que você tente disfarçar.

— Mas eu me sinto na obrigação de dizer algo. Só não consigo encontrar as palavras certas. Logo eu que sempre fui tão boa com elas.

— Talvez você não precise procurar as palavras. Se seus sentimentos são os mesmos de duas semanas atrás, da ocasião de sua conversa com Tornado, diga logo. Nós dois… Nós dois somos…

— Somos o quê? Errados um para o outro? Era isso que ia dizer?

— Pelo menos é o que nós achamos.

— É o que a razão diz.

— Sinceramente? Agora eu não estou muito preocupado com a razão. Meu desejo e minha afeição não mudaram. Eu bem que tentei. Mas uma palavra sua poderia silenciar-me para sempre, Elisabeta.

— Então não silencie, Darcy. A não ser que seja para me beijar. Eu estou apaixonada por você. E a obviedade desse sentimento me assustou como o diabo. Mas eu nunca fui de correr de nada, então aqui estou eu, completamente entregue a esse sentimento. Me beije, Darcy Williamson. Me beije como todas as outras vezes. E de novo. E de novo.

Não havia a menor possibilidade de Darcy negar aquele pedido, por mais que ele ainda estivesse absorvendo a intensidade das palavras de Elisabeta. Ele precisava beijá-la. Para sempre.