Notas iniciais
Infelizmente nossa novelinha acabou (na Globo, porque no Globo Play ela continua toda linda), mas a fic não! Espero que esse capítulo aqueça um pouquinho o coração de vocês depois desse vazio que ficou. Boa leitura!

Parado em frente a casa dos Benedito, pouco depois das nove horas da noite, Darcy não sabia o que fazer. Ele não havia pensado direito. Na verdade ele sequer havia pensado. E agora estava ali fazendo papel de bobo.

A verdade é que Darcy não queria ficar sozinho com seus pensamentos. Quase acordou Camilo, mas desistiu, pois não haveria sentido algum acordar o amigo para isso. Não sabia o que o fez pensar que haveria sentido em ir para a casa de Elisabeta àquela hora. Mas ali estava ele.

O mais sensato seria ir embora, e era isso que ele estava disposto a fazer quando a casa da árvore lhe chamou a atenção.

Felisberto havia construído a casinha de madeira quando as meninas ainda eram crianças, e elas cresceram subindo e descendo aquela árvore, em meio a brigas e cumplicidade de irmãs. Na adolescência a casa da árvore era o lugar preferido de Lídia para levar os namoradinhos, mas todos sabiam que ali, na verdade, era o verdadeiro refúgio de Cecilia, tanto que mais da metade dos livros da moça estavam guardados lá. Vez ou outra Elisabeta também se utilizava da casinha quando procurava silêncio para escrever, algo que, definitivamente, ela nunca conseguia dentro da própria casa.

Vencido pela curiosidade, Darcy subiu a árvore e entrou na casinha pequena demais para ele. O local parecia mágico, cheio de objetos de todos os tipos. Livros organizados numa estante improvisada, bonecas, uma coleção de pedrinhas, alguns desenhos, partituras. Darcy estava fascinado, era como ter um pedacinho de cada uma das meninas Benedito diante de si. Ele se questionou qual daqueles objetos seria Elisabeta. E se deu conta de que a conhecia tão pouco. Qualquer uma daquelas coleções poderia pertencer a ela. Afinal Elisabeta era uma moça curiosa, inteligente, culta, que sabia tocar piano. Mas foi quando Darcy tropeçou em uma tábua solta e encontrou uma caixa com vários textos que ele teve certeza do que pertencia a mais velha das Benedito.

Mais uma vez a curiosidade de Darcy o venceu e ele não resistiu a ler algumas páginas. A maioria eram textos sobre sonhos e inspirações. Havia um sobre Dona Ofélia que o emocionou. Os outros escritos eram pequenos contos, e se Darcy conseguiu entender bem a essência, estavam todos conectados, em uma espécie de diário de viagem de uma jovem jornalista ao redor do mundo. Poderia jurar que os trechos sobre Londres e Paris continham frases dele próprio, das histórias que ele contou durante aquela tarde na casa de chá. O rapaz imaginou as maravilhas que Elisabeta seria capaz de escrever se realmente tivesse tido a oportunidade de visitar aqueles lugares. Ela era extremamente talentosa, e sua escrita era empolgante e convincente e ele desejou levá-la para conhecer as propriedades do Williamson na Inglaterra, e até mesmo caminhar com ela pelo campus da Faculdade em Paris.

A intenção de Darcy era ler um ou dois textos, no máximo, mas se perdeu em meio a tantas viagens, e acabou adormecendo ali mesmo.

***

O dia amanheceu preguiçoso na casa dos Benedito. Até Dona Ofélia estava calada na mesa do café. Cecília lia um livro, Elisa dividia o jornal com seu Felisberto, Jane e Mariana comiam em silêncio e até mesmo Lídia parecia desanimada naquela manhã.

Darcy, no entanto, acordou atordoado. Olhou para os lados e ao ver os raios de sol entrando pela pequena janela da casa da árvore desejou que tudo não passasse de um sonho. Esperava que não fosse tarde demais, que conseguisse sair sem ser visto. Juntou rapidamente os papéis que estavam espalhados ao seu lado e guardou de volta na caixa. Desceu a estreita escada de madeira apressado e quase escorregou. Foi só quando estava quase chegando à cerca da entrada que ouviu a voz de Seu Felisberto.

— Bom dia, meu rapaz. Posso ajudá-lo?

Darcy estava constrangido. Quando desceu da casa da árvore sequer lembrou-se de olhar para os lados, e agora suava um pouco com a ideia de ter sido visto na propriedade alheia. Por Deus, isso era tão incomum de Darcy Williamson. Agir sem pensar, invadir propriedades privadas durante a noite, dormir em casas da árvore. Sair escondido pela manhã!

— Bom dia, Sr. Benedito. Desculpe incomodar tão cedo. Eu…

— Pode me chamar de Felisberto, meu jovem. O que o aflige? Me parece um pouco nervoso.

— Não senhor, não é nervosismo, é apenas… Apenas… Ansiedade! Eu gostaria de fazer um convite a todos.

— Pois bem, entre. Tome um café conosco.

Quando os dois homens entraram em casa, Mariana e Elisabeta já haviam se dispersado. Ofélia dava orientações a dona Nicoleta sobre o almoço, Cecília agora continuava sua leitura no sofá e Lídia tentava decidir entre dois tons de rosa para o seu novo vestido.

Os olhos de Darcy varreram a sala em busca da Benedito mais velha. A quem ele queria enganar? Havia ido unicamente atrás de Elisabeta na noite passada, e agora sequer sabia o que fazia ali em meio a sua família.

— Bom dia, minhas queridas. Parece que o lorde Williamson tem um convite a nos fazer.

Imediatamente todos os olhares se voltaram para o convidado. Darcy fizera o possível para parecer apresentável durante o percurso do portão até a sala dos Benedito, mas sua camisa estava amassada e o cabelo um pouco bagunçado. Ele sorriu para as moças, tentando parecer simpático ao invés de nervoso.

— Bom dia, meninas. Eu… Eu gostaria de convidá-las para… Para um baile!

Um baile? Ele só podia mesmo ter perdido a cabeça. Darcy Williamson odiava bailes. E ainda assim lá estava ele convidando as moças mais festivas da cidades — ficando atrás somente de Ema, pelo que ele soubera. Mas logo ela saberia também, como amiga próxima das Benedito e enteada da sua anfitriã. Por Deus! Só então Darcy percebera que sequer possuía uma propriedade no Vale do Café para realizar um baile. Contaria com a ajuda da filha de Aurélio para conseguir a autorização de Julieta. Ele pagaria por tudo, apesar de não saber absolutamente nada sobre bailes.

—Um baile! Mamacita, ainda bem que já íamos a modista logo cedo! Agora mesmo que preciso escolher o tom certo do meu vestido!

— Ara, que chique um baile oferecido por um lorde legítimo aqui no nosso Vale do Café! — Ofélia comemorou, já imaginando encontrar bons partidos para suas filhas.

— Agradecemos muito pelo convite, Darcy! — Jane tomou a iniciativa de agradecer, já que sua mãe e Lídia estava, empolgadas demais para isso.

— E qual seria a ocasião, sr Williamson? Se é que nos permite saber. — questionou Cecilia, curiosa. Afinal Darcy parecia tão reservado. Mas a menina imaginava que Elisabeta possuía uma parcela de culpa nisso.

— Claro! Minha irmã! Ela está chegando da Inglaterra para passar uma temporada comigo e gostaria que ela fosse devidamente apresentada ao Vale do Café.

A ideia surgiu rápido demais na cabeça de Darcy. Ele não havia planejado nada daquilo e agora tudo se tornava grande demais. Ele precisaria falar com Julieta, contratar uma pessoa para organizar o baile, e agora precisava encontrar uma maneira de trazer Charlotte para o Vale o mais rápido possível. Mas a irmã adoraria a ideia do baile. Adoraria as Benedito. E, pensando bem, a jovem lady Williamson precisava mesmo respirar novos ares.

— Realmente uma ocasião digna de um baile! Nos faremos presente, com toda certeza! Vamos repassar o convite para Mariana e Elisabeta. — Cecília completou.

Darcy sorriu educado e continuou parado na sala sem saber o que fazer. Então Seu Felisberto o chamou para tomar café, e o jovem recusou educadamente, alegando que precisava avisar aos outros sobre o baile. Mas ele não poderia sair daquela casa sem notícias de Elisabeta, ele estava ansioso por vê-la. Queria convidá-la pessoalmente.

— Mariana e Elisabeta saíram tão cedo. — Desconversou o jovem, na tentativa de conseguir qualquer informação sobre o paradeiro de Elisa.

Jane e Cecília trocaram um sorriso discreto, lembrando-se do beijo que a irmã contara ter trocado com Darcy. Era realmente uma pena que ela não estivesse ali, teria sido divertido vê-la tentar fugir.

— Elisabeta deve estar com o cavalo, é a primeira coisa que ela faz todas as manhãs. E Mariana com certeza está com Luccino na oficina, aquela dali não tem jeito. — foi Lídia a responder com naturalidade, enquanto testava o tom dos tecidos próximo a seu rosto.

Darcy acenou com a cabeça e se despediu, agradecendo mais uma vez pelo café e reforçando o convite. Havia muito a ser feito, mas ele não resistiu em passar nos estábulos.

Elisabeta usava a mesma capa vermelha do dia em que a encontrou na estrada. A moça conversava com Tornado, enquanto o penteava, e o rapaz fez menção de se aproximar com um sorriso já estampando seu rosto, mas o que ouviu lhe fez parar no lugar.

— Veja você, Tornado, se eu vou namorar com alguém como ele! Arrogante, todo cheio de si. Confesso que me diverte provocá-lo. Mas os planos que fiz pra nós envolve outras coisas. Ainda vamos viajar esse mundo todo, eu e você, como prometi. Antes de qualquer coisa eu preciso encontrar o meu lugar no mundo.

E ali Darcy soube que jamais faria parte do mundo de Elisabeta Benedito. E agradeceu. Seria mais fácil ignorar os sentimentos que teimavam em aparecer.