Notas iniciais
Esse capítulo é tudo pra mim!! Boa leitura!

Elisabeta não sabia o que a havia levado até ali, mas durante um dos seus passeios diários a cavalo acabou se dirigindo até a ferrovia. Ela tentava convencer a si mesma que o motivo era a expectativa por ver a construção de algo que significaria crescimento do Vale do Café e que a aproximava do seu sonho de viajar pelo mundo. Mas foi só ver os primeiros sinais da obra que os pensamentos da moça viajaram até Darcy Williamson. Ele havia desaparecido pelos últimos cinco dias e Elisa tentou não buscar por notícias, pois esse tipo de fofoca se espalhava rápido demais no Vale e já bastavam suas irmãs insinuando que ela possuía algum tipo de sentimento pelo lorde inglês.

Se, de fato, nutria algum sentimento por Darcy só poderia ser algo próximo a amizade. Lhe doía admitir que gostava da companhia do rapaz, era divertido trocar farpas com ele, pois sabia que o mesmo, assim como ela, o fazia pelo simples prazer de provocar.

Quando Tornado adentrou o terreno da obra vários olhares se dirigiram a Elisabeta. E quando ela desceu do cavalo e caminhou até o escritório o trabalho simplesmente cessou, pois todos olhavam curiosos e atentos aos próximos acontecimentos. Elisa sorriu e caminhou com a confiança que lhe era característica, ela adorava chocar as pessoas com seu jeito inapropriado. Palavras de dona Ofélia.

Darcy estava tão concentrado na leitura de uns documentos que não ouviu as batidas na porta. E Elisa quase desistiu, mas foi vencida pela curiosidade de saber como era a sala de um lorde economista e empurrou de leve a porta.

O paletó de Darcy descansava numa cadeira do outro lado da grande mesa de madeira, enquanto o homem fazia rápidos cálculos em uma folha de papel, ao mesmo tempo que conferia os números no documento a sua frente. Ele parecia ainda mais bonito concentrado daquele jeito e Elisa teve dificuldade em soltar o ar que ela sequer notou que havia prendido.

—O senhor trabalha demais, sr. Williamson — no mesmo instante Darcy levantou a cabeça, reconhecendo a voz. — Como pretende conhecer as outras belezas do Vale se está há dias preso nesse escritório?

— Vejam só quem veio me fazer uma visita! Sentiu saudades, senhorita Benedito?

Elisa revirou os olhos e puxou a cadeira em frente a ele para sentar-se, a mesma em que estava o paletó com o cheiro dele.

—Saudades? O senhor andou sumido? Nem percebi.

Darcy largou o lápis e encostou-se na cadeira, espreguiçando-se.

—Estive uns dias em São Paulo recrutando novos trabalhadores para a construção da ferrovia. Em breve haverá mais pessoas para a senhorita apresentar as belezas do Vale.

— Se o senhor colocar seus funcionários para trabalharem o tanto que o senhor trabalha então os pobres coitados não terão a oportunidade de admirar as maravilhas do Vale.

— Pois bem, vamos agora. — Num ímpeto, Dacry levantou-se da mesa e estendeu a mão à Elisabeta. — Me mostre as belezas do Vale do Café.

Elisa também levantou, mas quando ele fez menção de pegar o paletó a moça o impediu, e uma eletricidade estranha passou por todo o corpo de Elisabeta quando ela tocou seu braço.

—Você não vai precisar de paletó aonde vamos.

—Tudo bem, senhorita-eu-sou-a-guia, você quem manda. Deixe-me pegar as chaves do carro então.

— Carro? Por Deus, Darcy! Nós não vamos de carro. Desconfio até que você nem conseguiria chegar lá de automóvel. Vamos de Tornado!

O sorriso que ela emitiu era divertido, e ao mesmo tempo desafiador.

Elisabeta sentia-se tão livre cavalgando Tornado que mal abalou-se pela situação. E por situação entende-se um Darcy Williamson muito alto sentado atrás dela em seu cavalo, as costas dela batendo no peito dele. Não era como se ela pudesse ignorar aquele homem todo atrás dela, mas focou sua atenção no caminho.

Já para Darcy não era tão fácil ignorar a posição em que estavam. O cabelo de Elisabeta estava meio preso, mas os fios castanhos claro caiam bem a sua frente, e o cheiro de flores do campo que emanava deles fazia Darcy querer abraçá-la. O rapaz fechou os olhos e entrou-se concentrou-se em afastar esse pensamento. Não podia estar nutrindo esse tipo de sentimento por Elisabeta. Ele sequer era capaz de nomear tal sentimento, mas tratou de afastá-lo antes que fosse tarde demais. “Seja sensato, homem!”. Repetia mentalmente para si mesmo, na intenção de manter-se emocionalmente longe de Elisabeta. Mas o cheiro dela era tão bom…

Quando finalmente chegaram Darcy não conseguiu esconder a admiração pelo lugar. A cachoeira era linda! Águas cristalinas banhavam o Vale do Café e, pela primeira vez em anos, ele sentiu paz.

Elisa possuía um brilho nos olhos. Ela tanto falava sobre sair do Vale, conhecer o mundo, mudar-se para São Paulo, mas a verdade é que amava cada pedacinho do Vale do Café, e acreditava que o único lugar onde ela sempre se sentiria em casa era ali.

A cachoeira era um lugar repleto de memórias para Elisabeta. Ela e suas irmãs cresceram banhando naquelas águas. Foi onde Rômulo ensinou todas elas a nadarem, e onde fizeram o piquenique de despedida do rapaz quando ele foi estudar medicina na Europa. Cecilia ficou devastada, pois sempre foi apaixonada pelo filho mais velho do Coronel Tibúrcio, mesmo ele sendo um namorador — de outras moças -. Mas Elisa acreditava que o retorno de Rômulo ao Vale iria dar um novo rumo a essa história. Cecilia andava tão envolvida com os mistérios da Mansão do Parque agora que Fani vivia frequentando a casa para ver Edmundo que ela e o médico acabariam se esbarrando e, aos poucos, retomando a amizade que tinham. E, com sorte, o relacionamento evoluiria para outro nível.

Foi também na cachoeira que Elisa deu o primeiro beijo e ela sorriu ao lembrar. Ela e Ernesto correram para detrás de uma árvore e trocaram um selinho, apenas por curiosidade. Não passou disso, os dois saíram de lá como se nada tivesse acontecido e continuaram sendo amigos. Atualmente Elisabeta desconfiava que o filho de dona Nicoleta estava interessado em Ema, mas sabia que a amiga só tinha olhos para Jorge.

E agora ela estava ali com Darcy, seu mais novo amigo. Um amigo muito alto e bonito e charmoso, ela não podia deixar de admitir. E até mesmo agradável, por mais que ela insistisse em chamá-lo de apenas tolerável.

—Bem vindo ao meu segundo lugar preferido em todo o Vale do Café! — Elisa abriu os braços e rodopiou, como se mostrando para Darcy toda a extensão do local.

O jovem lorde abriu dois botões da camisa e subiu as mangas, sentando em uma pedra próxima a água. Ele estava fascinado com a beleza do lugar. E de tão inebriado ele precisou de alguns minutos para associar a fala de Elisabeta.

—Segundo? Que lugar pode ganhar deste?

Elisa apenas sorriu e começou a tirar seu casaco e os suspensórios. Em questão de segundos já estava dentro da água. E Darcy não pôde deixar de sorrir com a espontaneidade e naturalidade da Benedito. A moça era mesmo uma peça rara. Fechou os olhos e sentiu o vento bagunçar de leve seus cabelos. Os pensamentos do lorde foram direto para Charlotte, sua irmã amaria aquele lugar. Talvez fosse boa ideia trazê-la, ele estava com saudades, e em parte preocupava-se com a segurança dela após o incidente com Uirapuru. Pensar naquele crápula o fez fechar o punho, numa raiva contida. Foi a voz de Elisabeta que o tirou dos pensamentos desagradáveis.

—Não acredito que veio até aqui para ficar aí sentado!

— Eu não sabia para onde você estava me levando. Não estou em trajes apropriados.

— Nem eu. E nem por isso deixei de entrar na água. Você é muito contido, Sr Lorde. Devia se deixar levar pelas surpresas da vida de vez em quando.

— Eu estou bem aqui, obrigado.

— Nossa, você é tão mentiroso! Eu estou vendo nos seus olhos que quer entrar. A água está ótima!

Ele podia ver o quanto a água estava boa. Muito boa. E com certeza cheirosa, com cheiro de flores do campo, ele podia apostar.

Elisabeta mergulhava, sumia debaixo d'água e pouco tempo depois emergia sorrindo. Os cabelos molhados pareciam brilhar ainda mais com os raios de sol batendo neles. Ela estava se divertindo tanto!

Às favas com a falta de trajes adequados! Darcy descalçou os sapatos, retirou o cinto e entrou na água silenciosamente para assustar Elisabeta. Mas ela foi mais rápida e virou-se para ele bem no momento em que ele estava se preparando para o susto. Elisa jogou água nele e Darcy foi obrigado a mergulhar e molhar o resto dos cabelos. Quando ele emergiu de volta sua camisa branca tinha se tornado transparente. Mas foi a expressão de Darcy que chamou a atenção de Elisa, ela quase podia ver um sorriso. E o rosto dele parecia mais leve, mais jovem. De repente Elisabeta se questionou sobre a idade do rapaz. Ali, despido de terno e gravata, longe dos afazeres da fábrica, do carro importado, Darcy parecia bem mais novo. E muito, muito mais bonito. E Elisa nem acreditava que isso era possível.

Os olhos do lorde encontraram os dela e o quase sorriso dele se desmanchou. Sua expressão agora era mais séria, mas não zangada. O olhar dele vasculhou rapidamente todo o corpo de Elisabeta, até que parou na boca dela. E os olhos dela também pararam na boca dele. Não foram capazes de distinguir qual dos dois iniciou o beijo, mas havia reciprocidade no ato. Elisa abriu mais a boca, dando espaço para a língua de Darcy. E ele não foi capaz de impedir seus dedos de se emaranharem nos cabelos molhados dela. As mãos de Elisa passeavam de leve, ainda um pouco tímidas, pelo peito dele. E foi então que eles sentiram que eram fogo, mesmo ali dentro da água.