Sra. Williamson
16 Capítulo 15
A viagem de volta para o Vale do Café foi silenciosa. Não teria sido se dona Ofélia tivesse voltado com eles, mas ela e seu Felisberto voltaram com Camilo, e agora, no carro alugado de Darcy, estavam apenas ele, Jane e Elisabeta.
No dia seguinte ao diagnóstico de amnésia retrógrada de Elisabeta Darcy pediu um momento a sós com ela para esclarecer a história de casamento. O jovem lorde estava devastado. Esforçava-se em pensar que haviam se livrado do pior, que Elisa estava viva e isso era tudo que importava. Mas ver sua relação daquela forma era doloroso. Ele era um completo estranho para Elisabeta, e essa era uma dor que Darcy nunca havia experimentado. Ver o relacionamento bonito que se criou entre os dois desaparecer assim em um piscar de olhos parecia uma brincadeira de muito mal gosto pregada pelo Destino. Mas Darcy sabia que precisava ser paciente, e pelo que conhecia de Elisabeta tinha certeza de que a situação também estava desagradável para ela. Elisabeta Benedito não se reconhecia por completo e ele podia ver a cabecinha dela funcionando, a angústia estampada em seu rosto. E toda vez que o médico se referia a ela como esposa de Darcy ele notava as rugas na testa e as sobrancelhas unidas, em um esforço para tentar lembrar em que momento e circunstância aquilo aconteceu.
Elisa, eu disse que era seu marido porque era a única maneira de receber notícias suas diretamente, sem precisar esperar pela chegada de seus pais. Ele dissera em um impulso, depois do momento de completo silêncio que se instalou no quarto quando foram deixados a sós naquela manhã. Ele percebeu o corpo dela quase relaxar. E então ela lhe fez perguntas sobre o que aconteceu depois da noite em que se conheceram na estrada. Darcy sentiu seu coração se aquecer com as lembranças, e contou tudo a ela em meio a risos e detalhes que até pouco tempo ele mesmo desconhecia sobre os sentimentos que, na época, começavam a surgir. Ele via Elisabeta sorrir discretamente e se reconhecer nas atitudes dela que ele relatava, mas em outros momentos a percebia tensa. E nessas ocasiões Darcy desanimava. Não adiantava ele contar, ela precisava sentir. E naquele momento a Elisabeta do hospital e a Elisabeta do Vale do Café de quase dois meses atrás eram pessoas diferentes, e sentiam diferentes, porque, de alguma forma, haviam vivido situações diferentes. Aquilo destruía Darcy de uma forma devastadora.
Ele continuou levando flores para ela até o dia de sua alta. Mas os momentos entre os dois perderam a intimidade. Darcy queria beijá-la todos os dias ao chegar e ao sair. Queria sentar ao seu lado e segurar sua mão enquanto ela recebia as cartas e visitas dos amigos do jornal. Venâncio e Laura Vieira fizeram uma visita juntos, e Darcy se apaixonou de novo por Elisabeta a cada sorriso que ela dava aos novos amigos. Queria que fosse ele a pessoa para quem ela contava das conversas com Laura, os planos para as colunas futuras que fazia com Venâncio. Mas Darcy apenas observava tudo de longe, suas conversas com Elisa agora eram sobre assuntos triviais, como o clima, a comida do hospital, o superficial sobre o trabalho.
Uma semana depois Elisabeta estava liberada para voltar a sua rotina normal no Vale do Café. O silêncio dentro daquele automóvel estava fazendo mal a Darcy, logo ele que sempre fora calado. Olhou pelo retrovisor e viu Jane dormindo no banco de trás. Ao seu lado, no banco do passageiro, Elisabeta estava bem próxima de ter uma vertigem de tanto olhar para o verde das plantas passar rapidamente pela janela do carro. Darcy tentou iniciar uma conversa:
—Ansiosa para voltar para casa?
— Acredito que eu estava mais ansiosa por São Paulo, mas vai ser bom voltar para casa, ficar perto de minhas irmãs. — um silêncio se seguiu, novamente. Darcy não sabia como responder além de um aceno positivo com a cabeça, e não falaria de sentimentos unilaterais quando sabia que não havia a menor reciprocidade ali. Mas então Elisabeta retomou sua fala, em uma de suas ânsias por ser ouvida — Eu não tenho medo do desconhecido, Darcy. Na verdade sempre corri atrás dele. Mas quando o desconhecido sou eu mesma… Eu quase sinto medo. E me sinto mal por você, porque eu gostaria tanto de retribuir seus sentimentos, mas agora eu nem mesma sei quem sou. Elisabeta Benedito não sabe quem é. — ela riu sem humor — quem imaginaria que isso iria acontecer?
Darcy diminuiu a velocidade até parar no acostamento. Quando virou-se para Elisabeta seus olhos encontraram os dela e ambos sentiram a conexão.
—Você não precisa se cobrar tanto, Elisa. E não tem problema algum sentir medo às vezes. Eu quase morri de medo quando lhe vi desacordada sangrando. E depois quando você não queria acordar. E isso não me fez fraco. Sentir medo não nos faz fracos, pelo contrário, só nos faz sentir mais fortes quando sobrevivemos depois.
Elisa desviou os olhos dos de Darcy. A intensidade daquela troca de olhares a pegou de surpresa. A intimidade daquele contato fez seu corpo tremer.
Darcy respirou frustrado. Não conseguiu evitar transparecer. Ele estava indo com toda a calma que conseguia, mas lidar com Elisabeta naquela situação era como pisar em ovos, e ele sentia que quebrava todos, o tempo todo. Passou a mão nos cabelos, nervoso. Ligou o carro e sentiu a mão de Elisa em seu braço.
—Darcy — só quando o rapaz a olhou ela continuou — Obrigada.
***
Tão logo Elisabeta e Jane desceram do carro Cecília, Mariana e Lídia as cercaram no famoso abraço das Benedito. Inseparáveis, inabaláveis e insuperáveis. Era bom estar de volta, nada se comparava a sensação de estar em casa.
Do abraço cada uma das irmãs passou aos beijos no rosto da mais velha. Cecília não parava de chorar, o alívio de Mariana era visível e Lídia estava tão feliz que não parava de pular.
— Vocês e essa mania de serem as melhores irmãs desse mundo! Que saudade! — Era desse reconhecimento que Elisabeta precisava e, ali, abraçada as irmãs, ela lembrou exatamente quem era.
Darcy observava a cena de longe com um sorriso no rosto. Recebeu os cumprimentos de Rômulo e Coronel Brandão que, ele ali soube, em breve estariam entrando na família Benedito. Mas foi Seu Felisberto que tocou seu ombro de modo significativo.
— Obrigado, meu filho, por tudo que tem feito por Elisabeta. Por não sair de perto dela nem mesmo quando ela se recusou a recebê-lo. Você é um homem íntegro e eu consigo ver que ama minha menina. Paciência, meu rapaz. As coisas voltarão a ser como era antes. Desconfio que melhor, até.
— Tomara, Seu Felisberto. Eu realmente amo sua filha. Estava pronto para dizer a ela, mas agora não é o melhor momento. — respondeu triste.
***
Dona Nicoleta preparou um jantar de boas vindas, e quase todo o Vale do Café estava presente. A casa dos Benedito estava em festa.
Elisabeta estava em meio às irmãs, Ema e Charlotte. Ela não lembrava da cunhada, mas, assim como aconteceu da primeira vez, logo se encantou pela jovem Williamson.
A noite seguiu animada. As meninas Benedito atualizavam a irmã sobre os últimos acontecimentos do Vale. Cecilia e Romulo estavam oficialmente namorando e Mariana encontrou em Brandão um parceiro de aventuras do Motoqueiro Vermelho. Randolfo continuava correndo atrás de Lídia, que continuava a esnobar o pobre rapaz, mas as irmãs sabiam que ela estava começando a se interessar por ele.
Passava das nove da noite quando Darcy chamou Charlotte para irem para casa alegando que estava cansado da viagem. Deixou que a irmã se despedisse de todos e a esperou do lado de fora. O ar do Vale do Café lembrava o de Pemberley, e Darcy quase sentiu falta da Inglaterra. Mas a voz de Elisabeta o trouxe de volta.
—Oi — era mais uma tentativa de iniciar qualquer conversa do que um mero cumprimento.
— Oi — ele respondeu com a voz rouca, e a semelhança daquele momento com o encontro dos dois no alto do morro o atingiu em cheio.
— Charlotte me disse que já estava indo então procurei por você para me despedir. E agradecer por ter me trazido. E por tudo, na verdade.
— Não precisa agradecer.
— Papai disse que você arcou com todos os gastos do hospital, então…
— De certa forma foi minha culpa, Elisabeta. Você sabe… O acidente.
— Não foi o que todos disseram. Inclusive o médico. E aquele rapaz, Olegário. Foi um acidente, Darcy. Não se martirize.
Darcy deu de ombros.
—Você é um homem bom, Darcy Williamson. Eu vejo isso agora. E com certeza vi antes também, ou jamais teríamos começado um namoro. O Darcy Williamson que conheci naquela noite com Tornado seria o último homem com quem me casaria. Mas nós dois somos muito mais do que as duas pessoas que estavam agindo na defensiva naquela noite. Só que agora eu não o conheço o suficiente para namorá-lo. Eu não acho certo seguir com isso, assim, como se nada tivesse acontecido. Não é justo sobretudo com você. Eu não estaria sendo sincera com meus sentimentos.
— Você não precisa se justificar, Elisa. Mas você precisa saber, que tudo que fiz, tudo que sou hoje, foi tudo por você. Boa noite, fica bem. — Darcy se aproximou dela e depositou um beijo casto em seu rosto.
O rapaz foi em direção ao carro aguardar pela irmã que já se aparecia na porta da casa dos Benedito.
Elisabeta permaneceu parada no mesmo lugar, a mão na bochecha em que ele havia beijado, o coração acelerado e uma sensação estranha na boca de seu estômago.
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