Voltar ao Brasil não estava nos planos de Darcy. Assim que completou a maioridade e assumiu o posto de seu pai, a primeira coisa que fez foi vender a propriedade dos Williamson em São Paulo, pois nem ele nem Charlotte tinham intenção de voltar ao país em que nasceram e viveram até quase toda a segunda infância. Darcy também encontrou uma forma de se desvencilhar dos negócios da família que envolvessem o Brasil, os que não vendeu entregou nas mãos de Julieta Bittencourt, e a rainha do café administrou tudo muito bem. Até agora. Ela precisava de Darcy na construção da ferrovia, estava tendo problemas na papelada que daria início a construção no Vale do Café. Um lugar que sequer estava no mapa, mas seria sua ferrovia a mudar este fato.

Dirigindo pelas ruas esburacadas da pequena cidade Darcy lembrava-se dos dias que passou em São Paulo logo que chegara ao Brasil. Bastou que ele desembarcasse no porto para que as lembranças invadissem seus sentidos. De fato o olfato guarda as maiores lembranças. Ele não conseguia acreditar que uma cidade movimentada como São Paulo pudesse ter o cheiro de sua mãe. Das flores que ela colhia todas as manhãs para enfeitar a mesa de jantar; do feijão que ela cozinhava para o almoço todas as quintas-feiras. Claro que, no geral, a cidade estava diferente do que ele lembrava, afinal haviam se passado quase vinte anos. Mas as memórias que envolviam seus pais e a vida que os Williamson levaram ali estava presentes como o sol que esquentava sua pele. Darcy tirou o paletó e conseguia sentir o suor se formando na sua testa. E nem estava na época mais quente! Mas os anos morando na Europa fizeram com que ele se adaptasse ao clima frio. Era tão estranho andar sem o paletó!

Pagou um quarto no hotel e passou o resto do dia envolvido no trabalho, não queria ter que remoer as lembranças de sua infância. Foi bom reencontrar Camilo na casa dos Bittencourt à noite. Os dois haviam estudado juntos em Paris e fizeram uma boa e sólida amizade, mas o filho de Julieta preferiu voltar para o Brasil, e em meio a tanto trabalho, de ambos os lados, as correspondências entre os dois acabaram ficando cada vez mais escassas. Camilo em breve iria para o Vale do Café também, mas a mãe o deixara resolvendo algumas pendências em São Paulo. O jovem sugeriu que Darcy esperasse por ele, para que fossem juntos, e até convidou o amigo para hospedar-se em sua casa, mas o inglês sentia-se sufocado em São Paulo, precisava sair daquela cidade o mais rápido possível. Darcy voltou para o hotel e, no dia seguinte, pegou a estrada para a cidadezinha onde sua sócia esperava por ele.

Passava das dez da noite, Darcy não via a hora de chegar, mas a estrada escura e cheia de buracos o obrigava a dirigir devagar. E ele agradeceu por isso quando notou, quase tarde demais, um cavalo parado no meio da estrada. Freou de forma brusca, assustando o animal, e um grito feminino pôde ser ouvido.

— Tornado, cuidado!

O cavalo tentou fugir, mas não conseguiu. Provavelmente estava ferido.

Darcy desceu do carro apressado, oferecendo a mão à moça que estava agachada ao lado do animal, tentando acalmá-lo.

— A senhorita está bem? Já estava muito perto quando vi o cavalo. Estão feridos?

Elisabeta ignorou a mão estendida diante dela e levantou-se sozinha, os olhos, fazendo certo esforço por causa da escuridão, procuravam os do cavalo

— Apenas Tornado está ferido, eu estou bem. Eu não consigo fazê-lo sair daqui. Se o senhor puder buscar ajuda agradeço.

Darcy acendeu os faróis do carro para iluminar a cena. A moça era bonita, e ele lamentou que estivesse tão escuro, pois gostaria de ver a cor dos olhos dela. O cavalo – Tornado, se ele bem compreendera -, estava com um ferimento na pata dianteira esquerda, e parecia bem feio. Ele gostava de cavalos, sempre ajudou nos estábulos em Pemberley, para a desgosto de sua tia, que sempre reclamava quando ele voltava todo sujo na hora do jantar. Darcy rasgou um pedaço de sua camisa e fez o mais próximo que conseguiu de um curativo, aquilo deveria ajudar a estancar o sangue.

Elisabeta Benedito olhava curiosa para aquele homem desconhecido. Ela era boa com fisionomias, jamais esquecia um rosto, o que significava que ela realmente não o conhecia. Ele parecia vir da capital, mas falava com um sotaque estranho. Talvez não fosse de São Paulo. A Benedito estava intrigada.

— Eu acho que isso deve ajudar a estancar o sangue, mas não acho que seja boa ideia fazê-lo caminhar sentindo dor. – Darcy puxou um relógio de bolso – Está um pouco tarde, há quanto tempo estão aqui? Sua família deve estar preocupada.

Elisabeta riu.

— Com certeza Dona Ofélia está louca de preocupação, mas ela conhece a filha que tem. Eu não posso deixar Tornado aqui sozinho.

— Eu acho que não tem problema algum amarrá-lo naquela árvore e ir buscar ajuda logo cedo pela manhã. Ele precisa descansar, e vê-la tensa o está deixando tenso também.

— Ah, agora o senhor forasteiro está me dizendo que sabe o que é melhor para o meu cavalo.

— Com certeza ele está sentindo dor – rebateu Darcy – e não seria muito sensato fazê-lo andar até sua casa.

— Eu não pretendo fazê-lo andar. Eu pretendo passar a noite aqui com ele enquanto o senhor vai buscar ajuda.

— A minha educação e bom senso me dizem para não deixar uma moça sozinha no meio do nada a esta hora da noite.

— Aposto que sua educação e bom senso também lhe dizem que não é de bom tom uma senhorita passar a noite com um homem que não é seu marido. E eu sequer conheço o senhor.

— Darcy Williamson, prazer. — Novamente ele estendeu a mão e mais uma vez Elisabeta ignorou. Darcy riu, passando as mãos pelo cabelo. Ele estava exausto da viagem e a última coisa que queria era discutir com uma mulher teimosa como aquela diante dele. — Tudo bem, senhorita-sem-nome, se me permite passarei a noite aqui no meu carro. A senhorita, se preferir, pode dormir no chão com seu cavalo. Assim que o sol nascer eu me ofereço para buscar uma ajuda mais adequada.

Darcy sentou-se no banco do motorista e levantou as mangas da camisa social que vestia. O clima do Vale do Café era um pouco mais agradável do que o de São Paulo mas seu corpo ainda levaria certo tempo para se habituar. Enquanto o homem — grande demais — tentava se acomodar naquele veículo minúsculo, observou a moça retirar a capa que usava e colocar no chão, deitando-se em cima. O inglês não pôde evitar sorrir, quanta teimosia! Definitivamente uma cena como aquela era a última coisa que ele esperava vivenciar nas suas primeiras horas no Vale e, muito provavelmente, acordaria todo moído por passar a noite em um carro pequeno demais para seu tamanho. Mas ele sentia que se arrependeria profundamente se deixasse a senhorita-sem-nome sozinha; ele se sentiria responsável se algo de mal a acontecesse. Darcy ainda não sabia, mas Elisabeta Benedito era como um imã que o atrairia sempre para perto, por mais que eles tentassem se repelir.