Notas iniciais
Oi, gente! Esse é meu capítulo preferido até agora, porque foi inspirada em uma das minhas cenas preferidas da novela. Espero que vocês gostem tanto quanto eu.

A situação na ferrovia estava mais complicada do que Darcy havia imaginado. A construção sequer havia sido iniciada, e o tempo corria sem esperar por ninguém. Vicente era o braço direito de Julieta no Vale, e bastaram poucos minutos de conversa para Darcy perceber que se daria bem com o empregado. Operários já haviam sido convocados, e a ferrovia tornou-se uma fonte de renda para muitos moradores da região, pois gerou novos empregos e mais ainda estavam por vir. Talvez precisassem fazer um recrutamento em São Paulo, principalmente com o atraso que estava se criando.

Havia muito trabalho a ser feito, mas Darcy não conseguia se concentrar com êxito. Não parava de pensar na senhorita-sem-nome que, logo ele descobriu, se chamava Elisabeta Benedito. A filha de Aurélio chegou na mansão sentindo-se ultrajada pela forma que supostamente ele tratou a amiga. O Williamson não sabia a versão dos fatos que a moça tinha relatado a Ema, mas ele preferiu ignorar as ofensas. Gostava de pensar que estava tranquilo com sua consciência, que tinha cumprido com a etiqueta e ajudado uma moça e um pobre animal que precisavam de ajuda. Mas se a consciência de Darcy estava tranquila por que ele não parava de se preocupar com a tal Elisabeta? Ela era tão irritante! E sua irritação e ingratidão praticamente o obrigaram a ir embora e deixá-la sozinha a espera de Aurélio. Felizmente o homem correra a ajudar o cavalo. Descobrira no dia seguinte que o marido de Julieta — recém casados, eles haviam adotado um menino de 10 anos — não era veterinário e sim botânico, mas assumira o posto desde o episódio em que precisou socorrer o cavalo de Julieta.

Disposto a tirar a moça Benedito de sua cabeça, Darcy decidiu dar uma olhada no projeto da construção da ferrovia, conversar com alguns operários ali presentes e conhecer melhor os limites da propriedade. E foi nesse processo de conhecer os limites que o inglês a viu no alto do morro. Pediu o binóculo de Vicente emprestado para ter certeza de que era mesmo ela. Estava escuro na noite em que se conheceram, mas Darcy conseguiu observá-la melhor pela manhã, enquanto ela virava-se de um lado para outro tentando dormir. E agora, mesmo tão longe e vista através de um binóculo, Elisabeta parecia ainda mais bonita. Os cabelos estavam soltos e os cachos quase dourados nas pontas dos cabelos caiam sobre o ombro, o que, Darcy podia jurar, estava com certeza destacando os olhos verdes da Benedito. Viu Tornado amarrado em uma árvore e sentiu alívio por ver o animal já curado.

O jovem lorde não soube dizer o exato momento em que decidiu subir o morro, mas quando deu por si já estava no topo, cada vez mais próximo de Elisabeta. Ela o viu chegar e não pôde deixar de revirar os olhos.

— Veja só quem decidiu aparecer para pedir desculpas por ser um grosso, Tornado.

Darcy decidiu entrar no jogo e olhou para os lados, como se à procura da pessoa a quem Elisabeta se referia.

— Não vejo mais ninguém aqui além de nós três, mas faço questão de eu mesmo ensinar bons modos a esse grosso quando encontrá-lo, senhorita-agora-com-nome-benedito.

— E ainda se faz de cínico! Ou não lembra a forma como me tratou, principalmente pela manhã?

— Lembro-me de ter tratado a senhorita muito bem, inclusive a protegendo durante a noite. Mas tudo bem, a senhorita Elisabeta Benedito pode me agradecer depois.

Elisa desistiu de provocá-lo, apesar de estar começando a achar tudo aquilo bem divertido. Darcy não foi de fato um grosso, mas ela jamais admitiria em alto e bom tom que ela que estava estressada e irritada na ocasião do encontro dos dois.

— Vejo que descobriu meu nome mesmo contra minha vontade.

— Não que eu estivesse interessado em saber, mas não havia como ignorar sua amiga Ema repetindo o quão deselegante eu havia sido com a querida Elisabeta Benedito. Quase fui convencido de que deveria ser eu a pedir desculpas! O poder de persuasão dessa jovem é admirável. Que Deus ajude quem das senhoritas se aproximar!

Elisa fez uma cara de ofendida, de forma bem teatral e depois sorriu.

— O que o senhor faz por aqui? Por acaso está perdido?

— Não estou perdido, mas não me surpreenderia se estivesse perdido justamente na companhia da senhorita. Estava me atualizando dos negócios da minha família na ferrovia e achei a paisagem bonita demais para não ser admirada.

Só depois que as palavras saíram de sua boca que o homem percebeu que não estava se referindo apenas à natureza do lugar.

— De fato esse é um dos lugares mais bonitos do Vale do Café. Parece o topo do mundo.

— Vejo que Tornado já está recuperado. — Disse Darcy se aproximando do animal para lhe fazer um carinho, o qual o cavalo recebeu sem resistência alguma. — Fico feliz, é um cavalo muito bonito.

Eles ficaram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade e Elisa se aproximou de Tornado, fazendo menção a ir embora. Ela não deveria sentir-se acanhada, afinal aquele era seu morro, o seu lugar. E Darcy Williamson era um forasteiro. Era ele quem estava invadindo o seu espaço, e deveria ser ele a ir embora, mas, por algum motivo, Elisa sentia como se devesse fugir dali, para longe dele.

Darcy, no entanto, sentia o oposto. Nem queria ter ido até ali, em primeiro lugar. Mas quando notou, já estava no topo do morro. E sentiu o peito apertar quando ela fez menção de ir embora. Elisabeta Benedito era uma companhia agradável, afinal de contas. Além de Julieta, a moça era a única pessoa que o inglês conhecia na cidade, era o mais próximo de um amigo que ele teria ali. Depois da morte dos pais Darcy tornou-se uma pessoa solitária. Com exceção de Charlotte, que era sua irmã e a pessoa que ele mais amava no mundo, apenas Camilo conseguiu despertar nele um sentimento próximo de amizade, mas o tempo acabou por afastar os dois e novamente Darcy se viu sozinho. Pelo pouco que conhecia Elisabeta ele já notara que se tratava de uma mulher decidida, intensa e corajosa. E dona de um gênio forte, com o qual ele bateria de frente toda santa vez, mas ainda assim, gostava da confiança que a jovem Benedito emanava.

— Há outros lugares tão lindos quando este no Vale? Gostaria de conhecer. — Ele quebrou o silêncio quando ela foi montar em Tornado.

Já em cima do cavalo ela respondeu:

— Se tivermos o desprazer de nós encontrarmos novamente talvez eu entenda como um sinal para devolver o favor. Não que eu esteja admitindo que o que o senhor fez foi de admirável ajuda, se é que me entende.

E com um sorriso no rosto Elisabeta e Tornado partiram, deixando para trás um Darcy extremamente balançado.