Sr. Salazar
2 Última Parte
Suspirou para dar fim ao momento de nostalgia e foi para uma das prateleiras da biblioteca, tocando um livro específico. Aquela parte com quase dois metros de altura por dois de largura moveu-se para o lado, fazendo uma segunda parede surgir. Era uma espécie de mostruário com diversas armas, umas herdadas de seu pai e outras feitas sob encomenda do Sr. Salazar, tornando todas modelos únicos.
Estava com uma maçã na mão, um de seus lanches favoritos depois de laranjas, e observava cada objeto ali, desde armas de fogo, brancas até estruturas que seriam usadas para defesa e objetos pouco usuais para serem considerados mortais, mas não nas mãos de Bartolomeu, que preferia o combate corporal.
Uma braçadeira pesada de ferro foi escolhida, que lembrava o casco de um tatu-bola, dada a mobilidade, e cobria do cotovelo aos primeiros nós dos dedos. Uma adaga também, já dentro da bainha, feita de prata benta pelo primeiro e único Papa que foi um Cavaleiro Exorcista na história da Igreja Católica. Aquela adaga era tão antiga quanto ele mesmo, o que não era um problema, pois a arma continuava afiada e poderosa mesmo depois de um século.
Como sempre, pois se teve uma lição que bem aprendeu com Dona Cândida — a primeira e mais essencial de todas elas — era a de que por mais que padres e cavaleiros ensinem a lutar e a enfrentar todas as criaturas conhecidas, o desconhecido sempre será, acima de qualquer instância, desconhecido, por estes meios, imprevisível.
Buscou mais um objeto, que enrolou em seu pulso que não receberia a braçadeira e o escondeu sob a manga de sua camisa branca, para não chamar atenção, pois não era de seu gosto responder perguntas, principalmente as desnecessárias.
Uma vez separadas as armas e escondido todo o arsenal de novo, Bartolomeu buscou um outro livro, do outro lado, e levou para a estufa. Apesar de nada ter dito e nem ter olhado para baixo, sabia de Coralina escondida, ansiosa por saber o que se passava. Seus passos largos não podiam ser acompanhados pela jovem, que tentava não correr para não atrair a atenção desnecessária do padrinho ou de Sra. Distinta.
Colocou suas armas sobre a mesa e abriu o livro numa página específica, observando suas anotações em latim para o preparo da substância que precisaria. Dispôs todos os ingredientes, algumas pételas de petúnia, folhas secas de alecrim, seiva de comigo-ninguém-pode e pó da pedra Olho-de-Tigre dentro de um vasilhame branco de mármore e começou a "pisar" com um pilão pequeno. Sussurrava uma oração específica enquanto preparava a mistura, banhando aquilo com sua energia vital para funcionar.
—Padrinho? — ele não parou e Coralina percebeu, pela postura do homem, que deveria esperar até que parasse de sussurrar palavras numa língua que desconhecia. Ela se sentou num banquinho perto de um vaso grande contendo uma roseira branca e se manteve em silêncio, observando seu amuleto.
Acabou cochilando enquanto ouvia a voz de seu querido pai de criação, mas despertou com o som do sino de Sra. Distinta, convocando-a para se preparar para o jantar. Ela abriu os olhos e se viu deitada no sofá de uma das salas de estudo, coberta pelo casaco do Sr. Salazar. Este estava bem ali, lendo sob a luz de um castiçal, mas ao ouvi-la se mexer, ergueu a vista das páginas e se levantou.
Antes que a entrada da governanta fosse permitida, os dois trocaram um abraço carinhoso e apertado, que só um pai e uma filha poderiam compreender, e um sorriu para o outro.
Coralina subiu para o seu quarto a fim de se aprontar para o jantar antes que a Sra. Distinta desse um chilique grande demais para ser contido. Bartolomeu também foi se aprontar, mas sua intenção era outra e, ao ver um clarão através das janelas, soube que seria uma longa noite e precisaria estar a caráter para não desapontar sua ilustre visita. Por educação, perguntou à mulher como estava o estudo de Coralina e assim deixou-a tagarelar tanto quanto queria enquanto comia do ensopado de frango.
Novamente coisas demais na sua cabeça, pensou a menina ao ver seu padrinho massagear a testa ao parar de comer de repente. Apesar da cabeleira ruiva espessa e da barba cheia lhe esconderem a maioria das expressões faciais, Coralina sabia quando havia um turbilhão de pensamentos bagunçando a cabeça de seu pai. Aquilo a preocupava, porque quando seu pai ficava perturbado, ele agia daquela forma estranha como na noite anterior.
A refeição findou e o grupo foi para a sala de chá, como mandava os costumes vitorianos, mas ao invés de beberem o líquido inglês, desfrutaram de bebidas frias feitas com frutas e, em alguns tipos, com leite, adoçadas ou não naturalmente.
A casa, apesar de residir oficialmente apenas 4 pessoas, isto é, Sr. Salazar, Coralina, Sra. Distinta e o agregado José Dias, ela nunca ficava vazia ou plenamente silenciosa, os ouvidos mais atentos captariam os passos dos empregados e dos guardas responsáveis pela vigilância noturna pelos corredores.
Quem não conhecesse a residência, poderia julgar que era mal assombrada ou quieta demais, mas aqueles quatro estavam acostumados. No entanto, Coralina ergueu o rosto, um tanto assustada, e olhou em volta, como se algo estivesse errado. E estava, ela percebeu pelo olhar sério demais de seu padrinho: a casa estava mais silenciosa que o normal.
O Marquês deu ordem que José Dias e Sra. Distinta fossem para os seus quartos e só saíssem de lá quando ouvissem o cantar do galo, enquanto acompanhava a menina por outro corredor, que Distinta julgou ser um caminho para levar a afilhada à segurança do próprio quarto.
Os dois seguiram por lá até chegarem a uma porta, que esta os levou a uma escadaria. O acesso ao pátio externo foi rápido por ali, pois assim que desceram um lance de escada, se encontraram na antessala para o Salão Principal de bailes. Era um tipo de passagem secreta criada para momentos de fuga rápida ou de ataque estratégico.
Bartolomeu percebeu que chovia, mas o barulho era mínimo para pertencer a uma forte, como seus olhos diziam, o que era um péssimo sinal.
—Quieto demais, padrinho. — Coralina sussurrou e ele assentiu.
—Mantenha-se segura e me obedeça uma vez na vida. — pediu sem olhá-la. Tomou o caminho oposto à saída, direto para o escritório onde deixou suas armas e a mistura preparada.
—E qual é a ordem? — ela indagou em voz alta. Um trovão quebrou todo aquele silêncio estranho, não completo, e fez a jovem estremecer, pois fora pega de surpresa pelo som alto e forte.
—Não me siga.
Ele desapareceu casa a dentro. Coralina mordeu o lábio inferior, meio irritada com aquela decisão, porque sabia que era útil. Tirou seu vestido, jogando-o sobre um banco ali, e correu para a chuva. Seu padrinho sempre a subestimava.
Bartolomeu tirou seu casaco e seus sapatos, pendurou a bainha em seu cinto, despejou um pouco do pó que criou sobre a lâmina e estrutura que iria para o seu braço, notando o ferro escurecer. Colocou a braçadeira pesada, que se fechou num aperto forte e teria quebrado o braço de alguém que não fosse treinado, e observou a janela. Dali, além dos seus jardins, já perto do sopé da serra onde sua casa fora construída, viu uma luz se movendo por trás das árvores e este foi o sinal de que era hora.
Uma vez pronto, foi para fora, sentindo a braçadeira puxar seu membro de tal maneira para baixo que sentia uma fisgada um pouco mais forte no ombro, mas quando punha seu chapéu de Cavaleiro Exorcista, como faziam os antigos Templários ao colocarem seus elmos, nada mais importava além do alvo de seus olhos verdes cintilando na escuridão.
Correu para a floresta, seguindo a pequena bola de luz amarela, como um verdadeiro predador faz ao encontrar sua presa e sair em caçada.
Em determinado ponto, num declive, percebeu que aquela criatura estava lhe levando, direto para a vila, o que lhe fez xingá-lo mentalmente e tornar a caçá-lo, enxergando o rastro sob chuva.
Noutro ponto, sujando as saias de sua roupa inferior, Coralina seguia o barulho alto do assobio e havia pouco tempo que assobiara de volta, pensando ser algum sinal de seu padrinho. Ela olhou ao seu redor, sentindo-se atordoada pela chuva e pelos clarões dos relâmpagos, que projetavam as sombras das árvores no chão e umas nas outras. Tudo parecia igual aos seus olhos e o assobio estava cada vez mais forte, o que a fez pensar que não era o Marquês, posto que fosse ele já teria bradado o seu nome.
Repentinamente aquele silêncio estranho e aterrorizador se impregnou no ar, como se toda a natureza ficasse quieta ante uma presença ameaçadora, o que fez um arrepio paralizante iniciar em seu calcanhar e lhe alcançar o topo da cabeça em poucos segundos, estancando Coralina.
Ela viu sua própria sombra projetada no tronco de uma árvore, mas a fonte de luz não era um relâmpago, pois era iluminada continuamente. Parada e tentando respirar com normalidade, para não ceder ao medo, Coralina entendeu que algo estava atrás de si e era responsável pelo rangido metálico que ouvia e a luz. Ela apertou os punhos com força e girou devagar em seu próprio eixo, sentindo os dedos quase escorregarem na lama escura do chão.
Bem ali estava o assassino de três empregados de seu pai e mais duas cabras, pois suas mãos exibiam as grotescas armas usadas para os crimes. Lembrava-lhe um homem velho, muito velho, de longa e suja barba desgrenhada, corpo ossudo, porém a curvatura de sua coluna o deixa mais abaixo do que realmente é. Suas roupas são uns trapos que mal lhe cobrem o corpo, num tom uniforme de marrom e sobre sua cabeça, escondendo sua face e uma boca diabólica, existe um chapéu de palha.
A roupa não esconde chagas abertas em feridas purulentas, de onde rastejam vermes que correm as carnes apodrecidas pela morte.
Uma mão segura um velho candeeira, com uma chama que não se sabe como está acesa e nem o que a mantém, enquanto a outra sofre espasmos, como se ansiasse por se enfiar em um pedaço de carne.
No lugar de unhas humanas, os dedos se prolongam e se afiam como navalhas enferrujadas, manchada pelo sangue de incontáveis vítimas.
Coralina mantém os punhos cerrados e engole em seco, preparando-se para o ataque, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa ou antes que aquele ser aterrador se movesse, ela ouve passos na lama.
—Peço perdão por interromper, caro ancião, — era o seu padrinho! Não soube de onde ele veio, mas surgiu bem ali, atrás da assombração. — mas creio que apresentações sejam de bom tom. — a criatura rosnou, furiosa, e girou o corpo para cravar suas garras nojentas no homem, mas este desviou ao dar dois passos para trás, sem perder a postura.
Sua protegida, como sempre, agindo com imprudência e o desobedecendo, mas eis que lhe foi útil sem querer: levaria mais tempo caçando-o pelos rastros do que ouvindo o assobio dela.
Chegou bem há tempo de por um fim ao escarcéu antes mesmo que começasse.
Bartolomeu tocou a aba de seu chapéu e se curvou sutilmente, mantendo um braço atrás de si. O velho lhe atacou de novo, mas no segundo desvio, o homem lançou sobre o ser aquele pó que preparou horas antes, vendo-o cair na lama aos gritos. O candeeiro não se apagou, mas caiu perto de uma árvore, iluminando aquela parte um pouco aberta.
—Sou Sr. Salazar, o Marquês de Castelbrar — ele ergueu seu punho em riste, exibindo a braçadeira que surpreendeu Coralina, e ativou um de seus totens. Este lhe fez roncar de forma rouca e baixa e toda a sua pele visível ganhar um aspecto escamoso enquanto as linhas de um tom brilhante de verde se alastraram, formando um desenho. Lembrava um crocodilo ou um jacaré. — Anhanguera e esta é a minha propriedade. Não me recordo de tê-lo convidado! — socou com força a barriga do ser e o viu se contorcer. — Portanto, senhor, eres um invasor.
O velho lhe golpeou a face com as garras, mas foi falho visto que habilmente Bartolomeu pôs sua braçadeira no caminho. Faíscas saltaram com o contato agudo e arrastado das garras com o ferro. Os dois levantaram-se do chão, um tentando acertar o outro, porém sem tanto sucesso como antes.
Apesar da chuva, do chão enlameado, dos barulhos intensos e dos urros ferozes do velho, Bartolomeu se mantivera focado a todo momento, afinal não era nenhum estreante naquele ramo.
Por isso, a cada giro, ele se abaixava e riscava a adaga no chão de maneira tão veloz que parecia amolar a lâmina para golpear a assombração agressiva e se defender com a braçadeira. O ser vinha de todas as direções, atacando a esmo, atingindo árvores e mais árvores, o próprio chão e pedras como se não enxergasse-as, apenas o homem de cabelos de fogo. Fazia Bartolomeu girar no próprio eixo, como um pião, acuar-se e evitar atacar, sempre indo ao chão para se defender e desviar dos golpes mortais, o que só enfurecia ainda mais a besta em forma de velho.
Coralina estava preocupada, seu padrinho em apuros visto que não mais atacava, porém o semblante dizia que ainda tinha tudo sob controle, de modo que não sabia se devia ajudá-lo ou não.
Ela olhou em volta, buscando a resposta para a sua pergunta, e percebeu que ele continuava passando a adaga no chão. Franziu o cenho ao limpar o rosto da água da chuva e percebeu que ele estava… Desenhando? Um símbolo? Não era a primeira vez que presenciava aquele familiar desenho, de modo que entendeu o desespero do velho quando este parou de se mover ao receber um golpe tão forte do Marquês que a árvore atrás dele foi partida e tombou. Bartolomeu sorriu ao mover o braço com a peça mais pesada e tocou a aba do chapéu em cumprimento, ou seria algum tipo de despedida?
Ela entendeu o que ele faria, por isso correu para fora da mata. Não ajudaria em nada estando daquele jeito, posto que era, por hora, inútil para seu padrinho e soube disso ao ver o olhar dele. Sabia como auxiliá-lo nessa luta e a melhor forma era longe.
Bartolomeu agradeceu mentalmente à sua afilhada pela gentileza de se retirar dali, pois a machucaria com realizaria em instantes.
Depois de muito golpear a assombração para mantê-la imóvel, parou de atacar e tirou sua braçadeira, sentindo-se mais livre para fazer o verdadeiro ritual do exorcismo naquele ser.
—Velho do Chapéu de Palha, é com plena satisfação que eu, o Marquês de Castelbrar, Cavaleiro Exorcista, lhe darei seu fim. — jogou a adaga bem no meio do desenho que fizera no chão e viu-o se iluminar num tom vivo de dourado. Não era um caso simples de possessão ou de presença maligna de alguém, mas uma entidade alimentada pelo ódio e pela vingança que atingira o estágio corpóreo.
O velho urrou enfurecido ao se ver preso dentro daquele círculo com símbolos específicos e tentou arranhar o chão para desfazer o ritual.
Porém não viu quando o homem desenrolou de seu pulso um longo rosário feito de materiais conhecidos apenas por Bartolomeu, um de seus instrumentos de combate mais poderoso de seu arsenal, o que o fez gritar ao sentir parte do objeto se enroscar em seu pescoço ao ponto de lhe enforcar.
Com a voz forte e seguro do poder de cada palavra que era proferida por sua boca, o Marquês segurou mais firme parte do rosário para o aperto ser estreitado e pressionou a cruz de prata na testa ao lhe derrubar o chapéu, mesmo que para isso precisasse receber inúmeros golpes das garras em seus braços.
Orou com vigor o Pater Noster, o Salmo 54 da Bíblia e invocou o poder de Cristo sobre aquela criatura, falando em latim com perfeita fluência adquirida após anos, o que fez o desenho brilhar mais forte e queimar o corpo da assombração.
—Per signum crucis, de inimicis nostris, libera-nos Deus noster. — o ser já não mais se mexia, soltando uma densa baba negra pela boca escancarada, que emanava um cheiro forte de sangue e podridão. — In nomine Patris, et Filii, — Bartolomeu girou com força a cabeça do velho, usando suas mãos e o rosário, e o decepou, fazendo o corpo pender sobre a lama e o brilho cessar. Fez os movimentos da cruz enquanto dizia: — et Spiritus Sancti. Amen.
Fitou o canto e percebeu o candeeiro ainda aceso. Agora sentia a ardência de suas feridas, principalmente por estarem se curando graças ao seu totem Crocodilo, que lhe concedia certa durabilidade contra golpes físicos. Buscou o objeto, sua braçadeira e partiu para a mansão sob a forte chuva.
O corpo se desfez em cinzas e apenas o chapéu restou, que também foi pego por Bartolomeu. Assim que retornou, foi se lavar com água quente para cuidar de sua saúde e depois preparou um suco purificador com um pequeno pedaço de aranto. Não que precisasse daquilo de fato, mas o Marquês sempre foi muito cuidadoso por causa do seu estilo.
Já era mais de onze horas da noite, de modo que o homem passou em cada quarto, como era de seu costume, para verificar se seus agregados estavam seguros e se sua protegida se encontrava em casa.
Ele entrou no quarto da menina e se sentou na cama ao vê-la submergida em meio aos lençóis, afagou os fios cor de mel, afastando-os da face adormecida para observá-la melhor.
De tantos segredos que Bartolomeu escondia em sua mansão, seja por causa de seu pesado sobrenome o qual carregava sozinho, seja porque haviam alguns fatos não deveriam vir à tona, Coralina era o seu mais cheio de vivacidade e de uma singularidade que ele só reconheceu em outra pessoa, mais velha e mais calejada que ela.
Deixou-a dormindo para ir até seu escritório escrever uma carta-relatório para o Duque de Aires, afinal aquele tipo de assombração não era comum de acontecer, ainda mais em suas fortemente e de diversas formas protegidas terras. Chupacabras, Jack The Ripper, o Velho do Chapéu de Palha e todas ocorrências que levaram-no a se envolver na resolução. Enquanto redigia com sua pena, de vez em quando observando o chapéu num canto de sua mesa e se recordando do candeeiro, que fora bem escondido num local adequado para artefatos malditos, Bartolomeu se questionava o que significaria.
De alguma forma, pessoas que já faziam parte do seu círculo de convívio ou viriam a ser tiveram um encontro fatídico com algum ser sobrenatural e, para tornar tudo ainda mais misterioso, maligno.
Terminou de escrever, colocou a carta-relatório sobre uma caixa com runas específicas de contenção e de proteção do povo tupi nas faces, e lá dentro já estava o chapéu do velho, como prova do ocorrido para ser anexado a o que quer que seja usado como arquivo ou catálogo de ataques.
—Mau presságio. — sussurrou observando a chuva se afinar. Bartolomeu tomou mais um copo do suco e arfou, não apreciando aquele sabor. Preferia café, sem sombra de dúvidas. — O Velho do Chapéu de Palha não é uma assombração forte pela crença popular, pois poucos o conhecem, mas era alimentado por sua própria natureza vingativa… — caminhou por seu escritório, refletindo sobre isso.
Conhecia aquele espírito raivoso porque seu finado avô havia lhe dito que houve um senhor muito idoso que costumava caçar à noite munido de um candeeiro e conhecido por usar o mesmo chapéu de palha há mais de 40 anos, apenas, e morava na fronteira leste da fazenda, já perto da estrada de acesso à Bolivale, que se trata da cidade vizinha.
O idoso, naquela época, era dono de um pedaço de terra muito valioso por causa de sua fertilidade, de modo que era muito cobiçado. Não demorou para que alguém o assassinasse com o desejo de possuir aquele pedaço. Disse-lhe seu avô que um mês depois de morto, 30 dias depois de jurar vingança, ameaçando os ladrões de lhes retalhar os corpos, todos os novos residentes do sítio foram encontrados mortos, sem as línguas e desfigurados.
Exatamente como tantos outros casos que agora Bartolomeu via em seu próprio acervo de relatos colhidos ao longos dos anos, naquela família. Exatamente como dois empregados de sua propriedade, que trabalhavam como coletores nas plantações, e mais uma vaca de seu pequeno rebanho. Mais ataques de alguma forma relacionados a si e lhe "obrigaram" a tomar partido para resolver, o que se tornava algo preocupante, pois o tempo entre um ataque e outro não era nem de meses.
Bartolomeu esfregou os olhos e suspirou ao se apoiar em sua janela para constatar o óbvio: o sol já nasceu e brilhava com todo o seu esplendor, despedindo-se das pesadas nuvens que seguiam para o interior daquela região serrana e sertaneja.
—"As vítimas sobreviventes, dos poucos casos de ataque do Velho do Chapéu de Palha, relatam que tudo se inicia quando a natureza silencia e um assobio contínuo e suave ecoa. Se alguém responder com um assobio, terá marcado a si mesmo como alvo desta assombração feroz e implacável. Outro sinal de sua presença é uma pequena bola de luz no meio da escuridão, geralmente vagando pelas matas cercanas à serra, e aquele que a segue é levado para a morte." — Bartolomeu fechou seu livro e o guardou. — Que motivador. — revirou os olhos ao resmungar.
Estirou-se sobre um divã que havia perto da larga janela de seu escritório, que lhe permitia acesso a uma varanda, cuja cobertura era feita por algumas árvores altas, e fechou os olhos, sonolento.
—Tanto a pensar… Breve chegarão os relatórios das adjacências que serei obrigado a avaliar, já que sou o Marquês e… — bocejou, coçando e penteando a longa barba em seguida. — Só quero saber para onde levarei uma mulher tão… Depois da missa, preciso estar com mais este caso solu… — bocejou de novo, já de olhos fechados.
—Padrinho?
Aquela voz suave de sabiá o fez erguer sutilmente o chapéu e percebeu sua menina sobre uma cadeira, com as pernas encolhidas e abraçadas, o rosto apoiado sobre os joelhos lhe exibindo um suave semblante de doçura e alegria.
—Bom dia. — disse breve, meio sonolento.
—Bom dia, padrinho. Perdoe-me, mas ouvi seus murmúrios sobre um provável encontro com uma dama. — ele afastou mais o chapéu e a olhou de maneira desconfiada, deixando-a constrangida. — Desculpe, padrinho, não deveria ter ouvido.
—Não, realmente não devia. Não é educado ouvir o que não lhe diz respeito, tampouco assuntos de pessoas mais velhas. — Bartolomeu repreendeu, mesmo que sua voz soou baixa e grave. Ela assentiu, cabisbaixa. — Mas sei que quer me dizer algo.
—Sim… — ela cutucava os dedos cobertos pelas meias cor de creme, sem seus sapatos com laços amarelos, ao afastar o vestido rosa claro. — Lorde Henrique me contou nessa carta que o senhor se afeiçoou a uma dama. — ela entregou o papel a ele.
Bartolomeu leu com calma e a velocidade que a necessidade de meditar para descansar lhe permitia.
"Cara Srta. da Gama,
Primeiro peço que me perdoe enviar uma carta a ti sem o consentimento do Marquês, pois sei que ele achará impertinência da minha parte, além de ser pouco educado da minha parte como cavalheiro noivo, no entanto saiba que só o faço porque preciso te informar de algo célebre e talvez beneficie tanto a ti quanto beneficiará ao Marquês. Ele criou laços de afetos com minha melhor amiga, dos tempos de meninez. Se tu a conhecer, irá adorá-la, pois não há criatura mais gentil, prestativa e compreensiva com os desafortunados e merecedora das graças divinas do que minha boa amiga. Acredito que caso meu bom tutor noive com ela, terá uma verdadeira mãe para cuidar de ti, então penso eu que seja justo o meu pedido que não se enciume se teu padrinho comece a falar de uma dama que não seja parenta dele.
Atenciosamente, Conde de Antonele, Henrique Seixas"
Havia apenas especulações, nada mais, constatou ao terminar de ler e devolver o papel. Continuou a observando, mantendo o seu chapéu distante dos olhos para analisar a postura de sincera preocupação com suas divagações em voz alta. Suspirou ao se sentar devagar no divã, acomodando o acessório no assento, e estirou a mão para Coralina.
A menina, fazendo jus a um dos seus inocentes apelidos, segurou e foi puxada para perto do corpo masculino, aninhando-se quase sobre as espáduas largas de seu amado pai, suspirando baixinho ao deitar o rosto no ombro dele.
—Tem algo mais a me dizer, Mélia? — ele quase fechou os olhos ao sentir os dedos finos enrolando os fios longos de sua cabeleira ruiva. Coralina assentiu, olhando para ele com atenção, e passou alguns segundos pensando em como diria aquilo.
—Tenho uma ideia para seu encontro, padrinho, caso realmente sinta afeição por esta dama. — ela começou e viu os olhos verdes sempre sérios demonstrarem certa suavidade, como sinal de permissão para continuar a falar. — Que tal aquele cume que me mostrou no ano passado? Ele é muito belo e a vista de Santa Mônica e Campo d'Ouro dali é magnífica, principalmente para um momento de afeto.
—Pensarei sobre isso. — deu-lhe a mão e a ajudou a descer para o chão, mantendo-a de pé. — Vá. Tens lições. Sra. Distinta lhe acertará com a régua caso chegue atrasada. — Coralina assentiu e o obedeceu sem dizer nada, pois sabia que aquela postura não fora uma rejeição, apenas os costumeiros cuidados de um responsável por uma mulher naquela época.
Bartolomeu, ao ver a menina acenar em despedida e fechar a porta, deixou-se cair sobre o divã para retomar seu descanso e continuar sua reflexão sobre seus incontáveis assuntos.
Mas divagou pelas memórias daquele passeio que fizera com sua protegida tanto para relaxar, quanto para permitir um divertimento para ela, já que Coralina praticamente não saía da propriedade, e se recordou com nitidez dos detalhes mencionados pela menina posto que era um verdadeiro espetáculo para os olhos dos amantes da "arte natural".
—Aquela cachoeira… — sorriu para si mesmo antes de adormecer e se acomodou melhor, embalado pelo som da natureza e a brisa fria da manhã que vinha de fora.
Não teve aquele pesadelo de novo, pois já sabia o que significava. Seu receio de trazer Lis Maya para seu mundo e ela se tornar um dos seres pertencentes à sua longa lista de extermínio era tão real quanto sua vontade de tê-la mais perto. O que ela pensaria ao saber que não recebera o apelido de Anhanguera por ser outro Bartolomeu desbravador?
Por hora, o Marquês apenas queria sonhar com a possibilidade de um mundo onde ele pudesse ser ele mesmo e vivesse com uma mulher semelhante a Maya, ou ela própria, onde a felicidade sem consequências era real e aquelas lendas sombrias não lhe roubavam o sono de uma noite inteira.
Seria um bom lugar, até lhe fez sorrir por baixo do chapéu negro.
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