Sr. Bigodão (oneshot)
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Naquela manhã, Chloé Bourgeois acordou animada! Saiu da cama bem disposta e se arrumou impecavelmente – como sempre. Olhou pela janela de sua suíte máster no luxuoso hotel onde morava e, ao ver as pessoas passando na rua, começou a ocupar sua cabecinha com os costumeiros pensamentos frívolos. Sentia-se sortuda. Ela era linda, morava em uma linda cidade, quase tudo era lindo naquela atmosfera. QUASE tudo. E assim, inspirou-se para sua missão do dia.
Para tal feito, minutos depois de se arrumar, recrutou a amiga-escrava Sabrina. A pobre ruiva estava no lobby do hotel antes mesmo de ter terminado seu café da manhã. Não achava ruim passar fome e sair correndo desembestada para atender aos chamados de Chloé. Era a melhor forma de mantar a forma, julgava. Mas na maioria das vezes a urgência nem era tanta. No geral os motivos da loira eram bem fúteis. Seria diferente dessa vez?
− Sabrina, hoje eu acordei decidida a fazer um grande ato de caridade para o povo de Paris! – disse Chloé, sorrindo.
Sabrina até se surpreendeu. Finalmente não saiu de casa por um motivo vil ou que alimentaria unicamente a autoestima da amiga. Parecia que a loira estava passando por algum tipo de reforma íntima, revigorante e altruísta. Que bom seria.
− Tenho certeza que você tem muito com o que ajudar às pessoas, Chloé! Estou feliz de poder participar. O que será? Você vai doar alguma coisa?
− Sim!
− Vai distribuir sopa aos pobres?
− Ai, eca, Sabrina! Que horror! Vou dar algo muito maior, que sobra em mim. Vou dar moda aos parisienses! – dizia em seu tom superioridade.
− Vai doar roupas velhas? Sapatos?
− Ah, Sabrina. Não sei por que ainda ando contigo. Você é muito simplória! O que abunda em mim é estilo! E essas pessoas aqui de Paris estão andando cada vez mais mal vestidas. Não sabem o que combina, não acompanham as tendências da estação. Essas pessoas estão “enfeiando” a linda cidade em que moramos. Então meu grande ato de caridade vai ser iluminar essas vidinhas com meus conhecimentos. Dicas de moda e estilo de graça, para todos! – Agora Chloé rodava pelo saguão, com os braços abertos.
Sabrina então fez o que sempre fazia diante das mais estapafúrdias ideias da Chloé: aplaudiu, dando pulinhos de (falsa) alegria, como se aquela fosse a melhor ideia do mundo! E a partir daí saíram para executar a “caridade”. Chloé providenciou para Sabrina uma prancheta com papel, para ela registrar o nome e a dica de cada “afortunado” que fosse contemplado com sua sabedoria fashion. Decidiram começar ali mesmo, pelas pessoas que passassem no Hotel Le Grand Paris. Começaram a interpelar alguns clientes:
“Ei, você. Aceite de bom grado minha sugestão, que é de coração”, era a frase que iniciava cada orientação de estilo que a loira distribuía a quem cruzasse seu caminho.
“Essa saia te deixa gorda! Jogue fora!”
“Ai, que horror de franja! Use uma tiara pra prender isso, antes que ganhe vida própria!”
“Você já pensou em adotar outra cor de cabelo? Loiro não é sua cor, querida!”
Obviamente, com seu total desinteresse pela opinião alheia, Chloé simplesmente destilava seu veneno em forma de “críticas construtivas” e logo dava as costas para as pessoas que abordou, sem ouvir as respostas. As mais comuns eram “E quem te perguntou?” e “Ah, vai cuidar da sua vida!”.
O pai de Chloé, que nesse dia estava no hotel, viu a cena da filha ofendendo os clientes e, obviamente, ficou apavorado. Rapidamente a interpelou, com extremo cuidado, para não aborrecer sua garotinha. Afinal, ninguém quer conviver com uma Chloé Bourgeois descontente.
− Chloé, você está espantando os clientes. Alguns querem até deixar o hotel!
− Impossível! Todos me amam e me escutam.
− Filha, nem todas as pessoas estão preparadas para seu conhecimento de fashionista. Faça o seguinte: oriente os funcionários.
− Boa ideia. Esses bregas não podem andar por aí e atender nossa rica clientela assim, com essas caras, essa roupas...
− Ei! Eu mesmo escolhi o modelo dos uniformes!
− Então, papai, depois eu volto para doar pra você algumas dicas de moda. Tchauzinho. − Chloé partiu para intervir junto aos funcionários do hotel, seguida pela fiel Sabrina.
Enquanto isso, no restaurante do hotel, encontrava-se Henri, um dos garçons. Ele era um dos homens de confiança de André Bourgeois nos serviços do estabelecimento. E quando se diz “serviços”, pode-se incluir a árdua tarefa de distrair a filha do chefe e vigiá-la para que ela não interfira no trabalho dos outros. Não incomum era vê-lo seguindo a loira pelos corredores ou sendo incluído nas mais diversas brincadeiras da garota. Já estava acostumado, fazia isso há anos. Mas não é todo dia que Henri estava bem disposto para os mandos e desmandos de Chloé, de forma que, por vezes, escondia-se na cozinha ou em algum quarto vazio para descansar dessa tarefa de babá.
Hoje não seria diferente. Henri acordou com enxaqueca. Sentia-se desanimado, nem queria sair de casa. Mas precisava ir trabalhar, então foi se arrastando para o hotel, mas não sem antes aparar e pentear impecavelmente seu lindo bigode – sua marca registrada. O pobre homem apareceu para trabalhar notavelmente abatido. Qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade poderia notar que o garçom não estava em seus melhores dias. Mas seria demais esperar sensibilidade de Chloé. Ela estava focada em seu objetivo de embelezar Paris com suas dicas de moda. Estava concentrada, estava decidida e, como sempre, estava sendo ela mesma demais para olhar para os outros. Então, quando o garçom e a garota se se encontraram no restaurante, ela nem sequer o cumprimentou e lançou sua “sugestão”, impiedosamente sobre o homem:
− Henri, aceite de bom grado minha sugestão, que é de coração! Acho que esse bigodinho aí já deu, né? Está totalmente démodé! Nem combina contigo! Fica com cara de caricatura! Use isso para disfarçar essa coisa horrorosa que você chama de bigode. – Chloé entregou ao homem o par de óculos com nariz e bigode postiços que usava quando brincavam de Ladybug e Chat Noir. Deu as costas e seguiu rumo à cozinha.
Enquanto ouvia as críticas de Chloé, a cabeça de Henri parecia que iria explodir, tamanha era a dor. Aquela voz aguda e afetada ia aos poucos o irritando, e ele podia sentir os músculos de seus ombros e costas se endurecendo de tensão. Fazia força para não manda-la para algum lugar não muito agradável, mas não podia dizer nada. Quando a loira finalmente foi embora, Henri deixou-se cair recostado na parede e afrouxou sua gravata borboleta. Estava frustrado por prestar-se ao papel de babá daquela garota. Sentia-se agora inseguro com sua aparência. E, principalmente, estava com muita raiva pelas críticas. Todas essas sensações, mais o cansaço e a enxaqueca... não demorou muito para que Henri começasse a ouvir em sua mente uma voz tão firme quanto acolhedora, que o instigaria:
− Pobre homem, injustamente criticado por uma fedelha disfarçada de anjo. Quanta humilhação você ainda precisa passar nesse lugar? Ela quer que você mude sua aparência! Então agora eu te dou o poder de mudar a aparência de quem você quiser, Senhor Bigodão! E, em troca, você só precisa trazer para mim os brincos de Ladybug e o anel de Chat Noir! O que me diz?
− Pode contar comigo e meu bigode, Hawk Moth! – respondeu Henri.
Henri arrancou o bigode do brinquedo que recebera e pôs no rosto a parte o que sobrou, onde prontamente pousou uma borboleta roxa e preta. Iniciada a transformação, agora o homem franzino e alinhado se tornou musculoso, com um par de óculos de lentes vermelhas, um nariz largo e curvado, cabelos espetados e um volumoso bigode, que descia pelo seu corpo até os joelhos. Essa figura saiu pelo hotel, a procura daquela que tanto o ofendeu. E quando a encontrou, disse:
− Chloé Bourgeois, não se brinca com o bigode de um homem fino e de bom gosto. Se você gosta tanto de criticar os outros, vamos ver o que vão achar da sua cara nova! – Com um raio que saiu da ponta de seu nariz, tentou acertar a loira.
Chloé escapou e saiu correndo até deixar o hotel. Depois, a perseguição e os raios continuaram pelas ruas da cidade. Até o momento que a dupla passou pelo parque onde Adrien fazia uma seção de fotos e Marinette fingia passar por acaso (quando, na verdade, foi ver o modelo e, quem sabe, chama-lo para tomar um sorvete, ir ao cinema, casar, ter três filhos...). Diante daquela cena, o óbvio aconteceu: Adrien e Marinette se esconderam, invocaram seus Miraculous e se transformaram nos heróis que iriam, mais uma vez, salvar Chloé de alguém a quem ela fez mal.
Quando finalmente alcançaram Chloé, Ladybug e Chat Noir se depararam com a loira caída no chão de uma calçada, com um grosso e longo bigode loiro no rosto. Precisaram se segurar, para não rir na frente dela.
− Pronto, Chloé Bourgeois. Agora você está oficialmente bigodeada. O que acha? Continua achando meu bigode feio? Vai continuar a ridicularizar o estilo pessoal dos outros? – ouviram o Sr. Bigodão dizer raivosamente para a garota.
− O que você fez comigo?!?! – Chloé correu para se olhar numa vitrine. – Eu estou horrível!
− Pronto! Consegui! – O Sr. Bigodão se vangloriava, rindo.
− Como assim, terminou? E os Miraculous? – a voz de Hawk Moth ecoava na mente do akumatizado.
− Mas eu só queria bigodear a Chloé. Pode me destransformar agora. – Sr. Bigodão lhe respondeu.
− Não é assim que funciona! Vá atrás dos meus Miraculous, senão...
Sr. Bigodão se contorceu de dor. Recompôs-se e virou para os heróis, que ainda estavam analisando a cena.
− Ok... ok... tô indo...
Agora o akumatizado se dirigia aos heróis, com tom ameaçador:
− Eu vou bigodear vocês também, se não me derem seus Miraculous!
− Ei, eu não combino com bigodes! – respondeu Chat Noir, olhando seu reflexo na vidraça da vitrine ao lado.
− Como assim? Você é um gato! Todo gato tem bigode! – retrucou Sr. Bigodão.
− No mais, vai parecer mais sério, mais maduro. Pode ficar legal, hein! – concordou Ladybug.
− Parem com isso! Pegue logo esses Miraculous! Eles estão aí parados na sua frente, homem! – novamente aquela voz gritava na mente do vilão.
− Mas como eu posso fazer isso? Eu só crio bigodes! – falava (aparentemente sozinho) Sr. Bigodão.
− Então, então... faça bigodes neles. Quem sabe eles ficam com vergonha e lhe entregam os Miraculous. Aff! – Hawk Moth agora parecia sem ideias.
− Tomem bigodes! – e dois raios seguidos partiram na direção dos heróis, que tentaram se esquivar, mas foram atingidos. Ladybug e Chat Noir, cada um ganhou um bigode.
− Ah, não. Por que o dela é maior? – perguntou Chat.
− Porque eu sou melhor que você até no bigode! Ahahahaha
− Sr. Bigodão será que você pode trocar o meu bigode por um estilo mexicano?
− Ah, eu quero um no estilo chef de cozinha. Combina mais... eita!
− Porque, My Lady, você tem um restaurante? Hum... bigodes fazendo Ladybug se revelar! – ria Chat Noir, enquanto alisava o bigode.
− Não, é porque é mais bonito! – tentou disfarçar a heroína.
− Eu ainda quero o meu tipo mexicano.
− Tá, vamos tentar: tome bigode! – Sr. Bigodão lançou outro raio em Chat.
− Ah, bem melhor. Aquele bigode de gato não fazia jus a minha beleza. Essa não! Agora estou com bigode de Hitler! Tira isso de mim, tira. – Chat pulava e esfregava o buço.
− Desculpe, desculpe. Falha minha. Vou tentar consertar.
Sr. Bigodão começou a acertar Chat com raios e mais raios, criando nele diversos estilos de bigodes.
− Aaaaaaaahhhhhhh, chega!!!!!!! Volte para mim, pobre akuma. Esse paspalho não lhe merece! – Hawk Moth gritou em seu covil.
O homem caiu do nada e se destransformou na frente dos heróis. A borboleta roxa saiu voando, mas foi capturada pelo io-io.
− Ah, nem. Você não me escapa. Chega de maldade, akuma. Tchau, tchau, borboletinha – Ladybug agiu rapidamente. E, em seguida, pelo seu Talismã, fez tudo voltar ao normal.
Agora Henri estava caído no chão, sem saber onde estava. Mas não era só ele quem estava confuso.
− Ei, Ladybug, você já tinha visto alguém se destransformar sem luta ou destruição do objeto akumatizado?
− Não, Chat... essa foi novidade. Mas agora já temos um meio para destruir Hawk Moth: a zoeira!
...
Enquanto isso, no covil de Hawk Moth, o vilão avaliava a situação:
− Tenho que selecionar melhor meus akumatizados. E escolher melhor seus poderes. Vou começar a passar vergonha com esses idiotas!
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