Squisophrenia

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Então meu povo...Aproveitem.

A dor da colisão entre o carro e a ambulância ainda reverberava nos meus ossos quando consegui levantar e olhar, ou melhor, tentar olhar ao meu redor, o céu estava tão negro e chovia tão agressivamente que demorei a perceber meus olhos abertos. Tentando ao máximo recobrar e manter a minha disforme consciência, um fraco lampejo ao longe tomou minha total atenção. A parte racional da minha mente dizia 'pegue o celular, ligue para a emergência, dê o fora daí, agora!', já a metade emocional e inconsequente gritava 'siga a luz, investigue, devem haver pessoas lá' e como é típico da minha pessoa dei ouvidos às emoções, correndo em direção aquele diminuto foco de energia uma construção decrépita ergueu-se em frente aos meus olhos, apenas de relance consegui ler o nome do local, estava grafado em uma placa de metal escurecido, letras garrafais e muito desgastadas 'Man.cô..o'.

Escancarei a porta com tanta força que ela se soltou do batente causando um ruído agudo e arrepiante, dei uma rápida olhada no interior, raios que lugar repulsivo, nas mesas riscadas restos de charutos, alguns ainda acesos, copos trincados com algo que parecia ser whisky, o papel de parede manchado e descascando, completamente embolorado, um balcão antigo e maltratado, a luz do recinto tremeluzia, entrava e saia de meia-fase e o cheiro, ugh, enjoativo, forte e incrivelmente doce. Me virei para ajeitar a porta, olhando mais de perto percebi inúmeros arranhões nela.

- Mas o que é...

- Criança, o que faz aqui? Não deveria estar nesse lugar.

Aterrorizada, me volto à direção da voz e encontro com uma senhora, estranhamente arrumada quando comparada à sala, os cabelos negros e ensebados comprimidos em um coque, o vestido negro que se mesclava ao ambiente ressaltando a brancura da Velha, no rosto haviam olheiras profundas, o nariz era torto, sorriso claramente forçado e seu olhar, frio. Inconscientemente dei um passo para trás.

- A senhora teria como me abrigar apenas por esta noite? O meu carr..

- Estamos cheios, querida.

Franzi as sobrancelhas e mirando o chaveiro de hotel ao lado do balcão, repleto de chaves, perguntei:

- A senhora tem certeza?

A Velha desmanchou o sorriso forçado e não demonstrou mais nenhuma expressão, nem raiva, nem surpresa, nada, apenas ficou impassível como uma folha de papel em branco, virou-se calmamente e apanhou uma das dezenas de chaves que haviam no chaveiro, pude ver o número da chave, 13, ligeiramente incômodo.

A Velha começou a andar, subindo e descendo escadas, abrindo e fechando portas, e quando a batida ritmada dos saltos finalmente cessou nós estávamos paradas uma em frente a outra, ela destrancou o quarto e em um lapso de tempo pude ver suas mãos, pequenas, brancas, de unhas compridas e salpicadas de manchas vermelhas. A visão perturbadora rapidamente deixou de existir quando o quarto foi aberto, o interior quente, branco e iluminado fez as hipóteses macabras sumirem da minha mente. Entrei no quarto, tirei o casaco encharcado que me aquecia anteriormente e cortando meus acomodados pensamentos ouvi o estrondo da porta fechando e o tinido repulsivo da tranca. Ela me prendeu, a Velha me prendeu dentro daquele maldito quarto. Esmurrei a porta de punhos fechados, esfolando os dedos, gritando, vermelha de raiva, e depois de alguns minutos que pareceram eternos, parei. Senti a presença dela na minha frente, as olheiras disformes, o nariz torto e o sorriso...cínico, frio, macabro, nojento e através da fresta pude ouvi-la, encostada na porta, rindo baixinho e dizendo:

- Você não devia estar aqui.

Por mais tensa que estivesse, o cansaço era muito mais forte, eu simplesmente apaguei.

*

O ruído era angustiante, constante e suave, mas ao mesmo tempo ensurdecedor, vinha do banheiro do quarto e...‘‘Droga, eu ainda estou dentro do quarto’’ foi o pensamento que me tirou daquele limbo escuro e pegajoso que chamam de sono. Ainda letárgica por causa do sono, um arrepio me avisa que o quarto está mais frio do que o normal, imediatamente percebo que a lareira está apagada, me levanto com as pálpebras pesando e caminho para a porta, o barulho continua, insistente, giro a maçaneta e noto que a porta não está mais trancada, uma lágrima de alegria escorreu pelo meu rosto, eu dizia a mim mesma abra a droga da porta, e infelizmente foi o que fiz. A porta não dava mais acesso ao corredor que eu a Velha tínhamos percorrido antes, agora eu apenas conseguia sentir uma barreira, talvez uma parede, comecei a esmurra-la, batendo e arranhando, abrindo as feridas que minhas mãos já possuíam, correndo os dedos pelos tijolos senti algo úmido ligeiramente pegajoso, enojada sinto o cheiro férreo daquele líquido e reconheço:

- Sangue...

A náusea veio em uma onda tão avassaladora que tombei no chão, tremendo tentei recobrar meus sentidos, tudo estava turvo e escuro, meus pulmões falhavam, a única coisa que me veio na mente foi abrir a janela e respirar o ar frio da noite. Levantei atordoada e, sem noção de profundidade, colidi contra o vidro da janela. Os minúsculos cacos serrilhados que me perfuraram no instante seguinte não foram o que me incomodou, mas sim o fato de não haver nada além de mais uma parede onde deveria estar a abertura da janela, o barulho ficou mais alto e tinha a impressão de ouvir sussurros abafados ecoando no local, indecifráveis, mas audíveis...perturbadores. Ofegante, me afastei cambaleando, procurando lembrar onde ficava o interruptor me guiando apenas pelas paredes arrancando com as unhas vários pedaços do papel de parede, agora dando mais atenção as vozes que sussurravam sem descanso:

“Volte...venha...entre...sangre...sacie-nos...”

O medo em meu coração era palpável, o calafrio na espinha me congelou completamente...algo esbarrou em minha mão, o esforço para não gritar foi imenso, era o interruptor, o alívio me amorteceu por completo, ia virar a chave de luz quando as unhas compridas de uma mão esquelética agarraram meu punho, apertando, rasgando a carne, as vozes agora jubilosas clamavam em coro por carnificina, aquele ser medonho torceu meu pulso e me atirou de costas no chão, a dor foi aguda e o barulho seco de ossos quebrando fez a náusea voltar em uma onda sufocante. O clarão amarelado de uma lamparina iluminou o ambiente de uma forma macabra, sombras bruxuleantes se formaram, alongadas e terríveis. Levanto os olhos para o espelho sujo e oxidado, e me deparo com a figura sinistra da Velha sorrindo, o mesmo sorriso inquietante e maligno que ela me apresentou horas atrás, só então pude focar no resto de seu corpo grotesco, o cabelo desgrenhado e imundo, o vestido negro estava rasgado em tiras expondo a pele em carne viva, os sapatos lustrados que a Velha usava já não existiam, em seu lugar haviam pés deformados com unhas rachadas e verdes, na realidade o corpo daquela mulher parecia ter viajado por todos os Sete Infernos. Eu me mantinha de costas, ela se arrastou para mais perto, roçando os lábios ressecados e frios no meu pescoço, o hálito da Velha era podre, cheirava a enxofre.

- Bastarda miserável, já não lhe disse que não devia estar aqui?

A voz dela era arrastada, rouca, pavorosa, lembrava o som de pedra arranhando com pedra. A única coisa que pude fazer foi engolir o grito e sentir as inúmeras lágrimas escorrerem. Eu não tive coragem para encarar seu rosto novamente, meu a olhos se fecharam por impulso.

Respire — era tudo o que vinha em minha mente, quando uma faísca de esperança acendeu – Corra – era o que ela exclamava. Minhas pernas se moveram, fugindo, por vontade própria. Eu só tinha olhos para a porta do banheiro, era o último lugar em que eu queria estar neste momento, mas ao mesmo tempo, o único disponível. Tranquei a porta com força, me dando o luxo de respirar por alguns segundos, as vozes e o cheiro do recinto eram assustadoramente perturbadores. Mas não tão perturbadores quanto o corpo que pendia no chuveiro, com a garganta aberta e gotejante, tingindo o chão de vermelho. As vozes tomaram forma e suas sombras se projetaram sobre mim. Vultos brancos, enevoados, fantasmagóricos.

As palavras indefinidas se repetiam em um ciclo sem fim, ecoando em meu subconsciente, as formas se aproximavam, ameaçadoras, eu apenas podia recuar, meus pés dançavam na poça de sangue, tremendo, como se andassem em uma corda bamba, apenas senti a queda quando minhas costas se chocaram contra a cerâmica do vaso, ela se quebrou tão facilmente que nem parecia real. Os cacos penetraram em minha carne, similares a facas serrilhadas, gélidas e mortais. Minha lucidez se esvaia lentamente assim como meu sangue.

Os vapores que cercavam os vultos se dissiparam revelando os rostos estarrecidos de meia dúzia de enfermeiros, o corpo pendendo no chuveiro era apenas uma toalha vermelha e o nome daquele lugar terrível chegou em minha mente “Manicômio”.

Notas finais
Se puderem, comentem. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!