Spring. As Sicatrizes
1 Prefacio
O que significa um segundo? Ainda ontem essa era a maior certeza que eu tinha e agora cá estou eu me questionando se deveria ou não ter vindo. Por que o amor é um dos sentimentos mais enigmáticos? Era
para ser o primeiro contato com o amor, com a afetividade, mas não foi assim e eu quase sucumbi a loucura por causa das dúvidas e a culpa que surgiram ao longo do tempo. Contudo, nunca fui tão bombardeada do que hoje.
Os diversos contornos das nuvens esbranquiçadas aparentam ser algodoins enquanto o florescer monumental das quase 4.000 cerejeiras transformam Washington, D.C. em um espetáculo cor-de-rosa e branco sublime em 23 graus confortáveis. Certamente um dos eventos naturais mais belos do mundo.
Os orientais veem a primavera como o iniciar de um novo ciclo, um ditado chinês costuma dizer “sempre a primavera, nunca as mesmas flores” a ideia da perfeição da mutação e a renovação. Sem falta. A cada primavera geminam novas flores.
O renascer da esperança vem com a primavera
As paredes acinzentadas que mantem as celas organizadas da cadeia não torna aquele lugar menos asqueroso do que é para mim, os assobios e gracejos dos quais cumprem suas penas só causa-me os arrepios mais assombrosos que já senti percorrer o meu corpo da cabeça aos pés.
Jamais pensei que colocaria os pés em um lugar como este, nem mesmo para o que eu pretendia fazer. Mas não havia mais como voltar atrás. Ou será que havia?
Enquanto tenho a companhia do homem com botas, uniforme, arma e quepe, o suor escorre por entre meus dedos e minha testa, mil e uma duvidas causam uma verdadeira explosão na minha cabeça.
Eu deveria mesmo ter vindo? Isso foi mesmo uma boa escolha? Será que é tarde demais?
−Abra e 15 !.− As rodinhas da grade soaram altas e claras, nos possibilitando passar para a outra ala de celas. − É aqui. − O tecido do meu terno vermelho é aconchegante quando minhas mãos preenchem os bolsos e eu solto a respiração devagar. “Sala De Visitas” São as palavras que estão na placa prateada brilhosa antes de a mesma ser aberta e as paredes escuras, e duas cadeiras junto a uma mesa não tão grande se revelassem para mim.
É impossível de decifrar os seus olhos enquanto seus cotovelos apoiados sobre a mesa permitem a sustentação da sua cabeça pelos seus dedos entrelaçados e suas mãos algemadas e isso quase me fez dar meia volta e desistir. Mas não o fiz, apenas sustento o seu olhar.
E lá está o meu maior dilema diante de mim; ali está a escolha mais difícil que eu já tive que fazer na minha vida.
Depois de tudo o que houve jamais imaginei que estaríamos cara a cara.
Por trás desses olhos claros, cabelos não mais tão bem cuidados como já foram nos seus dias de gloria, contudo, as linhas e a calmaria ainda tornam suas expressões indecifráveis, está é a pessoa que ruiu tudo em mim.
A humanidade, assim como a natureza, tem os seus predadores e suas presas.
− Como vai Rebeca?
− Paloma.
− Não vai me chamar de... – Nego imediatamente.
− Nunca mais.
− Fiquei surpresa quando soube da sua visita. Já que estou aqui durante um bom tempo e você nunca veio me ver. – As palavras não conseguem transcender, apenas meus olhos conseguem observar. Tal como me encara– Imagino que apenas agora você tenha tido um espaço na sua agenda tão turbulentamente cheia. – Como sempre, seu sorriso é mascarado pelo sarcasmo na sua voz.
Os pés estridentes fazem-se ouvir quando puxo a mesma por entre os dedos a frente da mesa sem deixar de sustentar seus indecifráveis olhos antes de sentar, entrelaçar os dedos e encarar também.
− Não vim antes porque estive ocupada, mas sim, porque... – Com a mão direita em punho eu sustento meu queixo, fito a sombra que toma forma por causa da luz baixa da lâmpada no teto. – Porque eu precisava de uma razão para vir.
− Hum. – Murmura. – Pelo que vejo você encontrou uma razão. Do contrario não teria vindo. E então, qual é? – Me debruçando por cima do material bruto e frio da mesa, diminuo a distancia. E ficamos assim durante um bom tempo.
− Por que? Por que você fez tudo isso que acabaram te trazendo pra esse lugar? Meu Deus, eu me perguntei tanto, oh como eu perguntei. “Por que meu Deus?” – Para alguns a inexpressividade em sua face torna-se impressionante. E para qualquer um de fora o que eu fiz foi inadmissível, afinal, quem poderia dizer que por traz desses olhos existe... Meu Deus.
− Quer mesmo saber? Pensei que você soubesse. –Debocha ao encostar-se na cadeira e cruzar os braços, transparecendo uma falsa confiança. Da direita para a esquerda eu nego.
− Não estamos falando do perfil, isso fazemos em equipe, montamos a personalidade do descon, elemento desconhecido, em torno dos crimes e da vitimologia. Simples assim; foi exatamente isso que fizemos com você, a questão é, por que você fez isso? Eu preciso... – Fecho os punhos diante de meu rosto. – Me diga algo, algo que seja mais plausível do que isso. –Sua resposta me fez engasgar a saliva.
− Porque eu quis. Simples assim. – Já deveria cogitar essa possibilidade.
Eu precisava saber o porque, para tal como a primavera, me
renovar e florescer. Será que eu consigo depois de obter a
resposta que eu tanto almejava?
Deixando o carro no estacionamento do parque, resolvo dar uma volta no Rock Creek Park para desfrutar a paisagem admirando a imensidão florida, a suavidade do vento trás o agradável perfume ao meu redor e algumas mechas dos meus cabelos e o silêncio fez−me captar os pássaros em volta, enquanto minha sombra replica meus passos lentos. Porém, tanto o silêncio tranquilo é exatamente o oposto da minha cabeça que está uma bagunça. Não compreendo. Já tendo a resposta que eu queria e nem assim isso me deixa confortável.
"Porque eu quis" difícil até de engolir.
Um perfume completamente diferente das flores faz−me selar os olhos e sorrir disfarçadamente ao ouvir os seus tímidos passos.
−como me encontrou? −paro no meio do caminho e o vejo não tão distante de mim com as suas mãos junto ao seu terno escuro, colete vermelho, camisa social cinza e gravata também acinzentada porém mais escurecida e sapato social.
−você não é tão difícil de perfilar.− Assim como os meus, seus bagunçados porém alinhados cabelos movem com o tocar do vento.− Esse é o seu lugar favorito. E também depois do que aconteceu, meu palpite era de que você não fosse pra casa.− para assim que a distância é rompida.
− Acertou, como sempre.
− seria estúpido perguntar como você está. Mas eu não poderia
deixar de vir... como está se sentindo?− Tem profissões que estão na nossa essência, o estreitar de suas sobrancelhas me fez ter certeza de que ele estava me perfilando, mas de que isso importa?
− Estou me sentindo como se alguém do meu próprio sangue fosse capaz de...− suspiro com decepção.
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