Spotlight II

2 Cautela necessária?


Notas iniciais
Gente, desculpa mesmo pela demora. Esse capítulo até estava pronto, mas eu não conseguia ficar satisfeita com ele e tive que reescrevê-lo várias vezes até finalmente ficar contente com o resultado. Enfim, boa leitura e muito obrigada pelos comentários do capítulo anterior. É muito bom ter vocês aqui de volta, e aos leitores novos, sejam bem-vindos.

Lucy mal entrou na cozinha e sentiu um cheiro delicioso que não sentia há muito tempo. Imediatamente, ela reconheceu que aquela fragrância vinha das famosas panquecas de seu pai, que estava usando um avental enquanto tinha uma frigideira em sua mão. Kenneth colocava uma panqueca em um prato em cima da mesa. Catherine estava do outro lado do cômodo, lendo uma revista qualquer. Sorriu com o sentimento nostálgico. Fazia tanto tempo que seu pai não fazia o café da manhã, como costumava fazer sempre quando ela era mais nova.

— Bom dia, meninas! Dormiram bem? — Kenneth as saudou com um sorriso radiante. Catherine apenas murmurou algo sem desviar a atenção da leitura.

— Eu não. Se pudesse dormir por mais algumas horas aí sim dormiria bem... — Lucy falou se sentando em uma das cadeiras vaias. Aileen ao seu lado fazia o mesmo.

— Na verdade isso é errado. Quando se dorme demais não se dorme melhor, é bem ao contrário... — Aileen explicou, e Lucy sorriu. Desde que chegaram, ela estava falando para a Calverley se soltar mais na frente de sua família, já que no início a morena estava bem tímida. Pelo jeito estava começando a funcionar.

Catherine também tomou lugar a mesa, e logo Kenneth também.

— Mal vejo a hora de começarmos a fazer as coisas que programei... — O homem dizia cortando um pedaço da panqueca e levando a boca — Claro que não vou bancar o pai chato que não deixa a família ter seus próprios momentos de lazer por conta própria, mas planejei algumas coisas bem legais para fazermos todos juntos. Só temos que esperar a chegada de Anthony e Stacy, é claro.

— Vai ser ótimo, pai — Lucy disse pegando a calda de chocolate

— Venice vai fazer bem a todos nós. — Catherine bebericava seu suco de melancia — Principalmente a vocês, garotas. Tem tantos meninos bonitos aqui...

— Ora não as pressione, Catherine. Nossa filha mal acabou de sair de um relacionamento com aquele Tyler...

Tyler Bayham havia se formado e ido para a faculdade, e para todos aqueles não cientes da verdade sobre a “relação” deles, e ele e Lucy tinham decidido “dar um tempo”. Mas como os pais da Gylehart não estavam muito inteirados das sutis diferenças entre status de relacionamento dos jovens, para eles o namoro dos dois tinha terminado mesmo.

— Já fazem o que? Mais de seis meses? Está na hora de Lucy seguir em frente... E a amiga dela... — Fez um esforço, como se para lembrar o nome — Ah sim, a amiga dela, Aileen, não saiu de relacionamento nenhum, que eu saiba...

A Calverley corou ao ser assunto da matriarca dos Gylehart. A verdade era que achava a figura de Catherine intimidante. Lucy apertou sua mão por baixo da mesa, dando um sorriso encorajador a ela.

— Vocês estão falando de nós como se nem estivéssemos aqui. — Lucy falou, divertida — E pode deixar, mamãe. Eu e Aileen temos olhos.

Depois do café da manhã, Lucy ficou encarregada da louça, já que todos decidiram pelo sistema de rodízio na divisão das tarefas. Os Gylehart decidiram por não trazer empregados juntos porque queriam realmente aproveitar um tempo como uma família comum.

— Não lavo louça na minha casa mas nas férias sim. Vai entender. — A loira já chegou deitando a cabeça no colo de Aileen sem cerimônia. As duas estavam na sala.

Como amigas perante os olhos dos pais, Lucy e Aileen podiam fazer muitos atos carinhosos uma com a outra sem levantar nenhuma suspeita. Meninas geralmente eram mais carinhosas umas com as outras, e a amizade cheia de contato. Por isso, ninguém achava estranho ver uma abraçar a outra por trás, por exemplo. Era uma dessas hipocrisias da sociedade, já que homens fazendo a mesma coisa seriam rotulados automaticamente como gays.

— Sim, e isso não fez suas lindas mãos caírem, fez?

— Não, mas a minha dignidade, por outro lado...

Aileen não respondeu. O fato era que sabia exatamente como Lucy era quando começou a namorar com ela, mas era inevitável sentir desaprovação com muitos atos e palavras da loira. Não era egoísta para querer mudar a Gylehart por completo, mas achava que alguns péssimos modos dela deviam sumir sim.

— Milhares de pessoas, mulheres e homens, lavam a louça a fazem outras tarefas domésticas todos os dias. Isso não tira nenhuma dignidade deles.

— Que seja — Deu de ombros — Mudando o foco da conversa, andei olhando sua mala, se isso não te incomoda, e vi que não trouxe nenhum biquíni, só maiôs... Por quê?

— O que?! — A Calverley ficou muito vermelha — É claro que incomoda, são minhas coisas pessoais!

— Relaxa — Lucy fez um gesto com as mãos como se aquilo não fosse importante, e depois se levantou, parando bem perto do rosto de Aileen e sussurrando — Somos namoradas, vamos trocar muita intimidade...

Aileen sentiu um arrepio percorrer o corpo todo, mas logo tratou de se recompor:

— Certo, talvez você tenha razão. E respondendo sua pergunta, eu não trouxe biquínis porque quando eu era mais nova, costumava ser bem magra e sem curvas mesmo, mais que o normal, e todo mundo ria de mim por isso. Então acho que meio que criei complexo de mostrar o corpo.

— Não faz tanto sentido assim... — Ergueu uma sobrancelha — o maiô vai marcar o seu corpo, então você não esconderia sua falta de curvas de ninguém e... Aí! Só estava brincando — Esfregou o local onde a namorada lhe dera um beliscão.

— O fato, Lucy — Ignorou a reclamação da loira — É que garotas como eu não ficam bem em biquínis, e sim garotas como você.

— Discordo — Falou séria — Você é linda, Aileen, e pouco importa se tem mais ou menos curvas ou se pesa muito ou pouco. O importante não é o que os outros vão achar de você e sim o que você mesma sente. Não quero te pressionar e dizer que deve usar um biquíni só porque é o comum, mas se você quer usar, você deve. Porque no fim a única opinião que conta é a sua.

Aileen não soube direito como responder. Lucy tinha sim muitos defeitos, assim como todo mundo, e por vezes a arrogância dela passava um pouco dos limites, mas ela também tinha seus momentos de ternura e era por isso que a amava profundamente.

* ♥ * ♥ * ♥ * ♥ * ♥ *

Kenneth, Catherine, Lucy e Aileen estavam na varanda jogando Batalha Naval quando Anthony se fez notar junto com Erin.

O rapaz caminhava sorridente de mãos dadas com a noiva. Usava uma simples camiseta azul clara, bermudas caqui e um chinelo estranho cinza — Na opinião de Lucy, muito cafona — Já a mulher usava um vestido curto vermelho e sandálias de amarrar.

— Família Gylehart quase totalmente reunida — Anthony abraçava o pai e em seguida a mãe, e sua noiva fazia o mesmo — Mas você eu não conheço, quem é? — Também deu um abraço em Aileen e outro em Lucy.

— Sou Aileen Calverley, amiga de Lucy.

— Melhor amiga, ela quis dizer — Lucy passou um braço pelos ombros da morena.

— Ah, então faz parte da família também. Seja bem-vinda.

Quando chegou a vez de Erin abraçá-la, Lucy não pode evitar a tensão que se apoderou de todo o seu corpo. Erin continuava deslumbrante como sempre fora, mas agora havia algo a mais, um certo charme que só a maturidade trazia. Quando os braços dela enlaçaram Lucy, um cheiro maravilhoso de colônia floral invadiu as narinas de Lucy.

— Você cresceu, hein Lucy...

Erin estava tratando-a normalmente, como se fosse uma sobrinha querida. Aquilo aliviou a loira de tal forma que ela não pode conter um sorriso. Parecia que ela tinha enfim esquecido, ou deixado totalmente para trás, o que acontecera no passado, o que era o ideal levando em conta os rumos que a vida delas tinham tomado depois de tudo.

— Vamos entrar, já está quase anoitecendo — Catherine chamou todos, e depois se dirigiu mais especificamente a Anthony e Erin — Vocês não estão com fome?

— Um pouco, para falar a verdade. — Foi a mulher quem respondeu.

— Eu já estou indo, mãe. Só vou trazer as malas para dentro.

— Pode deixar, filho, eu te ajudo...

Entrelaçando um braço com o de Aileen, Lucy começou a entrar junto com as outras mulheres. A morena notou que o humor da namorada tinha subitamente dado um salto enorme, e se perguntou qual seria o motivo disso.

A noite, Kenneth sugeriu a todos uma sessão de cinema na sala. O ambiente foi arrumado e almofadas grandes e macias colocadas em frente a enorme TV de plasma. A escolha do filme foi um ponto que gerou um embate. O Netflix oferecia uma infinidade de opções, mas haviam ali seis pessoas com gostos totalmente diferentes. Kenneth queria ver um drama policial; Catherine algo Cult; Anthony ação e as outras garotas, no geral, algo mais leve ou divertido, como comédias românticas ou filmes do tipo saga.

No fim, todos concordaram que a melhor opção era um título um filme que acabara de sair dos cinemas, por ser um misto de todos os gêneros desejados.

Durante toda a exibição do filme, contudo, Lucy não foi muito capaz de prestar atenção. Geralmente, quando ela e Aileen assistiam algo juntas, terminava com as duas aos beijos e carícias, mas neste exato momento, com a família no mesmo lugar, isso era totalmente impossível.

Mas no fundo, a experiência até que valeu a pena e rendeu boas risadas, tudo porque Kenneth falara em várias partes do filme, se dirigindo aos personagens na tela como se eles pudessem ver, e Catherine o repreendera toda vez.

* ♥ * ♥ * ♥ * ♥ * ♥ *

— Hoje foi um dia bem proveitoso. Sua família é bem legal.

Lucy e Aileen estavam deitadas na mesma cama, apesar de haver duas no quarto, elas preferiam dormir assim.

— Sim... Pela primeira vez em anos eu vejo todo mundo tão animado assim e junto — A loira estava com os braços em volta da cintura de Aileen — Só falta Stacy agora. Estou começando a me convencer mesmo que esse vai ser de fato o melhor verão de todos.

— Concordo.

Alguns segundos de silêncio, e então as duas garotas colaram os lábios, iniciando o beijo. Agora, longe das vistas de todos, elas tinha toda privacidade que necessitavam.

Aileen, tomada por uma ousadia atípica, subiu em cima do tronco de Lucy, passando as mãos pelo rosto e cabelos dela. A Gylehart não ficou para trás e logo começou a percorrer suas mãos pelas pernas da morena, até chegar na cintura e começar a levantar a camisa do pijama da garota.

— Ei, ei, espera eu... Eu não sei se estou pronta... — A Calverley cortou o beijo na mesma hora, e saiu de cima de Lucy.

— Ah, me desculpe, é que eu achei que... Quer dizer, você nunca é assim desse jeito e então eu...

— Não, você não tem que se desculpar, eu é que não sei o que deu em mim.

— Tudo bem, acho que nos exaltamos por estarmos aqui sozinhas — Sorriu e beijou os lábios de Aileen, abraçando-a novamente pela cintura — Bom, já que é assim então, vamos dormir.

— Lucy...

— Hm?

— Não pense que estou adiando isso porque não gosto de você — Começou a explicar, um tanto envergonhada — É que, embora possa parecer bobo, eu quero muito fazer em um momento certo, especial.

Depois de uns instantes de silêncio, a loira finalmente respondeu:

— Não, eu não acho bobo. Pelo contrário, entendo a importância disso.

— Obrigada por ser tão paciente.

— Por você vale a pena ser todo, até mesmo algo que não sou, paciente.

As duas trocaram um sorriso e um último beijo, se ajeitando depois para dormir.

No meio da madrugada, Lucy acordou com a garante muito seca, e por isso foi para a cozinha beber água. Ainda estava um pouco zonza por causa do sono, o que e fez quase bater de frente com alguns moveis a paredes pelo caminho.

Chegando finalmente a geladeira, ela tirou a garrafa com água e depositou em um copo, começando a beber deforma voraz por causa da sede. Por estar gelado, o líquido causou uma leve e passageira pontada na cabeça, mas foi tão breve que nem teve tempo da loira se importar com isso.

Foi para guardara a garrafa de volta, mas acabou levando um susto e quase a derrubando no chão, o que só não aconteceu porque uma mão segurou o recipiente.

Erin. Ela estava parada bem ao seu lado, sorrindo. Vestia uma camisola muito curto e branca transparente, os cabelos vermelhos cacheados soltos caindo-lhe pelos ombros.

— Céus, mas que susto você me deu... — Riu nervosa.

— Me desculpe, não foi minha intenção, eu já ia me anunciar.

— Certo, hã... Veio pegar alguma coisa?

— Água. Me deu sede também.

— Então aqui está.

Entregou a garrafa para a mulher, e foi guardar o copo na pia, mas Erin a impediu, pegando-o de sua mão e enchendo com água. Bebeu todo o conteúdo sem tirar nem por um momento os olhos de Lucy.

— Delicioso — O sorriso dela aumentou mais ainda, o que causou desconforto na Gylehart.

Para finalizar, Erin se inclinou um pouco para a frente, a fim de guardar a garrafa na geladeira, o que acabou fazendo ela ficar demasiadamente perto do corpo, e principalmente do rosto, da menor, que estava totalmente paralisada, mal acreditando no que estava acontecendo.

— Vou voltar para o quarto agora. Boa noite, Lucie...

Saiu andando calmamente, como se nada de mais tivesse ocorrido. A Lucy, apenas restou o medo. Medo de descobrir que Erin não se esqueceu dos tempos passados, e que ela fosse começar com um jogo perigoso que a loira não estava com a mínima vontade de participar.

Notas finais
O que acharam?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.