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18 ...E Mate!
Notas iniciais
Desde que Kaitlyn tinha saído, Lucy estava estática na mesma posição em sua cama. Nunca, em toda sua vida, se imaginaria estando naquela situação: por um fio de ter toda a verdade sobre si revelada da pior forma possível.
Aflita e amedrontada. Sentia-se exatamente assim. Ela não estava pronta. Tudo o que conseguia pensar era nisso. Não estava preparada para que as pessoas soubessem sobre sua sexualidade. Tinha tanto medo dos julgamentos, dos cochichos e olhares de canto... Só de imaginar aquilo sentia o coração palpitar, e as mãos suarem.
Por deus, como tinha chegado aquele ponto? Como tinha deixado àquela rata provinciana chegar tão longe assim? Se não tivesse sido tão teimosa em ouvir Hanna por pura birra com Brianna, se não tivesse estado totalmente distraída esses dias, talvez não estivesse desse jeito agora.
Mas nada adiantava agora. Estava acabada. Amanhã de manhã todos saberiam sobre ela, e então... Toda sua reputação seria jogada no lixo. Isso sem contar, é claro, que eventualmente sua família também ficaria sabendo da “grande novidade”, e ela não tinha ideia de como reagiriam. Queria ser otimista e pensar que eles a aceitariam, mas não podia evitar pensar que seria bem longe disso.
E pensar que por um minuto, considerou Kaitlyn uma companhia minimamente agradável... Maldita garota ardilosa! As famílias delas as davam tão bem, será que nem por um minuto ela considerou isso, e no quão amigáveis os Gylehart foram com ela a sua mãe? Não, é claro que ela não pensava em nada disso, era uma invejosa nata, e para ela pouco importava o que teria que fazer para roubar o lugar de Lucy.
Soltou um suspiro angustiado e alto, se encolhendo na cama. Não restava mais nada a fazer, a não ser esperar pelo pior. Até tinha pensado em ligar para Aileen, Hanna ou Tyler, mas sinceramente, do que adiantaria? Eles não podiam fazer nada, de qualquer jeito, e não ser consolá-la. E Lucy não era muito fã desse tipo de coisa, se sentia uma pessoa patética quando era consolada.
Então, aceitou que no fim era isso que aconteceria: seria derrotada e humilhada por uma caipirazinha genérica recém-chegada.
Foi aí que então, da forma mais conveniente possível , se lembrou de uma cena de dias atrás: ela e Kaitlyn no quarto, estudando para um trabalho de escola, e o desespero da outra quando Lucy pegou aquele notebook.
Um fio de esperança se ascendeu para Lucy.
O que tinha em mente podia dar simplesmente em nada, um esforço em vão, mas ela já não tinha mais nada a perder. Se Kaitlyn tinha ficado muito aterrorizada com a possibilidade dela ver o conteúdo do notebook, então algo ela tinha a esconder lá.
Tinha que ver o que era. Rezava para que fosse algo muito comprometedor, só assim teria uma chance de contra-atacar.
Depressa, se levantou da cama e desceu as escadas.
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– Ah, olá, Lucy. Bom dia, como vai? – A senhora Blake atendeu a porta sorridente ao ver a loira parada.
– Bom dia para você também, senhora Blake. Vou muito bem... – Respondeu polidamente, disfarçando toda ansiedade que sentia no momento.
– Oh, por favor, não me chame de senhora. Sei que já não sou uma moça, mas sabe como é a vaidade feminina, não? Que tal me chamar só de Janette?
– Ah, tudo bem, Janette. Vim aqui para falar com sua filha... – Sabia que a garota não estava em casa, àquilo era só um pretexto.
– Kaitlyn? Sinto dizer, mas ela saiu...
– Que pena. Queria falar com ela sobre nosso trabalho escolar. Já está finalizado, mas só agora lembrei de que me esqueci de colocar um ultimo item nele. Eu poderia ir até o quarto dela pegar o notebook? Só acrescentarei essa parte e devolvo...
– Mas é claro. Pode entrar. Sabe onde fica o quarto, não?
– Claro – Sorriu largamente, e se dirigiu até o quarto de Kaitlyn.
Chegando ao local, levou um tempo até achar o aparelho, que se encontrava em uma gaveta da cômoda. Assim que pôs as mãos nele, sorriu vitoriosa. Agora só bastava descobrir se ali tinha algo que pudesse usar contra a garota. Saiu do cômodo e se despediu de Janette.
Ao chegar em seu próprio quarto a primeira coisa que fez foi abrir o notebook, e ver que como temia, ele requeria uma senha para ser acessado.
– Ótimo... – Disse frustrada tentando algumas combinações obias, sem nenhum sucesso.
Até que se lembrou que Aileen gostava, e entendia,muito de coisas relacionadas a computadores. Era isso! Sua namorada poderia ajuda-la. Como tinha se esquecido disso?
Pegou o celular e mandou uma mensagem para ela vir até sua casa, sem demora. A morena respondeu rapidamente dizendo estar a caminho. Esperou alguns minutos, que para ela foram uma eternidade. Assim que viu Aileen entrar pela porta, disparou abruptamente:
– Você entende muito bem de computadores e programas, não? Teve até um dia que tentou me explicar o que era aqueles tais bitcoins, e embora eu sinceramente não tenha prestado muito atenção, agora esses seus conhecimentos serão muito uteis.
– Wow, quanta informação. E confesso que estou um pouco ofendida de você ter tido não prestar atenção na minha explicação.
– Isso tudo é chato para mim, não posso fazer nada. Enfim, você sabe hackear computadores?
– Ah, eu... – Aileen parecia um pouco envergonhada – Não que eu faça isso com frequência... Na verdade só fiz uma vez e... O que está olhando? Tá, fiz mais de uma, mas foi por que era realmente preciso. Tinha uma garoa no 8° ano que vivia caçoando dos óculos que eu usava na época, eu vi a oportunidade e me vinguei. Teve também aquela vez que eu...
– Ok, deixa essas suas historias de vingança para depois. – Lucy acenou com a mão e estendeu a aparelho preto a namorada – O assunto que temos é um pouco urgente. Preciso que entre nesse notebook.
– E por quê?
– Quer a versão resumida? Kaitlyn Blake nos filmou lá no The Hoax e pretende nos expor amanhã para todo mundo na escola.
Aileen ficou alguns segundos sem saber o que dizer, assustada. Kailtyn não era a vizinha super simpática de Lucy? Quando finalmente se recompôs, disse:
– E porque acha que hackear o notebook dela vai servir de algo?
– Porque quando estávamos fazendo um trabalho juntas, ela ficou apavorada quando fui pegá-lo, como se tivesse algo aqui que em hipótese alguma eu pudesse ver.
– Sim, mas pode não ser nada tão grave. Vai ver aí só tem algumas fotos horríveis dela ou pornografia, sei lá.
– Não custa nada verificar. Eu tenho que usar o que estiver ao me alcance, Aileen. Ninguém pode ficar sabendo de mim, de nós. Eu não estou pronta. Não agora.
A morena suspirou, convencida. Entendia como Lucy estava se sentindo. Também não queria ser arrancada do armário a força daquele jeito.
– Preciso de outro computador. – Disse, e Lucy indicou o da escrivaninha. Aileen se sentou na cadeira em frente a ele.
– Você consegue, não é? – Disse a loira perto do ombro dela.
– Mas é claro. Isso é muito fácil. Se fosse um computador de uma empresa ou órgão do governo, a história seria outra. Mas é só o de um usuário comum, então só preciso rodar aqui um programa portável que mantenho numa conta de um serviço de nuvem e voilá. Nem preciso instalar nada no seu notebook ou no dela.
– Como isso é possível?
– Quer mesmo saber? Achei que essas coisas te entediavam... Mas ok. O que vou fazer é basicamente enviar um comando falso para o notebook dela, como se ela mesmo estivesse logando. Eu vou induzir o sistema a pensar que o usuário está executando essa ação, quando na verdade ele mesmo está fazendo isso sozinho.
– Impressionante.
– Obrigada – Agradeceu enquanto digitava freneticamente. Estava no meio do caminho. – Eu mesma escrevi esse algoritmo, sabia? Chamo de Scregg. Nem me pergunte de onde tirei o nome, foi bem aleatório... Só mais um segundo e pronto! Entramos.
– Ótimo. Agora procure por qualquer coisa que possamos usar contra ela...
– Sério? Isso pode demorar. Sem contar que como vamos saber o que procurar?
– Procurando. Faça uma varredura completa. Tem que ter algo aí...
– Ok. – Começou a vasculhar pasta por pasta do computador. Havia milhares de musicas, fotos de Kaitlyn e papeis de parede, em sua maioria de animais fofos.
A procura parecia estar sendo em vão. Lucy começava a se convencer de que talvez devesse aceitar logo que estava tudo perdido. Não havia nada que pudesse usar contra Kaitlyn. Mas então, ao abrir uma pasta chamada “Eph&Me”, se depararam com varias fotos, a grande maioria de cunho sexual, de Kailtyn com um garoto alto e de cabelo loiro platina, assim como o dela, aparentemente mais velho.
– Você tinha razão, tem algo aqui sim...
– E é bem melhor do que eu esperava... – Lucy estava radiante de alegria – Não vai acreditar quem é o garoto das fotos...
– Quem?
– Irmão dela, Ephraim Blake. Eu vi as fotos dele na sala dos Blake.
Aileen olhou das fotos para Lucy, abismada. Sua boca aberta em um “O”. Não podia acreditar no que acabara de ouvir.
– Está me dizendo que esse garoto que aparece com ela em poses e situações comprometedoras é irmão dela? Tipo, incesto bem na nossa cara?
– Sim... Não é fantástico? Isso é bem melhor do que eu esperava. Se existe mesmo um deus no céu, ele é o fã numero um de Lucy Gylehart. – Riu alto – Olha, parece que tem até vídeo dos dois juntos brincando.
– Isso é... Uau, nem sei o que dizer. Quem diria que aquele estereótipo sobre gente do interior tinha lá seu fundo de verdade...
– Copia isso tudo pro meu notebook. – Lucy disse a abraçou Aileen por trás, deixando um beijo estalado em sua bochecha – Parece que não vai ser tão logo que vão me derrubar.
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Kaitlyn chegou em casa com um único desejo: se jogar em sua cama e descansar. Tinha passado o dia inteiro num SPA se cuidando para sua posse triunfal, amanhã tinha que estar mais maravilhosa do que nunca.
Assim que abriu a porta, se deparou com Lucy Gylehart sentada na cadeira giratória perto de sua escrivaninha. Ao vê-la, a loira abriu um sorriso radiante:
– Olá, vizinha! – Disse com simpatia exagerada. Kaitlyn estranhou.
– O que faz aqui sorrindo feito uma idiota? Não veio me convencer a mudar de ideia, veio? Porque embora eu vá adorar te ver implorando, já aviso que nada me fará desistir...
– Oh, estou bem ciente disso... – Se levantou da cadeira e foi até a janela do quarto, para olhar para o céu negro estrelado – Mas de qualquer forma você não vai dizer uma palavra sobre mim a ninguém, muito menos soltar o vídeo do The Hoax.
A Blake começou a gargalhar alto. Que merda a outra estava falando? Acaso estava ficando doída?
– E o que te faz pensar assim mesmo?
Lucy se virou de frente para ela, pegou o celular e mostrou a imagem para Kaitlyn. Era ela e um garoto deitados juntos, seminus. A garota empalideceu no mesmo instante.
– C-como...Como você conseguiu isso? – Balbuciou incrédula.
– Sendo bem mais esperta que você. Agora quero que me escute com atenção: a não ser que queira que sua mãe e toda cidade saibam de seu casinho tórrido com seu próprio irmão, você vai deletar aquele vídeo e ficar de bico caldo sobre mim e Aileen. Sim, parte da sociedade condena a homossexualidade, mas ainda há muitos que sabem que não tem nada demais nela. Agora incesto... Duvido que ache alguém que não vá te dizer que você é uma doente mental ou algo bem parecido. Eu vou guardar seu segredinho sujo, contanto que guarde o meu, ok?
Tudo que Kaitlyn pode fazer foi acenar com a cabeça, incapaz de formular alguma frase.Tentara jogar com Lucy, e quando achava já ter ganho, o jogo deu uma reviravolta inimaginável.
– Ótimo. Fico feliz em saber que vai cooperar. Ficamos combinadas então. Se meu segredo vazar, e eu sonhar que foi por sua culpa... Todo mundo vai conhecer sua paixonite secreta. Tenha uma boa noite, até amanhã na escola... E ah, fique de aviso que não é mais bem vinda na minha mesa. Você e a Natalie. Vi os emails que trocou com ela planejando formar essa aliança estúpida contra mim. Forme um grupo de perdedores junto com aqueles outros fracassados.
E então,ao terminar de dizer isso, saiu caminhando vitoriosa para fora daquele lugar.
Tinha vencido, virado o jogo. Agora, Kailtyn Blake ficaria sabendo de uma vez por todas quem era Lucy Gylehart, e não ousaria mais desafiá-la.
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Na manhã seguinte, no Hainefield High, Kaitlyn não chegou com Tyler e Lucy, como era de costume, e não se sentou com ela no almoço, assim como Natalie também. Hanna a Tyler ficaram curiosos com o fato, e perguntaram o motivo a Lucy, que só se dignou a dizer que a Blake e a Vaughan havia se tornado amigas e preferiram ter a própria turma. Os dois deram de ombros, embora não estivessem lá muito convencidos com a explicação. A Gylehart então trocou um olhar cúmplice com Aileen.
Tudo estava bem, na mais completa normalidade.
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