Spirit
2 Eu mesma
Notas iniciais
Pisquei algumas vezes antes de abrir os olhos completamente, a claridade não ajudou muito. Tentei mexer meu corpo, mas a dor me impediu. Absolutamente tudo doía, eu nem sabia que isso era possível. Engoli em seco com medo até de respirar, pode me chamar do que quiser, mas eu nunca mais quero sentir toda aquela dor. Mas passando por cima de tudo isso eu respirei fundo e me aliviei ao descobrir que podia fazer isso sem dificuldades, no entanto, eu tinha que fazer mais. Preciso saber se ainda posso me mexer, né?
— Vai com calma.
Senti duas mãos agarrarem meus braços com gentileza e me ajudarem a levantar. Imediatamente me afastei ao encontrar dois olhos azuis enormes me encarando, olhos que eu pensei que jamais encontraria novamente.
— Sonya Karp?
Ela esboçou um sorriso doce e compreensivo enquanto se afastava. Eu não conseguia acreditar. Aquela é mesmo Sonya Karp?! Minha ex-professora que decidiu virar Strigoi por medo de enlouquecer? Não, não e não!
— Isso é um sonho — conclui de olhos arregalados.
Claro! Só podia ser um sonho!
— Tem certeza? — ela questionou franzindo o cenho.
Olhei em volta. Estávamos em um quarto de hospital, havia algumas agulhas enfiadas em mim e minhas roupas ensanguentadas estavam jogadas em uma poltrona perto da cama. Mas eu não sentia mais dor. Nenhuma dor. Voltei a fitar Sonya, dessa vez muito mais confusa. Ela usava roupas largas e deslocadas, como quando era minha professora em St. Vladimir e com certeza não era uma Strigoi. Permaneci de olhos fechados durante alguns segundos e respirei fundo várias vezes. Okay. Okay. Isso é um sonho, não sei de quem ou porque estou sonhando com uma Strigoi, mas ainda é um sonho.
Depois de um tempo finalmente sentei e confirmei que estava mesmo sem dores, e sem qualquer marca na barriga mostrando que tinham enfiado uma estaca ali.
— Não sei se vai adiantar perguntar — comecei tentando controlar minha irritação — Mas pode me explicar o que está acontecendo?
— Você está sonhando.
Eu a encarei com falsa surpresa:
— É mesmo? Eu nem tinha percebido! Espera. Isso não foi o que acabei de falar pra você?
Sony sorriu, aproximou-se alguns passos e completou:
— Um sonho consciente.
— Não posso estar tendo um sonho consciente com você, é uma Strigoi! Não pode usar o espirito se não tem poder, nem pode dormir!
— Eu não disse que sou responsável por isso.
Paralisei. O que ela estava querendo dizer com aquilo? Se não foi ela, então quem?
Então as palavras de Adrian surgiram na minha mente. Muita coisa vai mudar na sua vida agora, isso está alterando o seu espirito.
— Você não tá dizendo que eu criei esse sonho, né? — desacreditei.
— É exatamente o que eu disse — Sonya afirmou.
Revirei os olhos e empurrei minhas pernas para fora da cama. Quero sair daqui agora.
— Tudo bem, já chega. Isso é loucura.
— O que é loucura?
Eu me virei para fita-la e praticamente gritei:
— Ainda pergunta? Primeiro o Adrian com aquelas palavras estranhas e agora estou sonhando com uma Strigoi! É oficial, eu estou louca. Preciso de ajuda antes que eu comece a ter sonhos eróticos com o Christian.
— Rose.
Eu a ignorei e tentei abrir a única porta do quarto.
— Se eu tiver sorte, estou em coma. É isso. Janine com certeza jogou algo em mim naquele surto de raiva e me deixou em coma. Só pode ser isso. Muito obrigada mãe!
Qual era o problema daquela porta? Por que a maçaneta não se mexia?
— Rose!
— Por que essa porcaria não abre?
— Porque eu não quero que abra.
Ah não. Não pode ser. Essa voz de novo não. Lentamente me virei para encará-lo e o encontrei ao lado de Sonya, parecia não enxerga-la assim como aconteceu com Adrian, mas não consegui ignorar o mesmo olhar assassino e a estaca em sua mão. Minha estaca. Estremeci.
— Dimitri.
— Vejo que o cenário mudou — comentou suavemente olhando em volta.
— Ele é uma ilusão, Rose — interviu Sonya extremamente séria — Uma ilusão da sua mente. Uma personificação da escuridão do seu espírito.
— Sentiu minha falta? — Dimitri questionou analisando a estaca com um interesse fingido.
— Ele só parece quando seu descontrole prevalece — Sony continuou sem se mexer — Precisa aprender a se controlar. Preciso que me encontre e me transforme, devolva a minha vida e ajudarei você. Não posso fazer nada como Strigoi.
— Fala alguma coisa, Roza — Dimitri se aproximou — Eu gosto do som da sua voz...
Estremeci e recuei até bater na parede. Como eu queria acordar agora. Como eu queria que aquele Dimitri pelo menos fosse um Strigoi, assim eu não teria medo, saberia que não era real. Que aquele não era o meu Dimitri. Mas aquele homem era idêntico ao homem que eu amo e por mais que eu grite que tudo não passa de um sonho, meu coração diz o contrário. Diz que Dimitri me quer morta.
— Dimitri, não — tentei com a voz trêmula — Por favor, não faz isso.
Mas ele apenas esboçou mais um daqueles sorrisos gélidos, exatamente igual a quando era Strigoi.
— Dimitri não vai te machucar — Sonya anunciou elevando a voz — Ele nunca te machucará, Rose. É em seu espírito que está o perigo. Está fazendo isso com você mesma.
Dimitri avançou com a estaca firme em sua mão.
— Dimitri, não faz isso!
— É a sua escuridão, Rose! — ela exclamou — Lute contra a sua escuridão! Acorde!
Agora ele estava perto o suficiente para perfurar qualquer parte do meu corpo e eu simplesmente não conseguia me mover. Não conseguia pensar!
— Rose, acorde!
Levantei abruptamente e percebi que estava gritando, a dor invadiu meu corpo com violência fazendo cada centímetro latejar como se estiver sendo queimado.
— Rose, calma!
Senti mãos nem tão gentis me empurrarem de volta para a cama. Voltei a deitar, mas tentei me desvencilhar de todas as mãos que me cercavam. Por que me seguravam? Por que não me deixavam em paz? Eu só quero ficar sozinha!
— Saiam de perto de mim!
Trinquei o maxilar para esconder a dor que estava sentindo por causa dos movimentos bruscos e esperneei, minha visão estava meio embaçada, mas eu tive certeza de que acabei de chutar um enfermeiro.
— Roza, Roza. Sou eu. Dimitri.
Senti mãos quentes aconchegarem meu rosto e finalmente consegui minha visão de volta. Os enfermeiros me encaravam assustados, assim como a médica que estava ao lado de Dimitri. Dimitri. Os olhos dele estavam arregalados de preocupação e medo.
— Vou aplicar o sedativo — uma voz desconhecida anunciou.
De repente eu lembrei. Dimitri tinha enfiado uma estaca em mim mesmo não sendo Strigoi. Ele me machucou. Tentou me matar.
— Fiquem longe de mim!
Com o máximo de força que consegui o empurrei para longe e ele acabou levando a médica junto. Ele me olhou assustado, mas não me importei. Ainda lembrava do sangue, das mortes, da dor, do olhar dele antes de enfiar a estaca em mim, então depois... depois Sonya. Sonya me disse algo. Mas eu não conseguia lembrar. O que era tão importante?
A movimentação de um dos enfermeiros me fez recuar e me forcei a levantar da cama, tornando-a a barreira que nos separava. Não conseguia fitar nenhum deles, apenas enxergava o sangue, o susto e as seringas em suas mãos. Dimitri tentou se aproximar, mas eu levantei a mão o impedindo. Ele não me machucaria de novo.
— Roza, por favor...
— Não me chame assim! — gritei enfurecida — Fique longe! Você tentou me matar!
Os olhos dele se arregalaram de pavor e ele negou freneticamente.
— Não, não! Eu jamais faria isso!
— Cala a boca!
— Precisamos sedá-la.
— Nem pensem nisso! — exclamei com a voz rouca, recuando — Eu não quero dormir de novo. Se me sedarem eu garanto que vou fugir assim que acordar!
Então notei que o olhar de alguns deles se intercalavam entre eu e algo que estava atrás de mim. Dimitri era o único que mantinha os olhos aterrorizados grudados em mim. Curiosa e temerosa quanto ao que ia encontrar, virei e encontrei um par de olhos verde-jade me encarando com medo.
— Lissa! — exclamei me afastando abruptamente.
A cena de Lissa sendo uma Strigoi, segurando o filho morto nos braços e me acusando voltaram a minha mente, rapidamente meu rosto ficou molhado com as lágrimas e recuei abruptamente. Eu tinha que ficar longe dela. Eu tinha que manter distância.
— Lissa, não!
Mas ela não me ouviu e agarrou meu braço com firmeza, puxando-me para um abraço. Imediatamente senti meu coração se acalmar e minha mente clarear. Aquela era Lissa, minha protegida, minha melhor amiga. Eu nunca a machucaria. Respirei fundo me lembrando das cenas horríveis dela como uma Strigoi e desabei em seus braços sem medo.
— Não deixa eles me sedarem — pedi entre lagrimas — Por favor.
Lissa assentiu e lançou um olhar significativo para todos, eu compreendi que ela atenderia meu pedido. Então ela sorriu docemente e me arrastou de volta para a cama, onde me forçou a deitar.
— Precisa descansar Rose.
— Eu não quero dormir — insisti com dificuldade por causa da dor.
— Mas precisa — Lissa insistiu ainda sorrindo — Não se preocupa, eu vou ficar com você.
— Mas princesa — interviu alguém que eu não conhecia.
— Eu ficarei com ela — Lissa disse com mais firmeza.
Minha cabeça latejava de dor, mas eu me recusava a dormir. Respirei fundo umas três vezes antes de voltar a encarar Lissa e Dimitri. Eu ainda respirava com dificuldade, mas estava atenta aos olhares preocupados e temerosos deles.
— Eu mesma enfiei uma estaca em mim, não é?
Eles se entreolharam em silencio até Lissa decidir responder:
— Sim, Rose. Não sabemos o motivo...
Mas é claro que eles queriam saber, os olhares perguntavam por eles. Perguntavam por que eu tinha me machucado daquela forma.
— Nem me olhem assim, eu não tenho ideia do que aconteceu. Eu pensei...
— Pensou que eu tinha feito aquilo — completou Dimitri com a voz rouca.
Sim, eu tinha pensado isso mesmo e ainda não tinha certeza se o considerava culpado por algo ou não. Eu estou confusa. Mas com certeza não quero aquele olhar culpado no rosto dele.
— Acho que você não me machucaria — eu disse incerta.
Eu queria confortá-lo, mas por algum motivo isso estava sendo mais difícil que o normal. E Dimitri percebeu isso.
— Sabe que Dimitri nunca te machucaria — Lissa garantiu tentando sorrir.
— Não fisicamente — eu rebati em tom magoado, lançando um olhar acusador para Dimitri.
Qual é? Eu não tinha esquecido de nenhuma das duras e frias palavras que ele tinha jogado na minha cara.
— Afinal, o que está fazendo aqui? — questionei a Dimitri secamente.
Ele ficou tenso de repente e tentou sustentar um olhar duro, sem sucesso. E eu quase sorri com isso.
— Eu só queria saber o que tinha acontecido — respondeu vagamente.
Grande mentiroso. Por que não admitia que estava preocupado?
— Já percebi que você não vai ajudar muito — ele disse de repente — Eu vou deixar vocês duas sozinhas.
E saiu do quarto sem dizer mais nada. Eu lancei um olhar questionador para Lissa que apenas suspirou:
— Você foi um pouco dura com ele.
Arregalei os olhos. Como é que é?
— Eu fui um pouco dura com ele? Ele me deu um chute na bunda épico! Eu deveria ter pisoteado o coração dele e jogado os restos no fogo.
— Ele terminou tudo com você? — ela questionou franzindo o cenho.
Eu lhe lancei um olhar descrente.
— Eu desisto de você. O amor acaba e o meu acabou — repeti as palavras dele revirando os olhos — Foi o que ele disse antes de começar a me ignorar completamente.
Lissa arfou e começou a ficar rubra de raiva.
— E eu estava o defendendo esse tempo todo!
— Defendendo de quê?
— A Corte ainda está investigando o caso dele, decidindo se ele é perigoso ou não — Lissa respondeu me fazendo revirar os olhos — Conversamos e sugerimos que talvez fosse melhor ele ir morar com a família por um tempo.
— Ir para a Rússia? — perguntei surpresa — Ele acabou de chegar de lá!
— Eu sei, eu sei. Ele foi contar tudo a eles, explicar.
Procurei por ar. Dimitri tinha me magoado bastante, destruído meu coração e meus sentimentos, mas eu o queria longe? Eu aguentaria ficar longe?
— Rose eu sei que você ainda o ama — Lissa anunciou recebendo minha total atenção — Mas não acha que já sofreu demais por ele? Que tem problemas maiores agora?
— Problemas maiores?
— Não sabemos o que aconteceu com você. O que te fez agir assim...
Ela não queria dizer em voz alta, mas eu sabia, podia sentir a preocupação e o medo virem através da ligação. Lissa estava com medo que eu tentasse algo contra mim mesma de novo e que dessa vez conseguisse.
Mas eu não conseguia sentir medo, só confusão. Eu não entendo o que está acontecendo. Primeiro Adrian, então aquela espécie de visão com Strigoi e sangue, depois eu enfiei uma estaca em mim mesma. Para completar uma Sonya Karp aparentemente viva aparece em um sonho consciente que supostamente eu mesma criei.
É, parece que eu estava fazendo muita coisa sem notar nesses dias.
— Lissa — chamei — Onde está Adrian?
Se eu queria descobrir o que estava acontecendo então tinha que começar por alguém e ninguém melhor do que o cara que começou tudo isso.
Vi um vislumbre de hesitação passar em Lissa. Algo tinha acontecido.
— Onde está Adrian? — repeti com mais urgência.
— Ele sumiu — ela revelou cautelosamente — Logo depois que soltou você. Saiu correndo... e sumiu.
Bufei, lembrando-me das palavras de Adrian: Assim que estiver pronta me procure Rose, eu não estou longe, mas não posso ficar perto e fazer você se matar, ou matar alguém.
Mas como vou saber que estou pronta? Antes de tudo: pronta pra quê? O que estava acontecendo comigo?
Muita coisa vai mudar na sua vida agora. As palavras de Adrian voltaram a rodar na minha cabeça. Você não está mais conseguindo controlar a escuridão do espirito de Lissa e isso está alterando o seu espirito. Significa que agora você vai ter o próprio dom... e a própria escuridão.
Mas como eu poderia ter o meu próprio dom? Eu sou uma Dhampir! Apenas Moroi podem ter dons, Dhampirs perdiam esse direito por serem metade humanos. Então por que Adrian disse tudo aquilo? Por que disse coisas sobre escuridão, espirito e despertar quando nada disso era possível no mundo de Rose Hathaway? Ele disse que eu teria ajuda, mas ajuda de quem?
— Rose, tudo bem? — perguntou Lissa.
Então algo clareou na minha mente. Sonya disse algo em meu sonho, antes de Dimitri aparecer, antes de acordar.
Precisa aprender a se controlar. Preciso que me encontre e me transforme, devolva a minha vida e ajudarei você. Não posso fazer nada como Strigoi.
Era isso. Minha única chance de entender o que está acontecendo. Não sei se realmente era um sonho consciente com uma Strigoi, mas eu tenho que tentar, tenho que descobrir.
— Rose?
Eu a fitei tentando soar normal.
— Estou bem. Só pensando nos trágicos eventos da minha vida.
Lissa crispou os lábios e se afastou:
— Tente não pensar muito nisso e descanse. Eu vou buscar comida de verdade pra você.
Eu sorri em agradecimento e assim que ela fechou a porta eu fechei os olhos, respirando fundo. Provavelmente era loucura, mas eu tinha que encontrar Sonya Karp. Eu consegui trazer um Strigoi de volta à vida uma vez, não seria difícil fazer isso uma segunda vez, não é?
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