Spin-off’s da Série do Imperador do Inferno
1 A Missão de Miguel
Notas iniciais
Azazel foi levado até os Campos Solitários, no território de Lúcifer, que se resumia a uma pradaria com milhares de portas. Não era essencialmente uma prisão, mas Lúcifer nunca tinha visto ninguém sair dali. O Príncipe do Inferno permaneceria ali até uma conversa posterior.
O Imperador mal tinha saído do Coliseu Sangrento quando Miguel o interceptou, acompanhando-o na caminhada.
“Bela luta”
Lúcifer torceu o nariz:
“Eu só fiz ganhar tempo”
Afinal, o plano só daria certo quando, e se, Salazar completasse o ritual com sucesso.
“Você foi bastante ousado, para basear seu plano nas ações de um humano e de um demônio”
Comentou o arcanjo despretensioso. Ao que Lúcifer revirou os olhos.
“Eu só precisava saber o que Asmodeus queria, e o humano estava em dívida comigo; é claro que eu não seria um donzel se um deles resolvesse me trair”
“É claro”
O anjo concordou em tom de quem se divertia.
“E sobre o humano? Ele está livre para partir?”
“Não tenho mais motivos para mantê-lo aqui, a dívida foi quitada”
“Certo”
Miguel concordou.
Lúcifer se virou impaciente para ele:
“Você está aqui até agora só para levá-lo?”
“Se ele assim desejar. Mas não vim por ele”
Franzindo a testa, o Imperador olhou-o, desconfiado.
“Veio aqui por quem então? Se é que devo me preocupar com isso...”
“Vim lhe entregar uma mensagem, caso contrário você não iria nem me notar”
Revelou o arcanjo fazendo Lúcifer arquear as sobrancelhas.
“Bom, então já pode entregá-la. Não sei por que demorou tanto”
“Precisava ter certeza de que você reaveria o Inferno, e que não o entregaria a Azazel para ficar com a jovem Helena...”
“Cuidado para não se crestar...”
Avisou Lúcifer estreitando os olhos, o peito esquentando. Por que diabos o Éden queria se enfiar em todo relacionamento que nutria!?
Miguel levantou as mãos, ele não queria brigar. O arcanjo suspirou:
“Esperamos que a estral da jovem pela qual se interessou seja mantida, ou pelo menos que não seja alterada por sua causa. Me pediram para te entregar este recado”
Ele desviou os olhos depois de repassar a última parte, sério, porém constrangido.
E só por isso o Imperador não o acertou. Forçou um sorriso sarcástico:
“Acham que o anticristo vai surgir na Terra da noite para o dia, é isso?”
“Se ele surgir, o apocalipse vai se aproximar de forma alucinante... Talvez já tenha surgido”
Lúcifer franziu a testa. Mas não tiveram tempo de continuar a conversa, a voz irada de Salazar se fez ouvir às suas costas:
“Minha filha? O que você quer da minha filha, seu demônio!?”
Lúcifer ergueu o queixo, olhando Salazar de cima. Porém, o exorcista não se deixou abalar; encarava-o irado. O Imperador não esperava ver o rosto do homem tão roxo quanto os dedos quando estes estavam sendo apertados pelos anéis.
“Eu a quero, exorcista!”
Lúcifer revelou e observou Salazar começar a tremer à sua frente.
“Você não tem esse direito! Já cobrou minha dívida com você. Não ouse envolvê-la, seu tredo!”
Sentindo uma fisgada de raiva, o imperador observou uma faísca de plasma se soltar da sua pele. Falou quase entredentes:
“Por acaso, esse assunto é entre mim e Helena. Eu nunca vou trair minhas palavras ou os contratos que assumo!”
Salazar deu um passo a frente de punhos cerrados:
“Se você fizer alguma coisa, qualquer coisa, com ela, eu nunca vou desgrudar do seu pé. Vou te atrapalhar de todas as formas possíveis”
Lúcifer se forçou a respirar fundo e abaixou o olhar para encontrar o do exorcista, deu-lhe um sorriso duro:
“Considere-me avisado! Mas saiba, Salazar, que eu nunca vou fazer mal algum a ela”
Os dois ficaram se encarando por longos segundos. Tempo o bastante para muitas informações cruzarem os olhos confusos de Salazar. Por fim, o homem falou boquiaberto:
“Você se apaixonou por ela...”
Salazar pareceu murchar, os olhos arregalados. A cor normal parecia voltar ao seu rosto sujo. Ele balançou a cabeça, descrente:
“Isso não é possível, é? Você não se apaixonou pela minha filha. É claro que não, você é um demônio... Aquele que reina sobre todos os demônios”
Disse desconcertado, tentando entender a maluca conclusão que tinha feito. O tom de voz, a postura, sua fala e seu olhar, tudo em Lúcifer indicava algo a mais, uma seriedade e sinceridade escancarados. Balançou novamente a cabeça e acusou:
“Está tentando me manipular! É o bam-bam-bam nisso por aqui, não é?”
Lúcifer apenas esperou, aprendera que seres humanos entediam o que queriam, não importava o que falasse.
“Não dá para acreditar nisso...”
“Que tal se o Lúcifer provar isso para você: que ele é diferente do que você imagina?”
Miguel perguntou. O arcanjo tinha notado que Lúcifer tinha conseguido se acalmar, era surpreendente. Era hora de passar seu último recado. Salazar questionou cético:
“Como ele poderia fazer isso?”
“E por que eu faria isso?”
Lúcifer inteirou com a sobrancelha franzida. Miguel respondeu:
“Achei que era óbvio para você, afinal é algo natural seu, é da sua essência. Salazar só teria que te observar”
O imperador revirou os olhos. Que poético...
Mas não podia negar que sabia bem aonde Miguel queria chegar. Olhou para longe reflexivo, os poucos capins acinzentados e ciliares que existiam ali pareciam dançar no vento. O tempo estava mudando, talvez...
“Eu não tenho nem ideia de por onde começar”
Admitiu. O acesso a sua origem tinha lhe clareado a mente, porém, agir no Inferno poderia trazer mais problemas do que resultados. Ser um sacrifício estava fora de cogitação. Miguel falou:
“‘Sacrifício’ é um termo que mudou bastante ao longo dos anos, mas minha definição preferida ainda é ‘ofício sagrado’. Não tem nada haver com sangrar ou morrer por um objetivo, e sim trabalhar de forma verdadeira para cumprir seu propósito”
Lúcifer sorriu. Miguel tinha a estranha habilidade de descobrir o que ele pensava, aquilo era útil e desconfortável.
“Então vou ficar de olho”
Salazar decidiu, a determinação voltando aos seus olhos.
Lúcifer suspirou, rendido.
“Que assim seja! Por onde eu devo começar?”
Miguel sorriu:
“Do começo”
Ah, jura?! Lúcifer encarou-o.
"O que exatamente ele vai fazer?"
Salazar perguntou a Miguel.
"Fazer a luz na escuridão"
Fale com o autor