Spin-off Feelings

1 Dois Lados Da Mesma Moeda


Notas iniciais
Leiam agora um capítulo que se passa num passado bem distante. Numa época muito anterior ao início da Feelings. Um capítulo esclarecedor.

– Calma, Alteza. Não fique assim, por favor – pediu Marthe.

– É isso que ele quer, Alteza. Quer deixá-la arrasada. Não dê a ele essa satisfação – disse Arya.

– D-desculpem-me. Mas eu não posso evitar. Quando penso no que ele fez... – solucei.

– Shh, não pense em nada, Alteza.

Escondi o rosto nas mãos, e as duas criadas me abraçaram. Levantei-me pouco depois e peguei os pedaços de papel rasgado espalhados pelo chão. Quase podia ouvi-lo sussurrar no meu ouvido aquelas palavras.

"Querida Brunne, vamos fugir. Só você e eu, juntos para todo o sempre. Eu não quero ser rei se você não for minha rainha. Vamos fugir. Hoje, ao pôr-do-sol, no jardim. Para sempre seu, Klaudius.”

Agora, suas palavras não passavam de uma doce lembrança, perdidas para sempre naquele amontoado de papel rasgado. É claro que eu não fugiria, não quando tenho um filho para criar. Eu amava Klaudius, mas amava mais o meu filho. Sequei uma lágrima que insistia em querer cair. À que ponto eu tinha chegado? Eu era uma dama, uma princesa, não uma qualquer. Não nascera para ser amante de príncipe nenhum, muito menos quando ele é irmão do meu marido. Mas o destino prega peças, e eu fui me apaixonar justo por quem não deveria.

Caminhei até o espelho e observei a marca vermelha no meu rosto. Não está tão ruim assim, pensei. Momentos depois, alguém bateu na porta do quarto, e Marthe correu para abri-la.

– Desculpe – disse a babá. – Mas ele não para de chorar, acho que quer a mãe.

– Claro, claro. Dê-me ele aqui – disse eu.

Freyr também precisava de mim. Precisava porque ele não saberia cuidar do filho sozinho. Embalei Gardar no colo por alguns minutos, até que ele caiu no sono. Não, eu nunca fugiria se tivesse que deixá-lo para trás.

O tempo passou – talvez uma hora ou duas – e Freyr enfim retornou.

– Vocês duas, saiam agora – ordenou ele para Marthe e Arya.

Elas olharam para mim e eu balancei a cabeça, concordando. Arya pegou Gardar com cuidado e saiu do quarto com pressa.

– O que você quer? Veio tripudiar? – perguntei, sem olhá-lo nos olhos.

– Não me desafie, mulher. Eu matei o seu amante e posso muito bem matar você. – Ele segurou meu rosto com força, obrigando-me a encará-lo. – Ou pelo menos cortar sua língua, já que ela parece um pouco grande demais.

– Ele era seu irmão – respondi, enquanto me desvencilhava dele.

– Irmão que é irmão não dorme com a mulher do outro.

– Eu não dormi com ele.

– Ah, além de vadia é mentirosa? – perguntou, sorrindo sinistramente.

– Eu não sou nenhuma das duas coisas, seu...

– Seu o quê? Não seja burra de completar essa frase.

– Assassino! – gritei.

– Cale a sua boca – respondeu, dando-me outro tapa no rosto. – Você não vai contar nada pra ninguém, ouviu bem? E é bom se controlar no enterro.

Concordei com a cabeça, voltando a chorar.

– Você vai se acostumar. E vai aprender a ser a esposa e rainha que eu quero que seja. A propósito, limpe isso aqui. – Ele atirou na minha frente sua espada ensanguentada e saiu sem dizer mais nada.

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28 anos depois...

– Eu acho que deveríamos construir uma escola aqui... – sugeri.

– Outra? Pra quê? Já temos tantas... Melhor um posto militar – retorquiu Freyr.

Eu ia contestar quando Triwar e Yran adentraram a sala correndo.

– Rapazes, eu achei que tinha dito para que não nos interrompessem enquanto estivéssemos em reunião! – bradou Freyr, irritado.

– Desculpe, pai, mas é uma emergência! – disse Triwar, nervoso.

– O que pode ser tão importante?!

– Hans caiu do cavalo! Acho que quebrou uma perna! – respondeu Yran.

– Tinha que ser. Não presta nem pra cavalgar... – resmungou Freyr, fazendo pouco caso.

– Caiu do cavalo? É muito sério? Onde ele está? – perguntei, preocupada.

– Sim, ele caiu do nada e começou a gritar de dor. Tentamos colocá-lo de pé, mas ele não conseguiu. Henktris e Kelsig estão trazendo-o para o castelo.

Pus-me de pé imediatamente e acompanhei Triwar e Yran até o quarto de Hans. Já podia ouvi-lo gritando antes de começar a subir as escadas.

– Fique calmo, príncipe Hans. O médico já está a caminho – disse Jorunn, tentando tranquilizá-lo.

– Mas dói muito! Ai! Será que vão ter que amputar?! – perguntou Hans, desesperado.

– Besteira. Eu mesmo já quebrei a perna uma vez. Quer ouvir a história?

– Qualquer coisa que me distraia desta maldita dor!

Aproximei-me da cama enquanto o Duque contava como tinha quebrado a perna. Passei a mão na cabeça de Hans e afastei alguns fios rebeldes.

– Não se preocupe, pequeno. Não vou deixar que amputem sua perna – afirmei.

– Jura? – perguntou Hans.

– Claro. Você vai ficar bom logo, filho.

Olhei ao redor e contei quantos dos garotos estavam ali. Dez. Onde está Gardar?, perguntei-me.

– Yran, fique aqui com o Hans. Eu volto logo.

Yran assentiu e eu saí do quarto, começando a procurar Gardar. Encontrei-o por fim na biblioteca, trabalhando normalmente.

– O que está fazendo aqui? – indaguei.

– Trabalhando, é claro – respondeu ele sem me olhar.

– Seu irmão acaba de sofrer um acidente e você nem vai ver como ele está?

– Hum... Não. Eu tenho outros irmãos, não tenho? Mais um, menos um... Não faz diferença.

Balancei a cabeça com desaprovação.

– Você está agindo igual ao seu pai.

– É mesmo? Que inesperado – respondeu com ironia.

– Eu só tenho um aviso pra você, Gardar: Deixe o seu irmão em paz, ou pode arrumar suas coisas e ir embora deste castelo.

– A senhora está me expulsando?

– Por enquanto não, mas se você insistir nessa perseguição vou te botar pra fora sem nenhum remorso.

Virei-me de costas para ir embora, mas Gardar disse, em tom baixo e controlado, como se comprimisse a raiva:

– Você sempre gostou mais dele, não é?

– Não, Gardar. Eu amo todos vocês da mesma forma. Mas eu sou justa, também. E certas coisas que você faz merecem punições. Já está na hora de você entender isso. Não vou deixar você ficar aqui se estiver em conflito com um dos seus irmãos. Por isso, é melhor se comportar. Você me entendeu?

Ele não respondeu, então eu insisti:

– Você me entendeu?

– Sim, mãe.

– É bom, mesmo.

Saí da sala e voltei para o quarto de Hans, pensando, tentando me lembrar de algum momento em que eu tenha tomado o caminho errado. Logo após a morte de Klaudius, eu me fechei definitivamente. Cores quentes não faziam mais parte do meu vestuário. Tulipas, as flores que Klaudius costumava me dar, não entravam no castelo. Meu cabelo solto, enfeitado com presilhas ou flores, tornou-se um coque sobre o qual pesava a coroa. Qualquer tipo de música foi banida.Não, não completamente, pensei, lembrando que Triwar, Magnor e Hans tiveram algumas aulas de piano, mas apenas porque praticamente imploraram. As pessoas diziam que eu era fria, insensível, até cruel, mas na verdade eu era apenas uma mulher que sofreu muito. Eu podia ser dura, mas não era nenhuma bruxa. Meus filhos sempre tiveram do bom e do melhor, foram rigidamente educados. Talvez no início eu não tenha aceitado muito bem o fato de não ter tido nenhuma filha, mas não culpava meus filhos por isso. Talvez com o tempo eu tenha me esquecido de que eles eram apenas crianças e precisavam de amor e carinho, e sido mais rainha do que mãe, mas eu era assim tão ruim? Não, eu tinha acabado de visitar Hans, não tinha? Eu podia ter simplesmente o ignorado e seguido trabalhando, como Freyr fizera. Imediatamente me amaldiçoei por ter me comparado a ele. Ignorar não era uma opção. Eu não era como ele, nunca seria.

Cheguei ao quarto de Hans novamente, e ainda não conseguia pensar num motivo decente para Gardar agir do modo como agia. Ele tinha algum motivo, afinal? Justo ele, que era o primogênito, destinado a ser rei? Nenhum dos outros jamais reclamou. Parei um instante para observar os cinco quartos dispostos no imenso corredor. Agora que Wilheim partira, sobrava um espaço no quarto que ele dividia com Patrick e Magnor, e eu vinha pensando em mudar Hans para este quarto, mas os dois não acharam boa ideia. Enfim, Hans acabara se acostumando após tanto tempo sozinho. E isso me fez pensar mais uma vez que eu havia errado na educação dos meus filhos em algum momento. Mas onde foi que eu errei?

Notas finais
* No início do capítulo a Rainha tinha 18 anos, e Gardar tinha apenas 2. Na segunda parte, ela tinha 46, Gardar tinha 30 e Hans tinha 10. Eu sinto falta da Rainha Brunnehilde... Ela era uma boa pessoa. Então, será que esse capítulo ajudou a esclarecer um pouco o passado? Deixei algumas coisas no ar para vocês mesmos imaginarem. Bem, espero que tenham gostado, bjs, comentem e nos vemos no próximo capítulo! Eu sinto falta da Rainha Brunnehilde... Ela era uma boa pessoa. Então, será que esse capítulo ajudou a esclarecer um pouco o passado? Deixei algumas coisas no ar para vocês mesmos imaginarem. Bem, espero que tenham gostado, bjs, comentem e nos vemos no próximo capítulo!