Notas iniciais
Espero que gostem.
Beijos.

Speranza

E da flor nasceu a esperança.

Ela andava com seus pés descalços sobre a areia fina e morna daquela tarde, sentindo a maciez tão característica daquele chão. O sol despontava no céu brilhando intensamente, iluminando docemente todos aqueles que pelo astro rei era acolhido. A ruiva sentiu os raios solares esquentarem sua pele desprovida de qualquer proteção no rosto, braços e pernas. Seus cabelos longos e lisos se deixavam levar pelo vento dançando sobre os movimentos ditados por ele. Os orbes esmeralda fitavam calmamente o horizonte, procurando em vão o reflexo de certo alguém por um simples momento, fosse no céu ou na água do mar. Miraram úmidos o encontro do mar ao céu bem longe, criando a tão familiar linha do horizonte.

Não era mais uma adolescente e sim uma adulta. Seus cabelos, que antes um pouco curtos, brilhavam sob os raios de sol e chegavam até o seu quadril sem muito esforço. Sua altura crescera um pouco também, assim como suas curvas haviam ganhado mais contornos arredondados, dando-lhe um belo corpo de mulher. Os traços em seu rosto ainda eram jovens, mas de uma juventude há um tempo vivida e não iniciada. A roupa que usava era um novo uniforme da Ordem Negra, azul marinho com detalhes roxos e dourados. Usava uma saia curta e ondulada junto a uma blusa típica dos uniformes de manga comprida e justa ao corpo, deixando seus atributos muito mais amostra. Nas pernas, longas meias 7/8 negras eram colocadas, assim como suas sapatilhas de boneca.

Seus olhos se fecharam lentamente, desejando conter a agonia sentida por seu coração ao longo dos anos. O ruivo estava desaparecido há cinco anos e ninguém sabia ao certo o seu paradeiro e o que havia acontecido com Bookman e Lavi. Mas ela prometera não se prender mais ao irmão, não após o desaparecimento e a falta de noticias. A ida dele lhe causara tanta dor que superava em centenas o que ela sentira quando fora abandonada aos 5 anos naquela vila. Não. Tinha que se livrar daquela terrível sensação de abandono. E então ela decidira. Decidira não se prender a ele, não mais.

Abriu os lábios para entoar uma canção, porém esta ficara guardada em sua garganta ao escutar a voz tão carinhosa e feminina da amiga gritar seu nome. Virou-se calmamente e surpreendeu-se ao ver a figura albina ao lado da morena. Allen voltara. Após dois longos anos longe, em uma missão na América, ele estava de volta.

Os cabelos brancos estavam maiores e presos em um rabo de cavalo baixo. Suas franjas se encontravam levemente curtas da ultima vez que ela o vira e seu corpo estava muito mais trabalhado. Sua estatura parecia ter aumentado também ao longo daqueles anos e seus olhos continuavam tão puros e gentis quanto quando ela o conhecera. Allen finalmente estava em casa outra vez.

Não perdeu tempo para pensar, apenas agiu. Correu pela areia morna, sentindo os pés afundarem a cada pisada, mostrando-se animada em direção ao rapaz mais alto. Ao chegar próxima do outro pulou sobre ele, o abraçando com força e o derrubando no chão, melando ambas as roupas de areia. Afundou o rosto no peitoral másculo do outro, rindo alegre feito criança. Seu nanico estava de volta, pelo menos ele voltara para ela.

“Allen!”, se apertou mais contra ele.

“Hahaha, estou de volta Hika!”, ele ria levemente corado e feliz pela alegria da outra.

“Nah, também quero um abraço caloroso desse!”, Ayami fez bico, mas logo sorriu brincalhona.

“Então vem cá, morena!”, a ruiva a puxou pelo pulso a fazendo cair sobre o rapaz também. “ABRAÇO DE URSO!”, gritou divertida, envolvendo os dois com força e carinho.

“Ai, Hikaru! A areia, cuidado!”, Allen comentou fechando olhos para que a areia não entrasse em seus olhos.

“Ai, ai! Essa Hikka!”, Aya sorriu fazendo o rapaz e a ruiva a fitarem por um tempo. “Hey, o que foi?”, sentiu a face corar ao ser recebida por aqueles olhares.

“É que é muito estranho imaginar o Kanda com um sorriso desse.”, o albino respondeu sincero.

“Na verdade, chega a ser bizarro.”, Hikaru parou, olhando para cima e tentando imaginar. Arrepiou-se temerosa e se benzeu. “Credo.”

“Ah... Heh...”, abaixou o olhar sem graça.

Ayami era irmã gêmea do exorcista Yuu Kanda, espadachim da Ordem. Nasceram do mesmo experimento, mas por ter sido a primeira e já apresentar complicações, foi obrigada a ir diretamente para a sala de cirurgia e emergência do Centro. Assim acabou não tendo muito contato com o irmão quando mais nova. Só anos mais tarde quando ela retornara a Ordem Negra foi que se encontrara com Kanda pela primeira vez. Não fora um dos maiores e bonitos reencontros como de filmes dramáticos e clichês, mas significativo demais para os dois, entretanto demoraram a se entender por um tempo.

Por mais que fossem irmãos, a distância e o simples reencontro fizera com que o sentimento entre eles evoluísse para algo mais carnal e emocional com o tempo. Poderiam ser intitulados como irmãos, mas um via o outro como um homem e mulher vêem aquele que ama além do amor fraternal.

Era incrível ver a diferença entre um e o outro. Ayami era doce, carinhosa e sempre preocupada com os outros, enquanto Kanda era rude, arrogante e facilmente irritável. Era olhando para a relação dos dois que Hikaru admirava a resistência e a postura da amiga. Por mais que o mais alto fosse grosso com a morena, ela apenas sorria de volta para ele, ou aceitava a resposta, mesmo que se machucasse com muitas atitudes do mesmo.

“Então, contem-me as novidades, afinal... Estou há simplesmente dois anos fora!”, pediu se sentando.

“Você foi porque quis!”, Hikaru sentou-se ao lado esquerdo dele fazendo bico.

“Ok, ciumenta.”, riu puxando a bochecha da amiga.

“Enfim, Allen-kun! A Hika e eu só fizemos missões, ficamos com o pessoal do...”

“Vou falar logo! A Aya foi pedida em casamento.”, a ruiva soltou, assoviando lentamente.

“HIKARU!”, a morena gritou vermelha.

“AYAMI-CHAN!”, o albino se virou para ela surpreso. “Quem pediu?!”

“Ahhh... Hm... Foi o...”, abaixou o olhar, ficando um pouco envergonhada em falar aquilo.

“Fala logo, Aya!”, Hikaru ria suave, observando a falta de jeito da amiga.

“Foi o... Ba-Bak-san!”, pressionou os olhos envergonhada.

“Sério?!”, Allen não pode deixar de reclamar, fazendo uma careta.

“E adivinha!”, a ruiva sacudiu o albino, energética. “Ela recusou! Coitadinho... Ficou uma semana na enfermaria todo empolado.”

“Mas não foi culpa minha, quero dizer, não foi de propósito!”, a morena tentava se defender.

“Ayami-chan, isso tudo foi por conta do...”

“Kanda-kun.”, Hikaru respondeu na lata.

“Hikka!”

“Que é? Falo mermo!”, cruzou os braços, virando o rosto.

Allen observava a conversa das duas esboçando uma expressão repleta de carinho, lembrando-se das missões que os três fizeram quando mais novos. Nunca imaginara que ficariam tão amigos a ponto de serem escalados, na maioria das vezes quando todos estavam presentes, para tantas missões. Cada um dos três contava seus problemas, fossem pessoais ou amorosos, e todos os três sempre estariam lá, prontos e de braços abertos para saudar e ajudar uns aos outros. Poderiam ser pessoas diferentes, mas tinham um laço. Um laço inquebrável e duradouro. Um laço criado pela amizade.

Sem perceber um sorriso saudoso brincou em seus lábios, chamando a atenção das duas que pararam de conversar para fitá-lo.

“Nanico, está tudo bem?”

“Estou sim, velha.”, ele respondeu a ruiva risonho.

“Ele só está com saudades da gente, Hikka!”, a morena sorriu para o outro, que apenas assentiu para ela.

“Ainda bem que ele sentiu nossa falta pelo menos.”, deu língua para o albino.

“Pára de reclamar, Hikaru. Já tá parecendo uma velha!”

“Ora seu!”, pulou em cima dele batendo em seu peitoral.

“Oe! Oe! Vocês dois! Parem com...”

Antes que ela se movesse do local onde estava, Ayami não pode deixar de notar a demora que os dois estavam tendo para sair daquela posição. Allen ria divertido, mas seus olhos brilhavam só de se encontrar com os da ruiva, mirando-a por mais de alguns segundos e ela por sua vez corava mais a cada tempo mínimo que passava ao sustentar aquele olhar. A saudade bateu forte no peito de cada um, lembrando-lhes a figura daqueles que desejavam. A falta que sentiam da albina e do ruivo que amavam os deixava vulneráveis. Vulneráveis demais para um com o outro. Finalmente após dois minutos, os dois se afastaram sem que a outra amiga precisasse chamar a atenção.

A jovem ruiva deu um murro no ombro direito do albino que apenas riu do gesto. Mas os sorrisos que brincava nos lábios dos três sumiram em questões de segundos. Riram sem jeito e suspiraram ao mesmo tempo devido as lembranças nada boas que guardavam dentro de si naquele momento.

“Por que eles deixaram a gente?”, a ruiva abaixou o olhar e pressionou os olhos segurando a areia nas mãos, a amassando à medida que a raiva crescia em si.

“Não sei, Hikka.”, Ayami se aproximou da amiga a trazendo para si enquanto lhe acariciava as costas. Uma expressão de dor se formou em seu rosto antes surpreso.

“...”, Allen permaneceu em silêncio, um pouco mais afastado das duas.

O sumiço de Lucy ainda era um mistério para si. Quando fora embarcar naquela viagem aos Estados Unidos ela estava lá, parada em frente ao portal da arca, sorrindo tranqüila embora as lágrimas dançassem em seus olhos. A albina havia prometido que esperaria por ele como sempre ficara esperando pelo mesmo quando este embarcava em alguma missão que ela não poderia ir.

Eles prometeram um ao outro que sempre voltariam, não importasse o que acontecesse, ele voltaria. Allen sempre voltaria para a sua Lucy.

Mas onde ela estava agora que ele havia voltado? Komui não lhe respondia. Hikaru e Ayami não sabiam. Jhonny desconversava. Diabos, o que é que estava acontecendo com todos eles? Onde estava o grupo de Exorcistas que eram tão unidos e que se importavam uns com os outros? Kanda e Lavi também estavam desaparecidos. Há tempos não ouviam quaisquer noticias sobre eles.

O rapaz levantou-se da areia e caminhou em direção a beira do mar, sentindo a brisa marítima lhe acariciar a pele e os cabelos longos. Seus olhos azuis ser perdiam no horizonte que escurecia mais a cada segundo, como o seu coração caia em trevas a cada momento que pensava estar sem ela. Sem sua Lucy. Mordiscou o lábio inferior com força, abrindo um pequeno corte de onde duas gotas de sangue escorreram dando um gosto de ferrugem a sua saliva, mas não pareceu ligar. Na verdade, não estava mais ligando para nada. Ele só a queria de volta. Só a queria em seus braços. Mais uma vez.

Abaixou a cabeça derrotado, tentando ignorar a dor e agonia que sentia em seu peito naquele instante. Talvez se não tivesse demorado tanto, ela ainda estaria ali para ele. Pressionou ambas as mãos com força, tamanha raiva que sentia de si e do destino. O que havia feito de errado?

“Nee, Allen-kun.”, Ayami o chamou tocando em seu ombro com delicadeza. “Não fique assim. Você não fez nada de errado.”, a morena sorriu suave para o amigo albino, já imaginando o que ele estava sentindo.

“A Lucy deve ter tido algum problema ou missão. Nós também já duramos de dois a cinco meses em algumas missões. Poucas, mas em algumas sim, no começo pelo menos.”, Hikaru apareceu ao lado dele olhando para frente.

“Acho que ela também está pensando em você, Allen-kun.”

“É nanico. Pára com isso. A Lucy é louquinha por você e acredito que onde ela estiver, ela está pensando em você e não vendo a hora de voltar para casa e matar as saudades.”, a ruiva sorriu imaginando a pequena.

“É! Ela deve estar irradiando de ansiedade para vê-lo logo!”, Ayami sorriu também, desviando o olhar para o horizonte.

“Não perca a esperança, Allen.”, Hikaru abriu os olhos observando o mar com serenidade. “A Lucy sempre voltará para você, afinal, ela prometeu, não?”

Allen parou e olhou surpreso para as duas por não ter sentido a aproximação delas e principalmente pelas palavras que as duas diziam ao seu lado. Abaixou a cabeça sentindo-se patético por está se culpando. Elas tinham razão, eles dois eram assim sempre. Onde quer que estivessem, estariam pensando um no outro imaginando a hora em que se encontrariam e matariam toda a falta e a saudade que sentiam.

Levou a mão direita a nuca, coçando-a sem jeito. Estava envergonhado por não confiar tanto em si e pior, nela.

“Que vergonha... E vocês ainda me chamam de forte e corajoso.”, riu amargo.

“Não tem por que se envergonhar Allen-kun. Todos nós temos nossos momentos de fraqueza, e é essa fraqueza que ao ser superada nos torna mais fortes.”, a jovem mais baixa olhou para frente, cruzando os braços atrás do corpo.

“Você sempre será conhecido por ser forte e corajoso, Allen. Você sempre vence as barreiras que a vida lhe impõe e ainda anda sorrindo com uma graça contagiante.”, Hikaru piscou para ele, pondo a mão na cintura.

“Arigatou.”, Allen sorriu gentil, enlaçando as duas pela cintura e as puxando para um abraço em conjunto.

“Não tem de quê, Allen-kun!”

“Não tem de quê uma pinóia, garotão! Tá achando que é de graça? Hmm, certo. Mas só porque você é legal vou maneirar para o seu lado.”, a ruiva riu divertida. “Você só tem que ficar mais com a gente agora.”, ela abaixou o olhar tristonha. “Não nos abandone como eles fizeram.”, se soltou dele e se afastou um pouco, rindo sem graça. “Desculpe-me. Não deveria te pedir isso, né? É só que... essa ausência deles nos machuca. E se você for também nos dei...”

“Eu não vou Hika.”, o albino sorriu suave, lhe acariciando os cabelos. “Ou melhor dizendo, baixinha.”, riu de lado, zombeteiro.

“OPA! O NANICO AQUI AINDA É VOCÊ, OUVIU?!”, gritou ficando na ponta dos pés para o olhar nos olhos.

“Bléééh, acho que não, hein?!”

“Hikka, você ficou mais baixa de verdade...”, a morena riu.

“Naah, até você Aaya?!”, se virou indignada para a amiga.

“Oe, vamos indo voltar para a sede?”, Allen perguntou observando o sol se pondo já.

“Haaai~”, as duas gritaram em uníssono e partiram.

Entreolharam-se arteiras, como se soubessem de alguma coisa que o outro não sabia.

Continua...

Notas finais
Não se esqueçam de comentar.
Obrigada por lerem.